De Aldeamento Jesuítico A Periferia Metropolitana: Carapicuíba/sp ...

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Universidade de Brasília
Instituto de Ciências Humanas
Departamento de Geografia
Programa de Pós-Graduação em Geografia
UNIVERSIDADE DE BRASÍLIA
PÓS-GRADUAÇÃO EM GEOGRAFIA
DE ALDEAMENTO JESUÍTICO A PERIFERIA
METROPOLITANA: CARAPICUÍBA/SP COMO
RUGOSIDADE PATRIMONIAL
Rafael Fabricio de Oliveira
Tese de Doutorado
Brasília-DF: Dezembro / 2016
ii Universidade de Brasília
Instituto de Ciências Humanas
Departamento de Geografia
Programa de Pós-Graduação em Geografia
UNIVERSIDADE DE BRASÍLIA
PÓS-GRADUAÇÃO EM GEOGRAFIA
DE ALDEAMENTO JESUÍTICO A PERIFERIA
METROPOLITANA: CARAPICUÍBA/SP COMO
RUGOSIDADE PATRIMONIAL
Rafael Fabricio de Oliveira
Orientador: Prof. Dr. Everaldo Batista da Costa
Brasília-DF: Dezembro / 2016
iii
Universidade de Brasília
Instituto de Ciências Humanas
Departamento de Geografia
Programa de Pós-Graduação em Geografia
UNIVERSIDADE DE BRASÍLIA
PÓS-GRADUAÇÃO EM GEOGRAFIA
DE ALDEAMENTO JESUÍTICO A PERIFERIA
METROPOLITANA: CARAPICUÍBA/SP COMO
RUGOSIDADE PATRIMONIAL
Rafael Fabricio de Oliveira
Tese de Doutorado submetida ao Departamento de Geografia da Universidade de Brasília,
como parte dos requisitos necessários para a obtenção do Grau de Doutor em Geografia, área
de concentração Gestão Ambiental e Territorial, opção Acadêmica.
Aprovado por:
___________________________________
PROF. DR. EVERALDO BATISTA DA COSTA (GEA-UNB)
(Orientador)
_____________________________________
PROFA. DRA. BERNADETE AP. CAPRIOGLIO DE CASTRO (DEPLAN-UNESP)
(Examinador Externo)
_____________________________________
PROFA. DRA. ROSALINA BURGOS (DGTH-UFSCAR)
(Examinador Externo)
______________________________________
PROF. DR. NEIO L. DE OLIVEIRA CAMPOS (GEA-UNB)
(Examinador Interno)
______________________________________
PROFA. DRA. REBECCA FORATTINI LEMOS IGREJA (CEPPAC-UNB)
(Examinador Interno)
______________________________________
PROF. DR. FERNANDO LUIZ ARAÚJO SOBRINHO (GEA-UNB)
(Examinador Interno - Suplente)
iv v Dedico esta tese aos munícipes de Carapicuíba e
periferias, que fazem do cotidiano uma luta diária,
resistindo historicamente às diferentes formas e
conteúdos de exploração, que abraçaram
carinhosamente a proposta de pesquisa e fizeram disso
um dos muitos motivos de escolha deste recorte.
vi AGRADECIMENTOS
No contexto de desenvolvimento desta tese, diversas pessoas e instituições foram
determinantes para a sua concretização. Por isso, agradecer, mais que uma mera formalidade,
é reconhecer o esforço coletivo, o fortalecimento da cooperação, as amizades construídas no
processo de pesquisa, a compreensão da família e amigos pelas ausências. Para além, é prestar
homenagem aos mestres que sabiamente cativaram, com paciência e sabedoria, nossas
aprendizagens, estimulando cuidadosamente a produção do conhecimento, além de nossos
alunos, com quem ensinamos aprendendo. É ainda considerar o trabalho de servidores que
mesmo diante das adversidades históricas realizam heroicamente suas essenciais atividades
diárias, dando sustentação e qualidade à universidade e aos órgãos governamentais. Agradecer
é também lembrar de pessoas especiais, que marcaram o curso da pesquisa, da tese e de
nossas vidas como um todo. Por isso, agradeço:
Ao mestre/orientador Prof. Dr. Everaldo B. da Costa, pelo carinhoso acolhimento, a amizade,
o apoio em todos os momentos, a dedicação e profissionalismo com que conduz seu trabalho
e a quem dedico grande admiração, respeito e gratidão.
Aos professores do Departamento de Geografia e do Programa de Pós-Graduação em
Geografia da Universidade de Brasília pelos diálogos e o contínuo estímulo, especialmente a
Profa. Dra. Nelba Azevedo Penna, o Prof. Dr. Dante Reis Júnior, Profa. Dra. Lúcia Cony
Faria Cidade, Profa. Dra. Marília Luiza Peluso, o Prof. Dr. Fernando L. Araújo Sobrinho e o
Prof. Dr. Juscelino Bezerra.
Aos professores do Departamento de Geografia da USP, Prof. Dr. Francisco Capuano Scarlato
e a Profa. Dra. Simone Scifoni pelas preciosas dicas e orientações no exame de qualificação.
Ao professor do Departamento de Geografia da Unesp, Prof. Dr. Paulo Godoy pelo diálogo e
prontidão diante das questões acerca das rugosidades espaciais.
Aos professores da Banca Final de Doutorado, Profa. Dra. Bernadete Ap. Caprioglio de
Castro (DEPLAN-UNESP), Profa. Dra. Rosalina Burgos (DGTH-UFSCAR), Prof. Dr. Neio
L. de Oliveira Campos (GEA-UNB), Prof. Dra. Rebecca Forattini Lemos Igreja (CEPPACUNB), pela apurada leitura, críticas, orientações e análise crítica do trabalho.
Aos servidores da UnB, especialmente os da Diretoria de Desenvolvimento Social, da
Moradia Estudantil da Colina e Restaurante Universitário, pelas essenciais condições de
provimento e permanência ao longo das atividades em Brasília. Aos servidores da Secretaria
de Pós-Graduação em Geografia, sobretudo a Simoní Hiargles, ao Jorge Luís, ao Agnelo
Pereira e ao Jorginho pelo apoio integral. Aos servidores da Biblioteca Central e demais
trabalhadores que cotidianamente mantém em pé a instituição.
Aos colegas do Programa de Pós-Graduação em Geografia, do GECIPA, da UnB, da Unesp,
de Brasília, São Paulo, Carapicuíba e de Itu: Gilvan Araújo, Ronei Coelho, Márcio Benalussy,
Tatiana Terra, André Sartori, Rubia Rúbio, Demerson Lima, Abbul Mahmebb, Bismarc
Pereira, Rafael Dias, Sidelmar Kunz, Isabel Moraes, Luana Nunes, Renan Boscariol, Janaina
Mourão, Ilka Hostensky, Eduardo Marcusso, Bruno Leite, Timoté (Tim Kaunan), Tiago
Magalhães, Demétrius Viana, Leandro Alves, Ivan Benevenuto, Julio Fontes, pela amizade,
companheirismo e apoio em diferentes momentos desta pesquisa.
Ao historiador Rafael Araújo Oliveira, pelo auxílio prestado na pesquisa documental nos
arquivos do IPHAN de São Paulo. Agradeço também a estagiária do IPHAN do Rio de
Janeiro, Vanessa Almeida, pelo apoio e disponibilização das referências documentais do
vii
tombamento da Aldeia de Carapicuíba. Agradeço ainda ao Téc. do IPHAN em São Paulo, Sr.
José Saia Neto, pelas informações pronta e gentilmente disponibilizadas.
Ao André Sartori pela análise crítica dos mapas, ao Leidson Pelissari e Marcelo Cizaurre pela
revisão do abstract, a Jane Aparecida pela revisão de língua portuguesa, ao Celso Domenice
na parte de informática.
Aos membros da Associação Sarabaquê de Difusão Cultural da Aldeia de Carapicuíba,
especialmente a Helenice Camargo Henne, Vinicius Camargo Henne, Marcia Komatsu Henne
e Otto Henne Júnior, pelo precioso apoio ao longo da pesquisa, esclarecimentos, diálogos e
amizade.
Aos membros da OCA Escola Cultural da Aldeia de Carapicuíba, especialmente ao Fofão,
Paulinho e a Vera pela receptividade, diálogos e amizade.
Aos servidores da Prefeitura de Carapicuíba, Marcos Barits e Alaide de Pietro, pelas
conversas, informações, alegrias e o trabalho apaixonado que desenvolvem na periferia de
São Paulo.
Ao Rafael Felipe pelo convite e possibilidade de registro das manifestações culturais de São
Benedito e Nossa Senhora do Rosário na Vila Menck, em Carapicuíba. Aos violeiros,
percussionistas, festeiros e caipiras da Festa de Santa de Cruz, Santa Cruzinha e Festival de
Viola pelo acolhimento, diálogos e energia de suas músicas, danças e prosas.
Ao Luiz Roberto, pelas informações despendidas, o apoio e estímulo a pesquisa.
Aos colegas do Ministério das Cidades, da UAB (UnB) e da Secretaria de Educação do GDF,
no apoio ao estudos e sincronização das atividades técnicas-profissionais junto às acadêmicas,
especialmente ao Paulo Rogério, Valmir Moraes, Nathan Oliveira, Tatiana Santana e Romeu
Gadotti.
Aos colegas do IFSP pelo apoio no trajeto final de pesquisa, especialmente ao Prof. Dr.
Ricardo Coelho, a Téc. em Assuntos Educacionais Roseli Costa, o Prof. Dr. Rogério Souza e
o Prof. Msc. Rafael Novaes.
Aos estudantes de Tecnologia em Gestão Ambiental do IFSP que me acompanharam nos
trabalhos em campo pelas periferias e quebradas da Grande São Paulo, destacadamente o
Antônio Silva, Dayana Rosa, a Tainã Rezende, Sidnei Souza, a Carol, o Lucas, a Isabela e a
Tainá. Além do estudante secundarista, morador de Carapicuíba, Luan Seabra por todo o
apoio.
Por fim, um agradecimento muito especial a minha família, notadamente a minha esposa Ana
Carla M. de Aguiar por minhas ausências e sempre ponderar conjuntamente acerca de nossos
projetos de vida. Ao Balaio, Herbert, Raimundo, Márcia, Mathilde, Rosana e Mariah pelas
incontáveis alegrias e estímulos. A minha querida mãe, Jane Aparecida de Oliveira, pelo
incondicional apoio ao longo de toda a vida.
A todos e todas, minha mais sincera gratidão.
Rafael F. de Oliveira
viii
RESUMO
Esta tese analisa as rugosidades patrimoniais frente ao processo de metropolização, tomando
como recorte empírico o caso da Aldeia de Carapicuíba, na Região Metropolitana de São
Paulo, Brasil. A premissa principal reside na centralidade de processos sociais ligados às
tradições e o uso cotidiano como razão prática de existência na preservação do patrimônio
cultural, diante das modernizações concentradas e desiguais operadas pela urbanização
generalizada no Brasil. Os argumentos consistem em revelar que o drama periférico de
Carapicuíba compõe um dos mais emblemáticos casos de permanência cultural diante de
supressões, superposições e acumulações de formas-conteúdo em diferentes regimes de
tempo. O que potencializa uma perspectiva crítica singular de apreender a dinâmica
metropolitana desde sua periferia e a partir das relações entre os sujeitos, seus bens culturais e
as políticas urbanas e patrimoniais que as permeiam.
Palavras-chave: Metropolização; São Paulo; Periferia; Carapicuíba; Patrimônio Cultural;
Rugosidade Patrimonial
ABSTRACT
This thesis analyzes the heritage roughness in the process of metropolization by approaching
the empirical case of the Aldeia de Carapicuíba, in the São Paulo Metropolitan Region. The
central hypothesis lies on the centrality of social processes linked to traditions and the
quotidian use as practical reasons for existence in the preservation of cultural heritage in the
concentrated and uneven modernizations operated by the generalized urbanization of Brazil.
The arguments show that the peripheral drama of Carapicuíba is one of the most emblematic
cases of cultural permanence carried out by suppressions, superpositions and accumulations
of the content-forms in different periods. This analysis helps to built a singular critical
perspective through it we can better understand the metropolitan dynamics from its periphery,
based on the relations between subjects, their cultural assets and the urban and heritage
policies.
Key-words: Metropolization; São Paulo; Periphery; Carapicuíba; Cultural Heritage; Heritage
Roughness
ix LISTA DE FIGURAS
FIGURA 1 Contribuição do conceito de rugosidade espacial na apreensão do fenômeno urbano p. 50
FIGURA 2 Rugosidade como resultado da supressão parcial das formas espaciais – Barra Funda em São Paulo p. 51
FIGURA 3 Rugosidade como resultado da acumulação e co-presença das formas espaciais Panamá p. 54
FIGURA 4 Entre passado e presente, riqueza e pobreza, o viver e o trabalhar nos limites de São Paulo p. 54
FIGURA 5 Rugosidade como resultado da superposição de formas espaciais p. 56
FIGURA 6 Instalação do condomínio Alphaville em Carapicuíba (2011-2014) p. 57
FIGURA 7 Monumento ao trabalhador de limpeza urbana – San José (Costa Rica) p. 59
FIGURA 8 Modernizações e as rugosidades patrimoniais entre o mercado global e as comunidades locais p. 61
FIGURA 9 Povos testemunhos vendem artesanatos nas ruas do centro de Antígua Guatemala p. 81
FIGURA 10 Áreas ritualísticas e centrais de Tikal - Guatemala p. 82
FIGURA 11 Cordilheira dos Andes e a cidade de Santiago - Chile p. 83
FIGURA 12 Patrimônio natural das paradisíacas praias no Caribe – Varadero/Cuba p. 83
FIGURA 13 Núcleos coloniais de Ouro Preto e Diamantina – Minas Gerais p. 83
FIGURA 14 Sítio da área onde se localiza a Aldeia de Carapicuíba p. 115
FIGURA 15 Perspectiva da Aldeia de Carapicuíba em 1937 p. 117
FIGURA 16 Aldeias Jesuíticas – Modelos projetados conforme Lei das Índias p. 118
FIGURA 17 Os arredores de São Paulo em meados do século XIX p. 135
FIGURA 18 Caipira Picando Fumo (1983) e o Violeiro (1899) – Almeida Júnior p. 139
FIGURA 19 Aldeia de Carapicuíba - 1913 p. 141
FIGURA 20 População na Aldeia de Carapicuíba – Festejos de Santa Cruz em 1913 p. 143
FIGURA 21 Mancha urbana de São Paulo – Fins do Século XIX p. 144
FIGURA 22 Expansão Metropolitana Oeste – 1921 p. 148
FIGURA 23 Loteamentos na Vila Teresinha – Expansão Urbana no Entorno das Estações em Carapicuíba p. 155
FIGURA 24 Loteamentos no entorno da EFS – Carapicuíba, 1949 p. 155
FIGURA 25 Modernismo e as novas dimensões culturais propostas pelo resgate indigenista às avessas p. 166
FIGURA 26 Estrutura do telhado da sacristia – Igreja de São João Batista em 1936 p. 170
FIGURA 27 Nova estrutura do telhado da sacristia – Igreja de São João Batista em 2016 p. 170
FIGURA 28 Detalhe do mastro que inaugura as festividades de Santa Cruz na Aldeia de Carapicuíba - 2016 p. 171
FIGURA 29 Estação Sylviânia em Carapicuíba – década de 1930 p. 180
FIGURA 30 São Paulo e Arredores em 1962 p. 181
FIGURA 31 Arredores de São Paulo – Ônibus Suburbanos Intermunicipais - 1965 p. 183
FIGURA 32 Intervenções nos bens imóveis da Aldeia de Carapicuíba - 1956 p. 191
FIGURA 33 Perspectiva da COHAB Castelo Branco em Carapicuíba – década de 1970 p. 199
FIGURA 34 Áreas Urbanizadas Zona Oeste da RMSP – Emplasa (1975) p. 201
FIGURA 35 Paisagens de Carapicuíba - Conversão do Subúrbio em Periferia de São Paulo p. 215
FIGURA 36 Tensões exercidas pela metropolização de São Paulo na Aldeia de Carapicuíba p. 220
FIGURA 37 Impactos resultantes da metropolização na Aldeia de Carapicuíba – 1991 p. 222
FIGURA 38 Impactos resultantes da metropolização na Aldeia de Carapicuíba – 1991 p. 223
FIGURA 39 Jogo final do mundial interclubes da FIFA em Tóquio (Japão): “the favela is here” - 2012 p. 234
FIGURA 40 Distribuição das classes sociais por localizações na RMSP – 2010 p. 240
FIGURA 41 Vila Municipal nos trilhos da CPTM – Carapicuíba/SP p. 249
FIGURA 42 Cidade precária e ilegal justaposta a modernização e sofisticação dos serviços em Carapicuíba p. 252
FIGURA 43 Padrões de ocupação e assentamentos precários em Carapicuíba - 2010 p. 254
FIGURA 44 Intervenções na Aldeia de Carapicuíba – 1985 p. 258
FIGURA 45 Intervenções no Conjunto da Aldeia de Carapicuíba em 1998 p. 270
FIGURA 46 Projeto Básico de Restauro da Aldeia de Carapicuíba – 2003/2004 p. 281
FIGURA 47 Postal Rota Carapicuíba do Circuito Taypa de Pilão p. 284
FIGURA 48 Conjunto da Aldeia de Carapicuíba p. 285
FIGURA 49 Ordem e número das casas na Aldeia de Carapicuíba p. 286
FIGURA 50 Distribuição irregular e insuficiente de equipamentos culturais no município de Carapicuíba. p. 295
FIGURA 51 Diferentes momentos da festa de Santa Cruz na Aldeia de Carapicuíba. p. 302
FIGURA 52 Permanência em diferentes momentos da festa de Santa Cruz na Aldeia de Carapicuíba. p. 303
FIGURA 53 Entrecruzam o sagrado e profano nas festividades de Santa Cruz da Aldeia de Carapicuíba p. 306
FIGURA 54 Preparo das Festividades de Santa Cruz na Aldeia de Carapicuíba p. 307
FIGURA 55 Congada de São Benedito e N. S. do Rosário de Carapicuíba p. 309
FIGURA 56 Roda de capoeira homenageia S. Benedito e a libertação dos escravos p. 310
x FIGURA 57 Índios de diversas etnias na Festa de S. Benedito em Carapicuíba p. 310
FIGURA 58 Jongo nas festividades de S. benedito, N. S. do Rosário e Libertação dos Escravos p. 311
FIGURA 59 Parque da Aldeia de Carapicuíba em um domingo de primavera p. 315
FIGURA 60 Festa de batuques do maracatu na Aldeia p. 316
LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS
RMSP Região Metropolitana de São Paulo
SIMPURG Simpósio Nacional de Geografia Humana
IBGE Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística
EFS Estrada de Ferro Sorocabana
COHAB Conjunto Habitacional
CEPAL Comissão Econômica para América Latina
IGC Instituto Geográfico e Cartográfico do Estado de São Paulo
SPHAN Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional
IPHAN Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional
CONDEPHAAT Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico e Artístico e Turístico
EMPLASA Empresa Paulista de Planejamento Metropolitanos S.A
PIB Produto Interno Bruto
CEM Centro de Estudos da Metrópole
ZEIS Zonas Especiais de Interesses Sociais
CTPM Companhia Paulista de Trens Metropolitanos
UIT Unidades de Informações Territorializadas
IDH Índice de Desenvolvimento Humano
IDHM Índice de Desenvolvimento Humano Municipal
PNUD Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento
IPEA Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada
FJP Fundação João Pinheiro
PRRNH Programa de Recuperação e Revitalização de Núcleos Históricos
ZPH Zona de Preservação Humana
ZPP Zona de Preservação Paisagista
ZUC Zona de Urbanização Controlada
SRIPHAN Seção Regional do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional
FNPM Fundação Nacional Pró Memoria
PDDI Plano Diretor de Desenvolvimento Integrado
PPP Plano de Pavimentação Participativa
IBPC Instituto Brasileiro do Patrimônio Cultural
APA Área de Proteção Ambiental
MPF Ministério Público Federal
BID Banco Interamericano de Desenvolvimento
ZEIC Zonas Especiais de Interesse Cultural
IBPC Instituto Brasileiro do Patrimônio Cultural
CDHU Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano do Estado de São Paulo
UNESCO Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura
DPHAN Departamento do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional
PMDI- GSP Plano Metropolitano de Desenvolvimento Integrado da Grande São Paulo
Minc Ministério da Cultura
RIDE Região Integrada de Desenvolvimento Econômico
xi LISTA DE TABELAS
TABELA 01 - Evolução de número de municípios brasileiros entre 1872 e 1920 p. 133
TABELA 02 - Evolução das cidades no Brasil no período pré-industrial e industrial p. 151
TABELA 03 - Evolução da população e taxa de crescimento geométrico anual da cidade de São
Paulo, RMSP e estado de São Paulo
p. 185
LISTA DE QUADROS
QUADRO 01 - Evolução urbana e UIT’s de Carapicuíba p. 31
QUADRO 02 - Notas acerca dos primeiros núcleos, vilas e cidades no Brasil p. 96
QUADRO 03 - Evolução Administrativa dos Aldeamentos p. 112
LISTA DE GRÁFICOS
GRÁFICO 01 - Evolução do quadro populacional – Aldeamento de Carapicuíba (1736-1803) p. 123
GRÁFICO 02 - Evolução populacional das maiores capitais na fase pré-industrial do Brasil (18701950)
p. 134
GRÁFICO 03 - Evolução da população de Carapicuíba entre 1950 a 2010 p. 196
GRÁFICO 04 - Evolução da população urbana e rural do Brasil. p. 209
GRÁFICO 05 - Processo Urbano-Industrial: Quadro Evolutivo da População Brasileira nas
Maiores Capitais Estaduais (1960-2010)
p. 211
GRÁFICO 06 - Taxa de Crescimento Populacional (% a.a.) em Carapicuíba. p. 251
GRÁFICO 07 - Desconhecimento das instituições e políticas de preservação do patrimônio cultural p. 275
GRÁFICO 08 - Resultado dos entrevistados que disseram conhecer ou não a história de
Carapicuíba
p. 290
GRÁFICO 09 - Entrevistados que disseram utilizar ou não equipamentos públicos e culturais de
Carapicuíba
p. 293
GRÁFICO 10 - Entrevistados por UIT1s que utilizam ou não equipamentos públicos / culturais de
Carapicuíba
p. 293
GRÁFICO 11 - Espaços de encontro se realizam nos bairros e no cotidiano das estações e do
comércio local
p. 294
GRÁFICO 12 - Espaços de encontro se realizam majoritariamente nos bairros e nos espaços do
cotidiano
p. 296
GRÁFICO 13 - Festividades principais da Aldeia, segundo os moradores das UIT’s em Carapicuíba p. 298
GRÁFICO 14 - Representação dos usos do espaço da Aldeia pelos entrevistados p. 314
GRÁFICO 15 - Como as transformações afetaram a vida da população de Carapicuíba entrevistada p. 317
GRÁFICO 16 - Mudanças importantes lembradas por moradores entrevistados de Carapicuíba p. 319
GRÁFICO 17- População entrevistada aponta o que mais gosta em Carapicuíba p. 320
LISTA DE MAPAS
MAPA 01 – Mancha Urbana (RMSP-2010) – Carapicuíba p. 21
MAPA 02 – Divisões Políticas RMSP – Carapicuíba, Zona Oeste p. 22
MAPA 03 – Localização dos Aldeamentos nos Arredores de São Paulo p. 91
MAPA 04 – Localização dos Aldeamentos em São Paulo (Séc. XVI-XIX) p. 107
MAPA 05 – Sistema de Administração dos Aldeamentos p. 111
MAPA 06 – Mancha Urbana (RMSP, 2000) p. 246
MAPA 07 – Evolução Urbana RMSP (1881-2010) p. 247
MAPA 08 – Zonas Especiais de Interesse Social p. 248
MAPA 09 – Ordenamento Territorial da Aldeia de Carapicuíba (1986) p. 257
MAPA 10 – Parques e Espaços Públicos – Carapicuíba p. 265
MAPA 11 – UIT Fazendinha-Aldeia (limites entre áreas nobres e populares em Carapicuíba) p. 264
xii
SUMÁRIO
INTRODUÇÃO.......................................................................................................................13
PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS DE PESQUISA.............................................26
PASSOS DA PESQUISA........................................................................................................33
PARTE 01
DIMENSÃO METROPOLITANA DO PATRIMÔNIO
CULTURAL ENQUANTO RUGUGOSIDADE
CAPÍTULO 01:
Rugosidades patrimoniais......................................................................................................37
1.1 Rugosidade: conceito geográfico para pensar o patrimônio cultural..................................38
1.2 Rugosidade patrimonial: o caminhar do conceito entre teoria e empiria............................43
1.3 Categorias analíticas da rugosidade patrimonial: supressão, acumulação e superposição........48
CAPÍTULO 02:
Dialética das escalas................................................................................................................62
2.1 Fragmentos universais-particularidades da totalidade urbana-metropolitana.....................63
2.2 Metrópole-fato, metropolização-processo: dimensões do patrimônio cultural...................68
2.3 Busca do concreto: pensando as rugosidades patrimoniais na América Latina..................77
PARTE 02
DA GÊNESE COLONIAL AO SUBÚRBIO:
CARAPICUÍBA E SUAS RUGOSIDADES PATRIMONIAIS
CAPÍTULO 03:
Gênese colonial das rugosidades patrimoniais de Carapicuíba..........................................86
3.1 Notas acerca dos primeiros núcleos, vilas e cidades no Brasil...........................................90
3.2 Sistema de aldeamentos e a colonização do planalto paulistano........................................97
3.3 O aldeamento de Carapicuíba na colonização dos campos de Piratininga.......................112
xiii
CAPÍTULO 04:
Rugosidades patrimoniais na consolidação suburbana de Carapicuíba..........................125
4.1 O vilarejo de Carapicuíba na formação do cinturão caipira em São Paulo.......................127
4.2 A cristalização do núcleo “suburbano ex-vilarejo” em Carapicuíba................................145
4.3 Aldeia de Carapicuíba: de bem cultural à monumento nacional......................................159
PARTE 03
CARAPICUÍBA DE SUBÚRBIO A PERIFERIA:
RUGOSIDADES PATRIMONIAIS NOS LIMITES DA METRÓPOLE
CAPÍTULO 05:
As rugosidades patrimoniais de Carapicuíba no contexto de transição
urbana entre subúrbio e periferia.......................................................................................170
5.1 Emancipação de Carapicuíba: rugosidades patrimoniais do subúrbio paulistano............172
5.2 Implosão-explosão urbana e as rugosidades-monumentos-documentos..........................203
5.3 Os conceitos de subúrbio e periferia para pensar as rugosidades
na metrópole de São Paulo................................................................................................223
CAPÍTULO 06:
Múltiplas e atuais temporalidades sobrepostas em Carapicuíba.....................................241
6.1 Carapicuíba entre a urbanização da sociedade e a urbanização do território....................242
6.2 Intervenções urbanas e o novo contexto do Aldeia de Carapicuíba (1980-1990) ............253
6.3 De rugosidade-monumento-documento a rugosidade-instrumento (2000-2014) ............270
6.4 A rugosidade patrimonial hoje: o novo espaço da Aldeia,
o novo tempo de Carapicuíba ...........................................................................................285
CONSIDERAÇÕES FINAIS ..............................................................................................321
ANEXOS................................................................................................................................365
APÊNDICES..........................................................................................................................371
14
cidadecitycité
atrocaducapacaustiduplielastifeliferofugahistoriloqualubrimendimultipli
organiperiodiplastipublirapareciprorustisagasimplitenaveloveravivaunivora
cidade
city
cité
Augusto de Campos
15
INTRODUÇÃO
Frente aos desdobramentos do processo de metropolização, em que os impactos
podem ser traduzidos por meio da ampla generalização do sistema produtivo em escala
global, reordenando espaços industriais e arranjos urbanos, mudanças estruturais passam a ser
operadas nas cidades para atender as demandas dos fluxos nacionais e internacionais de
produção, distribuição e consumo de mercadorias. Os desafios colocados pelas novas relações
produtivas com a globalização se deslocam e se intensificam com a industrialização e
modernização conservadora1 em grande parte da América Latina, com a independência das
nações africanas e com o afloramento econômico no sudeste asiático. As suas principais
cidades, convertidas em metrópoles, passariam a uma função de centro de controle e também
nódulos dos fluxos financeiros e culturais em diferentes lugares do país e do mundo. O que
sugere um novo esquema hierárquico decisório e de regulação da acumulação capitalista,
calcado em pontos específicos do planeta e estes relativamente integrados por uma intensa
rede de fluxos materiais e imateriais por meio dos sistemas técnicos de informações. Esta
situação altera a estrutura econômica e política das cidades, redistribui ganhos, o consumo e
cria novos padrões de desigualdade social, colocando em xeque, inclusive, as noções clássicas
de centro e periferia (SASSEN, 1998; BEAVERSTOCK et al., 2000; GHORRA-GOBIN,
2009).
As cidades são incorporadas ao movimento dinâmico e contínuo de sujeição ao
capitalismo, que transforma metabolicamente suas formas e, fundamentalmente, as relações
dos sujeitos com seus lugares, com os bens produzidos pelo fruto do trabalho, com suas
representações da natureza e a própria natureza de suas representações. Estas transformações
são operadas numa totalidade urbana-metropolitana, numa escala mundo em interação com as
ordens nacional e local. Fato que requer um esforço teórico e metodológico, essencialmente
de reflexão acerca das variáveis e dos eventos que suprimem, superpõe e acumulam formasconteúdo diante das forças de atração e resistência no âmbito do movimento total das
universalidades e particularidades (SANTOS, 2012d).
1 O termo remete às muitas categorizações do processo de modernização em países subdesenvolvidos,
especialmente o Brasil. “Desigual e combinado, ruptura e continuidade, modernização do atraso, modernização
conservadora, capitalismo travado, são algumas das definições que explicam o paradoxo evidenciado por um
processo que se moderniza alimentando-se de formas atrasadas e, frequentemente, não capitalistas, strictu
senso.” (MARICATO, 2015, p. 26).
16
Este esforço revela problemas (que são muito diversos, desde a degradação ambiental,
ou a desigualdade social, até problemas de desenraizamento e perda das referências culturais
básicas de autonomia e sobrevivência), que não existiam ou já estavam solucionados e que
agora passam a ser recorrentes nos mais longínquos rincões do planeta. Como bem apontara
Harvey (2011) a respeito do caso das novas cidades na China, Macau e Hong-Kong, onde a
conversão das vilas e pequenos povoados do delta do rio Pérola em megacidades modernas e
centros nodais do capital internacional, desponta as forças de transformação do atual modo de
produção nestes lugares. “Se, como Marx certa vez afirmou, nossa tarefa não é tanto
compreender o mundo como transformá-lo, então, tem de ser dito, o capitalismo tem feito um
bom trabalho em seguir seu conselho.” (HARVEY, 2011, p. 19). Na África do Sul, Vivant
(2007) lança análise da passagem em Johanesburgo de um processo de urbanização e
metropolização característico do apartheid para outro de auto-segregação. Nele, as famílias
brancas e ricas se refugiam do centro urbano, agora ocupado por negros e grupos sociais
empobrecidos. A autora ainda evidencia que esta passagem é possibilitada pela transformação
de um contexto de segregação étnica, para o contexto de segregação em que o poder
econômico é mais pujante, ainda que o racismo permaneça. As famílias ricas e brancas
isolam-se nas áreas suburbanas, abandonando, como o Estado, o centro da cidade, culminando
com sua “periferização” (VIVANT, 2007). Esboçando, talvez, uma clara morfologia do
processo de gentrificação às avessas e, o que de certa forma, ajuda pensar a situação de outras
cidades e metrópoles subdesenvolvidas2 e, portanto, propriamente as brasileiras.
As cidades nos países subdesenvolvidos tiveram no decorrer da segunda metade do
século vinte um ritmo de crescimento acelerado e jamais observado, qualificado pela
aglomeração e densidade em áreas urbanas macrocéfalas. No Brasil, urge pensar os efeitos
desses fenômenos em relação a diversas metrópoles, porém é São Paulo o caso mais
emblemático e, sem dúvida, um dos mais complexos pelas dimensões dos problemas, dos seus
espaços periféricos, das contradições e desigualdades sociais, além da carência de pesquisas
ligadas aos múltiplos temas da metropolização. O clássico estudo do Centro Brasileiro de
Análise e Planejamento (CEBRAP) realizado na década de 1970 por vários autores, denuncia
2 O sentido de subdesenvolvimento aqui empregado associa-se “à consciência da sobrevivência”, que como
defendido por Santos (2001) é uma reafirmação dos países periféricos na globalização, das condições históricas
herdadas do terceiro mundo. Esta reafirmação é parte do reconhecimento supranacional de uma história que pode
aproximar países e regiões. Com as teorias do subdesenvolvimento praticamente abandonadas pós-dissolução
soviética, esta consciência de “inferioridade” estrutural é quem talvez possa engendrar uma unidade que conduza
a determinadas mudanças importantes nas relações internacionais.
17
o espraiamento da cidade de São Paulo aos subúrbios, formando uma das maiores periferias e
zonas de pobreza no mundo. Ao explicitar o caráter emergencial das periferias, a obra
justifica como estas áreas são acometidas por todo tipo de problema, especialmente os
cortiços e favelas, os espaços de vida das populações trabalhadoras, permeados pela pobreza e
carência dos serviços e equipamentos urbanos (CAMARGO et al., 1976). Desde então, esses
bairros periféricos não estão mais limitados ao território de São Paulo e passam a ocupar
horizontalmente os subúrbios e dar outra dimensão de escala à metrópole. Esses “bairros
pobres”, convertidos muitas vezes em “cidades-pobres”, com a reestruturação metropolitana
na última década do século passado e ao longo dos últimos anos, têm agora suas localizações
generalizadas, inclusive em áreas centrais das grandes cidades.
Novamente, tal fenômeno implica em redefinições geográficas numa escala
metropolitana de centro e periferia, centro urbano e subúrbio, que considerem a complexidade
que estes espaços atingiram. Não são apenas as áreas suburbanas e periféricas das grandes
cidades as únicas tensionadas pela metropolização, seu poder onipresente é expandido a todas
as cidades e áreas produtivas (SANTOS, 2013b). Esta articulação faz com que remotas
condições pensadas enquanto barreiras, percalços ou resistências a reprodução das relações
capitalistas, sejam reconvertidas propriamente numa nova possibilidade de desenvolvimento
do próprio modo de produção. Em posse de uma primitiva estrutura urbana, a pressão sobre
os antigos núcleos e centros de povoamento passa a pôr em risco as últimas concretudes
materiais do passado das cidades. As rugosidades, formas cristalizadas pelo trabalho,
referências históricas e geográficas da memória coletiva, passam a um gradativo descompasso
entre o tempo urbano (veloz, menor que de uma geração), com o tempo social (lento, de
algumas gerações), causando distúrbios na ordem cultural e nas relações com os bens
materiais e intangíveis dos grupos sociais. Dialeticamente, o tema do patrimônio cultural
torna-se uma das peças-chave neste processo, com novas proporções e capacidades de alterar
profundamente os lugares; ora em favor da realização humana e do empoderamento sobre o
espaço por sua comunidade, ora transfigurando-se na própria mercadoria de consumo das
massas, fragilizando as relações locais por meio da reificação e fetichização dos espaços de
memória coletiva (ORTIZ, 1994). De tal maneira que os efeitos e determinações do sistema
global serão maiores ou menores a depender das relações estabelecidas com os territórios, em
que convivem espaços de esperança (HARVEY, 2013 [2000]) e de utopismos patrimoniais
(COSTA, 2016), entre o aprofundamento da espoliação urbana (KOWARICK, 1979), ou a
ausência do direito à cidade (LEFÈBVRE, 2) ante a urbanização crítica (DAMIANI, 2006) e
18
a globalização perversa (SANTOS, 2001). Se interessa apreender a produção do espaço, de
suas formas-conteúdos, indo da totalidade e retomando-a após dissecação dos fatos concretos,
de seus fragmentos, finalmente pensar a cidade, ou uma região metropolitana contemporânea,
exige captar as configurações de existência de sua população, já que ela “[...] atua, também
através de suas formas de existência, na produção das formas espaciais e estas,
concomitantemente, atuam nos modos de existência” (SANTOS, 1986, p. 61). Este, portanto,
“é um relacionamento dialético, e não um simples jogo de causa e efeito, que só pode ser
entendido através do conceito da totalidade” (SANTOS, 1986, p. 61). As formas de existência
favorecem diferentes vivências e simbolismos em relação aos espaços da cidade, a expressão
das experiências realizadas nos bairros, praças e ruas da cidade.
O legado histórico e cultural, além das condições concretas de organização material,
das formas pretéritas estáveis no presente das cidades, é um meio de viabilizar o entendimento
sobre os processos que movimentam e que deram feição estrutural às próprias regiões
metropolitanas. Como explica Costa (2015, p. 29), “o método de investigação dialético
requer uma criteriosa apropriação do fenômeno, pleno domínio histórico do material, exigenos a análise de cada forma de desenvolvimento do próprio objeto (...)”, sobretudo quando o
resultado concreto e empírico de um processo permanece resignificado em outro momento e
situação. Este ponto, no limite, pode alcançar a própria condição de consciência à espoliação
imperialista do sistema mundial, calcado historicamente no dinheiro, na mercadoria e,
sobretudo, no lucro, mas também, no papel da ideologia e da reificação das relações sociais
graças à fragmentação da produção e do trabalho, da mediação tecnológica e, ainda, uma
divisão mais complexa e compartimentada dos territórios.
Estas problematizações são reveladoras do papel central que certas narrativas ainda
possuem a propósito dos sentidos da formação territorial e nacional do Brasil. Em São Paulo,
especialmente, sobre a fase fundacional, controversa, a narrativa histórica oficial reside no
“descobrimento” português das “novas terras americanas”, do “serviço de cristianização” da
Igreja, bem como sobre a imagem do bandeirante, substancialmente assumida na
representação mítica da formação nacional. Nestas representações, o bandeirante emerge
oficialmente nos livros escolares, museus e instituições estatais enquanto herói, líder militar,
que expandiu as fronteiras nacionais e galgou as grandes riquezas naturais ao povo brasileiro.
Ao longo do tempo, este preceito foi sendo erigido por diversos mecanismos políticos e
ideológicos, pela transmissão e difusão de seus nomes em ruas, cidades, mais particularmente
19
nas grandes estradas de São Paulo ou nas interestaduais (Fernão Dias BR-381, Raposo
Tavares SP-270, Anhanguera SP-330 e Bandeirantes SP-348), estátuas que os reverenciam em
cidades, onde teoricamente fundaram ou ali se estabeleceram, entre outras estratégias. Mais
que a concreticidade de sua produção, este personagem evoca elementos simbólicos que
designam força e bravura, reproduzidos historicamente nas cidades-símbolos do
bandeirantismo.
O caso de Carapicuíba é emblemático na Região Metropolitana de São Paulo (RMSP).
Antigo aldeamento jesuítico, sua subordinação à São Paulo e a “metrópole” portuguesa deriva
desde remotos tempos do Brasil Colônia. No contexto de desenvolvimento metropolitano de
São Paulo, Carapicuíba arrasta consigo todas as contradições sociais que o modo de produção
revelou, desde o poder colonial à industrialização tardia do país. Igualmente, na
reestruturação da metrópole pela expansão e desconcentração produtiva, bem como um novo
momento de modernizações territoriais, intervenções cirúrgicas e precisas em determinados
espaços. Uma destas dimensões contraditórias está na permanência do conjunto histórico e
colonial do antigo aldeamento jesuítico (último reduto de ruinas jesuíticas em São Paulo – da
primeira fase de ocupação do território brasileiro), que se mantém no contraste com uma
paisagem de suburbanização e densa periferização local. Compreendidas enquanto
rugosidades (SANTOS, 1977; 2012d [1996]; 2012 [1978]; 2012c [1978]; 2013a [1978]), as
formas dinâmicas deste conjunto despontam como fragmento da totalidade, de uma parcela
síntese do movimento urbano e, mais especificamente, das relações sociais em espaços
históricos metropolizados3.
A patrimonialização (JEUDY, 2006) destas áreas perpetua estruturas de complexas
ordens, lógicas e escalas, pois, ao carregar múltiplos contextos, estas incluem por meios
superpostos e acumulativos as formas, funções, tradições e simbolismos do passado junto às
3 O espaço histórico aqui tratado delineia-se no seu reconhecimento normativo e institucional. Considerando a historicidade
de cada e qualquer objeto situado, com seus tempos espaciais diferenciados (SANTOS, 2012), é necessário reconhecer a
existência seletiva de determinados monumentos e conjuntos. Estes, configurados como matriz-símbolo da identidade
nacional, portanto com uma relação diferenciada e particularizada do restante do espaço urbano. De modo que, portanto, toda
cidade é histórica, independente da diferença de tempo na formação relativa a outras aglomerações. Apesar disso, o termo
“núcleo histórico”, “conjunto histórico” ou “cidade histórica” utilizados ao longo da tese remetem a áreas centrais adotadas
pelas políticas públicas patrimoniais e, consequentemente, pela normatização de seus bens e recorrente
turistificação/dinamização de atividades produtivas. No limite, a opção por esta designação remete a própria concepção
terminológica que o sentido “histórico” ganhou na sociedade, ainda que muitas vezes não se perceba conscientemente que o
termo “histórico”, além do passado ou antigo, remete ao presente e ao futuro indissociavelmente (LOWENTHAL, 1998a;
1998b). Para Paes Luchiari (2005, p. 96) “a cidade, natureza transformada e artificializada pela ação social, acumula nos seus
artefatos o tempo humano.” Assim também, lembramos Costa e Steink (2013, p. 165) para quem “toda cidade faz-se produto
da história, do vir a ser universal que a constitui enquanto obra de arte, coletiva ou particularmente. Leite (2001, p. 42) ajuda
esclarecer que as cidades históricas, enquanto lugares que integram o patrimônio cultural, são meios operados pelo Estado
que corroboram para a construção e invenção das tradições, expressando uma “forma modelar” da memória e a identidade
nacional, eis aí seu sentido mais fiel na tese.
20
inovações técnicas, científicas e informacionais do presente. Onde sua manipulação, no
último meio século, deriva de intensa verticalidade, dialeticamente suprimindo ao mesmo
tempo que denotando novos conteúdos aos bens, ora pela generalização do sistema urbano
através do planejamento e gestão da região metropolitana, ora nas políticas patrimoniais – ao
retomar ciclicamente os mitos fundadores e intervenções precisas, visando expressar um
sentido de cultura que englobe a diversidade étnica do território brasileiro numa identidade de
nação. Fenômeno que tenciona o fato urbano inscrito pela cidade aos limites do processo de
metropolização, bem como a memória coletiva dos grupos sociais afetada pela generalização
dos preceitos identitários da memória nacional. Ortiz (1994) compreende que ao contrário da
memória coletiva, tida sobre a ordem da vivência, a memória nacional, catalisada no
patrimônio cultural normatizado e institucionalizado pelo Estado, vincula-se à história e
pertence ao âmbito da ideologia. A memória nacional não é propriedade particularizada de
nenhum grupo social restrito, mas “[...] ela se define como um universal que se impõe a todos
grupos. [...] Ela não possui uma existência concreta, mas virtual, por isso não pode manifestar
imediatamente enquanto vivência.” (ORTIZ, 1994, p. 13).
Mesmo sugerindo muitos desafios e variáveis, em que áreas históricas possuem suas
peculiaridades, e ciente das limitações de uma pesquisa científica e do grau de generalização
da abordagem, Carapicuíba insere-se enquanto representativo caso emblemático de
aglomerações antigas tomadas em sua totalidade pela metropolização (Mapas 01 e Mapa 02),
tornando-se fato concreto do urbano no Brasil e que favorece uma apreensão especial e
significativa de algumas dimensões deste fenômeno. Neste caso, implicando, para além do
caráter normativo e regulatório obtido pela Aldeia de Carapicuíba com seu tombamento
federal, no limite, o questionamento sobre a própria legitimidade destes espaços enquanto
elementos universais da modernidade e particulares do Brasil, sendo que o balizamento do
trabalho parte de um desdobramento contextual e multiescalar, com a subsequente questão
formulada: como núcleos históricos são afetados, em sua totalidade, pelo fenômeno de
metropolização? Depreendendo outras questões, que residiriam em como estes antigos
núcleos coloniais resistiram às necessidades de fluidez do capital dadas pela metropolização?
Ou como sucumbiram diante deste mesmo fenômeno? Para então pensar mais precisamente
em um recorte empírico preciso, desdobrando na questão central de partida: Quais eventos
e processos materiais e intangíveis favoreceram ou impediram a permanência do patrimônio
cultural em Carapicuíba?
21
22
23
Para Cosgrove (2004) o papel do investigador na organização e representação dos
resultados destas referências é permeado por uma compreensão “informada por nossos
valores, crenças e teorias [...]”. Como ele, explica Gonçalves (1995, p. 368) que “[...] um
método não possui por si só autonomia. Ele está fundamentalmente ligado ao sujeito do
conhecimento, que o utiliza para aproximar-se do seu objeto de estudo”. A problematização,
as questões de partida, logo residem da imersão e experiência do pesquisador com o tema e
com o próprio objeto de pesquisa, assim como as angústias compartilhadas com os sujeitos
que vivem cotidianamente nos espaços representativos da memória, intimamente regulados
pela ação institucional dos órgãos patrimoniais. Vislumbra-se assim apreender uma complexa
dinâmica dialética entre escalas e ações desenvolvidas nos territórios e operadas no e pelo
espaço geográfico (enquanto condição e reflexo do social). Buscando, de forma mais
específica, examinar a permeabilidade do fenômeno urbano nas práticas cotidianas,
traduzindo a experiência de vida, as resistências ao processo e os múltiplos olhares sobre a
cidade, das suas formas-conteúdos, além dos significados empreendidos e difundidos acerca
de sua produção material. No entanto, sem perder o próprio papel de quem, como pesquisador
e sujeito ativo do processo de pesquisa, conduz a prática acadêmica e científica afim de
propiciar uma pequena, mas ambiciosa produção do conhecimento.
Estas condições, sem cair em modelos estanques e genéricos da realidade, parecem
subsidiar o conhecimento da lógica metropolitana pelo viés espacial do patrimônio cultural.
Isto em favor de leituras, desde os sujeitos que vivenciam cotidianamente seus territórios, até
as instituições que os normatizam, desde a periferia ao centro, pois entende-se, como Martins
(1992), a existência permanente do lastro colonialista das pesquisas e análises pautadas nos
valores dos prédios maiores, nas casas grandes, nas centralidades do poder, que consideravam
as reminiscências do passado numa hierarquia cujo entendimento dos fatos sempre foi a
perspectiva das elites e classes dirigentes. E, pois, uma visão que dificulta olhar ao subúrbio
sem que esteja subordinado ao centro, ainda que o primeiro só exista em relação ao segundo4.
Seguir esse rumo é precisar mecanismos intelectivos e práticos de embasar, qualificar e até
4 “Até aqui a história de São Paulo tem sido escrita do centro para a periferia: a perspectiva elitista do centro
domina a concepção que se tem do que foi o subúrbio no passado. Mesmo quando se estuda a história da classe
operária, que sempre viveu nos bairros e no subúrbio, prevalece essa orientação fora de contexto. Essa
perspectiva vem da tradição colonial e absolutista e mostra, entre nós, que ela não se emancipou da rígida
hierarquia que centralizava no rei e seus funcionários não só um modo de viver, mas também um modo de olhar,
inclusive um modo de ver a História.” (MARTINS, 1992, p. 09).
24
estimular novas resistências aos processos verticais impostos às cidades, às rugosidades
patrimoniais, aos seus grupos sociais. Tratando de preservar e divulgar os bens culturais junto
com suas comunidades, de forma metabólica entre os objetos técnicos criados e os sujeitos
responsáveis por sua produção. Tudo, no entanto, prescinde a crítica dos fundamentos
institucionais que destacam bens, fatos e atores, ao mesmo tempo em que escamoteiam outras
facetas da realidade, que resulta na invisibilidade e esquecimento dos sujeitos e de suas
produções. Embora a salvaguarda dos bens possa ser concretizada pelo tombamento, tornando
determinadas práticas e áreas da cidade em organismos que sugerem ideias e imaginários,
usos e funções, outras atividades são paralelamente desenvolvidas realçando nova
centralidade e uma dinâmica complexa de relações cotidianas com esses lugares.
Estas sentenças prerrogativas se interpõem, onde em certos momentos prevalece uma
ou outra instância, gerando conjuntamente questionamentos complementares, que foram
pensados da seguinte maneira: (a) enquanto disciplina científica, como a Geografia pode
contribuir com essa perspectiva de trabalho e, simultaneamente, agregar um expressivo legado
teórico e metodológico em seu labor? (b) quais os impactos trazidos pela emergência da
questão cultural e do temário patrimonial nos núcleos históricos metropolizadas em relação (i)
aos usos e apropriações dos territórios do patrimônio, (ii) a geração e difusão de valores, (iii)
imagens e imaginários dos espaços de memória? (c) a partir destas constatações, quais os
desafios e possibilidades de desenvolvimento dos espaços suburbanos/periféricos inseridos
nas regiões metropolitanas no reconhecimento, preservação e promoção da diversidade de
seus bens culturais? (d) por fim, será possível as comunidades locais conquistarem maior
autonomia e poder decisório sobre seus territórios resistindo por meio da cultura às
imposições verticais e universalizantes do sistema produtivo global?
Enquanto objetivo geral a pesquisa buscou analisar o patrimônio cultural como
rugosidade espacial face às transformações de Carapicuíba pela metropolização de São
Paulo. Tomando alguns objetivos específicos, que se desdobram desta busca mais ampla: (a)
analisar como o ideário patrimonial associa-se a noção de inércia dinâmica, representando
novas significações sociais da natureza e da cultura em núcleos históricos metropolizados; (b)
compreender a permanência do conjunto tombado da Aldeia de Carapicuíba antes de sua
institucionalização e frente ao atual processo de metropolização; (c) debater como os espaços
de memória atuam historicamente na produção social do urbano, procurando avançar por base
empírica sobre o legado teórico e metodológico estruturado por Milton Santos acerca da
25
noção de rugosidade espacial; (d) buscar estabelecer um diálogo entre as diferentes
perspectivas teórico-metodológicas da Geografia, no sentido de realizar uma leitura mais
qualificada e totalizante da realidade que envolve núcleos históricos metropolizados; (f)
captar ações e práticas cotidianas que favoreçam o ajuste, a resistência e reorganização da
cidade a partir de articulações horizontais e solidárias pelo viés do patrimônio cultural.
Ainda que pela razão desta ser uma pesquisa calcada na criticidade da produção do
espaço urbano contemporâneo e, portanto, intencionalmente convertida num instrumento
político-científico, algumas premissas ao longo dos levantamentos de dados, leituras, visitas
técnicas, aplicação de questionários e entrevistas, foram plenamente refutadas, parcialmente
reafirmadas, definitivamente aceitas ou descartadas. Trata-se de possibilidades que estão
circunscritas num plano complexo e relacional em que se insere um dado recorte empírico da
realidade marginal e periférica da metrópole nacional brasileira. De onde mesmo o
pesquisador possuindo papel ativo nas escolhas e decisões da abordagem, o critério mais
ortodoxo no prospecto metodológico sempre foi a priorização da leitura da cidade por seus
habitantes, da experiência suburbana e periférica de viver em RMSP São Paulo.
A construção aversiva da imagem e representação do primitivo – simbolizada pelo
índio e pelas ruinas na Aldeia de Carapicuíba – revela a historicidade do drama colonial, mas
também das resistências na reprodução da vida, que implica na própria conservação das
rugosidades patrimoniais pelos nativos que ali permaneceram mesmo com a mudança do
aldeamento pelos jesuítas para Itapecerica da Serra no século dezoito. Fatores que
constituídos há mais de quatro séculos permanecem na condição marginal dessas cidades e
núcleos de povoamento, seja no desenvolvimento posterior do aldeamento para as
necessidades rurais que a cultura caipira imprimia, ou na sustentação da cidade-polo ou centro
metropolitano pelos recursos extraídos e operados pelas mãos de milhares de trabalhadores,
até alcançar tempos menos remotos, de consolidação do drama periférico, que perpassa a
marginalidade do trabalho composta numa massa de reserva, porém, onde a manutenção da
sobrevivência é realizada a cada dia e comemorada nos simbolismos que perduram
secularmente. Tal realidade desdobra-se na respectiva premissa central: de que a Aldeia de
Carapicuíba e a carga simbólica e memorial contida e manifestada pela população local,
traduziriam um dos casos mais emblemáticos da permanência, ou da rugosidade patrimonial,
frente à metropolização de São Paulo. A essência desta questão reside em eventos e relações
onde o patrimônio cultural tem papel central – aqui avaliando os resíduos das primitivas
26
formas coloniais (o sítio, o quadrilátero, as formas das habitações, as técnicas de construção,
a centralidade do templo religioso), bem como as tradições que das rugosidades derivam e se
perpetuam na atualidade das crenças, dos ritos e festejos caipiras (como os de Santa Cruz,
que advém do século dezoito ou antes), como também os novos conteúdos e funções
adquiridos enquanto espaço público (Parque da Aldeia).
No caso da Aldeia de Carapicuíba, a sua manutenção, além do papel normativo
efetivado no tombamento pela Secretaria do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional
(SPHAN) em 19405, decorre de eventos ainda pouco compreendidos pela literatura correlata,
ou mesmo pelos próprios órgãos de preservação. No entanto, insurgem como elos de
preservação pré e pós-tombamento, no sentido da manutenção do conjunto histórico e de
determinados simbolismos que perduram, inclusive aos dias atuais. O que, no entanto, com a
emergência da patrimonialização (JEUDY, 2006) e avançando para além do discurso da
perda (GONÇALVES, 2002), faz com que respectivamente o conjunto destes bens culturais
se pronuncie a uma condição própria de “desaparecimento”, ou melhor, supressão. Esta
condição pode ser concreta, ainda que suas formas por ventura transpareçam uma
pseudoconcreticidade (KOSIK, 1976 [1963]) da condição de permanência das rugosidades
patrimoniais. Nos dias atuais, a dimensão dos conteúdos, associada numa assimilação massiva
e parcial da cultura (ADORNO, 1975 [1974]), parece projetar-se em favor do entretenimento
e espetáculo (DEBORD, 2005 [1967]) do que numa dimensão territorial identitária6. Trata-se
de uma tensão permanente, contínua e dinâmica, a suprimir, mas também a acumular e
sobrepor objetos e ações nos territórios, com mais permeabilidade ou resistência em certos
contextos. O plano de trabalho reside substancialmente em torno da rugosidade patrimonial no
que tange a tríade “supressão” – “superposição” – “acumulação”, a partir de contextos
históricos específicos, mais precisamente a partir do período técnico-científico-informacional
(SANTOS, 2012 [1996]). Esta dinâmica apoia a apreensão de um processo por qual passa os
5 Submetido o processo ainda em 1939, o tombamento se efetiva em 1940. Consta no Livro Tombo
Arqueológico, Etnográfico e Paisagístico, instituído pelo Decreto-Lei 20, de 1937, a inscrição na folha 03 do
“conjunto arquitetônico e urbanístico da Aldeia de Carapicuíba”, cuja data refere-se a 13 de maio de 1940.
Notificação 316 - Anexo 01 (sem efeito) e Anexo 02.
6 Este risco é muito bem sintetizado por Paes-Luchiari (2005, p. 102), ao apontar que “ao se tornar alvo de uma
fruição apenas circunstancial e essencialmente estética, a revitalização do patrimônio arquitetônico cria uma
nova territorialidade, descompromissada com o lugar e com as populações locais. Mesmo que as antigas formas
permaneçam, o conteúdo social dos bens tombados submete-se às mudanças de conteúdo e de significado social,
agora impulsionados pela nova vocação turística destas áreas”.
27
elementos culturais no atual contexto do modo de produção capitalista e das cidades. Esta
contradição residiria justamente no potencial de consciência despertado pela identidade dos
sujeitos com seu trabalho, ou seja, com as próprias rugosidades patrimoniais edificadas por
seus antepassados, ao mesmo tempo em que as razões no atual contexto tendem a obediência
dos interesses de forças hegemônicas, ou de modo ainda mais amplo, ao próprio “mundo do
capital” (HORKHEIMER, 1975).
Para os sujeitos do comportamento crítico, o caráter discrepante cindido do todo
social, em sua figura atual, passa a ser contradição consciente. Ao reconhecer o
modo de economia vigente e o todo cultural nele baseado como produto do trabalho
humano, e como a organização de que a humanidade foi capaz e que impôs a si
mesma na época atual, aqueles sujeitos se identificam, eles mesmos, com esse todo e
o compreendem como vontade e razão: ele é o seu próprio mundo. Por outro lado,
descobrem que a sociedade é comparável com processos naturais extra-humanos,
meros mecanismos, porque as formas culturais baseadas em luta e opressão não é a
prova de uma vontade autoconsciente e unitária. Em outras palavras: este mundo
não é o deles, mas sim o mundo do capital. Aliás a história não pôde até agora ser
compreendida a rigor, pois compreensíveis são apenas os indivíduos e grupos
isolados, e mesmo esta compreensão não se dá de uma forma exaustiva, uma vez
que eles, por força da dependência interna de uma sociedade desumana, são ainda
funções meramente mecânicas, inclusive na ação consciente. Aquela identificação é
portanto contraditória, pois encerra em si uma contradição que caracteriza todos os
conceitos da maneira de pensar crítica. Em outras palavras: este mundo não é o
deles, mas sim o mundo do capital (HORKHEIMER, 1975, p. 138).
Muito se discute da necessidade de projetos de conservação, preservação e promoção
dos elementos históricos no âmbito das novas políticas culturais e econômicas da cidade. No
entanto, pouco se aprofunda analiticamente em suas origens e constituição, permanência e
atual valorização. Essa carência analítico-reflexiva impede o pleno desenvolvimento de
projetos que, de fato, possam permitir a sua realização enquanto fruto do trabalho da
comunidade que os produziu. Nesta proposta de pesquisa, a questão prerrogativa – sobre quais
processos favoreceram ou inibiram a presença de um representativo patrimônio cultural do
país, e mais especificamente da RMSP em Carapicuíba – suscita questionamentos a um
debate ligado ao papel exercido pelas cidades históricas, os monumentos, as relíquias, as
antigas construções e a amplitude do plano imaterial face ao papel exercido na conservação e
preservação dos bens culturais. Trata-se assim de um estudo cujos desafios são os de captar o
modo como esses elementos materiais e imateriais permitiram ou permitem a resistência e
consolidação de antigos redutos, como a da Aldeia de Carapicuíba, além das tradições e
festejos singulares do lugar frente à metropolização e atuais relações. A partir disso, apoiar
estratégias nas diversas perspectivas, que são ou podem ser operacionalizadas a favor do
28
desenvolvimento urbano e de uma utópica democracia cultural, sendo neste sentido, enquanto
disciplina científica, que a Geografia pode contribuir ao agregar e agregando simultaneamente
um expressivo legado teórico e metodológico em seu labor.
PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS DE PESQUISA
Pela delimitação temática da tese, realizada na interface entre metrópole, patrimônio e
rugosidade, enquanto conceitos-chave do processo de produção do espaço urbano em sítios
coloniais, foi necessário agregar alternativas metodológicas que, entre outras práticas e
estratégias, acarretaram em: (a) levantamento de fontes e dados documentais, iconográficos e
bibliográficos; (b) sondagens exploratórias, reconhecimento de campo e observações
sistemáticas; (c) diálogos com a governança local e com técnicos do patrimônio; (d) aplicação
de questionários qualitativos semiestruturados; (e) entrevistas semiestruturadas com a
população de Carapicuíba. Estes procedimentos foram permeados por trabalhos de campo em
diferentes setores do município ao longo de toda pesquisa, com observação direta
(estruturada/sistemática) e participante, com registro das atividades desenvolvidas
(fotografias, filmagens, anotações) e diálogos constantes com moradores, especialmente no
espaço da Aldeia de Carapicuíba.
(a) Levantamento de fontes e dados documentais, bibliográficos e iconográficos
Os levantamentos documentais, iconográficos e bibliográficos foram realizados ao
longo de todo processo de desenvolvimento da pesquisa. Em sua fase inicial, o foco
esteve pautado no levantamento de obras clássicas, teses e artigos correlatos ao tema
de pesquisa nas bibliotecas da UnB, UNESP, USP e Unicamp, além do acervo digital
disponível no diretório de periódicos da CAPES e dos convênios da UnB e do IFSP,
os quais destacam-se: Directory of Open Access Journals (DOAJ), o Scientific
Electronic Library Online (SciELO), Dialnet, OneFile (GALE), o SciVerse
ScienceDirect e Scopus (Elsevier). Deve-se ressaltar a relevância do levantamento de
dados em repositórios digitais de dissertações e teses, além de bibliotecas físicas
(USP, UNESP, UNICAMP, UNB, Bibliotecas municipais de Carapicuíba). As
29
principais obras e materiais foram induzidos pela orientação dos docentes do
Programa de Pós-Graduação em Geografia da UnB e ao longo de cursos realizados
em outros departamentos, além das leituras nas disciplinas e no âmbito do Grupo de
Pesquisa Cidades e Patrimonialização (GECIPA/CNPq), bem como das
necessidades pontuais e estratégicas do recorte empírico no âmbito do próprio
município de Carapicuíba (cabe destacar, por exemplo, o acervo disponibilizado do
Prof. Miguel Costa Júnior, oferecido pela Biblioteca Municipal Castro Alves, com
materiais acumulados sobre a cidade, destacando-se documentos datilografados,
recortes de jornais, postais, fotografias, mapas e panfletos).
Em um segundo momento, os levantamentos documentais e iconográficos em
arquivos públicos tiveram maior centralidade no desenvolvimento da pesquisa,
pautando-se o Arquivo Público do Estado de São Paulo, os arquivos digitais da
EMPLASA, o acervo do arquivo da 9ª.SRIPHAN/SP e o arquivo central do
IPHAN/RJ. Nestas bases, físicas e digitais, os levantamentos pautaram-se em mapas,
registros fotográficos, plantas de bairros e cidades da RMSP, croquis, processos de
tombamento, intervenções urbanas em sítios históricos, processos de licitação e
contratação de empresas para serviços públicos, planos e projetos de gestão territorial
e planejamento urbano. Estes materiais foram estratégicos e mais efetivamente
utilizados nas fases exploratórias e na caraterização do objeto, tanto entre os
contextos dos fenômenos gerais, como aos múltiplos rebatimentos das
particularidades de Carapicuíba.
(b) Sondagens exploratórias, reconhecimento de campo e observações sistemáticas
Subsequentemente, por base dos fundamentos teóricos elementares, foram
realizadas incursões empíricas pela RMSP e Carapicuíba, na busca da apreensão
da lógica e relação diante de suas unidades territoriais com o processo de
metropolização. Nesta fase, objetivou-se a observação de áreas pré-selecionadas,
com registro fotográfico, demarcações, descrição e incipiente análise da
problemática por uma proto-composição conceitual e categorial, destacadamente
no que se refere a relação do fenômeno urbano-metropolitano em São Paulo com
30
as rugosidades patrimoniais em Carapicuíba. Tal procedimento exploratório foi
circunstancial, inclusive, à demarcação de um referencial empírico que ainda se
fazia duvidoso entre outras cidades e núcleos históricos na RMSP.
As áreas sondadas foram setorizadas conforme o referencial histórico e estrutural
de desenvolvimento urbano (elaborado no Plano Diretor Participativo de
Carapicuíba com dados do IBGE, desde o princípio do aldeamento até a
consolidação dos condomínios mais novos), sobreposto com as unidades
territoriais de Carapicuíba, segundo as Unidades de Informações Territorializadas
(UIT’s), elaboradas pela EMPLASA. Isto com apoio de imagens orbitais e
fotografias áreas no dimensionamento de cada unidade. Nesta etapa foram
precisamente realizadas doze visitas, em todas as unidades demarcadas: UIT 1 –
Carapicuíba; UIT 2 – Cidade Ariston/COHAB; UIT 3 – Vila Dirce; UIT 4 –
Fazendinha; UIT 5 – Aldeia de Carapicuíba (Quadro 01). Além de Carapicuíba, as
virtuais fronteiras municipais da RMSP permitiram a incursão por vários trechos
de Osasco, Barueri, Itapevi, Cotia, Embu das Artes e São Paulo. Com demarcação
geográfica por GPS dos principais pontos e áreas, diversos registros fotográficos e
conversas não controladas com a população, o que resultou no delineamento de
estratégias de pesquisa, além de apropriação embrionária da dinâmica urbana nas
principais centralidades do município e sub-regiões. Uma delas foi justamente
reconhecer a coerência da regionalização pela EMPLASA das UIT’s, utilizando
como referencial o tipo de uso e ocupação do solo urbano, e por conseguinte, na
possibilidade de desmembramento do conjunto UIT COHAB e Cidade Ariston em
alguns dos levantamentos em relação a infraestrutura urbana, ou da união das
UIT’s Fazendinha e Aldeia em outras abordagens pela proximidade geográfica e
relações históricas que possuem alguns de seus setores.
31
Quadro 01: Evolução urbana e UIT’s de Carapicuíba.
Fonte: EMPLASA, 2014; Carapicuíba, 2012.
32
(c) Diálogos com a governança local e com técnicos do patrimônio
Este procedimento metodológico foi pensado a partir das possibilidades de
respostas do poder público no que tange ao planejamento e gestão de bens
culturais representativos para o município. Na esfera federal, o objetivo foi
interpretar o olhar e o entendimento de razões que justificariam as permanências
pré e pós-tombamento, sobretudo a partir do processo de metropolização pós1950. Ainda que de grande relevância ao diálogo aqui estabelecido, este
procedimento se apresentou difuso e pouco profícuo ao longo da pesquisa no que
se refere ao plano da gestão municipal. Primeiro pelas condições de acolhimento
aos pedidos de entrevista que não foram plenamente atendidos, segundo pela
ausência de servidores de carreira capacitados a substanciar as questões trazidas,
terceiro pela fragmentação dos órgãos na cidade, separados e distantes, que
impedem uma sistemática ágil e eficaz de trabalho. Alternativamente, os diálogos
foram sendo concretizados por caminhos menos formais, estabelecidos no dia-dia
com os servidores da cultura e turismo principalmente, além de pessoas
envolvidas que solicitamente num esquema de “bola de neve” iam indicando
outras possíveis referências. No âmbito dos órgãos patrimoniais, a referência
principal é o IPHAN, além do CONDEPHAAT, considerando ser somente o
conjunto da Aldeia de Carapicuíba tombada no município como patrimônio
nacional. Mas a atuação do órgão desde a consagração da Aldeia em 1940 pelo ato
de tombamento se deve ainda a especificidade desta ser o primeiro conjunto de
bens protegidos institucionalmente em São Paulo e, sobretudo, ter sido objeto de
estudo e promoção de Luís Saia à direção regional do IPHAN durante toda sua
vida. Neste sentido, um dos técnicos do IPHAN que mais atuou naquela área, Luís
Saia Neto, concedeu preciosas informações que são devidamente apresentadas no
capítulo 06.
33
(d) Aplicação de questionários qualitativos semiestruturados
Por base das informações levantadas via questionários, enquanto meio objetivo e
primário de obtenção de dados para a concretização dos objetivos de pesquisa,
estas ferramentas consolidam parcialmente uma base quantitativa segura para uma
análise da relação entre a cidade e seus munícipes, dos espaços representativos de
Carapicuíba para seus moradores. Este levantamento tem um caráter incipiente de
obtenção de dados primários. Neste caso, pelo tema, optou-se por um
procedimento qualitativo com menor controle estatístico, considerando
metodologicamente para amostragem o “critério de exaustão”, uma abordagem
que pondera a repetição de respostas como critério de amostra suficiente e que não
requer uma quantidade exata ou fechada de aplicações. Ainda assim, somou-se um
total de 205 participantes, com idade superior a dezoito anos e moradores das
unidades territoriais visitadas. Quanto ao universo da pesquisa, foi adotado como
referência as unidades territoriais anteriormente aludidas, pela necessidade de
compreensão do objeto de pesquisa na sua totalidade, além do entorno, ou do
próprio núcleo histórico tombado. Em relação a sua estruturação, o questionário
explorou questões abertas e fechadas, além de questões com níveis ponderáveis
numericamente. A análise prévia se estabeleceu já na fase de tabulação dos dados,
que quantificados e estruturados em gráficos e tabelas, apoiaram a avaliação final
em conjunto com dados secundários obtidos anteriormente. Esta ferramenta
contribuiu para dimensionar a ligação dos moradores com a região metropolitana,
o uso de equipamentos públicos, a participação em festas populares, o
reconhecimento do patrimônio cultural, as dimensões históricas e das
transformações da cidade pela metropolização (Apêndice 01). Todas as exigências
éticas e institucionais foram atendidas, utilizando Termo de Consentimento Livre
e Esclarecido (TCLE – Apêndice 03) e aprovação em parecer consubstanciado
(número: 1.642.352) do Conselho de Ética e Pesquisa da Universidade de Brasília
(CEP/UnB – Apêndice 04). A leitura de Carapicuíba pelos mesmos, traduzida
pelos dados levantados e a análise qualitativa, resultou no estabelecimento de
referenciais para as entrevistas semiestruturadas num segundo momento.
34
(e) Entrevistas semiestruturadas com a população de Carapicuíba
As entrevistas semiestruturadas foram realizadas no último ano do estudo,
considerando como universo de pesquisa as mesmas unidades territoriais
anteriores, porém com uma delimitação de idade, ou seja, com moradores mais
antigos e capazes de relatarem as mudanças no modos de vida, das rugosidades
patrimoniais decorrentes da metropolização e periferização de Carapicuíba. Este
pressuposto não foi impeditivo que alguns entrevistados possuíssem idade inferior
a quarenta anos, desde que as falas agregassem aos principais objetivos e questões
da tese. No entanto, a maioria dos entrevistados possuía idade superior a
cinquenta anos, que perpassa vivências entre as dimensões de subúrbio e periferia.
Na primeira etapa de estruturação das entrevistas, estas foram fundamentadas por
meio de procedimentos anteriores já descritos (a, b, c). Sua organização foi
baseada numa sistemática em blocos, visando facilitar o desenvolvimento das
falas e do pensamento, contendo: (i) dados pessoais elementares dos
entrevistados; (ii) um bloco para caraterização de Carapicuíba e a região no
passado (subúrbio, ruralidades, relação com São Paulo e outras cidades da região,
mudanças experimentadas e vividas); (iii) depois, um grupo de questões em
relação ao cotidiano na metrópole, ao presente (espaços culturais que frequenta,
transformações verificadas, opinião sobre as mudanças); (iv) por fim, uma questão
sobre as utopias futuras para Carapicuíba, o vir a ser, sintetizado numa única
questão sobre os problemas das cidade e as possibilidade de sua superação
(Apêndice – 02). Além do questionário, outro meio de acesso aos moradores
abordados foram contatos estabelecidos, com indicações, onde foi possível
defrontar algumas lideranças e pessoas diretamente envolvidas com as atividades
culturais de Carapicuíba, da OCA, da Aldeia, das festividades de São Benedito, da
prefeitura, do futebol de várzea. Algumas das entrevistas foram concedidas em
meio a ambientes pouco favoráveis a gravações (como nos festejos e em áreas de
risco), ou então, optou-se por um diálogo aberto sem o recurso das ferramentas
técnicas considerando a inibição verificada em alguns dos casos onde fora feito
uso da câmera de filmagem e o gravador de voz. Em outras situações, aproveitouse a própria abordagem do questionário para empreender a entrevista, o que
resultou numa maior profundidade de diálogo. As entrevistas gravadas foram
35
transcritas e analisadas individualmente, junto as anotações realizadas nos casos
não filmados e gravados. Para efeito de quantidade, pressupomos vinte
participantes inicialmente, o que em termos controlados chegaram a doze, e não
controlados (com uso máximo de caderneta de campo), por volta de quarenta e
cinco pessoas, o que pode ser considerado relativamente suficiente aos preceitos
de pesquisa. Assim como os questionários, as entrevistas respeitaram toda as
exigências éticas e institucionais, utilizando Termo de Consentimento Livre e
Esclarecido (TCLE – Apêndice 03) e aprovação em parecer consubstanciado
(número: 1.642.352) do Conselho de Ética e Pesquisa da Universidade de Brasília
(CEP/UnB – Apêndice 04).
Por fim, as possibilidades metodológicas refletem os fundamentos teóricos de busca
continua de apreensão da realidade, do detour entre abstrato e concreto (KOSIK, 1976
[1963]), pela passagem da lógica formal, dos dados estatísticos e das confabulações
tautológicas, à lógica de razão dialética (LEFEBVRE, 1975 [1969]), num contínuo esforço de
apreender as ordens universais e particulares numa totalidade, onde o conhecimento
estruturado do mundo pressupõe movimento e uma dimensão de espaço geográfico que é
inseparavelmente a condição, o fator, o meio e o qualificado produto da história (SANTOS,
1977, 2012d [1996], 2012 [1978], 2012c [1978], 2013a [1978]). Sistematicamente, essa
totalidade é cindida em fragmentos, partes que juntas compõe uma unidade buscada pela tese,
a partir de um diálogo teórico na primeira parte, um esforço de cissiparidade do fenômeno
pela periodização histórico-estrutural desde a gênese nos primeiros capítulos até a atualidade
do objeto de tese nas partes finais, junto a retomada dos preceitos teóricos e às análises das
suas contradições e sínteses.
36
PASSOS DA PESQUISA
Parte 01 (cap. 01 e 02). Assume-se aqui uma visão de mundo que observa e percebe
pela ótica da Geografia, tanto enquanto ciência – como prática da existência – e o olhar da
geografia urbana – como uma unidade da Geografia – a possibilidade de abordagem acerca
das metrópoles, do patrimônio e das resistências de forma conjunta. No entanto, essa
resistência não é vista no patrimônio como um reflexo de forças contrárias ao sistema
produtivo e da ordem vertical denotada pelo fenômeno urbano, mas enquanto rugosidade
patrimonial, capaz de dinâmica e simultaneamente suprimir, superpor e acumular formasconteúdos. Ela se revela contraditoriamente como um elemento capaz de seletivamente
absorver os fluxos e os novos fixos do capital, ao mesmo tempo em que permite o resgate do
passado e uma possível reconversão dos espaços de memória segundo estratégias de
enfretamento e de realização social. Na trajetória de ampliação valorativa dos bens históricos
e elementos culturais, as cidades e as grandes metrópoles cumprem um papel espacial
diferenciado. São essas aglomerações, como grandes nódulos da rede mundial de
informações, na transmissão das técnicas e dos costumes, dos modos de vida e das relações
humanas de forma generalizada, que permitiram o alcance da Modernidade em todo planeta, e
que agora, metamorfoseada, ainda é capaz de nutrir a propagação e difusão da grande e
massificada cultura. Essa mesma cultura é a que rebate na patrimonialização, na consagração
hierárquica de espaços delimitados, de lugares e objetos selecionados para suplantarem
ideologias que, por vezes, colocam em xeque a autonomia de populações e territórios. O
combate e superação a essa seletividade espacial, produzida muitas vezes por falsas e/ou
fantasiosas narrativas em razão prática do setorialismo econômico da abordagem do
patrimônio em destacar paisagens, heróis, vilões e jecas, perpassa justamente a ampliação e
aceitação de outras vozes e olhares destoantes. Estas ações podem ser ratificadas por seus
habitantes como de fato um produto próprio, ou seja, dos sujeitos que a vivem, dos que ali
tanto trabalharam pela sua existência. Assim também, das inter-relações existentes em escalas
mais amplas, permitindo um pensamento crítico capaz de ver o espaço da metrópole enquanto
um todo patrimonial, um palimpsesto com diferentes atribuições de valores e memórias
coletivas entre os munícipes.
Parte 02 (cap. 03 e 04). Fundamentada pelos preceitos que acompanham o
desenvolvimento da pesquisa, esta parte da pesquisa trata da gênese das rugosidades
patrimoniais de Carapicuíba face ao processo de colonização do planalto paulistano nos
primórdios da formação territorial brasileira. Trata-se do avanço da teoria para a análise dos
37
fragmentos históricos e estruturais dos primeiros núcleos de assentamento, com notas
balizadoras das primeiras vilas, cidades e o apoio de unidades extraoficiais (destacadamente
os aldeamentos) responsáveis pela consolidação seminal de São Paulo. No caso dos
aldeamentos, sua interdependência com as centralidades coloniais, através das vilas principais
e a metrópole portuguesa, estabelecida basicamente pelas funções de trabalho compulsório e
estratégias militares de defesa. Os conteúdos são elos supressivos do modo de vida até então
estabelecido pelas sociedade pré-colombianas, cujos conteúdos passam a ser gradativamente
combatidos em favor da moral cristã, operada especialmente pelos jesuítas e outras ordens
religiosas ligadas à Igreja. As permanências residem fundamentalmente de superposições, da
adequação de rituais às necessidades de conversão no plano espiritual, ou nas formas
geográficas com a apropriação e ampliação de antigas rotas, caminhos e abrigos que perfazem
a interiorização do território americano. Pela extensão deste processo no tempo e pela
importância despendida ao período colonial das incipientes políticas patrimoniais brasileiras,
esta rugosidade patrimonial ganha uma narrativa mítica e fundacional que agrega todas as
etnias e relações que substanciam o sentido de nação, ideologicamente construída para o país.
Esta parte da pesquisa ainda revela a passagem do período colonial ao Brasil independente,
compreendendo as bases da formação do cinturão caipira, superposto e acumulado nestes
antigos espaços de exceção e litigiosos dos aldeamentos. O que conformaria e reproduziria
não apenas as formas, mas ainda parte das funções e conteúdos pretéritos, que no caso da
particularidade de Carapicuíba preservaria o antigo núcleo, suas formas mais basilares, do
mesmo modo algumas das tradições compreendidas de determinadas acumulações ou
superposições anteriores. Os limites do cinturão caipira são tencionados pela concretização
dos subúrbios com a expansão metropolitana e do tecido urbano de São Paulo, o que perfaz
uma dinâmica relativamente nova e acumulativa sobre os antigos núcleos do entorno,
fragmentando-os político-administrativamente e ordenando normativamente seus espaços
conforme os interesses ampliados do modo de produção em curso. O limite entre o período do
cinturão caipira e a consolidação suburbana de Carapicuíba (marcada pela sua emancipação),
no plano patrimonial é efetivada pelo tombamento federal da Aldeia (último conjunto
remanescente de ruinas jesuíticas dos aldeamentos em São Paulo), que reverberaria a um
movimento mais amplo em que se conformavam além do aldeamento, outros territórios
estratégicos à modernização tardia do país pela díade industrialização-urbanização
concentradas.
38
Parte 03 (cap. 05 e 06). Trata do desenvolvimento urbano-metropolitano em São
Paulo, tomando a passagem do subúrbio a periferia em Carapicuíba, cujo foco recai sobre as
rugosidades patrimoniais da Aldeia frente a esse processo. Além de discutir as atuais
dimensões conceituais de subúrbio e periferia na RMSP, verifica-se uma série de intervenções
realizadas, as políticas de preservação no âmbito nacional e em relação a particularidade do
aldeamento (rugosidade monumento), o planejamento urbano e os planos de gestão
metropolitanos (rugosidade-documento), além das contínuas tentativas de dinamização por
novas atividades produtivas no espaço da Aldeia (rugosidade-instrumento) e os conflitos
potencializados com a população moradora e do entorno. Nesta perspectiva, evidencia-se as
rugosidades patrimoniais da Aldeia de Carapicuíba frente a metropolização de São Paulo nos
limites entre a urbanização da sociedade e a urbanização dos territórios. Revela-se os limites
do drama cotidiano de viver na periferia de São Paulo e as possibilidades concretas de sua
superação. Condição esta que projeta a Aldeia e suas rugosidades em relação à cidade,
continuamente permeadas pelas contradições entre a preservação do conjunto arquitetônico e
o reconhecimento das tradições que resistem, junto às destruições decorrentes da
modernização perversa do território e do próprio fenômeno da patrimonialização.
39
PARTE 01
DIMENSÃO METROPOLITANA DO PATRIMÔNIO
CULTURAL ENQUANTO RUGUGOSIDADE
CAPÍTULO 01: Rugosidades patrimoniais
O espaço portanto é testemunho; ele testemunha um momento de um modo de
produção pela memória do espaço construído, das coisas fixadas na paisagem criada.
Assim o espaço é uma forma, uma forma durável, que não se desfaz paralelamente à
mudança de processos; ao contrário, alguns processos se adaptam às formas
preexistentes enquanto outros criam formas para se inserir dentro delas (Milton
Santos, 2012c [1978], p. 173)
Este capítulo avalia a noção de rugosidade espacial, ao estabelecer uma proposta
conceitual assentada na atual dinâmica da patrimonialização, a qual designa-se rugosidade
patrimonial, a partir do diálogo com Milton Santos. Este conceito foi basilar no entendimento
provisório das formas e conteúdos urbanos em núcleos históricos metropolizados ao longo de
todas as atividades de pesquisa. Trata-se de um esforço teórico que subsidia uma releitura de
espaços metropolitanos pela ótica das resistências locais frente a reprodução do capital, mas
também de suas adaptações e contradições para o desenvolvimento da vida no espaço urbanometropolitano. Neste sentido, acredita-se que as rugosidades patrimoniais podem melhor
apoiar este conhecimento, situando eventos e períodos de ocorrência dos fenômenos, a
abrangência de suas múltiplas escalas e determinações, tangenciando a discussão sobre os
processos de supressão, acumulação e superposição das formas e conteúdos espaciais. E, por
fim, dos sentidos e significados culturais das manifestações que hoje se estabelecem ou que
permanecem nestes mesmos lugares a longo tempo, mais especificamente, o papel dos
espaços de memória às demandas da tríade capital, Estado e mercado simultânea e
contraditoriamente, enveredando ao fortalecimento da oposição e da adaptabilidade do
próprio sistema às formas e conteúdos dos lugares.
40
1.1 Rugosidade: conceito geográfico para pensar o patrimônio cultural
Conceitos são generalizações que possuem propriedades suficientes de contribuírem
com a apreensão parcial e momentânea do real, sendo usados na resolução de problemas
práticos e questões diversas do cotidiano. São também relacionais e dinâmicos, ou seja,
podem sofrer incrementos ao longo do tempo que alteram o núcleo da teoria, ou de se
diluírem com o desuso ao longo do desenvolvimento científico. Apesar da discussão
conceitual anteceder na tese o resultado da empiria, este é continuamente retroalimentado
(para usarmos uma expressão caracteristicamente sistêmica) e estruturado conforme o
desenvolvimento da pesquisa. Tão logo, pois, finalizado o trabalho em torno de sua
composição final, a dinâmica dos fenômenos se altera, resultando a necessidade de novas
elaboração a partir da realidade então produzida. Em parte, como Becker (2008, p.146),
entende-se que “[...] desenvolver conceitos, porém, é um diálogo contínuo com os dados
empíricos. Como conceitos são maneiras de sumarizar dados, é importante que eles sejam
adaptados aos dados que vamos sumarizar.”
A respeito dos conceitos, pensando mais disciplinarmente no âmbito da Geografia,
Santos (2013a) advoga que para além da sua universalidade, quase sempre pensados e
importados dos países desenvolvidos centrais, estes tomem contornos particulares diante das
remotas realidades geográficas. Mas, sobretudo, que sejam repensados sobre a ótica dos fatos,
peculiares em cada unidade do sistema mundo. Reformulando-se, pois, não somente os
conceitos, mas as próprias teorias e metodologias da Geografia. Somente neste sentido, o
compasso entre as dinâmicas transformações sociais, sua análise e explicação poderão
alcançar a fugidia concreticidade do real. E, no limite, penetrar a esfera da práxis social e,
portanto, conciliar metabolicamente teoria e prática.
Antes de propriamente tratar da noção de rugosidade espacial, é necessário que se
esclareça algumas categorias do método geográfico utilizadas ao longo da pesquisa no sentido
de apreender os fenômenos da realidade social numa dimensão espacial. Esta nota é
necessária pelo uso contínuo de termos como espaço geográfico, formas, conteúdos, funções,
estrutura e processo. Assim, quando há referência ao termo espaço geográfico, significa que
ele traduz a ideia de um conjunto indissociável de sistemas de objetos e sistemas de ações
(SANTOS, 2006 [1996]). Portanto, uma instância complexa do social: um meio, uma
41
condição, mas também um substrato de todas as relações sociais. Em relação às categorias:
forma, função, processo e estrutura, cada uma possui características próprias, sendo, no
entanto, utilizadas sempre de forma conjunta, ou seja, de maneira simultânea e inseparada, já
que “para se compreender o espaço social em qualquer tempo, é fundamental tomar em
conjunto a forma, a função e a estrutura, como se tratasse de um conceito único” (SANTOS,
1985, p. 56), isso ainda com base no processo histórico de cada período ou recorte analisado
(OLIVEIRA; SILVA, 2009, p. 03).
A categoria forma, no contexto anteriormente citado, seria também uma categoria
desse todo, o visível, o objeto em si, o arranjo, por fim um padrão. Enquanto a função seria o
papel esperado de uma forma, sugerindo, portanto, uma tarefa a determinada coisa. E, enfim,
o tempo estaria representado pela categoria processo, num movimento dinâmico e comum
entre todas as outras categorias, para então conquistarmos a apreensão da realidade, por meio
da “totalidade concreta e dialética” do mundo. (SANTOS, 1985, p. 58). No que diz respeito à
categoria de estrutura, Perroux (1969, p. 371 apud SANTOS, 1985, p. 16) vai defini-la como
uma “rede de relações, uma série de proporções entre fluxos e estoques de unidades
elementares e de combinações objetivamente significativas dessas unidades”. Gurvitch (1971,
p. 112) versando sobre a questão da estrutura nas ciências sociais, esclarece o dinamismo de
processos atuantes que sempre a modificam conforme o período histórico, onde as estruturas
não são simplesmente “preestabelecidas”, pois “estão sujeitas a uma contínua recomposição,
porque o seu equilíbrio é precário”, jamais estão estáveis, em perfeita ordem; pelo contrário,
pressupõem um perpétuo movimento de estruturação, desestruturação e reestruturação, no
qual participam todos os elementos do fenômeno social total.
Buscando evidenciar a inseparabilidade entre espaço e sociedade, Santos (1985, p. 50)
esclarece que a estrutura “implica a inter-relação de todas as partes de um todo; o modo de
organização ou produção”. Portanto, a noção de totalidade (SANTOS, 2012a [2005]; 2006
[1996]) empregada deriva paralelamente do sentido de estrutura e mais genericamente das
perspectivas analíticas do processo de globalização. Abarca, pois, na Geografia a busca
filosófica matriz de apreender a dinâmica realidade em seu estado de fracionamento e
totalização, como na prática acerca das operações e adaptabilidades do modo de produção, das
divisões territoriais do trabalho, das formações econômicas e sociais, bem como do papel
destas diferentes partes numa contínua relação de transformações do todo. Pelo dinamismo
do real, da totalidade, as periodizações históricas tornam-se elementos centrais para a
compreensão de um dado momento ou a fração da totalidade. Mesmo fracionada, esta não
42
deve ser simplesmente tomada em separado da totalidade geográfica, o que implica a busca de
um método localizado, situado, em que se operam as forças do tempo, mas também a
instância social do espaço geográfico.
Neste sentido é que Santos (1985) defende a inseparabilidade analítica pelas categorias
supracitadas, pois conforme se aprofunda em cada uma delas a inevitabilidade de
sobreposições as tornam em uma só unidade complexa, porém objetivas e esclarecedoras.
Outra categoria importante para o desenvolvimento do conceito de rugosidade e,
posteriormente, de sua adjetivação patrimonial, reside nos conteúdos geográficos, ou nas
formas-conteúdos (SANTOS, 2012d [1996]). Conforme o autor citado, não se pode entender
uma dialética hierarquizada em “[...] estrutura (essência, totalidade nua), processo, função e
forma segundo um movimento linear, ou de maneira unívoca pois, de um lado, a estrutura
necessita da forma para tornar-se existência e, de outro, a forma-conteúdo tem um papel ativo
do todo social” (SANTOS, 2012d, p. 126). Portanto, essa forma-conteúdo, carregada de
símbolos e ideologias, exige apenas superar a oposição entre essência e aparência, mas
estimular o pensamento a confrontar essência e existência. Segundo o autor, “[...] a ideologia
é também essência, aparece como realidade e assim é vivida” e, “[...] a essência se transforma
em existência [...]. Deste modo, há objetos que já nascem como ideologia e como realidade ao
mesmo tempo. Nestas condições, a totalidade social é formada por mistos de realidade e
ideologia.” (SANTOS, 2012d, p. 127).
Tratar da realidade contemporânea é considerar os pressupostos categoriais
anteriormente sintetizados, mas também de conceitos auxiliares pensados por base destas
mesmas categorias. A esse preceito, em teoria, a noção de rugosidade espacial nada mais é
que uma forma-conteúdo. Carregada de símbolos e ideologias, a rugosidade possui relevância
quando são experimentadas intensamente por uma frenética busca pelas excepcionalidades,
monumentalidades e tantas razões que incluem a reprodução do modo de produção em
atividades diversas a elas associadas. Como teoria, contudo, não se trata ainda essencialmente
de um conceito, já que Milton Santos a utilizou mais como uma noção, um balizamento que,
de certa maneira, foi deixada de lado, quando no entendimento dos fluxos, será o conceito de
fixo que passará a tomar maiores esforços intelectivos dos geógrafos, destacadamente os
brasileiros.
No esforço inicial de Santos (2013a [1978]), a diferença entre fixos e rugosidades é
praticamente inexistente, no entanto sobressaindo em “por uma geografia nova...” (2012c
43
[1978]) uma dimensão mais substancial, mostrando desde o século dezenove como suas
premissas já se desenvolviam pelo materialismo histórico e dialético com Engels até mais
recentemente pelo espanhol M. Castells. No exterior, a terminologia rugosidade espacial não
converge com a reflexão de Santos (2012a; 2012c; 2012d [1996]; 2013b), ao se apresentar
numa perspectiva mais pragmática, ou seja, aplicada aos desígnios do planejamento e do
ordenamento territorial. Toma assim um outro sentido, uma matriz epistemológica que não
está compassada com a Geografia Crítica, mesmo que suas bases assentem-se na influência
francesa. No Brasil é utilizada de forma secundária nas análises geográficas, ligada
fundamentalmente ao legado de Milton Santos e que se conjuga enquanto formas espaciais
oriundas de múltiplos períodos de tempo. Este preceito vincula-se àquilo que o autor teorizou
do espaço como acumulação desigual de tempos históricos. Avança, contudo, em obras mais
recentes, para uma definição elaborada de rugosidades em relação aos fixos, atrelando a
primeira noção às dimensões categoriais do espaço geográfico e ligadas aos diferentes
contextos históricos, fundamentalmente às permanências espaciais individuais ou em
conjuntos (2012d)7.
Godoy (2004, p. 37) aponta que a busca de conceitos como os de rugosidade, ou mais
precisamente de “(des)construção”, é decorrente do “[...] processo de urbanização da
sociedade. As cidades, sobretudo as metrópoles, tornaram-se os lugares de experimentação de
um novo urbanismo e de uma nova estética arquitetônica.”. A dimensão strictu sensu de
rugosidade enquanto forma, amplia-se nas dimensões históricas de outras necessidades e
relações, constituindo-se particularidades materiais dos sonhos e desejos humanos, tanto
como da opressão e do medo. Torna-se, de fato, um elemento fundamental da particularidade
de grupos sociais, de seus modos de vida, da produção cultural e dos múltiplos simbolismos.
Buscados pela ciência, pelas artes e a filosofia, estas rugosidades despertam amplos
interesses, desde o entendimento e novas interpretações do passado, até o desenvolvimento de
novas atividades produtivas, como eventos culturais e celebrações religiosas. Esses objetos,
formas e conteúdos espaciais, transformados pelo trabalho social em diferentes fases e
regimes de tempo, comportam resíduos concretos dos modos de produção e da aventura
humana em sua existência, permitindo mostrar o dinamismo do tempo e espaço, sugerindo
7 No livro “A natureza do espaço” de 1996, Milton Santos define rugosidade como substrato de formas,
individuais ou conjuntas, que resultam das divisões de trabalho pretéritas e que pela acumulação, superposição e
supressão dos objetos geográficos implicam num espaço fator.
44
pensar as rugosidades como barreiras ou mesmo catalisadoras concretas dos projetos de
mundo. Assim também, revelar as diferenças, as desigualdades e aspectos contraditórios da
produção do espaço, materialmente sintetizados na cidade e escancarados nas metrópoles.
Esse objeto e essa realidade não são em si. Eles expressam sim, ao contrário, uma
atribuição coletiva de sentido (portanto social), que deriva de um princípio de
convenções. Este último traduz um acordo social implícito (muitas vezes
institucionalizado e territorializado) sobre valores coletivamente admitidos;
testemunha tácita de uma inegável identidade compartilhada. Para que haja
patrimônio, são necessários processos (sociais no sentido completo do termo) de
patrimonialização, sejam das modalidades bens precisos de transformação de um
objeto, de uma ideia, de um valor em sua dupla simbólica e distinguido, rarificado,
conservado, constituído de certa intemporalidade (mesmo se seja datado,
paradoxo?), cuidadosamente selecionado (DI MEO, 2014, p. 05).
Concluindo, a noção de rugosidade espacial aqui desenvolvida reside, em grande
medida, neste legado analítico-reflexivo de Milton Santos, fundamentada enquanto teoria e
conceito na realidade urbana contemporânea, em que as formas espaciais pretéritas
engendram a cada dia novos usos do território e que altera profundamente a dinâmica da vida
nas cidades em todo planeta. Conceitos como os de território, paisagem, região e lugar,
embasados pelas categorias do método geográfico (SANTOS, 1985) são basilares para a
apreensão das rugosidades, desde sua condição particular-universal, até os resultados atuais
que se dilatam em torno de sua institucionalização e as operações ideológicas e econômicas
mediadas pelas mesmas. Sua estruturação conceitual auxilia a compreender como as pretéritas
formas espaciais, das cidades coloniais, ou mais especificamente de primitivos núcleos de
aglomeração como os aldeamentos, se desenvolveram, transformando-se em grandes regiões
metropolitanas na atualidade. Metodologicamente, apoiam e explicam como as permanências
concretas e intangíveis resistiram às modernizações e a própria Modernidade, resultando hoje
num atrativo monumental e excepcional do patrimônio cultural, assim também em unidades
de coesão e relações de pertencimento dos grupos sociais relacionados aos seus territórios.
Mais que as dimensões valorativas e significantes dos objetos técnicos, a rugosidade
patrimonial permeia a própria noção de exuberância e permanência da natureza, enquanto
novo desígnio categorial da cultura, porém traduzida pelo patrimônio natural (PAES, 2001;
SCIFONI, 2006; COSTA et al., 2015).
45
1.2 Rugosidade patrimonial: o caminhar do conceito entre teoria e prática
Há necessidade, pois, de avançar sobre a noção de rugosidade espacial, visando
estabelecer uma sistematização a priori e mais conjectural do fato analisado, assim como
analisar e explicar uma realidade diferenciada dos contextos em que essa noção foi pensada,
mas que continua dinamicamente a se desenvolver. A noção de “rugosidade” que permanece
ou que relativamente resiste, ao ser adjetivada pelo termo “patrimonial” – uma teoria, uma
narrativa e uma prática social – converte-se em possível conceito estruturante. Logo, a
rugosidade, uma noção particularizada da produção geográfica, ainda esparsa, carregada de
sobreposições, seria capaz de incluir continuações calcadas nas bases materiais dos objetos
técnicos processados, como também dos elementos simbólicos e culturais manifestados pelas
tradições e modos de vida locais. Contudo, a leitura da noção de rugosidade tende a ser
ampliada, sob a dimensão histórica de natureza e sociedade (LEFÈBVRE, 1975; 1979;
SMITH, 1984a; 1984b), em que os desígnios da patrimonialização inserem-se como parte da
lógica da produção espacial contemporânea.
Portanto, além de compreender os contextos e regimes de tempo, a rugosidade
patrimonial enquanto conceito permearia o plano material das formas, como de suas funções
práticas e, fundamentalmente, seus conteúdos pretéritos e contemporâneos. Como as
paisagens, as rugosidades patrimoniais, ainda mais acentuadas pela normatização ou
reconhecimento coletivo de seu valor histórico e cultural, expressam-se materialmente como
mecanismos de persuasão e reprodução das relações sociais. Ora pelo papel alegórico
difundido pela agregação de uma identidade, ora pelas narrativas associadas aos desígnios dos
mitos fundadores, como pelos interesses estratégicos dos poderes ligados à produção do
espaço urbano. Neste caso, as rugosidades patrimoniais acentuam os significados das
paisagens, revelando além dos simbolismos e a intertextualidade da produção escrita (narrada)
e a da concretude dos bens, confirmam da mesma maneira as disputas, conflitos e
contradições do espaço geográfico estabelecidos em relação às instâncias políticas e culturais
em torno do poder (DUNCAN, 2004).
Pela revisão de literatura e contínuo diálogo com especialistas brasileiros, o sentido de
rugosidade espacial pode ser traduzida por uma noção referencial de barreira, ou seja,
independentemente da matriz filosófica de pensamento, da disciplina, ou do método
científico, a terminologia é sempre empregada no sentido de resistência, como obstáculo,
empecilho, ou até mesmo distância. Essa noção ainda é ajustável ao contexto dos limites entre
46
o natural, quanto ao cultural, nos meandros dicotômicos e especializados que as disciplinas e
suas subáreas tomaram no decorrer dos anos. Observa-se no levantamento, desde os estudos
franceses de modelos urbanos, como os de Cécile Helle (1993), ligados às teorias de
centralidade inspiradas em Thünen e Christaller (e sob influência de geógrafos como Berry e
Haggett), quanto estudos de climatologia aplicada e de sistemas de informações geográficas
(PENEAU,1996). Com Milton Santos (2013a [1978]), a noção de rugosidade orginalmente
empregada à Geografia como possibilidade analítica de fenômenos contemporâneos dos fatos
sociais. Estes, imbricados em temas que vão das desigualdades econômico-sociais, dos
processos históricos de formação territorial e, atualmente, ligadas ao temário do patrimônio
cultural.
Na língua inglesa, a noção mais próxima identificada refere-se a surface roughness,
utilizada com maior propriedade pela engenharia de materiais para fins diversos, sobretudo a
relação do atrito e resistência dos materiais entre superfícies. Na língua francesa, além da
associação do termo às ciências e engenharias dos materiais, na Geografia aparece
normalmente expressa por rugosité de l'espace, ou seja, adjetivada pelo termo espacial
(PENEAU,1996). Portanto, a rugosidade, na sua acepção matriz, continua derivando da
condição de resistência. Esta condição, no entanto, se estabelece como espaço ou objeto
absoluto, tomado pelas condições exclusivas do modelado natural ou cultural dos artefatos.
Ou seja, observa-se que sua atribuição conceitual está imersa no sentido espacial neokantiano
apriorístico de ambiente e sociedade, num viés em que tempo e espaço são segregados em
polos distintos de análise. Outro fato comum é o caráter usual do conceito no planejamento
urbano e regional, considerando os elementos naturais, técnicos e culturais aos projetos e
indicadores de resistência, pragmaticamente atendendo certas demandas sociais, mas sem
necessariamente realizar uma análise destas unidades para além dos modelos resultantes. No
Geografia brasileira, no entanto, a noção é mais comum, utilizada justamente nas
periodizações e análise das temporalidades materializadas nas paisagens em razão de uma
tradição inspirada nas obras de Santos (1977, 2012d [1996], 2012 [1978], 2012c [1978]).
Nos termos da Geografia, deduz-se, já que não há qualquer referência mais precisa do
uso da noção, que a rugosidade espacial foi uma expressão inicialmente utilizada por Jean
Tricart, para a descrição de aspectos visíveis da natureza. Ao menos é a direção dada por
Santos (2013a [1978]), quando dedica uma dimensão de espaço geográfico mais ampla, ligada
47
às formas, mas também aos seus conteúdos. Ao fazer isso, critica os geógrafos que se apegam
apenas ao espaço absoluto8, das formas, ou “[...] apelam frequentemente para a noção de
rugosidades do espaço” (2013a [1978], p. 72). Pois segundo ele, a rugosidade espacial deveria
ser considerada como elemento fixo, cuja condição é relativa às funções e conteúdos de uma
dada estrutura social, sobressaindo a instância econômica e as dimensões inertes dos objetos
(rugosidades, fixos) e dinâmicas do espaço geográfico (fluxos de pessoas, mercadorias,
informações). A expressão em especial, no entanto, não é referenciada a nenhum autor ou
literatura específica em toda obra de Milton Santos, a não ser em “O Trabalho do Geógrafo no
Terceiro Mundo” (2013a [1978]), onde se refere ao geógrafo francês Jean Tricart.
[...] Expressão criada por Tricart para a geomorfologia no intuito de mostrar como,
tendo o passado geográfico e histórico modelado paisagens diferentes, tudo o que
nelas se superpõe não pode ser indiferente a essa aquisição. É a isso que os
geógrafos chamam espaço ‘espaço concreto’, como para opô-lo ao dos economistas,
considerado ‘espaço abstrato’. Ora, ‘se o espaço econômico não é o espaço concreto
preenchido pelas relações econômicas’, parece natural que os geógrafos
reivindiquem o estudo dessa forma de espaço [...] (SANTOS, 2013a, p. 72).
Na continuação da obra (2013a), no capítulo dedicado aos “fluxos e rugosidades”,
expõe o papel da rugosidade enquanto forma espacial e dos fluxos como movimento. Ao
tratar da materialidade e do movimento, Tavares e Silva (2011) explicam que é nesta obra que
“[...] a concepção de espaço que será amplamente desenvolvida [...], tanto é assim que o autor
intitula uma seção do 9º capítulo de ‘fluxos e rugosidades’, no qual traz à tona a importância
do movimento e da materialidade para a análise do espaço geográfico.” (TAVARES; SILVA,
2011, p. 145). No entanto, nas obras futuras a atenção dada a noção de rugosidade espacial se
dilata na de fixos, sendo melhor retomada em “Por uma Geografia Nova...” (2012c [1978]) e
com maior profundidade em “A Natureza do Espaço” (2012d [1996]). Nesse transcorrer, o
8 O conceito de espaço é, sem dúvida, um dos mais polêmicos na ciência contemporânea. Na Geografia,
buscando a natureza do espaço para entender processos urbanos sob a égide do modo de produção capitalista, D.
Harvey (2006) estabelece três categorias de espaços: absoluto, relativo e relacional, que juntos podem servir aos
diferentes propósitos de compreensão dos fenômenos geográficos contemporâneos. “Se considerarmos o espaço
como absoluto ele se torna uma ‘coisa em si mesma’, com uma existência independente da matéria. Ele possui
então uma estrutura que podemos usar para classificar ou distinguir fenômenos. A concepção de espaço relativo
propõe que ele seja compreendido como uma relação entre objetos que existe pelo próprio fato dos objetos
existirem e se relacionarem. Existe outro sentido em que o espaço pode ser concebido como relativo e eu
proponho chamá-lo espaço relacional – espaço considerado, à maneira de Leibniz, como estando contido em
objetos, no sentido de que um objeto pode ser considerado como existindo somente na medida em que contém e
representa em si mesmo as relações com outros objetos.” (HARVEY, 2006, p. 10).
48
espaço geográfico, tem nas rugosidades uma síntese do tempo cuja paisagem revela. “A partir
da noção de espaço como um conjunto indissociável de sistemas de objetos e sistemas de
ações podemos reconhecer suas categorias analíticas internas. Entre elas, estão a paisagem, a
configuração territorial, a divisão territorial do trabalho, o espaço produzido ou produtivo, as
rugosidades e as formas-conteúdo” (SANTOS, 2012d, p. 12-13). Evidencia-se, pois, que a
noção de rugosidade está situada pelo autor à mesma importância de categorias como a
paisagem, ou a divisão territorial do trabalho. Todavia, a particularidade da noção reside na
carga histórica dos objetos nela organizados, enquanto formas do passado que se fazem atuais
no presente, mas que revelam as distintas divisões do trabalho pretérito, bem como as técnicas
utilizadas e seus resultados.
Os modos de produção se realizam por intermédio dos meios de produção, cuja
longevidade, porém, só é conhecida a posteriori; porém, essa duração pode
ultrapassar a um ou vários momentos do modo de produção ou até mesmo a duração
total do modo de produção [...]. Os modos de produção cedem lugar a outros, os
momentos de cada modo se sucedem enquanto os objetos sociais por eles criados
continuam firmes, e muitas vezes com uma função na produção (SANTOS, 2012c
[1978], p. 174).
Chamemos rugosidade ao que fica do passado como forma, espaço construído,
paisagem, o que resta do processo de supressão, acumulação, superposição, com que
as coisas se substituem e acumulam em todos os lugares. As rugosidades se
apresentam como formas isoladas ou como arranjos. É dessa forma que elas são uma
parte desse espaço-fator. Ainda que sem tradução imediata, as rugosidades nos
trazem os restos de divisões do trabalho já passadas (todas as escalas da divisão do
trabalho), os restos dos tipos de capital utilizados e suas combinações técnicas e
sociais com o trabalho (SANTOS, 2012d [1996], p. 91-92).
Santos (1996, p. 140) ainda lembra que “em cada lugar, pois, o tempo atual se defronta
com o tempo passado, cristalizado em formas. Para o tempo atual, os restos do passado
constituem aquela espécie de ‘escravidão das circunstâncias anteriores’ de que falava John
Stuart Mill”. De tal maneira que o trabalho passado condiciona portanto o trabalho presente,
cujas heranças compõem uma complexa teia de propósitos funcionais de nossos antepassados,
afora as técnicas conjugadas na produção do espaço e os usos estabelecidos nos mais diversos
regimes de tempo. “É nesse sentido que falamos da inércia dinâmica do espaço [...].”
(SANTOS, 1985; 2012d, p. 140) – ou seja, uma força territorial que congrega neste caso da
acumulação formas do passado e presente numa totalidade.
49
O meio ambiente construído constitui um património que não se pode deixar de
levar em conta, já que tem um papel na localização dos eventos atuais. Desse modo,
o meio ambiente construído se contrapõe aos dados puramente sociais da divisão do
trabalho. Esses conjuntos de formas ali estão à espera, prontos para eventualmente
exercer funções, ainda que limitadas por sua própria estrutura. O trabalho já feito se
impõe sobre o trabalho a fazer. A atual repartição territorial do trabalho repousa
sobre as divisões territoriais do trabalho anteriores. E a divisão social do trabalho
não pode ser explicada sem a explicação da divisão territorial do trabalho, que
depende, ela própria, das formas geográficas herdadas (SANTOS, 2012d [1996], p.
141).
Para Corrêa (1995), o processo de inércia e áreas cristalizadas depende
simultaneamente da permanência dos usos e formas, diferenciando-se das rugosidades
patrimoniais, que comportariam novas funções e usos territoriais das formas geográficas. No
limite, as rugosidades extravasam a necessidade de permanência até mesmo das formas
geográficas. Importa destacar, portanto, a relevância destes conceitos no atual período
histórico, em que a permeabilidade do capital em antigas áreas está dinamicamente a suprimir,
acumular e superpor formas geográficas com outras funções e formas diante dos novos
conteúdos travados e incorporados pela sociedade. Em verdade, o fato da rugosidade estar
atrelada às formas pretéritas e acumuladas no presente, a torna um conceito central para os
estudos da Geografia histórica, cultural e urbana. Para Godoy (2004), o sentido de rugosidade
remete a definição de “[...] formas espaciais do passado, produzidas em momentos distintos
do modo de produção e, portanto, com características sócio-culturais específicas. [...]
Constituem-se em paisagens técnicas que podem ser periodizadas segundo o desenvolvimento
do modo de produção ao longo do tempo histórico”. Ainda segundo ele, ao refletir acerca da
noção de produção do espaço, o conceito de rugosidade espacial pode ser encontrado sob
diferentes perspectivas na literatura desde o século dezenove, se tratando basicamente das
heranças espaciais constituídas em diferentes tempos do processo histórico (GODOY, 2014).
50
1.3 Categorias analíticas da rugosidade patrimonial: supressão, acumulação e
superposição
Por ser visível, como as marcas do uso nos objetos, ou da idade no rosto dos sujeitos,
as rugas além de fundamento da experiência vivida, ou do desgaste às distintas resistências,
podem ser mecanismos metodológicos que nos permitem apreender diversos fenômenos,
como ao da atual urbanização, a valorização e desenvolvimento produtivo das áreas citadinas
de relevante carga patrimonial, assim como os movimentos e ações que imprimem outras
lógicas sobre aquelas hegemônicas. Neste sentido, o modelo seguinte (Figura 01), mostra uma
das facetas do conceito de rugosidade, a partir das materialidades das formas. Já que, como
tratado anteriormente, compreende-se que as rugosidades não estão restritas apenas aos
elementos fixos de diferentes contextos históricos, mas também à memória e às subjetividades
do plano simbólico que as mesmas despertam. Em todos os casos ilustrados, as forças
verticais da urbanização exercem pressões diferenciadas, seletivas e adequadas ao contexto e
à própria realidade dos territórios.
Contribuição do conceito de rugosidade espacial na apreensão do fenômeno urbano
Figura 01: Elementos da paisagem traduzidos pelo conceito de rugosidade espacial assumem novas funções e
significados por meio de processos como a da supressão, acumulação e superposição das formas geográficas. Os
bens materiais mais expressivos destes grupos podem representar resistências territoriais expressivas às
imposições verticais ligadas a interesses alheios ao desenvolvimento local.
Fonte: Santos (1977, 2012d [1996], 2012 [1978], 2012c [1978], 2013a [1978]). Elaborado pelo autor, 2015.
51
Reside na análise do modelo algumas questões teóricas centrais em relação à
rugosidade proposta por Santos (2013a [1978]) daquelas tratadas nestas laudas. Enquanto
elementos materiais, a demonstração baseada nas ideias de Santos (1977, 2012d [1996], 2012
[1978], 2013a [1978]) sobre a permanência das formas torna-se no caso da supressão um dos
pontos principais. Justamente, ao ser eliminada (simples sinônimo de suprimida), resulta no
esquecimento, na não-permanência. No entanto, a supressão pode ser efetivada em dois
planos principais: o primeiro pela destruição das formas, cuja extinção material não
significará determinantemente o esquecimento de suas funções e usos pretéritos; o segundo,
por preservação ou conservação das formas (menor complexidade de modelagem), que pode
não ser suficiente para a lembrança, ou a um efetivo uso contemporâneo. Destes planos,
podem desdobrar-se outros, mas todos eles estarão ligados às implicações dinâmicas de
experiências com espaços e conteúdos espaciais que permanecem ou não.
Ainda que dinâmicas, as rugosidades devem oferecer certa barreira às modernizações,
ou mesmo ao próprio movimento histórico do esquecimento e da efemeridade temporal. De
fato, a supressão das formas nem sempre é concretizada sem haver tensões, conflitos e até
lutas pela sua destruição, conservação ou preservação. E mesmo que suprimida, ou
parcialmente destruída – como evidencia a Figura 02 seguinte – a forma só será mesmo uma
rugosidade quando esta permanecer presente num dado local, ou atual na memória coletiva e
nacional.
Rugosidade como resultado da supressão parcial das formas espaciais – Barra Funda em São Paulo
Figura 02: No caso da cidade de São Paulo as antigas olarias e fábricas localizadas em áreas estratégicas e
centrais da capital passam a ter funções cada vez mais habitacionais, sobretudo em sistemas condominiais, e que
se apropriam esteticamente das rugosidades espaciais. No caso, a antiga chaminé preservada representa um
fragmento da estrutura produtiva suprimida. Se agrega valor estético-arquitetônico à construção pós-moderna em
relação aos incorporadores, agentes imobiliários e consumidores, para seus antigos trabalhadores é um marco de
vidas dedicadas à construção da metrópole, agora à (des)construção num movimento contínuo e dinâmico de
reestruturação do espaço geográfico. Fonte: Foto do autor, 2013.
52
A supressão é categoria estruturante do conceito de rugosidade patrimonial. Na
entidade metropolitana, o caso de Carapicuíba é emblemático. Primeiro pela ausência, do qual
o campo da boiada e as relações de trabalho pretéritas, encontram-se apenas na memória
coletiva, já que esses espaços foram extintos para o uso na construção das COHAB’s, do
parque dos Paturis e áreas residenciais e comerciais adjacentes ao centro da cidade. Nos
relatos colhidos, nos diálogos desenvolvidos, nas profundezas das lembranças dos moradores,
emergem memórias das funções desempenhadas com a lide pecuária, desde a criação, o abate,
até o transporte ao centro metropolitano e região, além das relações estabelecidas ao longo de
todo este percurso produtivo. Recordam-se dos espaços ocupados pelos frigoríficos,
matadouros e de organização da boiada nos limites de Osasco. Das atividades desempenhadas
pelos familiares, amigos e compadres em cada um desses espaços. Do mesmo modo, ressoam
estórias anedóticas das peripécias e aventuras, de um passado vivo e presente na memória de
muitos moradores. Estas conversas não estão restritas apenas aos velhos moradores, ainda que
se destaquem. Fica então estabelecida uma dimensão de rugosidade sem que esta exista ou
não plenamente em sua integralidade material. Pode, no entanto, ser transmitida às gerações
vindouras que nunca as presenciaram, ou simplesmente as viram ilustradas por meios
imagéticos, textuais, ou pela transmissão de narrativas orais.
O segundo embasamento que pressupõe a supressão da rugosidade patrimonial se
estabelece na presença, parcial ou integral, das formas geográficas. Sem dúvida, estas mantém
mais vivas as recordações e referências simbólicas da cidade. O que não impede,
necessariamente, que as antigas práticas sejam abandonadas, banalizadas e incompatibilizadas
pelas condições modernas. Neste caso, a veemência das formas, pujantes de restauros e
proteções contínuas, como é o caso da Aldeia, podem perder paulatinamente seus conteúdos
pretéritos, dados desde a dessacralização do espaço, até mesmo pela função de habitar e viver
cotidianamente naquele lugar. No caso da presença de certos fragmentos, essas condições são
ainda mais efetivas na passagem da rugosidade à qualidade de patrimônio, pois potencializam
e aguçam os meios interpretativos da realidade. E, como tal, as relações com os elementos são
diferenciadas e tão complexas quanto as subjetividades emersas nas emoções de cada ser
humano. Em verdade, compreendendo que todas as organizações espaciais cujas rugosidades
estejam contidas, mesmo as rugosidades suprimidas revelam algum nível de resistência, onde
suas condições devem ser particularizadas, exploradas qualitativamente e compreendidas a
partir de questionamentos menos ortodoxos e determinísticos da realidade social – lembrando
sempre que os bens culturais não possuem valor semelhante a todos os sujeitos, grupos ou
53
classes sociais9. Do mesmo modo, a apropriação das formas geográficas não é realizada
apenas pelo privilégio exclusivo e privado do solo urbano, principalmente no que se refere às
rugosidades patrimoniais tombadas. Os conflitos neste caso são ainda mais complexos, pois
envolvem interesses diretos do Estado a partir de um bem privado tornado público.
O segundo esquema de organização das rugosidades tratado por Santos (2012d [1996])
é dado pelo processo de acumulação das formas espaciais. A acumulação aqui tratada implica
num mosaico heterogêneo de ambientes construídos e de funções desempenhadas. Esta
característica, apesar de trazer a diversidade de contextos, de técnicas e de intervenções
realizadas histórica e geograficamente pelo trabalho social, ao longo da política institucional
do patrimônio, tornou-se um componente negativo. Portanto, capaz nesta lógica de subtrair a
excepcionalidade e consistência homogênea do conjunto, sobretudo pela depreciação do
convívio das rugosidades com novos elementos modernizantes, constituintes de paisagens
atuais. No entanto, contraditoriamente, a própria condição de reprodutibilidade técnica
(BENJAMIN, 1985) destas rugosidades patrimoniais para a contemplação atual, enxerta
novos materiais e simula atividades que, de fato, nunca existiram realmente.
A acumulação das rugosidades patrimoniais não deve ser pensada separadamente da
supressão. Para que haja acumulação deve haver supressão, senão das formas, dos próprios
conteúdos. Ao agregarem antigas estruturas que resistiram ao tempo, ou unidades pretéritas de
paisagens, bem como suas funções diversificadas, há acumulação de formas-conteúdos que se
arranjam no ambiente atual das cidades ou do campo. Em ambientes fabris pré-industriais são
muitos os casos da instalação de academias, supermercados, centros culturais modernos que
se organizam por bases destas formas antigas. É nesta premissa teórica que melhor se revela a
acumulação desigual de tempos (SANTOS, 2012d [1996]). Permeados, por sua vez, por
conflitos ou tensões, já que são inerentes ao processo de reestruturação do espaço.
Observações da Cidade do Panamá (Figura 03), revelam aos olhos na mesma orla marítima a
convivência dos telhados e antigos sobrados coloniais do casco antíguo com outro plano que
desponta no skyline a capital moderna, verticalizada e de ampla fluidez econômica pela
centralidade regional que ocupa. Trata-se da co-presença, acumulada, de contextos distintos,
cristalizados numa mesma cidade. No caso de Carapicuíba esta acumulação desigual de tempo
9 Mesmo diante das fetichizações por qual passa o espaço, do qual compete um certo nível de padronização da
cultura, tornando-se uma espécie de commoditie (HARVEY, 2005) e com grande potencial de reificação, as
relações com os bens e a cidade são diferentes e complexas às generalizações abstratas que as ciências tentam
agrupar.
54
se perpetua tanto na escala do intra-urbano, como regionalmente, considerando sua integração
da malha urbana com Osasco e Barueri. Neste caso, esboçando uma paisagem tipicamente
popular, de habitações dos trabalhadores, periférica e horizontalizada, frente aos edifícios
empresariais de Barueri e Alphaville na Região Metropolitana de São Paulo (Figura 04).
Rugosidade como resultado da acumulação e co-presença das formas espaciais – Cidade do Panamá
Figura 03: Skyline ao entardecer da Cidade do Panamá 2011. Em primeiro plano, permanência dos edifícios
coloniais. Antiga estrutura construtiva à direita com grandes cascalhos, rochas e inúmeras partículas orgânicosedimentares assentadas para dar liga aos materiais. Fato que, segundo relato de seus moradores, fez com que
muitas construções resistissem aos sismos e conflitos naquela área e que hoje atraem muitos turistas e diversas
atividades culturais no local. No segundo plano, ao alto da imagem, a moderna região financeira e comercial do
Panamá, com sofisticados segmentos de serviços, cuja as transações são facilitadas pela dolarização monetária
de sua economia. Fonte: Foto do autor, 2011.
Entre passado e presente, riqueza e pobreza, o viver e o trabalhar nos limites de São Paulo
Figura 04: Limite entre as cidades de Carapicuíba (habitações abaixo) e Barueri/Alpaville (edifícios acima),
zona oeste da Região Metropolitana de São Paulo (RMSP). As diferenças entre as formas revelam diferentes
conteúdos e modernizações da metrópole no século vinte e um.
Fonte: Foto do autor, 2014.
55
A terceira categoria, apontada por Santos (2012d [1996]), usada para pensar e alicerçar
o conceito de rugosidade patrimonial é a superposição das formas e conteúdos geográficos,
ou seja, o resultado agregado de um dado conjunto material e adaptável no âmbito intangível
às vivências e novas relações produtivas em diferentes contextos. No séculos de
assentamento, os caminhos indígenas foram continuamente utilizados e apropriados pelos
colonizadores em todo território da América Latina. Estes caminhos foram estratégicos,
marcaram pontos nodais das aldeias, aldeamentos, missões, reduções, vilas e cidades
(PETRONE, 1955; 1995). Depois, foram superpostos pelos trilhos da ferrovia, que
enveredavam as pioneiras fazendas no sertão (MONBEIG, 1998) e alcançado as atuais
rodovias que conectam cidades e metrópoles (AZEVEDO, 1958; LANGENBUCH, 1971;
SANTOS, 2013b [1993]). Apesar das contínuas modernizações operadas (alterando as
rústicas trilhas seculares, batidas pelos pés descalços), as funções essenciais de deslocamento
e o própria localização do traçado permanecem cristalizados. As categorias de função e
conteúdo, neste momento, relevam importantes diferenças. No primeiro caso permanece a
mobilidade e o deslocamento, no segundo as razões passam a ser outras do contexto précolombiano e colonial. Se no entanto, os conteúdos foram radicalmente alterados entre este
encontro de mundos, o mesmo fenômeno já não será tão profundo até, pelo menos, a efetiva
urbanização dos territórios na segunda metade do século vinte.
Ainda sobre a superposição trata-se do edifício da Sociedade Italiana de Rio Claro, na
região de Campinas, interior de São Paulo. Sua sede fundada início do século vinte, apoiou a
organização dos imigrantes que chegavam ao país e região. Serviu como espaço de apoio e
estabelecimento de diversas relações destes grupos. No século vinte e um, no entanto, a sede
foi parcialmente demolida, sendo superposto no seu terreno um arranha-céus com funções de
alojar modernos escritórios empresarias, que nenhuma relação direta possui com aquela
matriz fundadora (Figura 05). A fachada antiga do edifício, no entanto, permanece totalmente
revitalizada. A superposição do arranha-céus de concreto e aço, trás no conjunto uma fachada
secular do tipo neoclássica. Neste caso, a superposição é dada entre diferentes formas e
conteúdos simultaneamente. Em Carapicuíba, as formas do aldeamento jesuítico
permaneceram entre a formação do subúrbio e periferização, por sua vez atendo sobreposição
de diferentes atividades e funções, que foram de habitação, comércio, serviços e usos
institucionais do território.
56
Rugosidade como resultado da superposição de formas espaciais
Figura 05: No detalhe, à esquerda fachada do Edifício da Sociedade Italiana em Rio Claro – com os grandes
edifícios ao fundo, localizados na zona central da cidade, na rua 04. Na imagem à direita perspectiva do edifício
sede atual da Sociedade Italiana e a pequena fachada secular à frente.
Fonte: Fotos do autor, 2011.
As pressões de supressão, acumulação e superposição se desenvolvem, por exemplo,
através de normatizações, como a regularização do uso do solo urbano, que tenciona as
ocupações ilegais, pressionando os moradores e forçando sua adequação aos dinâmicos fluxos
operados pelas empresas imobiliárias. Ou mesmo áreas tradicionais de classe média, em que o
processo de gentrificação (SMITH, 2006) faz com que se efetive uma transformação das
formas e conteúdos do lugar. Ilustrativa também é a valorização de áreas verdes nos centros
metropolitanos. O inchaço das cidades, a escassez de espaços verdes e a necessidade de
qualidade de vida associada à salubridade ambiental, fazem com que a busca pela natureza na
metrópole se acentue. Neste caso, os últimos redutos naturais da cidade ganham centralidade
dos agentes imobiliários, gestores públicos e das classes sociais capazes de financiar novos
condomínios, loteamentos ou parques que incorporem os benefícios das áreas verdes urbanas
à sua vida cotidiana. Agrava-se, no entanto, os conflitos em torno destes últimos redutos,
verdadeiros enclaves urbanos. Estes vão desde a desocupação de moradias irregulares – cuja
justificativa se assenta na preservação dos recursos naturais: mananciais, matas ciliares, fauna
– até a contravenção dos sentidos em que as próprias leis foram concebidas, como na
metrópole de Brasília, onde a expansão dos habitações luxuosas se estendem irregularmente
ao lago Paranoá. De fato, os agentes interessados possuem mecanismos burocráticos a seu
57
favor, ainda que a contradição possa se estabelecer, como a presença do patrimônio cultural
instituído, emerge enquanto uma condição de acesso e desfrute desigual. Em Carapicuíba, as
Unidades Informações Territoriais (UIT’s-EMPLASA) da Aldeia e Fazendinha concentram a
maior parte de áreas verdes do município, assim como a população de maior renda relativa,
sendo instalado em 2011 o condomínio de Alphaville na região (Figura 06), suprimindo
grande parte de um remanescente de mata atlântica e se apropriando de forma privada do que
restou.
Instalação do condomínio Alphaville em Carapicuíba (2011-2014)
Figura 06: Um dos últimos redutos de natureza em Carapicuíba foi transformado em 2011 na sede do
condomínio Alphaville (foto à esquerda). No detalhe, pequenos fragmentos ainda permanecem como bosques e
são utilizados atrativamente para agregar valor ao projeto. Em meio a uma série de disputas judiciais entre a
população local e os incorporadores imobiliários do condomínio, a área foi reduzida e apropriada pela rede
Alphaville. Observa-se em 2014 as instalações completas ao sul de Carapicuíba e casas construídas (foto à
direita).
Fonte: Foto à esquerda do Movimento em Defesa da Granja Viana, 2011. Foto à direita do autor, 2014.
O caso da natureza na cidade é emblemático, apresentando-se segundo um sistema de
ideias e símbolos que permite a própria reprodução do capital com valores agregados, além de
justificar certas condições de um padrão ou qualidade de vida a ela associados. Como no caso
do Alphaville em Carapicuíba, em que ao mesmo tempo a maior parte destes redutos naturais
foram devastados, pequenos fragmentos estão esteticamente dispostos e valorizam o
empreendimento na área, o que segundo Henrique (2004, p. 04) seria “uma natureza
carregada de ideologia que não mostra toda a história da sua construção social [...]”. Junto à
natureza associam-se modelos de família, de habitar e viver. Portanto, além de mero fixo, a
noção de rugosidade expressa esses momentos distintos que agora se integram a uma narrativa
e ações calcadas nas teorias patrimoniais que vão da natureza à cultura, mas principalmente
no processo de patrimonialização que vincula os objetos ao Estado-nação, ao mercado e às
múltiplas identidades coletivas.
A rugosidade patrimonial, em seu arranjo espacial absoluto mais complexo (como
conjuntos de construções, núcleos urbanos, metrópoles inteiras e grandes parques naturais),
58
ou isoladamente (monumentos, obras de arte, construções diversas), ou ainda como
pressupomos a sua imaterialidade (as festas, ritos, costumes e o saber-fazer) é peça-chave para
uma consciência mais integrada e relacional do presente em relação ao passado e futuro, ou
como discorre D. Lowenthal (1998, p. 65), uma “consciência do passado como um âmbito
que coexiste com o presente ao mesmo tempo que se distingue dele. [...] Mas união e
separação estão em contínua tensão; o passado precisa ser sentido tanto como parte do
presente quanto separado dele”. E, afinal, como sugere Santos (2012d), as rugosidades não
limitam-se tão somente aos recursos materiais, sendo substrato capaz de rebater e impelir o
alargamento de contextos, já que “[...] as condições preexistentes em cada lugar, o seu estoque
de recursos, materiais ou não, e de organização - essas rugosidades - constituem as
coordenadas que orientam as novas ações.” (SANTOS, 2012d [1996], p. 203 – grifo nosso).
Essas ações podem se tornar mais evidentes com as diferenciações valorativas de
territórios e objetos culturais por políticas e práticas patrimoniais, que devidamente
esmiuçadas pela análise crítica trazem outros conteúdos além daqueles narrados oficialmente.
As rugosidades, pela análise dos objetos e seus conjuntos técnicos, produtos do trabalho ou
das significações dadas à natureza, permitem a apreensão dos diferentes sistemas técnicos e
do trabalho social cristalizados espacialmente ao longo do tempo histórico. Nesse processo, o
espaço é e sempre foi atuante e não simples receptáculo físico ou palco na produção da cidade
e do urbano. Como categoria do social, é o espaço geográfico condição do desenvolvimento
dos mais controversos projetos humanos.
Ao tratar da “totalidade do diabo”, de como as formas geográficas difundem o capital,
Milton Santos (1977) mostrou o quanto os objetos geográficos são instrumentais às
transformações nas estruturas sociais. Apresentando nesta perspectiva o poder das
modernizações nos países subdesenvolvidos, como tentáculos dos interesses internacionais,
ora no meio rural pela revolução verde, ora no urbano – lembrando casos emblemáticos, como
os de renovação do antigo centro de Maracaibo na Venezuela e do mercado de Kariakoo em
Dar es Salaam, antiga capital da Tanzânia. A força das formas espaciais são incisivamente
postuladas por Santos (1977), daí depreendendo-se que quando superadas dificuldades de
compreensão pela empiria, para além dos sentidos humanos mais imediatos, as rugosidades
patrimoniais permitem sua ressignificação por novos usos e, portanto, a possibilidade de
redescoberta de antigos conteúdos associados à própria história da comunidade que a
produziu (Figura 07). Afinal, como evidenciado por Gravari-Barbas (2014) as possibilidades
despertadas mais recentemente ampliaram os méritos do patrimônio da periferia urbana,
59
multiplicados e valorizando-os. “Este fenômeno exigiu uma mudança conceitual, conduzida
não somente sobre a extensão espacial, mas também sobre a extensão temática do campo
patrimonial.” (GRAVARI-BARBAS, 2014, p. 30).
Monumento ao trabalhador de limpeza urbana – San José (Costa Rica)
Figura 07: Monumento simboliza o trabalhador urbano, na Plaza Central em San José, capital da Costa Rica,
América Central. No detalhe, sujeito ativo na produção do urbano, como toda a comunidade que participa
ativamente da vida urbana e metropolitana. Incomum até poucos anos nas políticas patrimoniais, que
reverenciavam apenas as hegemonias e heróis nacionais: padres, oligarcas, militares, entre outros representantes
destacados.
Fonte: Foto do autor, 2011.
A simplicidade deste monumento, expressa contraste com a razão não menos
importante do papel do trabalhador na produção da cidade. Mais que isso, contradiz com um
passado onde “houve uma época em que os monumentos eram, ao lado de escolas e museus,
um cenário legitimador do culto tradicional. Seu tamanho gigantesco, ou sua localização
destacada contribuíram para enaltece-los.” (CANCLINI, 2012d, p. 291). A passos curtos, sem
dúvida, a valorização de outras referências passam a estar presentes não apenas na retórica
patrimonial, mas como neste caso, entre tantos outros, revela a nova condição prática, jurídica
e institucional de significação dos monumentos, das construções materiais e a produção
cultural intangível. Na perspectiva latino-americana, isto é ainda mais emblemático, diante de
longo tempo de colonização, dos regimes ditatoriais e repressivos, bem como das atuais
dificuldades institucionais de realização democrática da cultura.
60
Na Geografia brasileira, no âmbito da agenda de pesquisas acerca do patrimônio,
apesar da recente produção que tange a temática, deve-se destacar resultados importantes, de
autores como Simone Scifoni, Tereza Paes, Eduardo Yazigi, Rafael Ribeiro, Everaldo Costa e
Bernadete Castro, que utilizam corriqueiramente, direta ou indiretamente, da noção de
rugosidade para evidenciar as contradições na preservação, apropriação e difusão dos bens
culturais e naturais, orientando trabalhos e pesquisas dos quais incluem bases à Geografia
política, a Geografia cultural e, sobretudo, a Geografia urbana. Tal contribuição tende a ser
ampliada, pois sob uma lógica dialética, e ainda considerando um dos argumentos de Santos
(1977, p. 32) onde “[...] as coisas adquiriram um tipo de poder que nunca haviam possuído
anteriormente”, estas rugosidades também podem ser mais profundamente apropriadas por
novas atividades produtivas, ou criar resistência às forças globalizantes, seja por meio dos
múltiplos mecanismos de organização e apropriação dos espaços, ou ainda as próprias
condições das formas-conteúdos numa dada estrutura social. Também em diálogo com Milton
Santos, Costa (2008, p. 59) afirma que,
Podemos herdar formas do passado cuja gênese vincula-se a outros propósitos, que
não os nossos. Sendo legadas ao presente, estas formas podem ser adaptadas às
necessidades atuais. Formas herdadas do passado e apropriadas no presente, na
organização atual apresentam uma funcionalidade efetiva em termos econômicos ou
um valor simbólico que justifica sua permanência. [...] O que demonstra a eficácia
de materialidades pretéritas, objetos construídos social e historicamente, na
manutenção da sociedade, de valores, do capital e na produção de novos espaços,
que devem ser seriamente analisados (COSTA, 2008, p. 59).
Estas condições podem dificultar em demasia a dispersão do capital inerente ao
processo, e mesmo que este se propague com eficiência, certas tradições, hábitos e memórias
continuam a se perpetuar na reprodução prática da vida, convivendo espaços e tempos
heterogêneos e desiguais, dos quais as rugosidades patrimoniais permeiam seu lócus material
e imaterial, particular e coletivo, sagrado e profano, moderno e retrógrado, erudito e popular,
belo e feio, enfim os múltiplos polos contraditórios da realidade. São, portanto, bens culturais
que se perpetuam funcionais mesmo quando a estrutura é totalmente outra, ou quando
simplesmente há necessidade de novas escolhas de futuro para além das verticalidades
impostas pelo modo de produção. Trata-se assim de um processo conflituoso e permeado
pelas tensões inerentes às classes sociais e seus interesses. Esse último caráter é o que
alimenta algumas possibilidades da consagração das formas na construção de outras cidades e,
61
portanto, de novos conteúdos associados à realização do conjunto da sociedade e não apenas
de poucos privilegiados. Eis aí duas faces da mesma moeda. Na Figura 08, algumas
rugosidades patrimoniais que simbolizam a formação da matriz territorial brasileira em
diferentes fases, desde a casa bandeirante em Santana de Parnaíba e os aldeamentos em Embu
das Artes e Carapicuíba, até a pré-industrialização com a presença da indústria têxtil em Salto.
As imagens remetem a bens culturais patrimonializados em cidades influenciadas diretamente
pela metropolização de São Paulo.
Modernizações e as rugosidades patrimoniais entre o mercado global e as comunidades locais
Figura 08: Nas imagens 1 e 2 a antiga fábrica têxtil Brasital de Salto, hoje refuncionalizada, abriga diversos
cursos universitários. Na imagem 3 o centro histórico de Embu das Artes, com igreja colonial e a tradicional
feira de artesanatos. Na imagem 4 a senzala (cativeiro do escravo negro no século XIX) na Fazenda da Serra em
Itu. O espaço hoje é destinado a visitação, cuja função converteu-se numa boutique de souvenires. Na imagem 5
o centro histórico de Santana de Parnaíba requalificado. Por fim, a imagem 6 mostra a Aldeia de Carapicuíba,
único remanescente concreto dos aldeamentos jesuíticos em São Paulo, que remetem aos séculos XVI e XVII.
Fontes: Brasital - Prefeitura de Salto, 2011; Santana de Parnaíba e Itu - Fotos do autor, 2009; Centro Histórico
de Embu - Prefeitura de Embu das Artes, 2016.
A velocidade das transformações empreendidas na atualidade coloca em xeque as
formas do passado, o que leva a dimensão de tempo da metrópole transparecer pelo espaço
geográfico cada vez mais descompassado com o tempo da vida, marcado pela geração.
Mesmo que as paisagens, com suas formas e concretudes, sejam normativamente protegidas
pelo Estado, tal condição em si muda o conteúdo de cotidianidade da mesma em relação à
população local. A paisagem passa a ser promovida como patrimônio cultural, dando-lhe
imediatamente um status capaz de exploração, de desenvolvimento produtivo e de amplo
interesse aos bens locais, antes limitados a uma região e seus munícipes, que passam a
estranhar seus espaços significativos de memória, ou a adotar narrativas diferentes das que
realmente vivenciaram. O que segundo Godoy (2011, p.35) traduziria
62
[...] O processo de (des)construção de formas espaciais vinculadas à intensidade e à
multiplicidade de funções atribuídas em períodos de tempo cada vez mais restritos,
e, por outro, em virtude do aumento na velocidade de giro do capital e da expansão
do ‘império do consumo efêmero’ e massificado, os lugares tornar-se-iam a
condição e o resultado da mundialização da economia e da cultura técnica (GODOY,
2011, p. 35).
Utilizando-se da rugosidade, patrimonializada pelo Estado e manipulada pelas forças
hegemônicas, o modo de produção potencializaria na metrópole a sua reprodução, levando em
conta a multiplicidade cultural na constituição de seus territórios. Isto mesmo sem
necessariamente suprimir as formas espaciais, mas conservando e valorizando-as, tanto nos
processos de acumulação, quanto de superposição. Explica Costa (2008) que as rugosidades
são “[...] muito bem representadas pela materialidade presente nos núcleos urbanos coloniais
brasileiros, organizados segundo um padrão urbanístico de época, que atendem, hoje, a lógica
do mercado global.” (2008, p. 57). A materialização do capital nestes lugares é variável e
relativa aos interesses dos grupos e sujeitos, além da própria cultura local como um todo.
Tornou-se em prática, base das estratégia horizontais de planejamento e gestão dos territórios,
cujo patrimônio cultural material e imaterial padece numa condição provisória de
desvalorização e esquecimento, ou sob a égide dos interesses verticais da acumulação e do
lucro capitalistas. Nesse sentido importa destacar o papel do conceito de rugosidade
patrimonial tanto para expor e desmascarar estas contradições do atual fenômeno urbano na
escala da metrópole (esquecimento/desvalorização – espetacularização/mercantilização),
como também vislumbrar novos caminhos para a história e a Geografia dos lugares, num
devir mediado pelo reconhecimento e valorização da cultura em sua diversidade. Afinal,
como destaca Santos (2012d [1996], p. 140) “as divisões anteriores do trabalho permitem
rever as formas herdadas segundo uma lógica que as restabelece no momento mesmo de sua
produção”. Por conseguinte, reestabelecem os sentidos da experiência vivida, ou das
representações estabelecidas pela transmissão oral e intertextual. Neste sentido, “as
rugosidades, vistas individualmente ou nos seus padrões, revelam combinações que eram as
únicas possíveis em um tempo e lugar dados.” (SANTOS, 2012d [1996], p. 140) – mas
também, no entender revigorado das rugosidades patrimoniais, em novas possibilidades
alavancadas por seus conteúdos.
Na Geografia, mesmo a noção de rugosidade espacial pensada por Milton Santos estar
friccionada mais às formas que os conteúdos geográficos, no limite de abordagens históricoestruturais ou de uma possível tendência neokantiana, sua acepção não está limitada apenas
aos objetos, ao empírico imediato, ou a uma racionalidade fragmentária do todo. Ao contrário,
63
sua preocupação estava pautada em preencher uma lacuna analítica dos processos que dão
concreticidade às atuais formas geográficas, recorrendo às periodizações e estabelecendo
relações articuladas e explicativas do atual desenvolvimento histórico. Justifica-se que mesmo
a dialética requer metodologicamente uma cisão, no entanto esta lógica a faz de maneira
provisória, retomando rapidamente o dinamismo do real pela práxis (KOSIK, 1976 [1963]).
Ou, no limite, como aponta Lefebvre (1975 [1969]) acerca da importância da lógica formal
como base para a passagem ao pensamento complexo, a lógica dialética. No caso do esforço
desta tese, de conceituar e aprofundar a noção de rugosidade, reflexão que dialoga com Santos
(1977; 2012a; 2012d), se desenvolve numa espécie de derivação conceitual, em que propomos
uma eliminação momentânea dos seus conteúdos clássicos, sendo retomados analiticamente
por meio de periodizações e suas correlações com a estrutura social pretérita. Esta estratégia
do método pode ser considerada como uma espécie de “negação dialética” (LEFÈBVRE,
1976), que permite captar as qualidades do fenômeno em sua forma e conteúdo resultante de
uma síntese provisória dentro de uma totalidade. Assumindo esta postura, cabe retomar o
conceito com maior profundidade da relação passado-presente na metrópole por meio da
patrimonialização global (COSTA, 2011) e de estudos que contemplem lugares e
experiências, subsidiando, portanto, novas teorias e práticas na construção e apoio de outras
realidades possíveis.
64
CAPÍTULO 02: Dialética das escalas
O lugar é a oportunidade do evento. E este, ao se tronar espaço, ainda que não perca
suas marcas de origem, ganha características locais. É como se a flecha do tempo se
entortasse no contacto com o lugar. O evento é, ao mesmo tempo, deformante e
deformado. Por isso fala-se na imprevisibilidade do evento, a que Ricoeur chama de
autonomia, a possibilidade, no lugar, de construir uma história das ações que seja
diferente do projeto dos atores hegemônicos. É esse o grande papel do lugar na
produção da história, e aponta-lo é grande tarefa dos geógrafos neste fim de século
(SANTOS, 2012b [1996], p. 163).
A pressão da metrópole sobre antigos núcleos coloca em risco as últimas heranças
materiais do passado, seja pela modernização técnica e destruição concreta das formas, como
pela incorporação de novos usos e funções, assim também por distorção dos conteúdos
culturais a partir da patrimonialização. A instância espacial, no âmbito categorial das
estruturas sociais, produz uma reorganização, cujos limites e funções de antigas formas e as
relações estabelecidas por seus novos conteúdos se apresentam diretamente subordinados e
subordinantes a uma lógica complexa, com variáveis e elementos difusos e efêmeros frente ao
atual movimento da história. Elementos que exigem o rigor teórico-reflexivo, mas também
prático-analítico. O primeiro em favor do dimensionamento objetivo das estruturas, das
escalas, dos regimes de espaço/tempo. O segundo na perspectiva das observações diretas,
descrições, abordagens dialógicas e prospectivas, além da ativa participação nos processos
que se realizam cotidianamente nos lugares. Realidade que, sendo produzida por
intencionalidades e estratégias materiais, justifica uma investigação sumária em sua
totalidade. No âmbito das escalas, cada vez mais permeadas pelos fluxos globais, por fim,
cabe estimar como os eventos se desenvolvem regionalmente, as relações que se estabelecem,
para assim qualificar algumas possibilidades construtivas de uma história diferente, utópica,
fundada pela crítica e para além da submissão do lugar pelas forças verticais e hegemônicas.
65
2.1 A escalas dos fragmentos universais-particularidades da totalidade urbanametropolitana
A geografia, cuja metodologia está em permanente mutação, está por exigir uma
reflexão de caráter mais filosófico, a fim de objetivar sua produção acadêmica e
científica, de maneira a atender às demandas sociais relativas à disciplina e resgatála do limbo em que foi colocada pela sua pretensa ambiguidade quando contraposta
aos estudos sociais (SOUZA, 1994, p. 2).
O fenômeno a que nos dedicamos a apreender na totalidade é o da metropolização em
sua realização com o patrimônio cultural e as permanências que conceituamos em diálogo
com Milton Santos por rugosidades patrimoniais. Isto significa buscar sua essência
provisoriamente. A forma desta busca baseia-se na decomposição do todo, do fenômeno
urbano, no qual resultam a atual formação dos países latino-americanos, do Estado-nação
brasileiro, da região metropolitana de São Paulo e seus desígnios escalares superiores (dados
pelas relações globais), pela cisão de uma realidade única e estática – tomando a cidade de
Carapicuíba e seu aldeamento na RMSP, transpostos pela teoria e a prática numa realidade em
movimento, recomposta, e capaz de ser adentrada, analisada e explicada (KOSIK, 1976
[1963]).
A rugosidade patrimonial traduz unidades ou conjuntos de formas geográficas, com
seus sistemas próprios de funções e conteúdos, articulados às múltiplas escalas e dimensões
espaciais. Variações escalares do foco analítico num dado objeto ou grupo social fazem com
que as categorias propostas para a apreensão e análise das rugosidades sejam mais ou menos
intensas, dependendo do processo histórico em curso. Por isso, falar da metrópole pressupõe
escalas estruturais do modo de produção desde a remota globalização nas origens do
capitalismo comercial e das grandes navegações (SANTOS, 1985), ou seja, quando o poder
dos núcleos de assentamento na América, Ásia e África passaram a ser controlados pela união
entre a Coroa e Igreja nas “metrópoles” imperialistas da Europa, dando posterior origem às
atuais formações econômicas e sociais (SANTOS, 2012) em todo continente. Analisar a
metrópole demanda pensar o rebatimento dos lugares em ações de resistência e assimilação,
destarte de supressão, acumulação e superposição de formas-conteúdos. A preponderância de
uma categoria está sempre estabelecida em relação às outras, por isso a relevância dos
regimes de tempo e escalas no desenvolvimento da análise.
66
Na mesma escala (global) e período (capitalismo comercial) apontados anteriormente,
a categoria supressão insurge na análise como a mais latente, sobretudo pelas formas de
opressão e as contínuas tentativas de extinção da cultura material e dos modos de vida nos
territórios pré-existentes. A arbitrariedade na escolha do período exemplificado resulta da
concentração das rugosidades daquele regime no território de Carapicuíba, dado
materialmente pela presença do aldeamento jesuítico, além das tradições seculares que
rementem, inclusive, a categoria de superposição em favor dos ritos católicos com a mescla
de ritos indígenas na atual dança do Sarabaquê. Outras características deste passado que ainda
permanecem como rugosidades nestes lugares são aprofundadas posteriormente na
periodização, assim como o detalhamento das funções e estrutura que devem escancarar
contradições e superar narrativas fetichizadas.
Na Geografia, diferente do local, lugar é um espaço dotado de significado, um espaço
localizado, mas fundamentalmente vivido (SOUZA, 2013). Para Bourdieu (1999) a amplitude
do conceito de lugar é ampla e pode ser definida “(...) como ponto do espaço físico onde um
agente ou uma coisa se encontra situado, tem lugar, existe”. A análise de ambas dimensões
não é uma necessidade empírica de constatação do fenômeno, ou mesmo da crença em um
discurso que legitime tais condições encontradas, e sim de um entendimento mais amplo,
referenciado na análise por meio primeiro das condições imbricadas do espaço físico,
enquanto localização (relacional) ou posição (ordem), portanto pela “exterioridade mútua das
partes”, com o espaço social, este definido pela “exclusão mútua”, que se distingui do
primeiro pela apropriação e funcionamento segundo aspectos dirigidos por uma sociedade ou
grupo social específico10 (BOURDIEU, 1999). Nisso, o lugar passa a não comportar fronteiras
fixas, que impeçam os objetivos de compreensão da análise proposta de suas rugosidades, seja
na particularidade de Carapicuíba frente a escala global, seja na sua universalidade urbanametropolitana.
Tais perspectivas permitem aproximações analíticas, cujo resultado admite conceber
qualificações e condições de lugares, variantes desde a honra, o patrimônio, a segurança e o
moderno até o limite do risco, do arcaico, ou do próprio subjugo generalizado. Em que a
categorização de um ou outro elemento não pode ser esclarecida sem a existência de espaços
10 “Efetivamente, o espaço social se traduz no espaço físico, mas sempre de maneira confusa: o poder sobre o
espaço que a posse do capital proporciona, sob suas diferentes espécies, se manifesta no espaço físico apropriado
sob a forma de uma certa relação entre a estrutura espacial das distribuições dos agentes e a estrutura espacial da
distribuição dos bens e serviços, privados ou públicos.” (BOURDIEU, 1999).
67
sociais e espaços físicos que estão em relação entre si, ou seja, não existem se não em função
um ao outro11. A capital só pode existir em relação ao estado, não simplesmente por um fator
exclusivamente de localização ou ordem, mas pela concentração do capital, dos serviços,
atividades, bens, dos indivíduos e grupos que a ela estão ligados (BOURDIEU, 1999). Assim
decorre, numa outra escala, a própria periferia em relação ao centro metropolitano, ou mesmo
dos lugares do tempo lento daqueles dinamizados pela fluidez e pelas intervenções do capital,
ou ainda, das rugosidade patrimoniais em relação às modernas formas geográficas e novas
funções que as preenchem. Assim também, o espaço físico, substrato material muitas vezes
subestimado em alguns estudos das ciências sociais12, não pode ser renegado em favor da
redução da análise ao espaço social. Uma leitura multidisciplinar dos fenômenos é reveladora
por permitir um entendimento preciso do papel da Geografia no contexto da produção
científica e intelectual contemporânea.
Seemann (2005, p. 70) ajuda vislumbrar esta tradição, pelos limites impostos desde o
período clássico de institucionalização moderna do conhecimento em Geografia, tomando o
antigo pensamento de Otto Schlüter (1872-1959), para quem alguns artifícios e objetos
analíticos como a religião, língua ou arte, deslocariam os limites da disciplina para o infinito,
incluindo ciências inteiras, como a sociologia ou a economia no âmago da mesma. Beira o
absurdo ignorar elementos como estes na atualidade dos estudos e pesquisas em Geografia, a
configuração dos procedimentos ou da escolha de recortes empíricos para análise estão
arraigados numa dada tradição, de epistemologia própria. Mesmo quando os estudos abarcam
escalas como os limites de bairros e seus setores, estes na maioria dos casos se relacionam ao
pragmatismo do planejamento e respaldados em estudos técnicos (como a modelagem e
simulações futuras da realidade), mas ainda em menor proporção do que aqueles ligados às
razões e propósitos político-partidários. A sua maneira, Ana Ribeiro (2006) estimula essa
reflexão quando explica haver grande carência teórico-analítica na ciência contemporânea em
11 Exemplo disso, também colocado por Bourdieu (1999), se observa no indivíduo despossuído de endereço ou
residência fixa “sem eira nem beira”, que enfrenta sérias dificuldades de existência, desde a procura de um
trabalho, até abertura de contas em bancos, crediários e financiamentos para fins de consumo dos bens e serviços
necessários.
12 Ver a diferenciação da abordagem entre a geografia e a sociologia, sob crítica de Demangeon (1956) desta
última relegar os fenômenos apenas ao espaço social, dissociado do espaço físico, como se as coisas pairassem
sobre o ar. Ver ainda Souza (2013) que utiliza a expressão substrato espacial material, como o “espaço
geográfico na sua materialidade”, interroga se o uso da noção de rugosidade, como estamos buscando, “[...] seria
válido para pensar nas próprias fronteiras e imagens espaciais como ‘rugosidades’, ainda que em sentido não
material? Não vejo porque não.” (SOUZA, 2013, p. 74 – grifo nosso). Muito antes, porém, Santos (2006) já
havia sinalizado de tal maneira, como citado integralmente no tópico anterior.
68
função do utilitarismo técnico, que impediria a “consciência dos lugares”, em que o cotidiano
nos escaparia e onde o “tempo lento” (SANTOS, 2012d) seria deixado de lado pelas
generalizações e amplitudes das escalas e dos regimes de tempo. Neste exato momento, é
recorrente interrogar sobre qual o ponto, ou recorte da realidade, que de fato subsidiaria o
conhecimento de suas particularidades e universalidades? Milton Santos (2012d) ajuda a
refletir e responder essa questão a partir da ideia de totalidade, enquanto possibilidade de
ponderar essas múltiplas escalas em sua realização nos lugares, inclusive do papel das
rugosidades nestas ações.
A totalidade como latência é dada pelas suas possibilidades reais mais histórica e
geograficamente irrealizadas. Disponíveis até então, elas se tornam realizadas
(historicizadas, geografizadas) através da ação. É a ação que une o Universal ao
Particular. Levando o universal ao Lugar, cria uma particularidade. E esta sobrevive
como Particular, ao movimento do Todo, para ser ultrapassada pêlos novos
movimentos. A particularidade ultrapassada precede a universalidade atual e sucede
à universalidade defunta. Há, pois, um movimento interativo no qual particularidade
e universalidade fertilizam-se mutuamente. [...] A particularidade resultante combina
algumas das possibilidades atualmente oferecidas pelo Todo e mais o que resta da
particularidade ultrapassada. Daí essa resistência do espaço quando do impacto dos
novos eventos, esse papel de inércia dinâmica das formas-conteúdo (SANTOS,
2012d, p. 80).
Nesta seara teórica, Abreu (1998, p.12) explica que “(...) é necessário reconhecer,
primeiramente, que cada lugar é, ao mesmo tempo e em cada momento histórico, o ponto de
intersecção de processos sociais que se desenvolvem em diversas escalas”. Mas Doreen
Massey (2009), ao ver criticamente a narrativa globalizadora atual como ambígua e não
espacializada, auxilia entender a importância da escala do lugar, sem reduzir, no entanto, a
teoria social “à insistência sobre variações locais”. Para ela o ato de espacializar a
globalização prescinde levar em consideração a multiplicidade do espaço e de teorias não
redutíveis a uma dada superfície, devendo ser metabolicamente relacionada com a
temporalidade em questão. Por isso um esforço que se conjuga até aqui e antecede a empiria
da imersão à dimensão do lugar, das rugosidades patrimoniais de Carapicuíba e da metrópole.
As variáveis que permeiam o espaço urbano, compreendido sob a ótica do modo de
produção capitalista, sintetizam uma dinâmica complexa, atrelada à cidade por uma
organização fragmentária, articulada, reflexo e condição do social (CORREA, 1995). Isso
significa que na totalidade urbana, as suas partes mantém relações intensas entre si e que
numa dada estrutura social possibilitam a mobilidade de pessoas e mercadorias, a circulação
69
do capital, a valorização ou não do solo urbano, numa densa rede hierárquica de centralidades
funcionais e simbólicas. Estas relações tornam as cidades capitalistas desiguais, ou seja, criam
mecanismos diferenciais de exclusão e segregação, mas contraditoriamente também
condicionam campos de lutas e resistências. A permeabilidade vertical das instâncias globais
se concretiza nas menores escalas espaciais, desde o restrito âmbito da casa ou da instituição
familiar, quanto nas relações de produção estabelecidas nas multinacionais ou através da
conexão com a rede mundial de computadores. No limite, gera-se a metrópole como um
nódulo espacial ainda mais dinâmico, e onde o processo de regionalização se generaliza ainda
mais, competindo à própria condição urbana flexionar-se aos processos agora metropolitanos.
É nesse sentido que o lugar ganha ainda mais centralidade pelas contínuas tensões que sofre.
Todas essas escalas e dimensões conceituais da realidade perfazem a totalidade urbanametropolitana. Esta totalidade, considerada por um referencial abstrato, geral e externo,
corresponde as universalidades globais que repercutem nos menores fragmentos locais, em
todos os lugares – “mundo como norma” (SANTOS, 2012, p. 169). As cidades singularizam
empiricamente essa influência global, fundindo as particularidades de uma dada formação
econômica e social, ou seja, com temporalidades e dinâmicas espaciais específicas e em
comum. Os lugares transformam o global, praticamente na mesma medida em que são
transformados, se abandonarmos essa dimensão singular e interescalar poderemos até
recuperar o urbano, mas não a cidade (ABREU, 1998, p.12).
70
2.2 Metrópole-fato, metropolização-processo: dimensões do patrimônio cultural
A metrópole estaria situada no encontro das cidades com a região (SCOTT, 2010), ou
seja, num aglomerado de lugares reunidos nas cidades, cujas funcionalidades são
metabolicamente articuladas aos centros metropolitanos (SANTOS, 2012). Ao integrar a
metrópole, como o lugar, a cidade não deixa plenamente sua singularidade frente ao
movimento global, mas assegura por via de suas formas e conteúdos espaciais elementos
representativos da história local, nacional e da formação universal. As rugosidades
patrimoniais metropolitanas são, ao mesmo tempo, representativas dos simbolismos
concebidos em termos da memória nacional, que articula a universalidade dos processos
econômico e sociais concatenados geograficamente no território, do mesmo modo que integra
a memória coletiva pelas vivências cotidianas. No limite, no sistema de tempo atual, as
rugosidades patrimoniais são consagradas por novas atividades produtivas ligadas à cultura e
de uma generalização universal da busca pelo singular.
Nisto, compreende-se a metrópole como fato da metropolização e do fenômeno urbano
contemporâneo no mesmo âmbito (reitera-se a permanência e sobreposição da sociedade
industrial e urbana). No encontro entre urbanização e metropolização, as cidades tornam-se
unidades principais, quantitativa e qualitativamente somadas em regiões metropolitanas. No
limite da urbanização e mesmo diante de outras denominações que buscam assinalar a
suntuosidade de grandes núcleos populacionais justapostos (megalópolis, megacidades, ou
metápolis), tanto o processo de metropolização, quanto a produção do fato metropolitano,
ainda respondem e justificam mais plenamente o sistema de aglomeração e de cultura que
permeia o urbano em diferentes escalas de tamanho ou localizações do planeta. A
diferenciação entre metrópole e metropolização é uma necessidade de explicitação conceitual
entre o fato, considerado em sua particularidade histórica e geográfica (metrópole), e o
processo, que qualifica a forma e permeia um conteúdo de universalização do fenômeno
urbano em escala global (metropolização). Diante da qualificação banalizada de cidade em
metrópole, simplesmente pelas condições de aglomeração, torna-se fundamental além do fato
social, político-administrativo, econômico, ou cultural, entender o desenvolvimento e os
efeitos deste processo (ASHER, 1998). Dialeticamente, esta diferenciação entre metrópole e
metropolização é momentânea e ambos conceitos devem ser retomados. Concorda-se com
Robert Moraes (2016, p. 23), para quem “a metrópole é uma forma histórica de organização
do espaço geográfico.” Ela é, portanto, localizada, podendo ser analisada por múltiplas
71
dimensões e vários níveis, o que justifica a articulação entre planos e escalas de análise (do
lugar, da cidade).
A ideia de metrópole assume diferentes significados ao longo do desenvolvimento
histórico, mas pensá-la fora de parâmetros da Modernidade parece pouco fértil, ainda que
grandes aglomerados humanos estivessem presentes desde a Antiguidade. Ou até mesmo pela
simplicidade de seu sentido etimológico, onde metrópole traduz a ideia de uma “cidade mãe”
(LEMOS, 1999), responsável por suas colônias, áreas de influência, exportando seus
guerreiros e deuses (ASHER, 1998). Na atualidade, ainda tem sido comum classificar de
metrópole aglomerações humanas mais importantes, levando em consideração, entre outras
variáveis, a centralidade, a multifuncionalidade assumida, as relações com escalas
supranacionais e sua densidade populacional. Para tanto não existe um padrão, coexistindo
normativamente metrópoles com pouco mais de vinte mil e outras que ultrapassam os vinte
milhões de habitantes. A designação de “metrópoles” aos centros imperiais no capitalismo
comercial é, ao mesmo tempo, generalizada ao considerar nestes casos o poder exercido sobre
os territórios coloniais naquele período. Se não remetem necessariamente a tríade indústriaurbano-metrópole, associam-se aos preceitos de controle que hoje é uma das variáveis
estruturantes de seu sentido ou definição.
Para justificar o entendimento embrionário da atual metrópole, este fenômeno não
pode ser confundido com aquele ocorrido em Atenas, Roma, Alexandria, ou qualquer caso na
Antiguidade. Choay (2005) ajuda a pensar numa certa permanência, onde realizações e
problemas enfrentados neste longínquo passado são os mesmos da atualidade, perseverando a
existência de uma razão comum, uma pertinência concreta de experiências semelhantes, do
viver, existir e resistir na cidade, mesmo que essas comparações sejam separadas por um largo
período de tempo e passíveis de riscos analíticos. Justamente, para a autora, uma das grandes
diferenças entre estas aglomerações de antes e as metrópoles de hoje reside que no passado a
grande cidade, ou mesmo a Cidade-Estado, era uma exceção, um caso extraordinário, o que
“(...) poderíamos, pelo contrário, designar o século vinte como o da era das metrópoles.”
(CHOAY, 2005, p. 5).
Entende-se que a metropolização deve ser mais profundamente explorada e situada
enquanto momento do modo de produção. Como faz Choay (2005), que estabelece o
fenômeno consolidação do capitalismo industrial, no início do século passado, a partir de sua
generalização (sociedade industrial). Leitura convergente com a de Lefèbvre (2004; 2012),
72
explicando que a “sociedade urbana” nasce da industrialização, não sendo, porém, apenas um
subproduto dela. E é desta condição que o modo de produção capitalista efetivamente rompe
com o modelo de cidade medieval, sobretudo no século dezenove, mas também com a própria
sociedade industrial em favor da urbana (sociedade urbana). Onde o trabalho mecanizado e
repetitivo passa a moldar a vida cotidiana, numa indissociável relação entre fábrica-casa, e
cuja temporalidade do trabalho na cidade ia gradativamente diferindo do campo. No decorrer
desta realidade o tempo e espaço iam sendo arrancados na cidade, gerando a angústia e
solidão: as pessoas desconhecem umas às outras, as casas funcionam como meros autômatos,
máquinas de repouso para um novo dia de trabalho. Esta cidade arranca o homem da terra,
expropria a vida em comunidade, para direcionar o homem-máquina no espaço urbano
(BENJAMIN, 2006).
No limite do processo de urbanização-metropolização, a cidade metropolizada,
capturada plenamente pela órbita vertical dos adventos técnicos e informacionais da
globalização (além, portanto, da metrópole industrial pensada por Benjamin), faz destes
espaços a própria condição de acumulação. O que para Otília Arantes (2002) se resumiria na
cidade como a própria mercadoria, geridas e consumidas a todo momento (ARANTES, 2002,
p. 26). Não mais um instrumento intermediário, o cotidiano, os lugares, a cidade e, no limite,
a metrópole tornam-se propriamente os fins da reprodução ampliada do capital. Como
Arantes (2002), Scott (2010) entende que o motor de crescimento econômico continua sendo
as atividades industriais e os serviços que se articulam a esse arranjo. A sociedade urbanametropolitana ainda está calcada na sociedade industrial, bem como os conceitos de classes
sociais na relação capital/trabalho, onde a desigual apropriação dos excedentes produzidos
permanece no mesmo curso do passado (SCOTT, 2010). Neste prospecto, Soja (1993, p. 223)
demonstra por duas noções a nova realidade metropolitana que intensifica e estende os lucros
e o controle sobre a sociedade, reafirmando aspectos centrais da sociedade urbana e
metropolitana. A primeira é traduzida pela intensificação: dos lucros, do aprofundamento da
divisão social de trabalho, da ampliação de novas necessidades e desejos de consumo, além da
concentração e centralização monopolizada de capitais, da legitimação das ideologias
dominantes/dirigentes, bem como a fragilização de organizações trabalhistas e movimentos
sociais. A segunda pela noção de extensificação: da divisão do trabalho, criação de novos
mercados, drenagem de matérias-primas e mão de obra, exploração das condições desiguais
do desenvolvimento geográfico por meio de trocas desiguais e das transferências de valor
(SOJA, 1993, p. 223). Se a condição colocada pelas ciências, as técnicas e as comunicações
73
são revolucionárias, esta continua a ser operada em favor das modernizações seletivas,
desiguais e perversas (SANTOS, 2001).
Esta concepção da metrópole assenta-se nos preceitos categoriais recentes dos estudos
do urbano nas ciências sociais, o que talvez seja resultado do próprio momento por qual este
regime de tempo (ultramoderno, pós-moderno, moderno...) vem passando. Independente das
terminologias, as formas urbanas constituídas desde a fase industrial do modo de produção
capitalista, remetem concomitantemente a emergência de conteúdos ligados à produção de
novas mercadorias e a adequação subordinada de novos desejos criados na sociedade por
padrões de consumo. As formas possuem relação fundamental, já que “[...] as construções
assumem o ‘papel do subconsciente’ [...]” (BOLLE, 1994, p. 65), além de reestruturar áreas
inteiras, no sentido de adequá-las aos padrões necessários exigidos pela seletividade do
capital. Na visão de Santos (2012, p. 146), “mesmo os objetos culturais tendem a tornarem-se
cada vez mais técnicos e específicos, e são deliberadamente fabricados e localizados para
responder melhor a objetivos previamente estabelecidos”, sobretudo o setor econômico.
Trata-se do mesmo processo que Harvey (2005) designa de transformação da cultura em
commoditie, seja pela atividade de turistificação (KRIPPENDORF, 1989), ou pelo modelo de
empreendedorismo urbano revelado nas novas modalidades do planejar e gerir a cidade, cuja
ênfase é dada no planejamento estratégico (CASTELLS; BORJA, 1996). Outro mecanismo
de dinamização dos fluxos dos espaços da mundialização salientado por Santos (2012a) são os
sinais de verticalidades estabelecidos pelo sistema global, por meio de adaptações das formas
às normas, em que o patrimônio cultural toma centralidade analítica. Ainda segundo Santos
(2012a), a otimização da forma geográfica, ou do objeto técnico, pelo estabelecimento de
normas jurídicas e financeiras, são capazes, cada vez mais, de competirem em múltiplas
escalas num mercado cada vez mais disputado e procurado (SANTOS, 2012a, p. 151).
Se a gênese desse processo decorre de fato da Modernidade e se pensado o século
vinte como a “era das metrópoles” (CHOAY, 2005), a perplexidade de Richard Rogers e
Philip Gumuchdjian (2001) com a dimensão do fenômeno urbano atual é certamente
justificável, relembrando que a pouco mais de um século, no ano de 1900, apenas um décimo
da população mundial vivia em cidades, considerando que “[...] hoje, pela primeira vez na
história, metade de toda população mundial vive em cidades [...]” (GUMUCHDJIAN, 2001,
74
p. 5)13. Isso equivale a um aumento da taxa de população urbana da ordem de 250 mil pessoas
por dia, concentrando graves problemas sociais e ambientais14 (ROGERS E
GUMUCHDJIAN, 2001). Ao mesmo tempo que captura as pequenas e médias cidades
circunvizinhas, tornando-as potencial de renda especulativa da terra e geração de valores, a
metrópole se estende aos limites dos territórios exercendo seu controle e poder. No caso,
Sevcenko (1995) é ilustrativo ao demonstrar que mesmo havendo um centro pulsante, não
significa que a metrópole circunscreva exclusivamente a esta ou aquela região e grupo de
cidades. Ao contrário,
[...] A interface temporal tem uma vigência onímoda. A sede de uma grande empresa
agrícola, em plena zona rural, conectada por telecomunicações com os menores
movimentos da bolsa de valores internacionais, com a principais redes informativas
e com os mais avançados laboratórios tecnológicos, compartilha de uma intensa
experiência metropolitana. O mesmo ocorre com os grandes condomínios fechados
instalado fora das grandes cidades, por exemplo. Assim como as lutas por reformas
agrárias encontram seu correlato nas reivindicações dos sem-teto nas metrópoles.
Ademais, aparelhos de rádio, TV e bancas de jornais e revistas não tem raízes, e as
informações, assim como os desejos, não param nas fronteiras. [...] Outra forma
mais ilustrativa e dramática de propor essa visão, usando de uma imagem
grandiloqüente, é dizer que ao invés de terem se tornado uma aldeia global, como
sugeriu McLuhan, o que se passou com as sociedades humanas no planeta foi teremse transformado numa única e imensa megalópole mundial (SEVCENKO, 1995, p.
196).
Dialeticamente, a pressão psicológica negativa exercida pela metrópole (SIMMEL,
1997), é sanada numa perspectiva funcional do planejamento, quando há certo nível de
13 Num balanço sobre as cidades atuais, realizado pela Organização das Nações Unidas (ONU) na reunião da Rio
+ 20 (2012), há previsão de que mais de 70% da população mundial viverá em cidades até 2050. “Cerca de
metade da humanidade vive hoje em cidades. Populações urbanas cresceram cerca de 750 milhões em 1950 para
3,6 bilhões em 2011. Até 2030, quase 60% da população mundial viverá em áreas urbanas” (ONU, 2012).
14 “As cidades estão produzindo uma instabilidade social desastrosa e levando a um declínio ambiental adicional.
Apesar do aumento global da riqueza, que ultrapassa em muito o aumento da população, cresce o grau de
pobreza e o número de pobres no mundo.” (Rogers e Gumuchdjian, 2001, p.7). Assim também explica Milton
Santos (1979, p. 222), que a tecnocracia e a modernização são as responsáveis por uma organização urbana
concentrada e apoiada por uma argumentação técnica à difusão geográfica e social do crescimento. “O resultado,
entretanto, é o contrário: pobreza urbana difundida por toda a parte, pobreza concentrada nos pontos de
crescimento.” De tal maneira, a concentração espacial da população, em pontos específicos do planeta e cujos
padrões são difundidos de forma particular (a depender das singularidades regionais) e globalmente (já que este
modelo é necessário a reprodução ampliada do capital) na segunda metade do século XX é dado na forma e no
conteúdo de metrópoles, qual seja, uma aliança entre o Estado e as hegemonias monopolistas do mercado
internacional, sendo esta última preponderantemente decisória na modernização tecnológica e determinante de
outras obrigações. Portanto, já que “[...] a modernização completa do aparelho de Estado não é possível, a
realização das tarefas atinentes à modernização do país é cada vez mais atribuída a uma administração paralela,
formada de organismos mais ou menos autônomos e dependentes da autoridade centralizadora do governo [...]”
(SANTOS, 1979, p. 222).
75
compactação15 que potencializa a melhor oferta de serviços públicos (água, esgoto, energia,
resíduos, transporte, limpeza), reduz impactos ambientais, além de usos mistos do território
com o fortalecimento da diversidade social, que fogem ao modelo tradicional de zoneamento
e facilitam à população o acesso de bens e consumo, além de encontros não programados,
provocados pela condição do caminhar e o trabalhar nas proximidades da habitação
(JABAREEN, 2006). Essa condição é potencializada quando a relação com as formas urbanas
e seus conteúdos associam-se a uma memória social significante para os grupos e classes.
Mais que isso, permitam a reprodução prática da vida em conformidade com seus valores,
considerando a alteridade das relações e a afirmação da própria identidade neste processo.
Esse elo entre a cidade e a cultura, que não se separa de outras categorias do social,
converge nas possibilidades concretas de transformação pela simples existência do ser no
urbano, com a condição de produzir formas e conteúdos significantes que o represente na sua
luta diária pela sobrevivência. “A cidade é, portanto, a condição especial da realização dos
valores de liberdade, de igualdade, de fraternidade, de solidariedade. A cidade produz o
estímulo intelectual. A cidade produz a inteligência.” (SOUZA, 1999, p. 16). A realização
desta cidade deve contrapor aquele espaço do esquecimento do qual Lefèbvre (1991; 2006)
entende como o da fetichização (desconhecimento de que ele implica relações sociais) na
escala da metrópole, que afugentam a memória e causam estranheza não apenas pelo
descompasso entre o tempo de vida e da cidade em constante aceleração, mas também pelos
conflitos com as novas manifestações e padrões estabelecidos no cotidiano por esse
movimento.
Neste plano, o papel das rugosidades patrimoniais é central pelas condições de
reencontro da sociedade com sua produção material e intangível. Porém, a crescente
disseminação dessa consciência ao longo do século vinte, trouxe um despertar político e
econômico (por processos já salientados no plano de atividades modernas), catalisado em
ações de preservação e divulgação dos bens culturais em todo planeta, que como outros
fragmentos urbanos, ganharam novos status e relações com os grupos sociais. Destas relações,
importante lembrar a convivência entre atração (por exemplo pelo turismo, pela infraestrutura
que passa a moldar um “novo ambiente”, pela centralidade e mobilidade) e repulsa
15 Em grande parte das metrópoles em países subdesenvolvidos a forma urbana é qualificada pelo espraiamento,
ou “sprawnling” em língua inglesa. Em estudo deste modelo por diversas variáveis funcionais e indicativos
(mobilidade, gastos energéticos, relações sociais, custos), Jabareen (2006) conclui ser um dos menos eficientes
cultural e ambientalmente.
76
(gentrificação causada pela valorização do solo urbano e aumento dos custos de vida, relações
conflitantes entre antigos e novos usuários e moradores). Fator que desencadeia
transformações na dinâmica das cidades, com núcleos salvaguardados, ou fragmentos e
conjuntos de bens que alcançam alguns quilômetros quadrados de proteção e, em outras
situações, a quase totalidade de objetos e atividades que agora configuram o crescente
patrimônio cultural urbano-metropolitano. Se se generaliza o urbano, a metropolização
enquanto processo, capaz de permear os mais distantes rincões do planeta, também o
fenômeno da patrimonialização (JEUDY, 2005) abrange porções e conjuntos cada vez
maiores.
É na metrópole que se comprova a força, diversidade e expressividade do patrimônio
cultural na sociedade contemporânea. É nela que se processam intenções, estímulos e a busca
por aqueles bens mais distantes de seu arranjo, sobretudo o patrimônio natural-cultural de
longínquas cidades, vilas e espaços reconhecidos e valorizados. Mesmo o patrimônio que em
tese é a negação do urbano, por meio do mito da natureza intocada, não se efetiva na prática,
onde aspirações e comportamentos continuam próximos aos da cidade (DIEGUES, 2001, p.
7). Conjectura ratificada em pesquisa na região sudeste do Brasil por Scifoni (2006) acerca do
tombamento da serra do mar e do seu papel paisagístico na conformação de uma barreira entre
setores periféricos da metrópole e as praias do litoral norte paulista, estas últimas frequentadas
por segmentos abastados da população residente na RMSP. Na região centro-oeste sobre a
dinâmica turística e do patrimônio natural na Chapada dos Veadeiros, uma das áreas mais
exuberantes do cerrado brasileiro, Costa et al. (2015) revelam que mesmo numa região de
difícil acesso, em que Brasília guarda o aeroporto mais próximo16, com cerca de quatrocentos
quilômetros de distância, a visitação de turistas internacionais, de São Paulo e Rio de Janeiro
predominam massivamente, além de moradores de diversas capitais estaduais e estrangeiros
de distintas nacionalidades. “[...] O ‘isolamento’ de outrora, de um parque pouco acessível e
16 “Um dos maiores desafios ao turismo na Chapada dos Veadeiros refere-se aos custos e dificuldades de acesso
e deslocamento para visitação ao Parque. Grande parte dos turistas são oriundos da região Sudeste, o que implica
em uma viagem cara: deslocamento aéreo até Brasília e necessidade do uso de carros ou jipes para se chegar até
São Jorge e seus principais pontos atrativos. Contudo, com a redefinição econômica do país, nos últimos anos, a
popularização do transporte aéreo civil, a expansão dos aeroportos e rodovias, as promoções de operadoras
aéreas, agências de turismo e de locadoras de automóveis favorecem frequentes e intensos fluxos à localidade.
Ainda que alguns comerciantes locais entrevistados reclamem do baixo movimento de turistas, informações da
Secretaria de Turismo mostram que, na última década, multiplicaram-se hotéis, pousadas, campings e em toda
região, além do aumento gradativo do número de lojas, restaurantes, cafés, bares e estabelecimentos comerciais
diversos.5 Proprietários no entorno do Parque utilizam o potencial de suas terras ao turismo, cobrando pela
entrada e visitação ao cerrado; eles munem a área de infraestrutura de acessibilidade e sinalização, caso da
Cachoeira dos Cristais e Vale da Lua.” (COSTA; et al., 2015, p. 3).
77
distante das grandes cidades, é invertido pelo seu encadeamento na rede turística nacional e
internacional.” (COSTA et al., 2015, p. 8). A pesquisa ainda constatou que, embora distante
dos grandes centros urbanos e metropolitanos, a conversão da área em Parque Nacional pelo
IPHAN e Patrimônio da Humanidade pela Unesco, a transformou num reduto de novos
moradores que se refugiam das mazelas urbanas das grandes cidades, em busca de uma vida
“mais natural”, porém levam ao novo habitat uma carga cultural calcada na experiência
urbano-metropolitana, que reflete nas relações sociais e que evocam ao olhar paisagens de
bancos, hotéis, restaurantes, comércios e serviços diversificados no entorno.
A patrimonialização da natureza natural supõe a emergência da cultura do estético
que a alinha à natureza social. Essa cultura traduz-se em consumo visual e
representa empoderamento (às avessas) massivo da e na natureza natural, cuja
consciência ou imaginários são reproduzidos no contexto do discurso de fuga das
novas angústias ou tormentos urbanos. A natureza natural ativada como recurso
patrimonial entra na esfera de um consumo gradual, que se diferencia em
intensidade e em exposição de produtos, em relação às ações transformativas
industriais tradicionais de grande porte e impacto imediato, as quais resultam no
mundo tecnificado de objetos. Ao fazer-se paisagem de uso e consumo coletivo, a
natureza natural constitui-se em atributo pela vida de grupos seletos, hibridiza vida
natural orgânica e relações culturais mediadas pelas artes da renda e do lucro via
encantamento concretizado in loco.” (COSTA et al., 2015, p. 3).
Apesar deste entendimento – que não é o reducionismo do natural pelo cultural, mas
pressupõe uma relação metabólica e crítica entre ambos (LEFEBVRE, 1975 [1969]; 1979;
SMITH,1984a; COSGROVE, 2004 [1989]; SANTOS, 2012d [1996]; PAES LUCHIARI,
2001; EAGLETON, 2005), classificar os bens patrimoniais em “histórico”, “natural”,
“cultural”, justifica formalmente seu valor mais pujante segundo uma ótica determinada,
como aqueles descritos aos monumentos por Riegl (2014 [1903]), ou das instituições estatais
de preservação que estabelecem critérios lógico-formais para incluir objetos em suas políticas
e ações. No caso específico da Aldeia de Carapicuíba, emerge formalmente o “conjunto
arquitetônico e urbanístico”, que colocou à margem outras perspectivas de valores
encontrados, inclusive pelo estudo de Luís Saia em 1937. Essa dimensão de valor material,
histórico e de antiguidade, priorizou as formas em detrimento dos conteúdos. Focalizou-se no
poder colonial da Igreja e Coroa, reservando ao índio e ao caipira quiçá uma escolha futura de
sustentar os mitos fundadores (CHAUÍ, 2000) de uma possível unidade harmônica entre
etnias e culturas. O caso de Carapicuíba não está isolado, perpetuando-se em toda América
Latina e outros rincões do planeta situações que trazem mais semelhanças do que diferenças.
78
Kosik (1976 [1963]) ensina que o conhecimento adequado do mundo deriva de um
pensamento que destrói as invenções fetichizadas e reificadas das coisas ideais, tornando-se
num método revolucionário de transformação da realidade. Permite o entendimento da ordem
própria das coisas. Pensar, portanto, a metrópole, o patrimônio e as rugosidades em conjunto
permite vislumbrar um todo indivisível de instâncias e significados, onde este é criado
simultaneamente pela interação das suas partes, que se desenvolve e se produz. Esta relação
entre o todo e a parte, a parte e o todo, simultaneamente, converge numa abordagem dialética,
em que a compreensão conceitual da realidade é dada em pares: fenômeno e essência,
aparência e realidade, práxis utilitária e práxis revolucionária... Sem que haja um abandono da
totalidade, mas em razão propriamente do processo de totalização, entende que sem
decomposição do real não existe possibilidade da produção do conhecimento. Ou seja, a
separação é ela própria a realização do conhecimento (KOSIK, 1976 [1963]). Esta perspectiva
previamente apontada não traduz o pressuposto construtivo de uma metateoria dos temas em
questão, ou de uma abordagem exaustiva, epistemológica e, por fim, de uma contribuição
capaz de esgotar a amplitude que o fenômeno desperta. Menos ainda uma totalidade
metageográfica. Mas sim de entendê-la em sua totalidade a partir do aprofundamento analítico
de momentos e frações de fatos, onde esta ação deve ser concomitantemente restituída ao
conjunto de relações universais. Neste caso, Lefèbvre (1975 [1969], p. 204) é elucidativo ao
apontar que “a interação universal eleva a nível superior as noções de relação, de identidade e
diferença, de oposição e contradição. É no quadro dessa interação que as relações, as
contradições, aparecem unidas e atuando umas sobre as outras”.
79
2.3 Busca do concreto: pensando as rugosidades patrimoniais na América Latina
A estrutura das cidades possui histórica e geograficamente uma estreita relação com o
dinamismo econômico regional. Na maior parte da América Latina, até meados do século
dezenove, a regulação administrativa sobre seus territórios vinculava-se diretamente ao poder
imperial da Espanha e Portugal. Ao longo do século vinte, os países se modernizam, mas esse
processo, diferentemente do quadro dos países desenvolvidos, acompanha os interesses
ampliados do capital, em suas diversas revoluções técnico-científicas e de expansão rumo a
novos mercados e profunda exploração do trabalho e recursos naturais. Este crescimento se
verifica mediante a superexploração do trabalho e, podemos explicitar e complementar, do
meio natural. “Exacerbam-se, assim, as contradições, os conflitos sociais, os conflitos com a
natureza. [...] Viabiliza-se um estado paralelo e um novo poder econômico marginal, nascido
do capitalismo periférico, mas estranho ao próprio capitalismo” (CARVALHO, 1997, p. 28).
O contexto periférico, das ex-colônias, ou mesmo das grandes cidades em
desenvolvimento, ainda remete concomitantemente a um processo de marginalização cultural
e dependência. Segundo Moraes (2005, p. 73), “as argumentações de índole geográfica
ganham destaque no contexto periférico, com o território muitas vezes suprimindo carências
que a história e a estruturação da vida social negam ao processo de afirmação das identidades
estatais pós-coloniais”. Isso significa que pensar os subúrbios empobrecidos e as periferias
metropolitanas requer a compreensão e o sentido core destas problemáticas, que servirá de
base teórica e metodológica para a análise mais particularizada dos fatos, do recorte empírico.
Principalmente porque a gênese de Carapicuíba, como será detalhadamente analisada, possui
em si um conteúdo marginal, cujas funções, no entanto, eram fundamentais aos propósitos
coloniais. Esse desígnio é reproduzido posteriormente, ora no subúrbio empobrecido, ora na
periferia metropolitana. Movimento que engendra a cada momento transformações
circunstanciais da dinâmica espacial, reorganizando os lugares a cada contexto e fragilizando
os processos de construção identitárias. No entanto, hipóteses trazidas por autores como Di
Méo (2008), Gravari-Barbas (2014) e Costa (2016), defendem que questões ligadas às
identidades se delinearão mais intensamente na periferia, ou nas áreas novas da
metropolização. As formas e os conteúdos instrumentais, porém pautados em outras lógicas
passíveis de, inclusive, resignificar as velhas narrativas e em ampliar criativamente as
condições de interlocução com as rugosidades patrimoniais.
80
Ainda que fundamentais neste processo, as rugosidades patrimoniais demandam
articulação política dos grupos sociais, com soluções coletivas cultivadas frente as pressões
das forças repressoras, econômicas e institucionais, que são a essência da patrimonialização
global. Para que elas sejam, verdadeiramente, mecanismos de integração dos territórios, de
ampliação das vozes, de difusão dos múltiplos significados que possuem, sobretudo de um
processo histórico e geográfico posto à margem pela seletividade da memória nacional
(ORTIZ, 1994). Estas possibilidades são concretas, naquilo que Darcy Ribeiro (2006 [1995])
conjecturou sobre a unidade latino-americana, sonhada por Bolívar. “Hoje, somos 500
milhões, amanhã seremos 1 bilhão. Vale dizer, um contingente humano com magnitude
suficiente para encarnar a latinidade em face dos blocos chineses, eslavos, árabes e
neobritânicos na humanidade futura.” (RIBEIRO, 2006, p. 411).
Contraditoriamente, a outra face dessa unidade identitária, política e econômica, é
dificultada pelas diferenças étnicas e culturais das regiões e países reconhecidos pelo mesmo
autor supracitado: (a) dos países cuja identidade nacional deriva das civilizações e povos
primitivos, como o México, Peru e grande parte dos países da América Central - “povos
testemunhos”; (b) dos “povos transplantados”, que procedem de uma massiva e repressora
invasão europeia, representados por países como Estados Unidos, Canadá, Argentina e
Uruguai; (c) por último, os “povos novos”, estabelecidos por diferentes culturas e etnias,
como o Brasil. Nesse caso, “somos povos novos ainda na luta para nos fazermos a nós
mesmos como um gênero humano novo que nunca existiu antes. Tarefa muito mais difícil e
penosa, mas também muito mais bela e desafiante” (RIBEIRO, 2006, p. 411). Numa síntese,
equacionar estas diferenças numa unidade estratégica de integração identitária é algo
complexo, pois não se reservam apenas às questões étnicas ou culturais, mas de dependência
econômica e interesses externos, graves problemas sociais e de um Estado instituído que
prevarica contra os direitos humanos e a cidadania17.
Mesmo nos casos onde as rugosidades patrimoniais se sobressaem pelo conjunto
material remanescente, como os centros memoriais dos povos Maia, a maior parte instituída
17 “Nesse contexto, as identidades não são evidentes nem se amparam numa história imemorial ou numa cultura
bem diferenciada. A sobrevivência de relações sociais muito assimétricas, herdadas da organização colonial,
torna difícil falar em bem comum ou em vontade geral nestas sociedades, onde vigoram formas de trabalho
compulsório (entre elas, o escravismo) e impedimentos sociais extra-econômicos (de raça, por exemplo). Em tais
sociedades, o ‘povo’ não abarca a totalidade da ‘população’ do país, pois ali vigoram regras de exclusão na
distribuição de direitos de cidadania (tendo por situação-limite a dos escravos, que se caracterizam como
‘propriedades’ e não como sujeitos políticos). Enfim, a legitimação do Estado emerge problemática nestes
contextos.” (MORAES, 2005, p. 73).
81
como Patrimônio da Humanidade, prevalece a instrumentalização dos bens para o consumo
turístico e a cultura convertida em commoditie. Tanto que, na América Central, a entrada em
parques nacionais como Tikal ao norte da Guatemala, ou Copán à oeste de Honduras, são
raros os grupos formados de visitantes guiados em língua espanhola. Do mesmo modo que de
relevante importância econômica para os países em questão, as rugosidades patrimoniais, no
plano da cultura, funcionam alegoricamente numa atmosfera museificada, promovidas por
agências de turismo internacionais e freneticamente experimentadas por uma massa de
visitantes estrangeiros. Em que cidades como Flores e Copán, ligadas respectivamente em
rede pelas agências de Cidade da Guatemala e Tegucigalpa (capitais/metrópoles nacionais),
dão sustentação aos serviços básicos, além de ambientarem com seus centros históricos o
entretenimento noturno dos turistas. Contrasta neste processo um sentido de distanciamento
da produção dessas rugosidades com os povos maias indígenas remanescentes, deslocados de
suas heranças patrimoniais e vivendo às margens desse arranjo, na informalidade do circuito
inferior da economia (SANTOS, 1979) e nas ruas dos centros urbanos sobre o olhar de
desconfiança e repúdio do estrangeiro (Figura 09).
Povos testemunhos vendem artesanatos nas ruas do centro de Antígua Guatemala
Figura 09: Povos testemunhos nas ruas da cidade de Antígua Guatemala vivem do trabalho informal, circuito
inferior da economia, convivendo com boutiques e lojas de artesanatos locais. A apropriação econômica da
cultura indígena (maia) é dada pelas redes internacionais de turismo, pelos agentes hegemônicos regionais e
visitantes predominantemente dos Estados Unidos e Europa.
Fonte: Fotos do autor, 2011.
Contraditoriamente, ainda que exista entre as populações indígenas mediação e
negociações com o governo e as empresas turísticas, ampliam-se as condições dos bens e das
novas relações estabelecidas por um projeto político e econômico de cultura, já que esta
última se adequa ainda aos preceitos de usos tradicionais das rugosidades patrimoniais. Em
Tikal, a presença das exuberantes rugosidades pré-colombianas, abandonadas antes da
colonização espanhola e tomadas pela densa selva tropical, foram praticamente reconstruídas
nos últimos anos, tornando-se um dos maiores centros turísticos de toda América Central. A
82
vultuosidade das intervenções empregaram recursos e a cooperação internacional junto a
países desenvolvidos. Muitos dos monumentos ali presente são frutos das condições
capitalizadas de reprodutibilidade técnica (BENJAMIN, 1985), cujas tradições perpassam por
simbólica reinvenção (HOBASBAWN; RANGER, 2002) e espetacularização (DEBORD,
1997). Em visita ao parque, observa-se além da continuidade das intervenções ainda ativos
espaços ritualísticos dedicados às fogueiras (Figura 10), em que se apoia e rememora antigos
atos sagrados da população indígena ainda remanescente na região.
Áreas ritualísticas e centrais de Tikal - Guatemala
Figura 10: Imagem à esquerda do Parque Nacional de Tikal, Guatemala - Patrimônio da Humanidade. Boa parte
das rugosidades patrimoniais foram e ainda estão sendo reconstruídas ou restauradas. Na segunda imagem, parte
inferior direita da foto, área de rituais com fogo, realizados por antigos descendentes indígenas guatemaltecos.
Fonte: Fotos do autor, 2011.
Um dos maiores desafios políticos contemporâneos parece residir, como no Brasil, em
contemplar uma complexa diversidade étnica e cultural de populações e seus territórios. Em
Honduras, onde a população indígena representa um total menor de 10% da população
nacional, o Parque Nacional de Copán, Patrimônio da Humanidade, abarca a maior parte dos
esforços e recursos públicos destinados à cultura e o turismo no pais. No país, as
instabilidades constantes, sobretudo pelo golpe político ao governo do presidente José Manuel
Zelaya Rosales em 2009, dificultam estas ações e minam a já baixa institucionalidade gerada
em relação aos institutos nacionais de preservação e pesquisa do patrimônio cultural e os
grupos étnicos organizados (EURAQUE, 2010, p. 310).
A criticidade das novas funções e conteúdos das rugosidades patrimoniais na América
Latina é fruto das próprias condições históricas expressadas anteriormente. Afinal, como
advoga Canclini (2006, p. 291), a monumentalidade de grande parte dos espaços históricos no
subcontinente latino-americano deriva de sistemas sociais autoritários no mundo précolombiano, juntamente com o imperialismo espanhol e português suprimindo historicamente
os arranjos socioespaciais indígenas. Quando mantidas algumas das formas e objetos
83
geográficos, os novos conteúdos culturais, funções econômicas e sociais foram superpostos,
cuja a incipiente acumulação que se busca com o resgate das tradições locais está
condicionada a paisagem e sua arquitetura, bem como atender a demanda crescente de
visitantes aptos a pagar por simbólicos e singulares espetáculos. Soma-se ainda, a centralidade
dos bens consagrados pela ótica autoritária das classes sociais dirigentes destes países, as
quais alicerçam a memória e o patrimônio nacional. “Seria preciso analisar, enfim, de que
modo os processos de independência e construção de nossas nações geraram novos edifícios e
murais, retratos de heróis nacionais e calendários de efemérides, destinados a instaurar uma
iconografia representativa do tamanho das utopias.” (CANCLINI, 2006, p. 291).
No caso em que as rugosidades patrimoniais não revelam uma aptidão econômica de
exploração, as alternativas logo se concentram no patrimônio natural. Em países, como o
Chile ou a Nicarágua, sobressaem respectivamente as paisagem das cordilheiras e os parques
nos vales nevados dos Andes (Figura 11), bem como vulcões e aventuras em meio aos
exuberantes cenários do Estreito de Magalhães ao sul, ou o Deserto do Atacama ao norte. No
segundo caso, sobressaem as praias e a paisagem tropical, grandes lagos, parques naturais que
guardam importantes vulcões ativos do círculo do fogo e uma beleza cênica singular.
Cordilheira dos Andes e a cidade de Santiago - Chile
Figura 11: Um dos mais destacados patrimônios naturais chilenos reside na exuberância da cordilheira dos
Andes. Além de compor a paisagem cultural de diversos núcleos urbanos do país, a apropriação das montanhas
por redes e franquias de parques e estações de esqui se avolumam.
Fonte: Foto do autor, 2015.
84
Cuba é um caso muito particular, e mesmo avançando em relação à justiça social e
relativa democratização cultural, as tantas contradições observadas no continente igualmente
estão presentes na ilha. As rugosidades patrimoniais de Havana se agigantam para além de
“Havana Vieja”, porém o núcleo revitalizado concentra-se estritamente na rua Obispo e
paralelas, pontos específicos do território da cidade, que convivem com ampla massa
sucateada de antigos casarões e edifícios centenários distribuídos. A homogeneidade da
arquitetura reitera a acumulação de formas que derivam dos séculos dezenove e vinte nos
limites da revolução. Havana é o núcleo metropolitano de um governo centralizado e que se
articula às múltiplas atividades produtivas, inclusive com os internacionalizados e luxuosos
resorts no mar do Caribe, que dinamizam economicamente o país e onde o acesso da
população local é segregado, inclusive a setores das praias ocupadas pelos equipamentos de
lazer dos empreendimentos hoteleiros, como o caso de Varadero (Figura 12).
Patrimônio natural das paradisíacas praias no Caribe – Varadero/Cuba
Figura 12:Varadero, no litoral norte da ilha de Cuba, conta com as mais belas praias do Caribe e luxuosos
resorts com turistas canadenses e europeus em sua maioria. Mesmo diante de um regime político diferenciado do
restante da América Latina, o país convive com problemas semelhantes, como a internacionalização de seu
território e a segregação dos bens de serviços e de consumo à população local.
Fonte: Foto do autor, 2015.
No caso das cidades brasileiras às questões culturais são emblemáticas, pois a
heterogeneidade que caracteriza a formação de um “povo novo” – nos dizeres de Ribeiro
(2006) – em conjunto com as políticas públicas nacionais e orientações internacionais marcam
um processo de valorização seletiva dos espaços e, pois, das próprias manifestações culturais.
Como explica Costa (2010, p. 56) “valorização essa que produz contradições e que tem o
poder de transformar o conjunto urbano e a própria cultura em gêneros de mercadorias;
valorização que dá um novo rumo para cidades como Salvador, Olinda, Ouro Preto,
Diamantina [...]”. As cidades já consagradas como monumentos nacionais (Figura 13), agora
chanceladas pela UNESCO e convertidas em Patrimônios da Humanidade, convergem para
85
um processo irreversível de revalorização econômica, guiadas pela atividade do turismo e o
reconhecimento internacionalizado da formação histórica e da identidade territorial vinculadas
ao Brasil Colônia, ao barroco e os edifícios maiores em áreas centrais.
Núcleos coloniais de Ouro Preto e Diamantina – Minas Gerais
Figura 13: Imagem à esquerda, perspectiva da primeira cidade-monumento do Brasil – Ouro Preto. Na imagem
à direita, o centro da cidade de Diamantina. Ambas tombadas Patrimônio Nacional e Cultural da Humanidade,
atraindo anualmente milhares de turistas e revelando uma das escolhas patrimoniais identitárias possíveis para
representar o povo brasileiro.
Fonte: Fotos do autor, 2016.
Mais complexas são as regiões metropolitanas, que em países como Brasil, México,
Colômbia e Argentina tomaram proporções em que os agrupamentos humanos facilmente
ultrapassam milhões de habitantes. Além disso, concatenam simultaneamente as marcas das
populações primitivas com a estrutura colonial estabelecida, convivendo tantas
temporalidades pretéritas, quanto foi possível a essas comunidades ao longo dos últimos
séculos produzir alternativas econômicas, políticas e culturais para a sua sobrevivência.
Mesclam-se, em meio às áreas que chegam a 15 mil habitantes por quilômetros quadrados,
uma rica heterogeneidade de hábitos, costumes e modos de viver. Ainda que as teorias da
globalização protelem tendências sociais à homogeneização, e mesmo considerando a
velocidade das difusões nos hábitos culturais contemporâneos pelos meios de informação,
Canclini (2006) ajuda explicar que habitar uma grande cidade não necessariamente restrinja a
vida numa clausura diluída na massa e no anonimato. Tão pouco o domínio da televisão e
computadores contemplem totalmente as necessidades e os anseios sociais que os espaços
públicos e a convivência permitem. Trata-se muito mais de relativizar esse processo, no
sentido dado do “jogo de ecos” pensado pelo autor supracitado, metaforicamente
exemplificada onde “a publicidade comercial e os lemas políticos que vemos na televisão são
os que reencontramos na ruas, e vice-versa: umas ressoam nas outras.” (CANCLINI, 2006, p.
290).
86
Não é possível negar que a patrimonialização tencione as rugosidades nas metrópoles
em termos de padrões essenciais à sua apropriação por novas atividades produtivas. Estratégia
que normatiza as formas e potencializa seus conteúdos. Que compassa a vida moderna com a
agenda de cultura, lazer e entretenimento da cidade. Sistema que se ajusta à racionalização do
tempo e das formas visando a fluidez espacial, ora para transitar mercadorias, ora fazendo
destas rugosidades patrimoniais o produto de consumo basilar. Estas premissas gerais, no
entanto, não resultam de uma teoria impressa em tábula rasa. Os processos de mercantilização
da cultura (HARVEY, 2005) ligados às rugosidades patrimoniais não se efetivam plenamente
sem resistências, tensões, conflitos, ou consensos, que no limite podem inviabilizar ou dar
outros encaminhamentos aos projetos primitivos. Enfim, no desenvolvimento geográfico
desigual e da globalização, a aceleração do tempo de giro do capital, acaba por causar grandes
tensões entre as demandas de mercados, com as temporalidades dos sistemas sociais e
ecológicos (HARVEY, 2013). Nesta conjectura, as barreiras espaciais devem ser eliminadas,
adequando às cidades e territórios no empreendimento de acumulação. Lógica, no entanto, a
análise mais detalhada acaba por evidenciar barreiras e uma permeabilidade questionável. As
rugosidades patrimoniais evidenciam, porém, que os fatos sociais não são redutíveis
exclusivamente ao plano econômico, mas do mesmo modo das relações estabelecidas entre os
grupos, sujeitos e o todo social. Significa que mesmo a efetiva articulação entre o capital e o
Estado (nas inovações produtivas, das infraestruturas instaladas e a organização política e
ideológica do poder corporativo), o resultado da globalização se apresenta diferenciado,
multifacetado, onde as temporalidades nem sempre obedecem plenamente as demandas
verticais e especulativas dos mercados financeiros, ou das grandes corporações industriais e
de empresas.
Igualmente, mais que reserva de mão-obra, as condições de vida nas metrópoles
podem apresentar significativos redutos das permanências culturais, ou na perspectiva criativa
e híbrida de novas construções e práticas, cujo papel mais que acumular capital se insere no
plano essencial das necessidades de reprodução e existência. Desponta que, mesmo nas
intempéries condições de urbanização da América Latina e das negligenciadas políticas no
âmbito do patrimônio cultural, as formas e conteúdos universalmente institucionalizados ou
universalizados, no plano da proposta do “utopismo patrimonial singularista” (COSTA,
2016), avançariam em favor das rugosidades representativas da memória coletiva. Tal
fundamento traz a discussão do patrimônio cultural para uma inversão do desenvolvimento
das ideias, que sempre se localizaram e estiveram enraizadas no núcleo político e econômico
87
da metrópole. Mas esse não seria, além da dimensão urbana de análise, o próprio caso do
patrimônio cultural? Sempre valorizado na ótica hegemônica das classes sociais, monumental
de pedra e cal, cuja localização historicamente residiu nas centralidades do poder. Buscar
apreender a dinâmica das rugosidades patrimoniais de Carapicuíba frente a metropolização de
São Paulo, estabelece o deslocamento analítico do centro para a periferia, um exercício de
situar geográfica e historicamente os dramas e as conquistas dos trabalhadores (escravos,
forçados e relativamente livres) que desde a colônia aos dias atuais alicerçam o fato da
metrópole nacional brasileira.
88
PARTE 02
DA GÊNESE COLONIAL AO SUBÚRBIO:
CARAPICUÍBA E SUAS RUGOSIDADES
PATRIMONIAIS
CAPÍTULO 03: Gênese colonial das rugosidades patrimoniais de
Carapicuíba
Quando realizado um questionamento sobre analisar o passado com os olhos do
presente (MUMFORD, 2008), ou da fundamentação em fontes secundárias, por vezes
imprecisas e passíveis de questionamentos, faz-se necessário ainda incluir os direcionamentos
ideológicos e as condições proto-científicas de viajantes, ou representantes oficiais das
instituições interessadas (Coroa e Igreja). De fato, em meio a estas circunstâncias
documentais e iconográficas é que se estabelece uma base analítica que, fundamentada no
rigor reflexivo, permite avanços, porém sem necessariamente se desvincular das pretéritas
fontes, as quais merecem crédito, mas sempre o cuidado. Se é importante retomá-las,
simultaneamente necessário é triar criticamente e reconhecer os contextos históricos e
geográficos de suas produções. Para isso, além do esforço reflexivo de estabelecer
interconexões temporais entre múltiplas escalas geográficas, prevalecem três planos
referenciais para a construção destas unidades da tese. A primeira associada às análises
científicas18. Numa segunda faceta, residem as obras regionalistas, muitas com interface entre
as supracitadas. Sem qualquer perda de mérito, ou importância, acredita-se tão somente
necessário diferenciá-las dos primeiros, já que estes autores ao viverem intensamente e por
terem uma ligação marcante com os lugares passam a carregar muitas particularidades nas
análises19. Por fim, o terceiro alicerce está fincado nas bases documentais e iconográficas de
18 Oriundas de disciplinas como a História, a Economia, Artes ou o Urbanismo, por exemplo. Destacando-se a
Geografia, por base das obras de Aroldo de Azevedo, Pasquale Petrone e Richard Langenbuch, mas não
limitando-se exclusivamente a estes, como os fundamentos de Luís Saia ou Américo Pellegrini a título de
exemplo.
19 Destacam-se Eduardo Escalante, Miguel Costa Junior, Pedro Tenório, Helenice Henne, Alexandre Pimentel,
entre outros.
89
origem primária, tanto de fotos de moradores, jornais ou folhetins cotidianos, quanto de
arquivos, como o do estado de São Paulo, ou as bases dos institutos do patrimônio.
Num passado mais remoto, são estes elementos documentais que fundamentam a
periodização e a análise particularizada do passado de Carapicuíba em relação à “metrópole”,
ou mesmo escalas mais amplas, como a difusão de missões religiosas e a organização colonial
em toda América Latina. Na prática, ao tomar como recorte empírico a cidade de Carapicuíba
(RMSP) no contexto de metropolização, utilizando da periodização histórico-estrutural
enquanto abordagem metodológica para apreender sua formação territorial e a gênese das
atuais rugosidades patrimoniais, uma das preocupações emergentes residiu precisamente nos
limites das narrativas e da ambígua clareza da razão histórica oficial – tanto na origem
temporal e espacial da aglomeração, como no seu desenvolvimento. Dos documentos
primários e obras clássicas que retratam sem grande precisão da área, apontam como marco
histórico o ano de 1580, quando uma determinada gleba com três léguas de terra
(supostamente onde foi instalado o aldeamento) é doada pelo capitão-mor Jerônimo Leitão
aos índios Guaianases da aldeia de Pinheiros e Carapicuíba. Por volta desta mesma data é
atribuída a criação dos doze aldeamentos em São Paulo por Anchieta (inclusive o de
Carapicuíba). Nesta mesma região, possivelmente sobreposta às terras doadas, Afonso
Sardinha e sua esposa Maria Gonçalves instalaram um sistema de aldeamento em sua
propriedade, visando o confinamento indígena, que foi administrado e doado posteriormente à
Companhia de Jesus em 1615 (REIS FILHO, 1982; COSTA JÚNIOR, 1987; HENNE, 2015).
A primeira doação, portanto, relaciona-se ao sítio da Aldeia de Carapicuíba (onde hoje está o
Parque da Aldeia e o vilarejo sede do antigo aldeamento homônimo). A segunda doação seria,
portanto, a mesma área onde atualmente está circunscrito o município de Carapicuíba
(HENNE, 2015). Não se trata, porém, de uma gênese inconteste, mas de consensuais
suposições originárias que, de qualquer forma, dão sentido histórico, ainda que precário e
harmônico, simultaneamente ao atual arranjo do aldeamento e do município de Carapicuíba.
Mais que o aprisionamento da descrição das singularidades locais frente ao
movimento global, criticamente denunciado por Massey (2009), a apreensão das atuais
dimensões urbanas deve buscar o fragmento ou a parte desta totalidade, no movimento
dialético de aproximação empírica e de generalização teórico-conceitual, que aqui resume-se
ao foco da formação econômica e social (nacional-regional) e que está sintetizado num
movimento de recomposição ulterior com o todo (a estrutura global). E, ao nosso entender, o
mais desafiador, congregar a abordagem econômica e política às perspectivas críticas
90
espaciais, que carregam dimensões da cultura, em que os territórios e unidades se constituem
numa complexa trama em torno das rugosidades patrimoniais. Como ainda explica Santos
(1985) a compenetração histórica não tem uma finalidade prospectiva em si, autônoma e
desvinculada das relações do presente. Estes fundamentos devem apoiar incondicionalmente a
apreensão da contemporaneidade, cuja clarividência do futuro e suas forças podem ser,
igualmente, estimadas. Nesse sentido, Carapicuíba, independentemente dos novos conteúdos
associados às suas formas, é o único município ainda a possuir um conjunto de elementos, ou
propriamente, a rugosidade patrimonial em suas concreticidades, que remete
morfologicamente ao modelo de aldeamento estabelecido no atual território de São Paulo.
Elemento sugestivo das mais dilatadas narrativas históricas, fundadas nos rincões do Brasil
Colônia e expandidas aos limites da urbanização-metropolização do país.
Em meio as intervenções realizadas, tanto pela população em causa da necessidade de
sua própria permanência, ou dos órgãos e instituições públicas ao longo do século passado, no
sentido de sua preservação, o fato é que o aglomerado possui não apenas o desenho, mas
algumas tradições que, se não pensadas no início da fundação em 1580, ao menos em sua
segunda fase, quando da reconstrução do núcleo por volta de 1736. Em verdade, alguns
elementos derivativos dos aldeamentos podem ser ainda observados in locu nas atuais cidades
da RMSP, porém sem a integralidade que o antigo conjunto da Aldeia de Carapicuíba possui
(Mapa 03). Mesmo com a relevância do sistema de aldeamentos nos primeiros períodos da
colonização do Brasil, sobretudo nos arredores de São Paulo, materialmente nada restou, a
não ser alguns poucos documentos, relatos de viajantes, livros e outros resíduos que podem
ser mais bem observados justamente em Carapicuíba. Nisto, observa-se a latente condição de
patrimonialização que tenciona este território durante o século aos dias atuais, tornando-se um
dos casos mais emblemáticos no que tange o estudo do patrimônio cultural em São Paulo. Ele
perpassa todas as fases do desenvolvimento territorial, que vai dos aldeamentos aos subúrbios
pré-metropolitanos e dos subúrbios à fragmentação e periferização da metrópole paulista, as
quais esta unidade da tese busca ilustrar e fundamentar os preceitos analíticos e reflexivos
posteriores.
91
92
3.1 Notas acerca dos primeiros núcleos, vilas e cidades no Brasil
Os primeiros momentos da formação territorial brasileira (ciclos de assentamento e o
bandeirantismo), trazem dois efeitos cruciais ao desenvolvimento dos grandes ciclos
econômicos. A primeira, sem dúvida, compreende o conhecimento sobre o território, com a
consolidação de bases e pontos de interiorização. A segunda, que deriva deste saber, precisa
as localizações das fontes de recursos metal-minerais e leva a cabo as expansões produtivas
agropecuárias (principalmente a exploração do ouro em Minas Gerais e Goiás e instalação da
cultura canavieira no nordeste e sudeste da costa atlântica), que acabaram por romper as
barreiras contratuais na divisão territorial-colonial estabelecida entre Portugal e Espanha no
Tratado de Tordesilhas e, pois, a da própria ampliação física territorial do Brasil e o
“estreitamento” das posses hispânicas. Depois, mas não menos importante, altera-se o raio de
ação do colonialismo português da África e Ásia para a América, especialmente para
Pernambuco e São Vicente. Aí se pronuncia o alicerce efetivo das raízes da formação colonial
brasileira, muito bem apontada por Gilberto Freyre (1996 [1936]):
Organizada a sociedade colonial sôbre base mais sólida e em condições mais
estáveis que na Índia ou feitorias africanas, no Brasil é que se realizaria a prova
definitiva daquela aptidão. A base, a agricultura; as condições, a estabilidade
patriarcal da família, a regularidade do trabalho por meio da escravidão, a união do
português com a mulher índia, incorporada assim à cultura econômica e social do
invasor (FREYRE, 1996 [1936], p. 05).
Em relação às vilas e cidades quinhentistas, estas eram fruto de uma organização
proto-urbana, orientadas pelas leis reais, mas determinadas sobremaneira pelas forças da
natureza e da pré-estrutura de caminhos, núcleos e conhecimentos indígenas. As localizações
limitadas às regiões costeiras justificam-se não apenas às ameaças, mas ainda pela dificuldade
de extravasar a escarpa serrana, como a densidade da mata atlântica. Azevedo (1992) então
regionaliza três grandes áreas de aglomerações no período quinhentista brasileiro, todas
litorâneas: (a) Região Vicentina; (b) Região Pernambucana; (c) Região Bahiana. Nesses
primeiros núcleos de cidades, a união entre Estado e Igreja “desempenhou papel fundamental
na fundação e na elaboração de políticas urbanas” (GODOY; BRAY, 2005, p. 188). Mesmo
que evidenciada a ligação entre ambos na gênese destes núcleos, segundo Murilo Marx (1991)
tal fato permaneceu esquecido, ou bastante desconsiderado. É certo que tanto a constituição
das vilas e cidades, como das práticas urbanísticas realizadas, tiveram influência direta dos
modelos praticados na península ibérica, numa certa coesão de funções exercidas entre Estado
e Igreja (DEFFONTAINES, 1944; AZEVEDO, 1957; REIS FILHO, 1968; MARX, 1980;
93
1991; IANNI, 1996; GODOY; BRAY, 2003). Além destes, “(...) também a população
estabeleceu e procurou oficializar novos povoados, não só acatando instrumentos normativos
eclesiásticos, como utilizando-os para garantir e ampliar seu lugar ao sol” (MARX, 1991, p.
17). Essa coalização tripartite (coroa-colonizador-igreja), permitiu a concretização primeira da
estratégia do projeto imperial e seu financiamento, segunda da apropriação e exploração das
riquezas, a terceira da fundamentação e harmonização legitimadora. Vilas e cidades são
geradas como condições centrais deste processo, destinadas aos civilizados, aos negócios e a
religião. Às margens, os nativos indígenas correspondiam os aldeamentos e seu entorno
próximo, lugares de exceção, cativeiros, que estavam distantes socialmente do campo ou da
cidade, mas estrategicamente postos aos propósitos de sustentação de cada subunidade destes
outros espaços.
No século dezessete, novas aglomerações passam a ser produzidas em áreas de
interior, ao sul e destacadamente em São Paulo. Ianni (1996) ressalta a mescla e assimilação
de técnicas e soluções indígenas, ou a reformulação daquelas trazidas pelos portugueses, no
confronto com a cultura indígena e que principia a tradição caipira que se estenderia a todo
sertão brasileiro (IANNI, 1996, p. 18). Além das três cidades e das quatorze vilas criadas no
século dezesseis, agora no dezessete somam mais quatro povoados que ganham título de
cidades: São Luís (MA), Cabo Frio (RJ), Belém (PA) e Olinda (PE)20. Constituem, pois, até o
fim deste mesmo século um total de cinquenta e cinco o número de vilas e de sete cidades no
Brasil. Assim também, a regionalização dos aglomerados se reconfigura e passa para três
grandes áreas ou eixos: (a) Eixo PE-BA (Nordeste); (b) Eixo RJ-SP (Sudeste); (c) MA-PA
(Norte). Destaque para maior concentração populacional em São Paulo, ao mesmo tempo com
maior quantidade de vilas, totalizando 17 ou 33% do total (AZEVEDO, 1992). No entanto, no
período, as maiores cidades brasileiras não chegam a cinco mil habitantes. A maior cidade era
a de Salvador (“capital da Colônia” com 8.000 habitantes), depois Rio de Janeiro, Recife e
Olinda, que possuíam expressividade populacional (aproximadamente 3.000 a 4.000
habitantes), São Paulo possuía à época por volta de 2.000 habitantes (AZEVEDO, 1992). Este
quadro de relativa estagnação dos aglomerados populacionais brasileiros seria dinamizado nos
séculos seguintes, com a efervescência econômica de algumas regiões, proporcionada pela
alta produção agrícola, a mineração no interior de Minas Gerais e, fundamentalmente, as
20 Como explica Abreu (1997, p. 214) “A diferenciação entre vilas e cidades era, pois, de caráter jurisdicional e
não hierárquico. [...] O status de vila não diminuía importância de um centro urbano”.
94
demandas emergentes do mercado externo e da nova realidade despertada pelos princípios da
Revolução Industrial na Europa.
O século dezoito, apesar da interiorização colonial, teve a criação de poucas cidades,
no total de três: São Paulo (SP), Mariana (MG) e Oeiras (PI). As vilas, porém, se multiplicam,
junto com várias aglomerações e pequenos povoados ligados aos seus respectivos hinterlands.
De maior relevância, no entanto, é a mudança do eixo regional político-administrativo e
econômico de Salvador para o Rio de janeiro, sobretudo em razão da importância do centro
aurífero de Vila Rica. Com base em Azevedo (1992), nestas áreas auríferas21 se entulhavam
todo o tipo de aventureiro e “[...] em menos de 50 anos havia atingido a população que o Rio
de Janeiro levara dois séculos para alcançar.” (AZEVEDO, 1992, p. 51). A importância
geopolítica do Brasil para a sobrevivência de Portugal era tamanha que resultou na ideia do
império “luso-brasileiro” no final do mesmo século. “Essa ‘interiorização da metrópole’ atuou
em vários processos da formação brasileira, entre eles o de afirmação de uma identidade da
colônia (agora alçada à situação de ‘reino unido’ a Portugal)” (MOARES, 2005, p. 112). O
que com a decadência posterior destas cidades, comportará a permanência das mais preciosas
rugosidades patrimoniais eleitas e ligadas ao barroco-rococó e direcionará a valorização,
perpetuando nestas unidades e fragmentos coloniais símbolos representativos do patrimônio
cultural brasileiro. Se um bem só é especial e representativo frente a outro comum e pouco
expressivo, a dialética do valor, de uso ou troca, se é que possível separá-los, será dada numa
dimensão patrimonial de inclusão-exclusão, que no Brasil incluiu os bens materiais, sobretudo
os maiores, institucionais ou das oligarquias nacionais, bem como da etnia branca e num
contexto de gênero decisivamente masculino – ponto que será mais dedicado à terceira parte
da tese.
As transformações na rede urbana brasileira no século dezoito (interiorização, criação
de novos povoados e adensamento dos núcleos pré-existentes) evidenciam uma nova política
econômica em curso na Colônia, em que a cidade ganhava cada vez mais centralidade na
regulação do império português sobre as riquezas extraídas da terra. Explica Freyre (1996)
que é em São Paulo e nas Minas onde se faz sentir maior a exploração das riquezas pelo
império português no período. Não apenas o legado da atual rede de cidades, ou mais
propriamente dos fatos associados ao fenômeno urbano, o século dezoito deixa profundas
21 Apesar da centralidade de Minas Gerais, “a base geográfica da economia mineira estava situada numa vasta
região compreendida entre a serra da Mantiqueira, no atual Estado de Minas, e a região de Cuiabá, no Mato
Grosso, passando por Goiás.” (FURTADO, 1971 [1959], p. 78).
95
rugosidades do que se instituiria por cultura nacional. Ribeiro (2006 [1995]) delineia com
precisão o sentido de constituição das cidades no Brasil ao longo do período colonial, como
um movimento civilizatório, com um modo específico de pensar, agir e, portanto, de ser a
partir da empresa do extrativismo, agrário-mercantil sob controle e da ordem metropolitana
europeia e das instituições religiosas.
Essas cidades e vilas, grandes e pequenas, constituíam agências de uma civilização
agrário-mercantil, cujo papel fundamental era gerir a ordenação colonial da
sociedade brasileira, integrando-a no corpo de tradições religiosas e civis da Europa
pré-industrial e fazendo-a render proventos à Coroa portuguesa. Como tal, eram
centros de imposição de ideias e das crenças oficiais e de defesa do velho corpo de
tradições ocidentais, muito mais que núcleos criadores de uma tradição própria
(RIBEIRO, 2006 [1995], p. 181).
Como assinala Prado Júnior (1972 [1945]) mesmo com a independência em 1822, a
era colonial para o Brasil praticamente se encerra em 1808, com a chegada da família real no
Rio de Janeiro. Esse fato faz com que o Rio de Janeiro tome outros contornos, que trará a seu
entorno grande centralidade político-administrativa, do qual terá detalhamento adiante o caso
de São Paulo. A criação na Colônia de 3 cidades e 118 vilas no século dezoito (AZEVEDO,
1992), além da expansão ao interior do território, ainda contrastam com a desintegração,
concentração dos núcleos nas áreas costeiras e irregularidade de povoamento entre áreas
produtivas específicas: principalmente gado, ouro e cana-de-açúcar (PRADO JUNIOR, 1972
[1945]). No século dezenove entre a transição de Colônia, Reino Unido e Império, há criação
de duas cidades interiorizadas apenas nas duas primeiras décadas, no Centro-Oeste: Cuiabá e
Goiás Velho. Antes da independência (1822) são doze cidades no Brasil: Porto Alegre em
1822 é elevado a cidade. Mais seis cidades são criadas logo após a independência (1823):
Ouro Preto (MG), Recife (PE), Natal (RN), Florianópolis (SC), Fortaleza (CE) e Aracaju
(SE). Para Azevedo (1992), as cidades brasileiras no período colonial tiveram basicamente
três funções: função político-administrativa (da Coroa sobre o território colonial), função
comercial (nem sempre baseado no sistema mercadoria-dinheiro, mas de escambos, permuta
de serviços e favores) e religiosa. A industrialização foi proibida, o que acabou por não ser
significante neste período. Para o autor, mesmo o Brasil sendo um país colonial, com grandes
dimensões e onde as populações indígenas possuíam outro estágio de desenvolvimento, houve
a criação de muitas cidades, vilas e povoados (Quadro 02).
96
Notas acerca dos primeiros núcleos, vilas e cidades no Brasil
ESTRUTURA E PROCESSO DISTRIBUIÇÃO E LOCALIZAÇÃO RUGOSIDADES PATRIMONIAIS REPRESENTAÇÃO E ICONOGRAFIA
a) Séculos XVI e XVII Capitalismo Comercial: expansão
marítima de Portugal captura
novas zonas comerciais
estratégicas em todo planeta.
b) Brasil Colônia: Primeiros
Núcleos de Aglomeração se
efetivam através da união entre
Estado e Igreja na epopeia
colonizadora da América pela
Europa.
c) No Brasil, os vetores
fundacionais estão restritos ao
espaço costeiro: Natal, Salvador,
Rio de Janeiro e São Vicente são
alguns dos mais significativos.
Participam do processo além de
Portugal, França e Holanda.
d) Exceção aos núcleos interiores,
São Paulo no Planalto de
Piratininga, eles já datam pouco
antes da segunda metade do séc.
XVI, visando localizações seguras
e estratégicas entre o interior do
continente e o litoral.
e) Sistema plantation instalado,
baseada na cultura canavieira e
trabalho escravo indígena.
Posterior avanço interior,
descoberta do ouro e exploração
primária com escravização do
negro africano.
f) Muitos núcleos urbanos
regulatórios, mas poucos com
volume de população, comércio,
serviços, ou mesmo atividades
religiosas. Sistema de
infraestrutura ainda precário e
mesclado às técnicas regionais.
a) Aspectos fundamentais dos
aglomerados baseados em pequenas
feitorias e povoados, sobressaindo o
papel da Igreja na sua organização e da
Coroa no seu controle.
b) Embriões de cidades situam-se:
fortificações, aldeamentos, arraiais,
engenhos, patrimônios e pousos.
Primeiros momentos restringem-se a
interiorização.
c) Regiões independentes, sistema de
hinterlands, com relativa autonomia dos
núcleos e aglomerações. Com o
alvorecer do século XVII há maior
interiorização dos núcleos.
d) Três grandes áreas de aglomeração no
período quinhentista brasileiro: (a)
Região Vicentina; (b) Região
Pernambucana; (c) Região Bahiana.
e) Séc. XVII a regionalização dos
aglomerados se reconfigura e se
interioriza, passa para três grandes áreas
ou eixos: (a) Eixo PE-BA (Nordeste);
(b) Eixo RJ-SP (Sudeste); (c) MA-PA
(Norte).
(f) Maior concentração urbana em São
Paulo, totalizando 17 vilas, ou 33% do
total da Colônia. A vida é predominante
nas fazendas, cidades são espaços de
encontros esporádicos.
(g) Constitui-se, pois, até o fim do
século XVII, um total de 55 o número de
vilas e de 7 cidades no Brasil, afora
povoados supracitados. A totalidade é
resultante dos embriões estrategicamente
pensados para a administração, ou
defesa e controle do território.
97
ESTRUTURA E PROCESSO DISTRIBUIÇÃO E LOCALIZAÇÃO RUGOSIDADES PATRIMONIAIS REPRESENTAÇÃO E ICONOGRAFIA
a) Brasil torna-se a principal
colônia portuguesa.
b) A cidade ganhava cada vez
mais centralidade na regulação do
Império Português sobre as
riquezas extraídas da terra.
c) São Paulo torna-se região
estratégica por sua localização
entre o interior, o centro e a
porção costeira do país.
d) Segunda metade do século
XVIII, já se fazia sentir nas
tensões geradas nas colônias entre
uma sociedade rural que se dirigia
a um tempo mais acelerado e
mediado pela cidade e a fábrica
em decorrência na Europa.
e) Capitalismo Industrial e nova
dinâmica produtiva nos países
imperialista da Europa afetam
diretamente coloniais.
f) Chegada da Coroa Portuguesa
ao Brasil, implantação de novas
infraestruturas.
g) Rio de Janeiro torna-se capital,
seu entorno terá grande
centralidade políticoadministrativa, do qual São Paulo
terá destaque mais uma vez, com
a produção de açúcar, algodão e
café.
a) Criação na Colônia de 3 cidades e 118
vilas no século XVIII.
b) Transformações na rede urbana
brasileira: interiorização, criação de novos
povoados e adensamento dos núcleos préexistentes. Maior integração, porém
persistem as hinterlands e a vida
predominante rural.
c) Expansão do povoamento ao interior do
território, ainda contrasta com a
desintegração, concentração dos núcleos
nas áreas costeiras e irregularidade de
povoamento, efetivada entre áreas
produtivas específicas: principalmente
gado, extrativismo mineral e cana-deaçúcar.
d) A vida ganha maior urbanidade, com
intensificação da religiosidade, das
edificações, bens, arte sacra, herança
cultural imaterial. Reformas estruturais
nas igrejas, douramento em ouro, pinturas
e artes diversificadas (barroco e rococó).
e) Antes da independência (1822) são
doze cidades no Brasil: Porto Alegre em
1822 é elevado a cidade. Mais seis cidades
são criadas logo após a independência
(1823): Ouro Preto (MG), Recife (PE),
Natal (RN), Florianópolis (SC), Fortaleza
(CE) e Aracaju (SE).
f) As cidades brasileiras no período
colonial tiveram basicamente três funções:
função político-administrativa (da Coroa
sobre o território colonial), função
comercial (nem sempre baseado no
sistema mercadoria-dinheiro, mas de
escambos, torça de serviços e favores) e
religiosa (missas, romarias e festejos
católicos).
g) Transformações empreendidas pela
passagem do capitalismo comercial ao
industrial, farão com que o campo passe a
depender, paulatinamente, dos anseios da
cidade.
Quadro 02: Povoamento e urbanização no Brasil Colonial.
Fonte: Prado Júnior (1971[1942]), Azevedo (1992), Reis Filho (1968), Furtado (1971 [1959]). Organizado pelo autor, 2015.
98
Estas unidades, em termos institucionais, são as que melhor caracterizariam uma
ordem normativa tipicamente ordenada, de um capitalismo primitivo e de características
comerciais, em que as cidades ou núcleos de adensamento com funções administrativas é
quem irão regular as atividades, desde a defesa até os impostos pelos produtos extraídos.
Como defende Abreu (1996), apesar das polêmicas em torno das funções da cidade neste
período, deve-se relativizar pontos de vista que desprezam estes espaços como centros de
controle do território pela Coroa22, bem como que sua estrutura não seria fruto de
planejamento (Sergio B. de Holanda em Raízes do Brasil dá vários indícios da aleatoriedade
da produção da cidade colonial no Brasil). “Os controles exercidos pelo Estado Português não
se limitaram, entretanto, às questões do plano da cidade. Eles fizeram-se sentir também em
outras dimensões da vida urbana, ainda que isto não seja muito aparente à primeira vista.”
(ABREU, 1996, p. 155). Deve-se ressaltar que os meios de controle exercidos sobre a colônia
pela Coroa portuguesa decorrem de um contexto onde o tempo de difusão das informações era
outro. Compreensível é que muitas soluções adotadas na estrutura dos núcleos urbanos
fugissem da regulação direta da Coroa, já que os imperativos cotidianos exigiam intervenções
instantâneas da administração local. Fato que não significa, necessariamente, que seus
representantes deixassem de lado as orientações estruturais vindas da Europa. Não se tratava,
como quer Bruand (1981, p. 325), de “deixar guiar pela natureza dos locais” ao exemplificar a
ocupação de áreas de várzea desde o Brasil Colônia.
Numa síntese, conforme Godoy e Bray (2003, p. 188), o empreendimento colonizador
implicava justamente no desenvolvimento de uma expansão territorial calcada na
maximização das possibilidades de exploração dos recursos naturais. A busca por riquezas em
áreas extremas da colônia portuguesa na América levou a constituição futura de uma série de
núcleos populacionais em margens de rios e, principalmente, na costa litorânea. Fundaram
nessas terras um modelo agro-exportador, sistema extrativo – minérios, madeiras e o trabalho
escravo indígena e, posteriormente, africano. Uma organização que colapsou a ordem
territorial primitiva e traçou um projeto ocidental e imperialista na América, que ativamente
dará sustentação necessária à formação dos grandes Estados-nações contemporâneos.
Criticamente, para Prado Jr. (1971 [1942]) “se vamos na essência de nossa formação, veremos
22 Yves Bruand no clássico “Arquitetura Contemporânea no Brasil” (1981), desfecha sua obra analisando
historicamente a estrutura urbana das principais cidades brasileiras. Neste ínterim reforça algumas noções de
aleatoriedade e espontaneidade de natureza local na regulação do tecido urbano colonial, ideias tomadas
principalmente de Sergio Buarque de Holanda, mas bastante questionadas por Reis Filho (1968) e Abreu (1996),
entre outros autores e as quais somos propenso criticamente a defender.
99
que na realidade nos constituímos para fornecer açúcar, tabaco, alguns outros gêneros; mais
tarde ouro e diamantes; depois algodão, e em seguida café, para o comércio europeu. Nada
mais que isto.” (1971, p. 26). O Brasil carrega sim a particularidade do processo colonial, isso
no entanto nos faz relativizar a ideia de “povo novo” (RIBEIRO, 2006 [1995]) na qual
Moraes (2005) entende que “[...] a edificação de algo novo do que a apropriação de uma
estrutura preexistente, como em outras partes do mundo colonial e da própria América”, pois
o que veremos é que mesmo prevalecendo a supressão de grande parte das rugosidades précolombianas, a estrutura primitiva serviu compulsoriamente de apoio incondicional e
desarmônica da criação desse “povo novo” que se denominou ao brasileiro (acumulando e
superpondo formas-conteúdos).
3.2 Sistema de aldeamentos e a colonização do planalto paulistano
Ao longo da colonização portuguesa da América, a concentração das cidades, vilas e
outras unidades territoriais de apoio político-administrativo, realizou-se na faixa litorânea
continental, até aproximadamente cem quilômetros do mar, a depender da extensão e dos
recortes da planície costeira. Lembrando a clássica frase de Frei Vicente do Salvador, Pereira
(2014, p. 03 – grifo nosso) explica que “diferentemente dos espanhóis na América, os
portugueses contentavam-se com ‘arranhar as terras ao longo do mar feito caranguejos’,
limitando-se a permanecer e defender o espaço ocupado da faixa litorânea”. A ocupação
colonial do Brasil por Portugal, desenvolvida nesta porção do território, evidencia o primitivo
“controle metropolitano” da Colônia, articulando desde então as relações multiescalares que
se faziam verticalmente do poder global ao local.
O planalto paulista foi uma exceção à regra, já que para além da faixa litorânea, se
constituiu ali uma incipiente organização colonial, ainda no século dezesseis. Este
empreendimento arrolado pelo colonizador e o sucesso que dele resultou na maior
aglomeração humana do hemisfério sul do planeta, é o princípio condicionante do arranjo
urbano e do embrionário sistema de cidades nesta região (PETRONE, 1995; 1998;
AZEVEDO, 1992; MORAES, 1992). As primeiras formas de ocupação no interior do
território americano pelos portugueses, estava baseada em pequenas feitorias23 e povoados,
23 Ao longo da organização da tese nos esforçamos em usar denominações próximas das atuais, buscando evitar
confusões ou a excessiva discussão terminológica existente ontem e hoje. Neste caso, feitorias eram pequenos
núcleos de povoamento, com formas de galpões rústicos, envoltos a estacas. Suas funções restringiam-se ao
100
sobressaindo inicialmente a organização de aldeamentos, núcleos formados por indígenas em
áreas coloniais administradas por jesuítas, ou outras ordens religiosas, como a dos capuchinos
- sendo estas uma das “sementes embrionárias” na gestação das vilas e cidades brasileiras
(AZEVEDO, 1992).
Conforme Petrone (1995), os primeiros aldeamentos no planalto paulistano associamse à conformação colonial, onde as ação dos padres jesuítas, em sua missão catequizadora,
complementavam os desígnios de apropriação e exploração do território pela Coroa. Se
estendendo ao longo do planalto, possuíam relações complexas entre si, ora fundados por
iniciativa de colonos com a intermediação da Companhia de Jesus, ora pelos próprios jesuítas
e outras ordens religiosas, ou ainda doados a estes e pelos primeiros através dos regimes do
padroado real (PEREIRA, 2014, p. 07). Na verdade, um e outro interesse se conjugam,
fundidos, são oficialmente instituídos em São Paulo por meio de Nóbrega e Anchieta, além do
governo de Men de Sá na criação posterior do “Regime das Missões”. Os esforços dos
colonos são destacados, desde as alianças estabelecidas, passando pelo preamento e
aprisionamento, além do transporte dos nativos desde os limites do novo território. Em suas
propriedades no planalto continuavam o empreendimento, agora de confinar e, com apoio
religioso, cativar os indígenas que serviriam aos seus projetos, na forma de trabalho
compulsório.
Segundo tudo faz indicar, os primeiros aldeamentos a se definirem foram os
localizados mais próximos a São Paulo, ou, então, no litoral vicentino. Isso, apesar
de a primeira tentativa mais séria no sentido de aldear os indígenas ter sido feita em
um ponto impreciso, mas indiscutivelmente distante, como Maniçoba. É natural que
eles se definissem em função do próprio processo de colonização, e fossem sendo
criados à medida que este se expandia e se estabilizava. Sendo São Paulo de
Piratininga o centro mais significativo desse processo no planalto, compreende-se
que a política de aldear tenha frutificado antes nos seus arredores (PETRONE, 1995,
p. 113).
Diferentemente das aldeias indígenas, os aldeamentos são unidades territoriais
conjuntamente administradas pelo Estado (Coroa) e a Igreja (AZEVEDO, 1957;
policiamento do território e a regulação de trocas e o controle logístico das primeiras relações entre Coroa e
Colônia (AZEVEDO, 1992).
101
ESCALANTE, 1981; MORAES, 1992; PETRONE; 1995)24 e em certa medida pelo colono
que destina parte de suas terras para esse fim e passa a obter certo poder sobre eles. Em
relação comparativa às missões, os aldeamentos não estavam isolados como elas, sendo esta a
principal característica diferenciadora apontada por Azevedo (1959 apud PETRONE, 1995).
No entanto, Saia (1937) evidencia que mesmo havendo a preocupação dos jesuítas de que os
índios estivessem separados dos colonos, esse fato em São Paulo parece ter sortido efeito
parcial. O papel dos colonos (incluindo os bandeirantes) possui centralidade nas
administrações. Mesmo os aldeamentos, provavelmente, surgindo sobre antigas estruturas das
aldeias originais (superposição de formas-conteúdos), inclusive no mesmo sítio e utilizando
dos conhecimentos primitivos locais, denota uma organização já criada e administrada pelo
colono, pelo jesuíta e outros grupos religiosos. Tanto que para Pereira (2014, p. 07) tornam-se
espaços com importante função produtiva e de acumulação, além de condutas impositivas e
verticais no controle do espaço e das diferentes etnias que ali eram aglomeradas.
Por isso, aldeamento não é aldeia. A terminologia aldeamento “avança” da qualidade
de aldeia. Aldeia, no contexto colonial, remete a uma toponímia carregada de significado
pejorativo, associado ao índio, ao retrógrado e oposto do civilizado (PETRONE, 1995). Ainda
neste contexto, o aldeamento transcende a aldeia e remete a um processo de conversão
profunda, em que os preceitos de civilidade pela religião católica são centrais. A compreensão
dessa passagem da aldeia ao aldeamento, é essencial pela supressão da primeira em favor dos
conteúdos que permearão as superestruturas impostas nos sentidos de trabalho, família e
religião, além dos novos modos de viver aos índios brasileiros. Infelizmente, poucos são os
estudos analíticos a retratar esses núcleos de exceção (até mesmo pela condição perversa de
sua prática, da dificuldade documental, das dimensões temporais...), o que gera inquietações,
já que se considera esta uma das formas de organização mais duradoura no Brasil – iniciada
nos primórdios da colonização e só abandonada em princípios do século dezenove
(PETRONE, 1995).
Deve-se reafirmar que, além da sua longevidade, o aldeamento não implica numa
significação positiva da permanência (já que se considera este um espaço de exceção), mas da
24 Conforme o Atlas Digital da América Lusa, é possível a distinção de ao menos três sentidos do termo “aldeia”
nas fontes do período quinhentista: (a) o primeiro relacionado às “tabas” – conjunto de casas construídas,
administradas e ocupadas exclusivamente pelos índios; (b) o segundo sentido de “aldeia” já com a presença de
ermidas, em que eram visitadas regularmente pelos padres; (c) o terceiro se caracteriza mais propriamente ao
aldeamento de que tratamos, ou seja, definido pelas autoridades coloniais.
102
própria superposição que condicionou à Grande São Paulo nestes territórios, além da
permanência acumulada na metrópole de um conjunto de rugosidades mais específico e
singular em Carapicuíba. Exatamente, estes conhecimentos, bem como as permanências,
justificam as forças do empreendimento colonial na fase de assentamento em São Paulo (ao
longo dos séculos dezesseis e dezessete), que nos campos de Piratininga foram protuberantes
nos quadros da formação territorial do Brasil. Não se trata exclusivamente da origem das
rugosidade patrimoniais de Carapicuíba, mas de diversas cidades que hoje compõe a região
metropolitana de São Paulo e, de forma universal, das localidades que se formaram deste
epicentro e que substanciaram futuramente a região como a de maior centralidade econômica
do país.
Esses preceitos de superposição são referenciados por Moraes (1992), minuciosamente
apontando como os assentamentos coloniais foram justapostos às aldeias indígenas. Fato
confirmado criticamente por Petrone (1995), ao mostrar que apesar da sazonalidade do habitat
das tribos, que ocorriam por volta de mudanças que se verificavam em torno de quatro anos
aproximadamente, elas eram restritas a um determinado território, uma área comum de onde
tiravam seu sustento e satisfaziam suas necessidades, assim como estabeleciam contatos e
relações com outras comunidades por meio de uma rede de caminhos e trilhas. As mudanças
deste sistema, mudam todo o plano de vida do nativo, suas relações com o meio, o colocando
em risco e suscetibilidade frente à nova realidade imposta pelos invasores. Para Ribeiro (2006
[1995]), seria essa uma das principais razões da mortandade de grande parte do indígena
naquele período, que perde as referências comunitárias, a capacidade de subsistência e as
práticas culturais que perpetuavam sua reprodução.
Os gêneros de vida que caracterizavam os grupos indígenas explicam a mobilidade.
Esta se verifica, entretanto, para cada grupo, dentro de um espaço que poderia ser
considerado como sua área de subsistência. No espaço compreendido pelos limites
necessariamente pouco precisos dessa área de subsistência, alguns pontos teriam se
tornado, por uma seleção, fruto da experiência, sítios de eleição para as aldeias. Não
que fossem utilizados com continuidade, mas geralmente utilizados com um caráter
de permanência no sentido de que a espaços de tempo voltariam a ser aproveitados.
O papel do colono, em alguns casos, teria sido o de tornar contínua aquela
permanência que antes era intermitente. Aliás, no caso, seria preferível falar em
permanência de áreas com vocação cristalizadora do povoamento, dentro das quais
eram escolhidos os sítios (PETRONE, 1995, p. 110).
103
Estes núcleos são estratégicos ao empreendimento colonial, o que põe abaixo qualquer
defesa ortodoxa de aleatoriedade na ocupação dos territórios americanos25. O
empreendimento serra acima tinha importante fundo estratégico que justifica tamanho esforço
numa união difusa entre interesses econômicos, políticos e ideológico-culturais que permeiam
o colonialismo, o capitalismo comercial, a expansão da religião cristã e seus respectivos
sistemas significativos de crendices e moral. O sistema de aldeamento é expressão desses
esforços ligados a múltiplos interesses, que surpreendem os desafios travados pelo
colonizador no território em condições naturais e de resistências sociais pouco favoráveis. A
primeira destas dificuldades residia na diferença topográfica – do nível do mar à escarpada
serrania, que sobe abruptamente alcançando mais de 800 metros de altitude entre litoral e
planalto cristalino. A segunda, pela presença de uma natureza pouco receptiva, que se
esparrama nas grandes declividades do terreno e sob constante controle e ofensivas indígenas.
Terceira, a ausência de infraestrutura e condições técnicas de avanço, ainda que algumas
trilhas já existissem elas eram controladas e ofereciam riscos. Nesse processo, o papel da
Coroa portuguesa é fundamental ao patrocinar a colonização e ter na função do aldeamento
pela Igreja uma vinculação idealista com os propósitos de catequização do índio,
escamoteando a escravização que já se afirmava sobre o nativo (PETRONE, 1995 p.126). E
isso não se efetivou sem o posterior conflito entre os mesmos interesses da Igreja, a Coroa e
colonos, convergindo, inclusive, com a expulsão dos jesuítas de São Paulo por um período no
século dezessete e, ainda que não declarada, a contínua e gradativa escravização do índio,
utilizado tanto na interiorização, no preamento de mais pares e, pois, na exploração metalista,
conforme argumenta Bueno (2009).
Esse estímulo a interiorizarem-se no sertão, em busca de metais preciosos e
escravos, gerou intermináveis conflitos com a Companhia de Jesus, que dominava,
na época, vastos territórios subtraídos da jurisdição metropolitana, administrando-os
economicamente de maneira autônoma, conforme seus próprios interesses. Tendo
como fundamento assegurar a "liberdade" do índio, os jesuítas subtraíam abundante
mão-de-obra, contrariando brutalmente os interesses metropolitanos de então. Na
25 Como defende Abreu (1996), apesar das polêmicas em torno das funções dos núcleos coloniais neste período, deve-se
relativizar pontos de vista que desprezam estes espaços como centros de controle do território pela coroa, ou que sua estrutura
não seria fruto de planejamento (Sergio B. de Holanda em “Raízes do Brasil” dá vários indícios dessa aleatoriedade). Deve-se
ressaltar que os meios de controle exercidos sobre a colônia pela coroa decorrem de um contexto onde o tempo de difusão
das informações era outro. Contextualizado isso, compreensível é que muitas soluções adotadas na estrutura dos núcleos
fugissem da regulação direta da coroa, já que os imperativos cotidianos exigiam rápidas intervenções/soluções da
administração local, que sugere inclusive apropriação técnica dos grupos indígenas. Isso não significa, necessariamente, que
seus representantes deixassem de lado as orientações estruturais vindas da Europa. Não se tratava, como quer Bruand (1981,
p. 325), de “deixar guiar pela natureza dos locais” ao exemplificar a ocupação das áreas de várzea desde o Brasil Colônia.
104
década de 1620, agudizou-se o antagonismo. Em 1624, os paulistas destruíram
algumas aldeias e reduções jesuíticas. De 1630 a 1635, fizeram novas incursões ao
Paraguai. Sedes de colégios dos padres jesuítas - no Rio de Janeiro, Santos e São
Paulo - vivenciaram violentos motins, que culminaram com a expulsão dos padres
de São Paulo e Santos. Regressaram a São Paulo em 1640 e 1653; no entanto, em
1658, os paulistas voltaram a atacar as missões do Paraguai. A sociedade civil
paulista, ansiosa por viabilizar a colonização mesmo às custas da escravização dos
indígenas, pôs-se em luta contra o Estado teocrático aqui estabelecido. Como
deixariam de entrar em conflito, em tempos de crise, se já no século XVI tantas
vezes os interesses e orientações dos missionários chocavam-se com aqueles dos
leigos, colonos e mercadores. A crise de todo o império hispano-português agravou
tensões e desencadeou enfrentamentos (BUENO, 2009, n.p.).
Como argumenta Moraes (1992) os primeiros povoadores europeus derivam de
aventureiros e náufragos que já se estabeleciam no litoral e áreas de serra acima antes mesmo
da missão de Martin Afonso chegar ao continente. Estes, portanto, já encontraram certa
organização espacial que subsidiou parte do empreendimento colonial posterior. A missão de
Martin Afonso não foi a de fundar um núcleo de povoamento, mas de aproveitar daquilo que
já existia, ou seja, “(...) de se servir da base, de lhe dar uma vida oficial e localizar dentro
desses núcleos os povoadores importados. Não é fundador, é colonizador.” (MORAES, 1992,
p. 13). Para Petrone (1995), aqui de forma muita sintética, o empreendimento colonial
planáltico, fundamentalmente nos campos de Piratininga, conduzido entre Estado e Igreja,
justifica-se pelo: (i) estabelecimento de localizações estratégicas entre o interior do continente
(cabeça do antigo caminho do Peabiru) visando a descoberta de riquezas minerais, e entre o
litoral para o escoamento e comercialização dos produtos extraídos; (ii) não menos importante
é a apropriação de solos e terrenos em maior quantidade e mais propícios para o
desenvolvimento da grande lavoura monocultora (que o autor supracitado designa de
plantages26); (iii) por fim, o interesse na doutrinação, no apresamento e escravização
indígenas (força de trabalho no apoio à prospecção de riquezas, na lavoura e nos embriões de
povoamento: aldeamentos, arraiais, pousos). Para isso cabe pensar na necessidade de proteção
desses novos núcleos maiores que se estabelecem em favor do que é pontuado, gerando uma
hierarquia sobre eles, onde os aldeamentos teriam estratégica função de defesa e sustentação.
26 Ao longo do trabalho designamos de plantation, em razão da usualidade terminológica atual, compreendida
como uma estrutura produtiva calcada no tripé: monocultura, grande extensão de terra (latifúndio) e força de
trabalho escrava – que irá perdurar desde então até os dias atuais em grande parte do território brasileiro e é onde
reside os maiores problemas agrários contemporâneos.
105
Quanto ao primeiro e terceiro fatos, da geografia estratégica e da densidade
demográfica, talvez sejam estes elos fundamentais na fase de assentamento que explicam
diretamente a fundação e desenvolvimento de São Paulo e, de alguma maneira, de sua atual
condição concreta de região metropolitana. Visto que o planalto paulistano em princípios da
ocupação era densamente habitado por tribos indígenas, destacadamente os grupos
Tupinambá, Tupiniquim e Carijó, que seguiam para a costa sazonalmente em busca do
pescado e, pois, estabelecendo caminhos e trilhas que faziam destas duas áreas uma
interconexão dinâmica de fluxos e relações. São estes mesmos caminhos os utilizados pelos
invasores para depois estabelecerem as rotas das monções pelos cursos de rio, do apresamento
indígena e a corrida do ouro e pedras preciosas, no sentido de oeste para o Mato Grosso, ao
norte para Goiás e Minas Gerais, ao sul com as tropas e o comércio de muares no sentido de
Sorocaba.
Esse espaço fazia parte de um fluxo de tráfico que envolvia, também, espanhóis e
precisava ser coibido. Estaria ai a razão para o apoio a fundação do colégio, à
transferência do pelourinho, já em 1560, com a elevação do povoado a Vila de
Piratininga de São Paulo respondendo a necessidade de instituir um espaço de
controle para o controle do espaço e das pessoas que ali viviam. A criação dos
aldeamentos indígenas foi um espaço que também reforçava essa interpretação
porque não se dissociava desses conflitos entre colonos e jesuítas pela mão-de-obra
indígena dentro do projeto metropolitano português, que precisava de braços para o
trabalho compulsório e, cada vez mais, de terras disponíveis para a viabilização dos
seus empreendimentos comerciais. O aldeamento atraia e disciplinava o indígena
para o trabalho e, simultaneamente, destribalizava as suas terras criando
disponibilidade de ambos os elementos ao controlar as pessoas e o espaço, que
passavam a ser disciplinados e organizados para a produção (PEREIRA, 2014, p.
06).
De tal maneira que a conquista desta posição inter-planáltica pelos colonos e jesuítas
se deu na distribuição de aglomerados circundantes ao centro principal que era São Paulo
(Mapa 04), tornado vila desde 1560. Tal como esclarece Petrone (1995), esta distribuição de
núcleos populacionais, sobretudo de indígenas vivendo em redutos de aldeamentos, tiveram
funções estruturantes que cristalizaram o povoamento dos campos de Piratininga (PETRONE,
1995, p. 126). É neste contexto que, em termos de localização geográfica, esta região se
tornaria um estratégico espaço de interconexão entre interior e litoral, mas também em outras
direções como já citado. Ou seja, da anexação de novos territórios, de mais força de trabalho,
de mais riquezas e recursos obtidos, como também de uma estreita ligação com o plano
internacional, do fluxo interoceânico, de expansão do comércio ultramarino, de comunicação
106
com a metrópole e com os primitivos processos de globalização27. A interiorização da colônia
teve no papel do apresamento indígena um dos fatores mais importantes nos dois primeiros
séculos da conquista portuguesa. O aldeamento era o cativeiro capaz de discipliná-lo,
armazená-lo e, gradativamente, aproveitá-lo aos seus interesses. Perpetuava-se, assim, a
consolidação do modelo colonial português em São Paulo e, mais generalizadamente, no
Brasil em construção.
Os primeiros colonizadores, sobretudo os vindos com Martim Afonso, obtiveram
sesmarias e, nelas, aos poucos criaram agrupamentos, e os agrupamentos geraram a
necessidade de auxílio espiritual (necessário para aqueles homens estabelecidos em
universo tão inóspito). Assim foram fundadas as primeiras povoações no planalto
além da vila de São Paulo de Piratininga.” (BUENO, 2009, n.p.).
Se na atualidade São Paulo torna-se geograficamente elo articulador de grandes
estradas, trilhos, portos e dos principais fluxos aéreos, estas vias estão justapostas aos muitos
caminhos e trilhas já estabelecidos primitivamente no território pelas diferentes etnias
indígenas. Na retrospectiva de Petrone (1998) acerca da trilha dos Tupiniquins, este observa a
polivalência tanto para os primórdios da colonização portuguesa, quanto para atualmente das
interligações de São Paulo a São Vicente, ou a metrópole nacional ao maior porto do país.
O paralelo acerca da rede de transporte atual e do contexto dos vetores fundacionais,
no limite com o ciclo de assentamento, pode ser transposta ainda aos diferentes contextos
produtivos, que perpassam a monocultura canavieira (cujo auge em São Paulo varia entre
1750-1850)28 e que antecipa a cultura do café em São Paulo no século dezenove e a
modernização do território brasileiro. “Na verdade os primeiros e principais eixos de
comunicação definem-se a partir de caminhos abertos pelos indígenas, a partir de tênues
trilhas de pé-posto. [...] O primitivo caminho define-se a partir desses elementos”
(PETRONE, 1998, p. 56).
27 A idéia de globalização aqui compreendida remete ao plano histórico e geográfico de desenvolvimento do
modo de produção capitalista, que neste período se desenvolve pela díade colonialismo-imperialismo através da
expansão ultramarina e a anexação europeia de vastos territórios da América, África, Ásia e Oceania.
Alcançando no século XXI o ápice de internacionalização do modo de produção (SANTOS, 1985; 2001;
HARVEY, 2013).
28 Caio Prado Jr. (1972 [1945]), Maria T. Petrone (1968), Ianni (1996), Oliveira (2012) referem-se à importância do
açúcar para a economia colonial em São Paulo entre 1750-1850, inclusive como condição da acumulação primitiva
para o café no “quadrilátero da açúcar”.
107
108
A apropriação dos territórios indígenas pressupõem rugosidades que funcionam como
elo de superposições realizadas pelos colonizadores, numa acumulação de paisagens que,
gradativamente, vão suprimindo as heranças passadas, a partir de novas formas e conteúdos
estabelecidos. Por exemplo, o caminho feito pelo padre Anchieta que “[...]sofre sucessivas
embora lentas melhorias, torna-se a Estrada da Maioridade, logo a Calçada do Lorena, o
Caminho do Mar, a Via Anchieta, soma a Rodovia dos Imigrantes, antes já compondo-se com
a Estrada de Ferro Santos-Jundiaí e, porque não, enriquecendo-se com a construção do
transporte.” (PETRONE, 1998, p.57). Estas novas soluções e dinâmicas, trazidas pelo
colonizador ao nativo, sintetizam a ampliação dos caminhos, a utilização de novas
ferramentas e técnicas, os choques decorrentes da coerção, da farsa e ações que os indígenas
desconheciam. Dinâmica que gradativamente, mesmo diante dos embates e tensões, afetou
toda a lógica do sistema cultural das populações primitivas, mas, sobretudo, as relações com
seus territórios e correlatos grupos tribais.
Mesmo que houvesse resistência (e houve, por meio de guerras, fugas, mortes, ou
outros atos pacíficos e eficientes de resistência frente a escravização), o impacto de longos
anos dessa imposição do “processo civilizatório” ao nativo se efetivou desde alterações de
seu regime alimentar, propiciado pelo desmatamento de seus gêneros alimentícios e a
extinção de sua caça, até a difusão de doenças e parasitas que o sistema imunológico do índio
não estava preparado para combater, além de conflitos intensificados com seus pares e dentro
da totalidade explicativa do mundo, permeada por outras razões e lógicas, que foram
rapidamente combatidas pelos colonizadores.
[...] A simples presença desses europeus, trazendo consigo uma bagagem cultural
bastante diferente daquela dos grupos indígenas, implicando uma organização de
quadros de povoamento que significavam a introdução de modificações sensíveis
nos preexistentes, trouxe inevitavelmente repercussões não descuráveis para a vida
do indígena. Quer se trate da ocupação de terras, quer se trate da rápida destruição
da vegetação, quer se trate da perturbação introduzida nos quadros do habitat, tudo
só poderia implicar uma sensível crise de sobrevivência para os grupos indígenas. Se
alguns aceitaram, mais ou menos pacificamente, modificar alguns de seus hábitos
aceitando a convivência com o colono, não foram poucos os que recuaram frente à
sua expansão (PETRONE, 1995, p. 60).
Tendo estas razões pontuadas e esboçadas no limite das nossas condições analíticas,
deve-se considerar, possivelmente, outros elementos que explicam a fixação, ou ao menos, os
sentidos da ocupação do planalto paulistano. De tal maneira, além da expansão das
109
plantations, emergem outras razões, questionáveis, porém interessantes de serem pontuadas:
(a) condições climáticas e ambientais menos severas que as encontradas nas regiões litorâneas
do trópico sul; (b) semelhanças ambientais com a Europa, considerando os vastos campos
planálticos, além de um clima mais ameno pela altitude e uma atmosfera mais salubre
conforme a crença da época; (c) segurança em relação aos ataques de piratas e indígenas.
Acerca destas últimas razões, exemplos das investidas na América Central são numerosas,
assim como no âmbito dos conflitos indígenas, Petrone (1995) por diversas fontes e
documentos evidencia que as três grandes tribos, em maior ou menor intensidade, investiram
duramente contra os colonos, como também atesta Nardy Filho (1999), à exceção dos
Guaianases mais ao sul, que segundo Moraes (1992) já eram aliados dos vicentinos desde os
princípios da colonização.
Ao longo do século dezesseis o quadro sistemático de povoamento paulista se
estabelece entre a parte central e sul do litoral, com a criação pela Coroa das vilas litorâneas
de São Vicente (1532), Santos (1537), Itanhaém (1561) e Cananéia (1600) respectivamente,
além de outros aglomerados já existentes sem ainda serem qualificados de vilas (AZEVEDO,
1992; REIS FILHO, 1968). O caso mais emblemático reside na criação da vila de São Paulo,
a única no planalto, em 1554 (REIS FILHO, 1968, p. 85), quando em meio às disputas
territoriais pela aliança franco-carijó (estabelecida na baia de Guanabara) e a aliança luso-tupi
dividida entre Santo André (sobre a gerência de João Ramalho) e São Paulo (aldeamento
administrado pela Companhia de Jesus), reúnem-se nesta última localidade e passam então a
congregar um aglomerado maior e mais seguro do ponto de vista geopolítico.
A frequência dessas circunstâncias de grave ameaça significavam dificuldades
permanentes para a ocupação do território. A administração do governo-geral,
representando o poder reinol na Colônia, propôs concentrar as forças portuguesas
ordenando a transferência de toda a população de Santo André para o núcleo de São
Paulo de Piratininga, em razão de a área proporcionar maior segurança e
estabilidade. Nesse mesma ordem, o Governador alçou o núcleo criado pelos
jesuítas à categoria de Vila de São Paulo de Piratininga. Assim, além do colégio
jesuítico, instalou-se nesse povoado um aparelho administrativo mais sofisticado que
o consagrava como espaço de controle, pois nessa categoria urbana passa a ser uma
representação do poder metropolitano português contando com as significativas
instituições de controle representadas nas vilas coloniais pela existência do
pelourinho e da Casa da Câmara e Cadeia (PEREIRA, 2014, p. 05).
110
Assim também, em razão da ameaça dos índios Tamoios, era pequena a aglomeração
no litoral norte. Na área do planalto, apenas São Paulo havia obtido a qualificação de vila, no
entanto Moraes (1992) evidencia os núcleos adjacentes, dando dimensão regional de uma
unidade mais complexa e maior do que simplesmente a vila em si expressa. “No planalto o
núcleo principal era São Paulo. Em torno da futura capital inúmeras aldeias de índios
fundadas pelos jesuítas: M’Boy, Santo Amaro, Pinheiros, Guarulhos, Carapicuíba,
Itaquaquecetuba, São Miguel, etc. e mais as primeiras vilas de fundação particular já citadas.”
(MORAES, 1992, p. 14). Saia (1937), inclusive, traça uma circunferência dos aldeamentos no
entorno de São Paulo, evidenciando a posição estratégica das unidades em relação ao centro.
Além da posição geográfica, numa área relativamente alta e estratégica para possíveis
conflitos, São Paulo ainda possuía como elemento aglutinador um entorno de aldeamentos
aliados, ou seja, um arsenal humano capaz de antever e atenuar possíveis invasões,
assegurando certa tranquilidade ao núcleo central.
Enquanto cativeiro, espaço de aprisionamento e doutrinação do indígena, os
aldeamentos não são necessariamente considerados unidades político-administrativas.
Asseveram Saia (1937), Petrone (1995; 1992) e Moraes (1992) que apesar de servir aos
colonos nas mais diversas atividades e trabalhos, os índios aldeados eram confinados do
convívio com o branco pelos padres jesuítas. O espaço dos aldeamentos era então regido num
esquema de cessão cuja autoridade era dos religiosos e ligados ao poder políticoadministrativo dos núcleos como vilas e cidades. Ficavam ainda relativamente isolados, sem
nem poder servir de pouso aos viajantes. Existe, no entanto, outra complexidade, primeiro
porque os aldeamentos eram distintos entre si e passaram a ser divididos administrativamente
entre os do padroado real (papel central do Estado, porém com a mediação dos religiosos) e
entre os administrados pelos jesuítas nas fazendas doadas ou dos colonos (Mapa 05). Com a
expulsão do jesuíta, pelos conflitos já brevemente retratados, outras ordens religiosas tornam
ainda mais complexa a situação das unidades. Mesmo não constituindo unidades políticoadministrativas do Estado, eram unidades essenciais do desenvolvimento colonial, pela
função estratégica que possuíam, desde o controle da indígena população, até seu uso exigido
em atividades produtivas as mais diversas.
111
112
A decadência do sistema de aldeamentos, em fins do século dezoito e começo do
dezenove, principia quando é reduzido seu quadro populacional em meio a precariedade e
abandono das unidades. Outro fator a se considerar é a emergente acumulação dos colonos
agora capazes de importar o negro africano como mão-de-obra. Juntos aos esforços
governamentais, que diante desta situação, não veem saída senão a extinção dos aldeamentos
e, neste prospecto, seus limites e normas se mesclam cada vez mais com as unidades
existentes. Igualmente, ocorrerá com os indígenas, gradativamente, a hibridização com
brancos e negros. O quadro 03 sintetiza a evolução administrativa que remete a diversidade e
longevidade dos aldeamentos no planalto paulistano na história do Brasil Colônia.
Evolução Administrativa dos Aldeamentos
Fase Período Características
Fase
Quinhentista 1500 - 1610
Definição dos primeiros quadros coloniais-administrativos. Núcleos de
catequese formados e controlados pelos jesuítas, ora em propriedades da
Companhia de Jesus, ora nas propriedades particulares.
Fase
Seiscentista 1611 - 1697
Dualização entre as fazendas jesuítas e as aldeias do padroado real, com
predominância dos jesuítas. Subsídios da Coroa à Igreja na sustentação do
“projeto catequizador”.
Fase dos
Procuradores 1698 - 1757
Regimentos normatizam os aldeamentos. Procurador-Geral torna-se
governante dos aldeamentos do padroado real até 1734, depois passando para
as ordens religiosas (capuchos). Jesuítas permanecem em sua condição
administrativa.
Fase do Diretório
do Pará 1757 até fins do sec. XVIII
Padronização administrativa, inclusive das fazendas jesuítas. Administração
política do Estado, orientação dos religiosos.
Fase da
Decadência Fins séc. XVIII - meados do XIX
Grande desorganização, posterior implementação do Plano Rendon,
orientando o fim dos conflitos com os índios e a conversão dos aldeamentos
em freguesias ou vilas.
Quadro 03: A complexidade administrativa na evolução dos aldeamentos paulistas.
Fonte: Petrone, 1995. Organizado pelo autor, 2016.
Os aldeamentos, portanto, podem ser considerados embriões29 na conformação da
capital paulista, como dos principais municípios suburbanos e região metropolitana de São
Paulo, que deram origem as cidades atuais, como Carapicuíba, Barueri e Embu, além de
29 Ao considerarmos os aldeamentos como embriões das cidades contemporâneas, fazemos aqui duas
advertências julgadas importantes. A primeira de que nem todas unidades podem ser desta forma observadas.
Ainda que a generalização seja possível, as particularidades devem sempre ser ressaltadas como ora fazemos.
Segundo, o sentido de embrião não significa absolutamente uma centralidade, em que a cidade tenha crescido ou
se expandido deste núcleo ou a partir do aldeamento, ao contrário: trata-se de um elemento embrionário capaz de
subsidiar as cidades, especialmente São Paulo e região, com força de trabalho e gêneros alimentícios por
exemplo, além de preservarem um conjunto demográfico e sustentarem ordens religiosas que eram fundamentais
na organização pretérita do espaço proto-urbano. Não limitando-se, porém, necessariamente às vilas ou cidades,
mas aos grandes latifúndios, ou aos projetos coloniais sertão adentro. Inclusive, o aldeamento deve ser sempre
referenciado como não-cidade, uma espaço de exceção dificilmente enquadrado até como rural.
113
outras, nas mais diversas áreas onde hoje se inscreve a RMSP: Pinheiros, Guarulhos, Osasco,
Itaquaquecetuba e Itapecerica. Mesmo diante da especificidade dos aldeamentos, ou da
concentração das unidades em determinadas porções territoriais, eles desempenharam uma
importante função estratégica, nutrindo e fazendo permanecer o primitivo núcleo embrionário
de São Paulo. Além de constituírem mais recentemente no cinturão caipira, que subsiste,
como será defendido posteriormente, às múltiplas temporalidades existentes na metrópole.
O mais importante, entretanto é que os aldeamentos constituíram instrumentos dos
mais significativos no processo da dinâmica de valorização e organização do
Planalto Paulistano, nesse sentido devendo ser considerados não apenas quanto à
própria valorização do sítio de São Paulo ou quanto à organização e evolução de um
sistema de povoamento do Planalto Paulistano, mas também, e principalmente,
quanto à vocação dessa área em relação ao processo de povoamento daquela que é
hoje a região geoeconômica paulista (PETRONE, 1995, p. 351).
Se o modelo de aldeamentos entra em estagnação, culminando com sua gradativa
extinção, o índio convertido continua carregando na memória a culpa e os pré-conceitos que
lhes são comuns desde os períodos remotos da colonização. A condição indígena gera no
europeu o repúdio a sua condição de animalidade, que se configurava pelo canibalismo, o
incesto e a nudez (MOREAU, 2003). Mesmo cristianizados não eram considerados cristãos,
condição fundada e também reproduzida pela educação jesuítica nos aldeamentos que,
conforme Daher (2001, p. 49), terá papel central em sua culpabilidade existencial, da
condição de bestialidade, o vício e a distância do Bem.
A fim de integrar o índio na ordem hierárquica do corpo místico imperial, o
missionário, no interior das normas escritas do catolicismo, produz a consciência do
índio como memória de culpa, arrependimento dos pecados passados, inaugurando
seu presente contrito. Desse modo, faz com que o índio participe legitimamente,
como todos os homens, do pecado adâmico (DAHER, 2001, p. 49).
Nos mais de três séculos do modelo de aldeamentos em São Paulo, a doutrinação do
nativo dada pela educação cristã, conforme referenciado, tem na difusão da ideia do pecado
adâmico ou original a necessidade não apenas de fazer com que o índio sinta-se culpado por
sua condição, mas fundamentalmente que busque sua resignação na submissão do trabalho, do
colonizador, ou das necessidades dos representantes religiosos. O que implicava nas palavras
de Petrone (1995, p. 254) na condição indígena de “motores animados” ou de uma estrutura
colonial que funcionava como “máquina de moer gente” usando expressão de Darcy Ribeiro.
114
De fato, nos remotos tempos, quando a acumulação não era suficiente para importar braços
africanos, o índio tornou-se importante alternativa nos mais diversos usos e necessidades do
empreendimento colonial. A sangria dos aldeamentos, causando desequilíbrios, restando em
largos períodos apenas crianças, mulheres e anciões, dava-se em razão das empreitadas de
trabalho em várias escalas: (i) em atividades internas ligadas ao aldeamento; (ii) atividades
nas propriedades particulares em regiões circunvizinhas; (iii) atividades em locais distantes,
com obras vultosas de interiorização e no desbravamento do sertão, sobretudo em monções
que percorriam os grandes canais fluviais da bacia do Paraná e adjacências.
Logo, o apoio a interiorização dado por Portugal aos bandeirantes e colonos deriva
não apenas da anexação de terras ao império, mas de seres humanos, de seus conhecimentos,
de sua força de trabalho. Entre sangrentas vitórias ou parciais derrotas, o genocídio das
populações primitivas também se fez com o desenvolvimento de outra civilização, a
brasileira. A relação entre o colonizador e o religioso no “processo civilizatório brasileiro” é
amplamente explorada por Darcy Ribeiro (2006 [1995]), sobretudo em analogia dos efeitos
catastróficos sobre as populações indígenas que já ocupavam o território, igualmente da
mestiçagem étnica que daria origem aos brasileiros. Segundo ele, na colonização
“configuram-se, assim, duas destinações cruamente opostas, desfrutando, cada qual, o
predomínio na dominação do Novo Mundo. De um lado, a dos colonos, à frente de seus
negócios. De outro lado, a dos religiosos, à frente de suas missões” (RIBEIRO, 2006 [1995],
p. 54). Esta nova unidade não extinguiu às bases conhecidas do território pelo indígena, mas
as adequou às necessidades de exploração, se apropriou do seu trabalho, fazendo de São Paulo
um nódulo, um lugar central da rede que se estabelecia na prospecção do interior, com as
relações constituídas entre espanhóis a oeste, com as minas ao norte e com os insumos que
vinham do sul. Permanecendo por mais de três séculos, os aldeamentos chegaram ao limite de
seu tempo, de todas as forças, carregando em seus habitantes o peso de sustentar os alicerces
da maior metrópole do trópico sul e das maiores aglomerações humanas do planeta.
.
3.3 O aldeamento de Carapicuíba na colonização dos campos de Piratininga
O aldeamento de Carapicuíba foi uma das doze unidades fundadas por Anchieta em
São Paulo (TENÓRIO, 2003). Hoje denominado de Aldeia de Carapicuíba, está localizado à
aproximadamente trinta quilômetros ao oeste do centro de São Paulo, nas coordenadas 23.56º
sul e 46.83º oeste. Trata-se de um dos poucos aldeamentos distantes das principais rotas
115
fluviais e terrestres do período colonial. Como explica Azevedo (1957), a preocupação com a
defesa fazia com que o assentamento dispusesse de trechos mais elevados, porém não muito
distantes dos cursos fluviais. O rio Tietê, mais próximo, fica a aproximadamente dez
quilômetros da área, o que para época seria relativamente distante, considerando os meios
técnicos primitivos e a localização dos núcleos humanos sempre adjacentes ou nos arredores
dos rios e caminhos. No entanto, obedece o rigor e orientações coloniais modernas do
período, com o sítio situando-se topograficamente a 750 metros de altitude (entre o interflúvio
e o fundo de vale), numa vertente suavizada, que não ultrapassa os trinta graus de declividade
e que converge no fundo de vale com o encontro de dois canais de drenagem: o córrego da
Aldeia e o córrego da Fazenda. A aproximadamente 500 metros também localiza-se outro
importante canal de drenagem, o ribeirão Carapicuíba (Figura 14). Portanto, apesar da
distância do canal de primeira ordem, o aldeamento além de ficar numa altitude
consideravelmente segura de enchentes, contava com outros importantes canais, o que talvez
tenha originado seu próprio nome, que deriva de peixe espinhento, ou peixe ruim30.
Sítio da área onde se localiza a Aldeia de Carapicuíba
Figura 14: Carta topográfica síntese da área onde se localiza a Aldeia de Carapicuíba, na RMSP.
Fonte: Extraído de Petrone. Editado pelo autor, 2016.
30 Carapicuíba na língua Tupi significa: o prefixo Cara deriva de cará ou acará – espécie de peixe comum em
grande parte dos rios paulistas, Picu deriva de picú ou pucú, que significa longo ou comprido e o sufixo Iba que
remete para aquilo que não é bom de ser comido, ou ruim. Portanto, peixe ruim de ser comido (COSTA
JUNIOR, 1985; PIMENTEL, 2014).
116
Por situar-se nos trópicos, a região toda atinge pluviosidade anual por volta ou
superior a 1.500 mm, com níveis médios a elevados de umidade relativa do ar e uma
biogeografia original dominada por mata latifoliada atlântica. Antes do estabelecimento dos
aldeamentos, é provável a densa ocupação da área por índios Guaianases, sendo possível
acessá-la pelo rio Tietê e depois por trilhas terrestres, ou ao sul pelas trilhas secundárias
ligadas ao antigo caminho do Peabiru e, mais tarde, o caminho de Itu. A densa rede de rios
permite acreditar num refúgio autossuficiente de alimentos e caças e, pois, relativa autonomia
frente aos grandes canais de drenagem ou núcleos arredores. Para Petrone (1995, p. 150), “a
distância destas rotas poderia contribuir para explicar sua maior permanência”. Por fim,
também se configura funcionalmente à defesa do centro regional, ou seja, a vila de São Paulo,
fornecendo insumos essenciais ao seu desenvolvimento, além da força de trabalho, mas
concomitantemente permitindo uma sociabilidade calcada na ordem institucional da Coroa e
da Igreja. O que não impede, porém, a incorporação e alternativas de elementos culturais
indígenas no cotidiano e na hibridização dos ritos, como observado nas festividades de Santa
Cruz.
No plano morfológico, o aldeamento de Carapicuíba reflete em sua organização as
Leis das Índias31, baseada no modelo urbanístico já praticado na península ibérica, sendo um
conjunto moderno de normas e orientações, que entre outras regras racionalizavam um
modelo ortogonal da cidade, com um plano pré-elaborado, considerando a centralidade dos
prédios públicos e destaque dos templos religiosos. Se o aldeamento sugere dúvidas e
questionamentos de ser ou não embrião de cidade, já que tinha uma função muito específica,
sua composição revigora o caráter urbano já que foi idealizada no modelo de concentração
praticado largamente nas cidades europeias. Ou seja, o aldeamento de Carapicuíba é
“exemplo de instalação projetada de acordo com as Leis das Índias” (SAIA, 2012, p. 17),
como corrobora a Figura 15.
Pela sua localização e estrutura, Carapicuíba parece refletir mais uma escolha de
padre da Companhia, que de colono. A sua posição não tem dúvida que se enquadra
perfeitamente nas determinações e dispositivos das leis das Índias. Pelo menos os
detalhes de localização das aldeias e obediência às normas pré-estabelecidas. O
processo de situar a povoação em relação aos grandes rios, por exemplo, coincide
31 “Depois de alguns anos de realizações do modelo espanhol, Filipe II, no ano de 1573, institui a primeira
legislação urbanística da idade moderna, a chamada Lei das Índias. Com esta lei, torna-se possível uma
associação entre os princípios idéias renascentistas, as influências do Tratado de Vitrúvio e as realizações
concretizadas na América. Na verdade, a Lei de Filipe II, não fez mais do que consagrar a planta ortogonal, que
na prática já estava sendo realizada.” (DANTAS, 2004).
117
perfeitamente com a redação de um dispositivo encontrável nas leis da Índia [...]
(SAIA, 1937, p. 06-07).
Perspectiva da Aldeia de Carapicuíba em 1937
Figura 15: Planta regular ortogonal da Aldeia de Carapicuíba, em conformidade com os padrões das Leis das
Índias, também implementados em outros aldeamentos jesuíticos na América.
Fonte: 9ª.SR/IPHAN-SP – Luís Saia (1937).
O plano estandardizado, de forma quadrangular racional, objetivo à proposta defensiva
e relacional catequizadora do espaço, baseado na permanência e cativeiro do nativo, evidencia
o conhecimento dos jesuítas de organização e normas urbanas. Para Saia (1937) “o
quadrilátero bem projetado, de ângulos retos, desobediente muitas vezes à topografia local
tem mesmo bastante sabor jesuítico.” (SAIA, 1937, p. 10). Sem necessariamente reduzir os
núcleos coloniais criados à mercê dos colonizadores, ou propriamente pela Coroa, como no
caso da planta da cidade de Salvador32, o arranjo espacial sob o desígnio da Igreja,
especialmente os jesuítas e dos aldeamentos, respeitará traços característicos da cultura e das
técnicas construtivas e organizacionais mais acuradas e planejadas para durarem no tempo. De
tal maneira explica Saia (1937) a respeito de Carapicuíba a esse favor:
Carapicuíba foi fundada precisamente numa época em que se firmavam na Capitania
de São Vicente os traços da cultura jesuítica, tão marcadamente diversos daqueles
com os quais os colonos haviam inaugurado o trabalho de colonização e
povoamento. Traços que traduzidos em termos de arquitetura, iriam representar o
advento de um critério pré-estabelecido e racional na escolha dos assentos dos
núcleos, em contraposição ao processo tradicional, imediatista e quase sempre
precário dos colonos. Sobretudo iriam instituir nas povoações nas povoações o plano
32 A preocupação com o controle e o ordenamento do território fez com que Salvador, a primeira capital da
colônia, fosse fruto dos desígnios técnicos do arquiteto Luiz Dias, contratado pela Coroa portuguesa para o
desenho da nova cidade (ABREU, 1996, p. 152).
118
quadrangular, enquanto os núcleos especificamente de colonos, apresentavam um
aspecto desordenado e infixo. A Aldeia de Carapicuíba vai refletir essa nova
orientação do trabalho colonizador (SAIA, 1937, p. 02-03).
Assim também, outras instalações em diferentes partes do atual território brasileiro e
latino-americano (Figura 16), evidenciam os mesmos padrões. Para o autor, Carapicuíba além
da relevância histórica, indica na atualidade importantes elementos posteriores e mesclados da
arquitetura popular desenvolvida. Afinal, a aldeia é resultado da mescla de diferentes
contextos construtivos e técnicas que permeiam a edificação da casa no Brasil. “Sobre o
desenho primitivo, a aldeia evoluiu de então para cá, aceitando os diferentes
condicionamentos técnicos e sociais que influíam na habitação” (SAIA, 2012, p. 19).
Os traços primitivos do aldeamento devem ter permanecido por um século desde sua
criação, quando foram destruídos por volta de 1698, na tentativa de transferir os indígenas
aldeados em Carapicuíba para o aldeamento de Itapecerica (TENÓRIO, 2003). “Por volta de
1698, os índios de Carapicuíba foram transferidos para a aldeia de Itapecerica, sendo a
primeira parcialmente destruída pelos inacianos, para que os índios abandonassem o local.”
(REIS FILHO, 1982, p. 09).
Aldeias Jesuíticas – Modelos projetados conforme Lei das Índias
Figura 16: “Villa de Abrantes” – aldeamento jesuítico no sul da Bahia.
Fonte: Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa. Extraído de Reis Filho (1968).
119
Apesar da formal reconstrução da aldeia logo em 1736, com a nova igreja edificada,
seu uso e ocupação parece que jamais fora abandonado totalmente. Primeiro em razão de que
nem todos os índios concentravam-se necessariamente nas habitações do aldeamento e,
portanto, nunca migraram efetivamente. Segundo, mesmo aqueles que se dirigiram até
Itapecerica, retornavam gradativamente ao local de origem. Não restando, pois, às missões
evangelizadoras apoiadas pelo poder colonial se reestabelecer no antigo sítio.
Os indígenas, moradores da Aldeia, se apegaram tanto a esse lugar que, mesmo
quando foram retirados e transferidos para Itapecerica, insistiram e retornaram para
lá. Na ocasião, a Aldeia havia sido queimada e poucas paredes restavam em pé, mas
isso não foi obstáculo para eles, que a reconstruíram por volta de 1736 (HENNE,
2015, p. 29).
Escalante (1974) defende que as características do aldeamento foram mantidas, pois
“quando a nova igreja edificada em 1736, o traçado original foi respeitado, o mesmo
devendo-se dizer das casas que, em 1769, por ordem do ‘Diretor da Aldêa de Carapicuyba”,
Pedro José Francisco de Andrade, foram reconstruídas e a aldeia devidamente arruada.”
(1974, p. 15). No caso do aldeamento de Carapicuíba, como na maioria dos aldeamentos, a
igreja fica numa posição topográfica mais elevada, com amplo espaço que se assemelha aos
largos ou praças das cidades brasileiras. Conforme Petrone (1995, p. 229) repete-se “[...]
alguma coisa da ocara indígena, com tênue casamento com o fórum ou a ágora, ou com a
piazza italiana”. No olhar de Saia (1937), a organização interna das casas, bem como a
disposição das paredes, do assoalho, se assemelham de forma idêntica às das missões
jesuíticas encontradas ao sul do Brasil. Para o autor, esta evidência mostra que a fundação, o
terreno como um todo, foi aproveitado para a reconstrução do aldeamento no século dezoito.
Ainda segundo Saia (1937), além da semelhança com as missões, também pela experiência,
esta organização foi encontrada em outros aldeamentos, como a distribuição da igreja em
relação às casas, ou mesmo a divisão interna de cada unidade, como descreve especificamente
do caso da Aldeia de Carapicuíba.
Não há dúvida que a capela é a construção mais notável da aldeia, não só pelo seu
tamanho e importância que transparece através de certos detalhes construtivos, como
sobretudo pela localização dela no lado mais alto do páteo, encostada e protegida
pela colina que lhe fica atrás. Os restantes dezenove edifícios, quando não estão
ladeando a capela se dispõem em série nos lados do páteo. A construção residencial
seriada é sistemática em Carapicuíba, assim como em todas as outras aldeias
jesuíticas que pude visitar. Dona Quirina, deu as casa X e XI como inexistentes há
vinte anos, enquanto as outras da série XII, XIII, XIV, XV, XVI e XVII já eram
construções antigas. Além de mostrar que há vinte [1916] a estrutura da população
permanecia fiel ao desenho primitivo, atraindo os edifícios para o plano fundamental
120
em torno do páteo, esses espaços desaproveitados sugerem que as construções de
pau-a-pique, dessas duas casas, embora aceitando ainda uma porção de soluções
procedentes da arquitetura da antiga aldeia, já se libertara, nesse tempo, do
compromisso de geminação (SAIA, 1937, p. 14-15).
Ainda segundo Escalante (1974, p. 15), “todas as características do aldeamento
indígena conservam-se na Aldeia de Carapicuíba: seja na disposição da igreja, no terreiro
fronteiriço ou na colocação das casas [...]”. Com ele, em grande medida, concorda Petrone
(1995), explicando que dos aldeamentos que mais conservaram a arquitetura do núcleo é
Carapicuíba, que remete do século dezoito, em um plano que deve chegar ao século dezesseis.
[...] Constitui-se em um dos mais expressivos documentos do passado paulista, digno das
atenções de historiadores, arquitetos, urbanistas, geógrafos, sociólogos, artistas e outros. [...]
É evidente que deve ser considerado extraordinário o fato de se ter considerado intacto o
conjunto arquitetônico de Carapicuíba” (PETRONE, 1995, p. 617-618).
As técnicas construtivas eram vernaculares, baseadas em pau-a-pique cobertas por
sapê (PETRONE, 1995) ou na taipa de pilão com telhas (SAIA apud PETRONE, 1995), com
estrutura de palanques alinhados e permeado por barro compactado. No local, é ainda possível
observar grossas paredes, com mais de 50 centímetros de espessura, bem como as casas que
mantém estes aspectos arquitetônicos. Embora na maioria dos casos a habitação servisse de
simples abrigo, considerando a dificuldade de fixação do indígena no local, bem como das
instabilidades pelos serviços forçados como a própria condição do jesuíta diante dos colonos,
sua organização espacial era suficiente por suprir os serviços catequizadores, bem como
estabelecer preceitos políticos, econômicos e culturais do pensamento ocidental naquele
contexto (como o trabalho, propriedade privada e as relações sociais). Também na forma
quadrangular estrutural da sede, bem como das casas geminadas, pode-se pensar na facilitação
da defesa, com a igreja, possivelmente, comportando-se enquanto fortificação, considerando a
espessura de suas paredes.
O aldeamento de Carapicuíba, desde sua criação em 1580, não teve por objetivo ser
um espaço destinado ao confinamento de índios conversos, ou seja, já cristianizados (LEMOS
et al., 2008; FACCIO, 2010). No âmbito da Coroa, sua função destinava-se basicamente à
mão-de-obra necessária, a exploração do território e ao apoio nas circunstâncias de defesa.
Antes, porém, cabia a Igreja doutrina-los, torna-los “civilizados”. Sobre Sardinha, cujas terras
viriam a se constituírem no aldeamento de Carapicuíba, Petrone (1995) explica que “a
exemplo de Fernão Dias Paes e outros, contava a seu serviço com uma verdadeira aldeia de
121
administrados, porque na prática era essa a condição dos indígenas, embora não sancionada
por lei.” (PETRONE, 1995 p. 120). Devendo recorrer esporadicamente aos jesuítas para que
houvesse assistência espiritual necessária. Tratava-se, pois, de um passo anterior, de
aglutinamento dos nativos para sua doutrinação, servindo posteriormente aos desígnios
religiosos, do trabalho e das possibilidades que a colonização aventava a estas populações.
Conforme Tenório (2003, p. 44), a aldeia de Carapicuíba era uma das mais populosas de São
Paulo nos idos das primeiras décadas de 1600, sendo a “Aldeia Velha” um reduto de
prisioneiros. Subsiste sobre os desígnios coloniais na plena apropriação territorial, além do
conhecimento basilar de suas características, à força de trabalho e, no limite, alianças
militares e de defesa contra constantes investidas dos inimigos, tantos de outras etnias
indígenas, como piratas ou colonizadores europeus. No caso de Carapicuíba, Petrone (1995)
compreende haver nos primeiros momentos de sua fundação uma diversidade étnica de índios
concentrada, considerando que estes vinham de lugares distantes, portanto, das mais variadas
áreas e dos mais distintos grupos.
As origens do aldeamento de Carapicuíba apresentam alguns curiosos elementos de
semelhança com as de Embu. Em Carapicuíba, Afonso Sardinha possuía uma
propriedade, nela tendo reunido um número não descurável de indígenas descidos do
sertão. O núcleo deve ser quinhentista, sobre tal fato quase não devendo subsistir
dúvidas. [...] Dado que nesses casos o núcleo indígena não constituía, de forma
necessária, uma força de trabalho aplicada e intensa continuamente a serviço do
senhor rural, mas apenas a intervalos irregulares, e não sempre na sua totalidade, não
é difícil aceitar a ideia de que seriam os padres a assisti-los mais de perto, mantendo
com eles contactos freqüentes e mais significativos, de tal sorte que, na prática, os
administravam (PETRONE, 1995, p. 120-121).
Por tratar-se de um aldeamento jesuítico, Carapicuíba pela sua singularidade
diferenciava-se não apenas de seus pares, mas sobretudo de um segundo modelo de
aldeamento denominado padroado real, o qual destinava-se diretamente ao trabalho em obras
públicas ou de grande vulto, cuja administração era diretamente assistido pela Coroa.
Coexistiam também aldeias particulares instituídas nas propriedades rurais, que
provavelmente antecedem o aldeamento oficial de Carapicuíba. No entanto, estas
fragmentações de diferentes unidades não devem ser pensadas como algo estanque. Ao
contrário, o correto é considerar a mobilidade que havia entre elas, até mesmo servindo aos
moradores da região e aos propósitos distantes, como as prospecções metalistas no sertão,
consistindo na mais pura forma de reserva de trabalho. E, ainda que escamoteados, a condição
de exploração e do trabalho escravo são evidentes, o que no desenvolvimento histórico
122
passam a rivalizar com os propósitos jesuíticos, culminando com a expulsão da Companhia do
Brasil.
Os aldeamentos ou fazendas jesuíticas caracterizavam-se, antes de mais nada, pela
estabilidade de sua vida. Alguns criados ainda nessa fase, a exemplo de Carapicuíba
e Embu, mantiveram-se, como é natural, com condições muito próximas das que
desfrutavam antes, dentro dos quadros das propriedades a que pertenceram. De
resto, o fato de esses aldeamentos serem administrados dentro das conhecidas
normas jesuítas, que chegavam a evitar ‘com penas rigorosíssimas a communicação
não só entre Indios e os brancos, como de uma para outras que não fossem mesmo
grei’, contribuía para que não fossem perturbados em sua evolução (PETRONE,
1995, p. 181-182).
Em relação à função militar, como defende Saia (1937) há de se considerar
Carapicuíba como um aldeamento estratégico à proteção e defesa de Piratininga. Conforme
explica, “com efeito, observa-se que a localidade de Pinheiros bem como o forte de
Umbiaçaba formam uma como que a primeira linha de defesa situada ao longo do rio
Pinheiros. Só depois que cessaram os ataques dos selvagens contra Piratininga, vêem-se
aparecer novos aldeamentos mais avançados, Carapicuíba, Barueri [...]”. (SAIA, 1937 p. 06).
No entanto, a não ser a uma batalha em Pinheiros contra índios inimigos, a história não
reserva a Carapicuíba qualquer conflito ou, propriamente, a concretização desta função militar
específica. Vê-se neste retrospecto, que a expulsão dos jesuítas no século dezoito33 impacta
diretamente os quadros demográficos das populações aldeadas, mesmo naquelas já
administradas pela Coroa. Se numa primeira fase, que vai do quinhentismo até metade do
século dezessete, os quadros populacionais crescem, junto ao sucesso empreendedor dos
jesuítas, após esse período, quando passam a não mais regular as relações, verifica-se
aumento na mortalidade dos aldeados, com deslocamentos para outras regiões, ou fugas
empreendidas diante da precarização da vida naquele momento. “Entre 1610 e 1670, a Aldeia
passou por uma fase de estagnação, servindo de ponto de encontro entre clero e autoridades,
os quais procuravam traçar normas para a ocupação das terras e o aproveitamento do trabalho
indígena” (PIMENTEL, 2014, p. 43). Um terceiro período ainda retoma maior equilíbrio,
como podemos considerar a reconstrução da igreja em 1736 e de grande parte do aldeamento
33 “Na prática, os jesuítas constituíram-se, durante todo o século XVII, excetuando-se o curto período em que
foram expulsos de São Paulo (1640-1653), nos únicos elementos estáveis da administração dos aldeamentos.”
(PETRONE, 1995, p. 163).
123
encabeçados pelo Padre Belchior de Pontes, período que culmina com a extinção dos
aldeamentos ainda na primeira metade do século dezenove34 (PETRONE, 1995).
Em estimativas deste mesmo autor, a população aldeada em Carapicuíba deveria estar
próxima de 100 indivíduos após o ano de 1736, período que se estabelece a sua reconstrução e
desenvolvimento, após meio século de queda populacional e junção à Itapecerica. Os
aldeamentos paulistas possuem aproximadamente 15 mil aldeados até 1640, diminuindo
radicalmente para uma população total de 1 mil em 1700. No ano de 1766, Morgado de
Mateus organiza um recenseamento, identificando uma população de 2.524 aldeados.
Carapicuíba, neste ano, possui 132 aldeados, estando presentes 130 e dois ausentes, com
predominância do sexo feminino. Em 1798 serão 138 aldeados, passando em 1803 a 168
(PETRONE, 1995), como ilustra o Gráfico 01.
Gráfico 01: Evolução do quadro populacional – Aldeamento de Carapicuíba (1736-1803).
Fonte: Petrone (1995).
No século dezenove, a situação era de abandono dos aldeamentos, sendo descrita nos
relatórios oficiais e que com o Plano Rendon acabam por se assimilarem aos “[...] quadros
normais de povoamento europeu ou luso-brasileiro”. Ainda que com expressivo crescimento
demográfico em relação a maioria dos aldeamentos neste período, deve-se compreender que o
caso de Carapicuíba era emblemático, considerando sua relativa estagnação entre os séculos
dezoito e dezenove, em decorrência não apenas dos desequilíbrios populacionais causados
34 A última tentativa de reestabelecer os aldeamentos paulistas foi em 1845, o que acabou por não ocorrer
(PETRONE, 1995).
124
pelo trabalho compulsório a que eram submetidos seus habitantes, mas também pelo
esgotamento de suas terras. No entanto, sempre se caracterizou a um tipo de aldeamento
agrícola, ou seja, com as unidades familiares dedicadas à produção de gêneros alimentícios
importantes, como o milho e o feijão, também o algodão, que era o mais importante produto
deste aldeamento (PETRONE, 1995).
Algumas características do cotidiano no aldeamento de Carapicuíba são importantes
para compreender a sua função no quadro mais regional em que se inseria, como também
observar possíveis permanências contemporâneas. Sem dúvida, no âmbito alimentar o
consumo de gêneros como o feijão e o milho na dieta diária são influências importantes,
porém não restritas particularmente à Carapicuíba, porém importante assinalar. No que tange
a linguagem, a população aldeada fazia do uso do tupi, da qual aprendiam os padres e, no
limite, faziam conjuntamente o uso bilíngue no cotidiano. De certo, grandes contribuições
derivam desta mescla, se não propriamente com palavras ou na sintaxe da língua portuguesa,
certamente na entonação, no ritmo da fala, bem como no sotaque e regionalismos deste
idioma. O que mais chama atenção, sem dúvida, revela-se nas festividades religiosas, que
como a de Santa Cruz, assumiu um caráter peculiar em Carapicuíba, sendo registrada desde o
ano de 1714 conforme Arroyo (apud PETRONE, 1995) e realizada até os dias atuais. O
casamento entre os aldeados respeitava a unidade familiar, condicionado pelos sacramentos
da igreja, realizados entre indivíduos do mesmo aldeamento ou aqueles que possuíam
espacialmente contato. No caso de Carapicuíba essa relação se estabelecia principalmente
com Embu e Itapecerica. De tal maneira, constituíram os aldeamentos até meados do século
dezenove “[...] ilhas de populações indígenas relativamente puras; pela natureza de sua
organização, se não totalmente, ficaram em grande parte à margem do processo de
miscigenação que teve lugar no planalto e a que se referem Cassiano Ricardo e Alcântara
Machado.” (PETRONE, 1995, p. 969).
Em princípios do século dezenove, com o Plano Rendon e com vista a abolição dos
aldeamentos pelo governador da capitania Antonio Jose Franca e Horta, foi dada liberdade
aos aldeados. Conforme Petrone (1995, p. 349), o aglomerado de Carapicuíba praticamente
não evoluiu desde então, ficando abandonada a sede do aldeamento, com terreno devoluto e
alguns posseiros. “Talvez seja essa a razão por que, inteiramente olvidada, ou quase, não
apenas se conservou como conjunto arquitetônico praticamente intacto, mas também trouxe
até os dias atuais o nome Aldeia ou Aldeia Velha de Carapicuíba.” (PETRONE, p. 349). De
fato, Carapicuíba relativamente isolada das principais rotas, estradas e trilhos, a não ser
125
quando chega a ferrovia Sorocabana, porém com estação muito distante do antigo aglomerado
(COSTA JUNIOR, 1986). O que poderia contribuir, de certo modo, para a preservação de
suas antigas estruturas das modernizações que passaram a operar as cidades no entorno de São
Paulo, continuamente dando-lhes uma função suburbana.
Pelo relativo isolamento em que ficou Carapicuíba, este espaço se converte num
pequeno vilarejo, no contexto de consolidação dos cinturões caipira e de chácaras. O primeiro
associado à formação de uma cultura hibridizada entre as etnias presentes até então no
território, caracterizada pelo distanciamento dos núcleos citadinos. Enquanto, as chácaras
serviriam de segunda residência, que incluíam sítios e fazendas que permeavam as
necessidades de lazer e de alimentos básicos à população paulistana. As propriedades e
estabelecimentos nos arredores de São Paulo no século dezenove revelam uma diversidade de
aspectos, das quais Langenbuch (1971) destaca além dos aldeamentos em decadência, as
colônias de imigrantes, chácaras, sítios, terras de ordem religiosa e grandes extensões de
terras devolutas. Neste caso, o fim do aldeamento irá convergir plenamente, com a chegada de
posseiros, a mescla étnica e o isolamento que se fazia mesmo com o desenvolvimento das
linhas férreas na segunda metade do século dezenove. A ferrovia Sorocabana se instalará
apenas em 1875 nesta região e próxima às margens do rio Tietê e, pois, há aproximadamente
dez quilômetros do núcleo da Aldeia, sem servi-lo diretamente com uma estação, ou
necessariamente ser um fator inicial de atração no seu entorno próximo. O fim dos
aldeamentos converge na análise de Langenbuch (1971) com as modernizações que
engendrariam a efetiva metropolização de São Paulo, cujos efeitos, além das infraestruturas,
rebatem em Carapicuíba no tombamento da sua antiga Aldeia.
Seria difícil dimensionar a totalidade daquilo que o processo de colonização suprimiu,
superpôs ou acumulou exatamente nos campos de Piratininga ou no atual território de
Carapicuíba. Porém, o resgate deste período histórico é metodologicamente capaz de
sintetizar que a gênese das rugosidades patrimoniais em questão perfazem sobremaneira a
supressão da cultura e modo de vida indígenas, em favor de sobreposições externas, cujas
funcionalidades e conteúdos atenderam as necessidades de acumulação primitiva em curso no
desenvolvimento do capitalismo comercial. No caso de Carapicuíba, a instalação do
aldeamento é um marco, inclusive simbólico, do poder colonial em relação à organização de
uma estrutura de apoio aos desígnios imperialistas, como das forças produtivas. Se a
supressão das formas-conteúdos é latente, a categoria de superposição sintetiza a ação
colonizadora calcada na ampliação dos caminhos, a criação de aldeamentos, vilas e cidades
126
sobre antigas tabas e núcleos indígenas, afora os esforços de “civilização” que perturbaram a
visão de mundo e a organicidade do nativo com seus territórios. Se suprimidas
gradativamente as rugosidades indígenas, dialeticamente foram estas a alimentar
continuamente os núcleos com seu capital humano e cultural, a perpetuar a hibridização e
traços importantes desse nosso “povo novo”. Disso, em menor expressão, há assimilação de
técnicas e conhecimentos que nortearão o efetivo assentamento, conhecimento e apropriação
do território. Destas assimilações, outra vez mirando empiricamente Carapicuíba, perpetua-se
as tradições religiosas sincréticas, destacadamente a de Santa Cruz e subsidiando o modo de
vida caipira, que será o próximo foco de análise.
127
CAPÍTULO 04: Rugosidades patrimoniais na consolidação suburbana de
Carapicuíba
A tradição clássica da Geografia Urbana brasileira contribuiu com uma diversidade de
análises individualizadas das cidades da Grande São Paulo, como aquelas pioneiramente
reunidas por Azevedo (1958), ou mais generalizadamente acerca da estruturação
metropolitana, como o estudo de Langenbuch (1971). Numa perspectiva mais ampla dos
estudos geográficos da metrópole paulista, cabe destacar, entre outros autores, Ab’Saber
(1956), Seabra (1987) e Ribeiro (2016) com suas particularidades nas análises ao tematizarem
criticamente questões de ordem ambiental. Estes autores citados, junto a outros do mesmo
contexto e de análise de outras metrópoles (como no Rio de Janeiro com Fany Davidovich e
Lobato Corrêa), buscaram compreender algumas das principais interelações da capital com
seus subúrbios e congregam as principais premissas teóricas e analíticas da formação e
desenvolvimento regional da Grande São Paulo. Ainda no âmbito da Geografia, mais
recentemente, destacam-se estudos que agregam analiticamente múltiplas escalas e a
criticidade reflexiva sobre o processo de urbanização e metropolização, como em Santos
(2012b; 2013b), Lencioni (2015) ou nas compilações de Carlos e Oliveira (2004; 2015; 2016)
que trazem sínteses das produções atuais, como as de Damiani (2015), Scarlato (2015),
Silveira (2015), Seabra (2015), Suzuki (2015), Souza (2016), Lemos (2016), Alves (2016), ou
nas publicações de simpósios, como o de Geografia Urbana (SIMPURB).
Neste capítulo, em especial, a preocupação será com a estruturação da região
metropolitana de São Paulo a partir de Carapicuíba. Pois é este fenômeno a dinamizar o modo
de vida e, portanto, as rugosidade patrimoniais geradas no período anterior e em gradativo
desenvolvimento pelas modernizações e práticas operadas nos lugares. A delimitação
temporal marca o fim dos aldeamentos paulistas, no século dezenove, e limita-se até a efetiva
metropolização a partir de 1950. É este período, de aproximadamente cem anos, que marca a
pré-industrialização brasileira. É nele também que São Paulo será favorecido pelos dividendos
da produção cafeeira, pela concentração espacial de capitais e a gradativa centralidade na
produção de mercadorias no processo de substituição de importações, a tornar-se o eixo
espacial articulador da economia brasileira.
Em razão do relativo isolamento e da condição política-administrativa de Carapicuíba
ser um distrito de Cotia e depois de Barueri, quando se emancipa apenas no ano de 1964,
128
dados e informações no período são escassos, o que leva aqui a uma síntese de fontes
secundárias e que se referem aos anos mais recentes. Para efeito de situar os momentos e
condições de gênese e transformação das rugosidades estas bases são relativamente
suficientes, considerando ainda o apoio de análise iconográfica, de mapas, documentos e
outros materiais que os complementam. A estruturação metropolitana de São Paulo deriva das
diferentes funcionalidades que seu espaço regional passa a executar desde então. Portanto,
áreas como o ABC e Osasco, onde predominaram atividades industriais diversas, as
rugosidades estarão diretamente associadas a esse processo. No caso de Cotia, Vargem
Grande e até parte de Carapicuíba, será a agricultura a dinamizar as rugosidades patrimoniais,
servindo a capital com seus produtos “caipiras”, que agora sobrepõe os aldeamentos, mas sem
necessariamente deixar conteúdos ou formas que se cristalizaram naqueles territórios. Assim,
pensar a metrópole paulistana é, pois, entendê-la em seus diferentes contextos, já que mesmo
considerando estruturas diferentes de produção e novos modos de viver, subsistem singulares
e múltiplas temporalidades, cujas rugosidades patrimoniais expressam espacialmente.
Por fim, Carapicuíba representará no espaço da Aldeia a particularidade construtiva,
ou a rugosidade patrimonial atinente ao regime temporal pretérito, cujas narrativas nacionais e
a busca por uma identidade (que será calcada neste momento nas raízes coloniais), permitirão
sua escolha simbolizadora da mítica fundacional brasileira. O “conjunto urbanístico”,
especificamente, torna-se em um achado central das mais amplas características da
brasilidade, fundamentado nos preceitos defendidos pela Semana de Arte Moderna, do qual
resultará o reconhecimento nacional daquela rugosidade como um dos primeiros bens
patrimonializados no Brasil e especialmente em São Paulo (com estudos realizados desde
1937 e com o tombamento federal em 1940).
129
4.1 O vilarejo de Carapicuíba na formação do cinturão caipira em São Paulo
Durante um século, caipiras marcaram a paisagem cultural dos arredores de São Paulo, seus
contactos com a metrópole sendo feitos às custas de uma atividade comercial modesta:
utilizando cargueiros isolados, tropas pequenas, ou carros de boi, levaram suas mercadorias
para a cidade e contribuíram para criar um capítulo pitoresco que então caracterizou algum
dos ângulos metropolitanos [...] (PETRONE, 1995, p. 375).
No século dezenove, com a independência do país, junto às novas vilas e povoados,
emergem modernos sentidos para o desenvolvimento da cidade, traduzidos basicamente por
intervenções estruturais nos espaços já construídos segundo as demandas produtivas em questão.
Este será continuamente munido de infraestrutura, intensificadas pela industrialização na Europa
que passa a demandar fontes primárias, do mesmo modo pela racionalização do planejamento e
profundas mudanças das relações rurais e urbanas (ABREU, 1996; SUZUKI; COSTA, 2012).
Intensificam-se hierarquias espaciais e diferenças sobre as instâncias sociais consolidadas ao
longo dos primeiros séculos da colonização. Essas mudanças farão com que as rugosidades
produzidas nos séculos anteriores atuem a partir de forças inerciais, que ora impulsionam o
crescimento e expansão dos núcleos, ora impedem o desenvolvimento das novas atividades
produtivas em jogo. Em Carapicuíba, no entanto, este processo terá algumas singularidades,
responsáveis até o meio do século vinte pela manutenção e preservação do conjunto da Aldeia e a
latência da acumulação de uma diversidade de rugosidades patrimoniais ligadas à chegada do
negro africano e do imigrante europeu.
Com a interiorização da rede de aglomerados populacionais, bem como as transformações
empreendidas nesta passagem de quase cem anos do capitalismo comercial ao industrial, farão
com que o campo passe a depender, paulatinamente, da cidade, que permite concomitantemente a
sua modernização e regulação. Nas ideias de Prado Júnior (1972 [1945]), este é um tempo
revolucionário pela nova distribuição das atividades produtivas, no caso brasileiro principalmente
as ligadas ao café. Cultivado em fins de século dezoito, o café tornar-se-ia o principal gênero
agrícola da economia brasileira no século seguinte. Fugindo do litoral para o interior, em partes
elevadas do terreno, a produção cafeeira daria fôlego providencial à decadência das minas, da
produção de algodão e açúcar nas regiões tradicionais da colônia.
Como destaca Furtado (1971 [1959]), a gestação da economia cafeeira, que integraria
mais efetivamente o país ao comércio internacional, acompanha a produção canavieira e de
algodão, como é o caso do quadrilátero do açúcar, que em São Paulo concorreu paralelamente ao
ciclo cafeeiro e que vê florescer sua produção especialmente entre 1750 e 1850 (PRADO
JUNIOR, 1972 [1945]; PETRONE, 1968; IANNI, 1996; OLIVEIRA, 2012). Estes produtos, no
entanto, com preços ainda estagnados pela baixa competitividade com outras regiões, como as
130
Antilhas, estavam aquém da rentabilidade que o café passava a obter. As tradicionais fazendas
canavieiras em São Paulo passavam a gradativamente substituir sua produção, ou no caso de áreas
mais interiores a principiar a produção de café (MONBEIG, 1998).
Um problema que se estabelece com o fim dos aldeamentos e o aumento produtivo de
gêneros primários é a carência de mão de obra, que como explica Furtado (1971 [1959]) passa a
ser gradativamente resolvido com a chegada de mais escravos africanos e colonos europeus. Os
rendimentos da lavoura e a expansão da economia paulista passaram a substituir a mão de obra
indígena pelo escravo africano. Considerando a baixa expectativa de vida destes trabalhadores,
diante de condições precárias de sobrevivência no país, estima-se em 1,5 milhões de escravos
integrados no empreendimento colonial até 1800 (número oficial, portanto muito questionável
levando em consideração o contrabando e a ocultação para não pagamento de impostos), número
muito semelhante se somados aos índios integrados, por volta de 500 mil e índios isolados por
volta de 1 milhão, que compunham a população brasileira no período (RIBEIRO, 2006 [1995], p.
137). Mais que o trabalho, ao escravo também cabia a função de investimento, como renda
capitalizada fixa, sendo fator privilegiado da produção, pois garantia novos investimentos pelos
proprietários de terra, fazendeiros, pelo penhor junto aos bancos, comerciantes de café e insumos
e, até mesmo, como garantia aos traficantes de negros para novas investidas (MARTINS, 1990, p.
26).
Além das importações, a migração interna destes escravos foi intensificada de norte a sul,
onde o dinamismo da produção cafeeira era atrativo. Com a proibição da importação de escravos,
assim como a intensificação no controle ao tráfico humano, “[..] a questão de mão-de-obra se
agravava, e passava a exigir urgente solução. [...] Sugeria-se fomentar uma corrente de imigração
europeia.” (FURTADO, 1971 [1959], p. 119-123). O projeto foi iniciado, patrocinado pelos
dividendos do governo imperial na forma de crédito aos grandes proprietários de terra no Brasil.
Processo que se acentua no avançar do século dezenove e adentra o primeiro quartel do século
vinte, com mais de cinco milhões de pessoas vindas principalmente de Portugal, Itália, Espanha,
Japão e Alemanha (RIBEIRO, 2006 [1995]).
Esta contextualização é fundamental ao entendimento das rugosidades patrimoniais de
Carapicuíba, exatamente em função de que grande parte desses escravos africanos e trabalhadores
livres de origem europeia, concentravam-se nas cidades e áreas rurais dos centros mais dinâmicos
de produção, que neste período já principiavam a ser São Paulo e, sobretudo, Rio de Janeiro. Com
eles, traziam modos de viver, crenças e saberes que juntos a uma união difusa com os caipiras
locais passariam a influenciar e a ser influenciados nas cidades e suas regiões de alcance. No caso
de Carapicuíba, além do contorno cultural como um todo, sobretudo em relação aos traços mais
131
urbanos dessas populações, a marca dos novos habitantes está materialmente gravada por toda
paisagem da cidade. Nas propriedades rurais do entorno da Aldeia, nos fins do século dezenove, já
estão presentes italianos e japoneses, com suas tradições e modos de viver, mais tarde revelam-se
construções da Igreja Ortodoxa Russa, as comunidades da Igreja de Santo Antonio na Vila Anita
Caldas, com a presença de portugueses e italianos (TENÓRIO, 2003). Do mesmo modo, as
tradições africanas, reveladas nos sincretismos dos festejos de Nossa Senhora do Rosário e de São
Benedito ainda perduram anualmente na cidade e região.
No findar do século dezenove, ainda que em meio a crises econômicas contínuas no país,
exceção ao café em São Paulo e a borracha na Amazônia, como atestado por Prado Júnior (1972
[1945]), há aceleração das aglomerações urbanas, no sentido em que se expandem as cidades,
chegando em 1900 o país a ter uma população citadina de aproximadamente 10% do total. Apesar
de relativamente irrisória em relação aos quase 81% da população urbana contemporânea (IBGE,
2010), avançara-se praticamente em quase cem por cento entre 1870 e 1900 o número de
residentes em cidades, agora com certa confiabilidade de dados pelos recenseamentos realizados
pelo governo imperial.
Trata-se, nas palavras de Moreira (2005, p. 14) de tempos transicionais da “[...] colônia
para a independência, da escravidão para o capitalismo e da monarquia para a república, assim
antecipando o momento instaurador da grande transformação que ocorrerá na formação espacial
brasileira com o advento da industrialização e urbanização do agora país”. Estas mudanças
também são apontadas por Ianni (1996) “[...] assim, ao trabalhador escravo sucedeu o trabalhador
livre, ao negro sucedeu o branco, à senzala sucedeu a colônia.” (IANNI, 1996, p. 57). Essas
sucessões, inclusive de rugosidades, superpõe formas e conteúdos que mais tarde subsidiarão as
políticas patrimoniais em moldar uma identidade nacional, bem como fundamentar os sentidos de
identidade cultural ligados em parte desses preceitos históricos fundacionais.
Conforme Moreira (2005) e Santos (2013b) ainda não é possível necessariamente pensar
em um processo de urbanização, já que este se associará somente mais tarde com a
industrialização efetiva do país. Mais que condição urbana, as cidades configuravam-se como
centros nodais das novas necessidades produtivas, surgindo novos núcleos ou expandido antigos
centros. Fazendo com que São Paulo e Rio de janeiro tomassem a dianteira, já que a dinâmica
produtiva se acentuava sem seus territórios. A proposição deste quadro pode ser embasada pela
realidade demográfica relativamente baixa dos principais centros urbanos no país: São Luís,
Salvador, Recife, São Paulo e Rio de Janeiro. Neste período de passagem entre os séculos, as
maiores cidades, somavam apenas 5,7% dos 2,85 milhões da população total brasileira (SANTOS,
2013b, p. 22).
132
Não apenas o plano econômico era latente nas propriedades rurais, mas a organização da
vida social, nos latifúndios e propriedades, que aglomeravam milhares de trabalhadores e que
passavam continuamente a receber as linhas férreas e estações para escoamento da produção. Em
1872, apenas três capitais brasileiras contavam com mais de 100 mil habitantes: Rio de Janeiro
(274.972), Salvador (129.102) e Recife (116.671). Somente Belém (61.997) contava com
população entre 50 e 100 mil residentes. São Paulo neste período tinha uma população de 31.385
pessoas, o que evidencia em fins do século dezenove sua irrisória centralidade no que tange o
aglomerado populacional e a centralidade econômico-política no país. Número que em
praticamente duas décadas dobraria o valor, passando a população da cidade de São Paulo em
1890 para 64.934 habitantes. Ainda em 1890, eram apenas três as cidades com mais de 100 mil
habitantes: Rio de Janeiro com 522.651, Salvador com 174.412 e Recife com 111.556. Além de
São Paulo, duas outras cidades passavam da casa dos 50 mil: Porto Alegre: 52.421 e Belém:
50.064. São Paulo já havia passado Belém, continuando a crescer expressivamente com o
incremento de milhares de imigrantes que chegavam dia após dia na cidade (SANTOS, 2013b, p.
23).
Em 1872, o número de municípios em São Paulo era o maior do Brasil, com 89 no total,
seguido por Minas Gerais e Bahia, ambos com 72. Tal fato revela que, mesmo a capital não
possuindo uma das maiores aglomerações, seu território já vinha passando por espessa
fragmentação político-administrativa em razão da alta produtividade de gêneros agrícolas e maior
controle dos grupos oligarcas das respectivas regiões. É possível pensar neste período em vários
núcleos florescentes em São Paulo, e não apenas sua capital. Principalmente porque no ano de
1900 o número de municípios sobe para 172, num ritmo constante, que chega a 204 municípios no
ano de 1920 e a população da capital sendo a segunda maior do país, com 579 mil habitantes,
atrás apenas do Rio de Janeiro com mais de 1 milhão de habitantes. Mesmo que os níveis de
urbanização pouco se alterem, em verdade, entre o fim do século dezenove e princípios do vinte, o
caso de São Paulo passa ser emblemático (Tabela 01 e Gráfico 02).
133
Províncias
Brasileiras
1872
Número de
Municípios 1872
Unidades da
Federação
1900
Número de
Municípios
1900
Unidades da
Federação
1911
Número de
Municípios
1911
Unidades da
Federação
1920
Número de
Municípios
1920
Territorio do Acre 3 Territorio do Acre 5
Amazonas 7 Amazonas 24 Amazonas 27 Amazonas 28
Pará 32 Pará 50 Pará 54 Pará 56
Maranhão 37 Maranhão 53 Maranhão 54 Maranhão 64
Piauhy 22 Piauhy 34 Piauhy 37 Piauhy 39
Ceará 46 Ceará 79 Ceará 83 Ceará 86
Rio Grande do Norte 22 Rio Grande do Norte 37
Rio Grande do
Norte 37
Rio Grande do
Norte 37
Parahyba 24 Parahyba 36 Parahyba 39 Parahyba do Norte 39
Pernambuco 39 Pernambuco 58 Pernambuco 59 Pernambuco 59
Alagôas 19 Alagôas 34 Alagôas 35 Alagôas 35
Sergipe 24 Sergipe 33 Sergipe 34 Sergipe 34
Bahia 72 Bahia 126 Bahia 129 Bahia 136
Municipio Neutro 1 Districto Federal 1 Districto Federal 1 Districto Federal 1
Minas Geraes 72 Minas Geraes 124 Minas Geraes 176 Minas Geraes 178
Espirito Santo 13 Espirito Santo 29 Espirito Santo 29 Espirito Santo 31
Rio de Janeiro 33 Rio de Janeiro 48 Rio de Janeiro 48 Rio de Janeiro 48
São Paulo 89 São Paulo 173 São Paulo 174 São Paulo 204
Paraná 16 Paraná 40 Paraná 44 Paraná 49
Santa Catharina 11 Santa Catharina 26 Santa Catharina 28 Santa Catharina 34
Rio G. do Sul 28 Rio G. do Sul 66 Rio G. do Sul 66 Rio G. do Sul 71
Matto Grosso 9 Matto Grosso 13 Matto Grosso 18 Matto Grosso 21
Goyaz 26 Goyaz 37 Goyaz 45 Goyaz 49
BRASIL 642 BRASIL 1121 BRASIL 1220 BRASIL 1304
Tabela 01: Evolução de número de municípios brasileiros entre 1872 e 1920.
Fonte: IBGE – Evolução da Divisão Territorial do Brasil (1872-2010). Organização do autor, 2016.
134
Evolução populacional das maiores capitais na fase pré-industrial do Brasil (1870-1950)
0
500.000
1.000.000
1.500.000
2.000.000
2.500.000
3.000.000
3.500.000
Pop
ulç
ão
das
M
aio
res
Ci dad
es B
ras
ilei
ras
(18
72-
195
0)
Rio de Janeiro 274.972 522.651 811.443 1.157.873 2.377.451 3.281.908
Salvador 129.109 174.412 205.813 283.422 290.443 417.235
Recife 116.671 111.556 113.106 238.843 348.424 524.682
Belém 61.997 50.064 96.560 236.402 206.331 254.949
Porto alegre 43.998 52.421 73.647 179.263 272.232 394.151
Fortaleza 42.458 40.902 48.369 78.536 180.185 270.169
São Paulo 31.385 64.934 239.820 579.033 1.326.261 2.198.096
1872 1890 1900 1920 1940 1950
Gráfico 02: Evolução populacional das maiores capitais na fase pré-industrial do Brasil (1870-1950).
Fonte: (a) IBGE – Evolução da Divisão Territorial do Brasil (1872-2010) – 2011; (b) Censo 2010; (c) Santos (2013b, p. 153) segundo anuários estatísticos e censos
demográficos do IBGE. Organização do autor, 2016.
135
É no contexto das mudanças políticas e econômicas operadas globalmente e rebatidas
no território brasileiro que o processo de conformação do cinturão caipira e de chácaras
converge propriamente com o fim dos aldeamentos em São Paulo. Sua caracterização é,
destacadamente, realizada por Azevedo (1958), Petrone (1995) e Langenbuch (1971), que
servem de base para pensar o desenvolvimento urbano de São Paulo e, fundamentalmente, de
Carapicuíba. Trata-se do período no qual Langenbuch (1971) principia sobre a própria
estruturação da RMSP, onde a capital, com sua localização estratégica entre o interior e o
porto, continuará a regular os fluxos econômicos traduzidos ora pela produção primárioexportadora, ora na redistribuição dos produtos manufaturados importados ao restante do país
(Figura 17).
Os arredores de São Paulo em meados do século XIX
Figura 17: Caminhos e núcleos populacionais nos arredores de São Paulo em meados do século dezenove.
Fonte: Langenbuch, 1971.
136
No entanto, o desenvolvimento pela alta produtividade é concentrado em espaços de
dinâmica produção agrária, ou propriamente na cidade de São Paulo, que faz a regulação e
centraliza atividades políticas e administrativas. Isso faz com que Carapicuíba fique à margem
das infraestruturas instaladas no território. O tempo no espaço fica cristalizado, em momentos
que parecem não corresponder com o florescimento das proto-indústrias e do modo de vida
urbano em curso no centro metropolitano paulista. Tão perto e tão distante de uma das
maiores cidades brasileiras, a Aldeia de Carapicuíba à margem da modernização preservara
relações e modos de vida, tradições e uma relativa organicidade com a unidade designada
caipira, na ruralidade ainda pouco tensionada pelos desígnios das inovações técnicas em
amplas escalas. A pujança de São Paulo era contrastante não apenas em relação aos seus
subúrbios, mas com as unidades territoriais localizadas no interior e que se articulavam pela
centralidade estabelecida das linhas de trens na capital e em sentido ao porto de Santos.
Em seus levantamentos Langenbuch (1971) conclui que a metamorfose dos
aldeamentos em povoados caipiras se opera durante os dois quarteis intermediários do século
dezenove. Seus limites, pois, antecedem a suburbanização propriamente, ou seja, a integração
maior com São Paulo pelas estações e os trilhos ferroviários. Concêntricos à São Paulo, estes
espaços, em verdade, não constituiriam necessariamente um cinturão, tão pouco seriam
determinados pelas distâncias, mas sim uma conjugação de fatores, que remetem à
valorização e especialização residencial no caso das chácaras, até o abandono e ostracismo
dos vilarejos caipiras – este último mais apropriado para qualificar Carapicuíba. “O ‘cinturão
das chácaras’ apresentava propriedades menores que o ‘cinturão caipira’, onde ainda era
incomum uma certa indefinição fundiária, sendo freqüentes os litígios e as invasões, estas, às
vezes, relacionadas com a prática da rotação de terras pelo sistema de ‘roça’, outras vêzes à
antiga estrutura ligada aos jesuítas e aos aldeamentos” (LANGENBUCH, 1971, p. 74).
De difícil delimitação, o cinturão caipira se diferencia fundamentalmente do cinturão
das chácaras apenas pelo ostracismo e isolamento que o primeiro se estabelece em relação ao
segundo. Seu arranjo é de complexa espacialização, considerando mesmo a indefinição
política-administrativa dos limites entre cidades e vilas naquele período, variando espaços por
vezes mais distantes e dinâmicos, ou mais próximos de São Paulo e relativamente
abandonados. Tanto são as denominações quanto a diversidade de lugares e culturas:
vilarejos, distritos, pousos, freguesias, arraiais, aldeias, convivendo áreas dinâmicas e outras
estáticas sobrepostas nas mesmas unidades territoriais. Trata-se de uma grande diversidade
funcional das unidades no plano dos subúrbios paulistanos em gestação naquele momento.
137
Considerar, no entanto, algumas diferenças entre eles permite ampliar a diversidade de
relações que havia então e que, de todo modo, condicionou posteriormente a forma de
desenvolvimento da própria metrópole.
No que tange mais propriamente aos cinturões caipira e de chácaras, estas
classificações são funcionais e caracterizam diretamente alguns importantes conteúdos dos
arredores de São Paulo ao longo do século dezenove até as primeiras décadas do vinte. Em
relação às pequenas propriedades rurais, fazendas e sítios, englobados no cinturão de
chácaras, teriam por função não apenas o lazer, mas o fornecimento de insumos alimentícios
aos núcleos centrais e localizavam-se mais próximos da capital. Associam-se às chácaras,
também os sítios e pequenas fazendas. Sua produção limitava-se muito mais ao mercado local
do que a produção de açúcar ou café ao mercado internacional, então podendo considerar o
cinturão enquanto celeiro de São Paulo, função que também desempenhava em grande medida
junto com o cinturão caipira. Essas seriam as características mais essenciais do cinturão de
chácaras nos arredores de São Paulo, lembrando conforme Langenbuch (1971) outros
aspectos:
O cinturão das chácaras achava-se visivelmente organizado pela cidade para a
cidade. Além das chácaras com sua função de residência, e secundariamente de
produção frutícola, o cinturão encerrava uma série de elementos funcionalmente
ligados à cidade, e que aí se situavam por requererem muito espaço – por seu caráter
repulsivo (recomendando seu isolamento), ou por ser a localização campestre
considerada ideal. Trata-se daqueles pousos de tropa destinados a propiciar
alojamentos junto a São Paulo, dos cemitérios, de hospitais, de colégios, do depósito
de pólvora (LANGENBUCH, 1971, p. 76).
Em relação ao cinturão caipira, tratavam-se de pequenos núcleos de aglomeração de
economia decadente, agricultura de subsistência, roçado, ou ainda um ou outro gênero a ser
comercializado na capital. No ostracismo, serviram-se da criação de alternativas próprias de
subsistência, vivendo a poucos quilômetros de São Paulo, que apesar de expressividade no
quadro regional, ainda era uma pequena vila no século dezenove (PETRONE, 1995). O
vilarejo, da Aldeia de Carapicuíba, achava-se assim como no passado, um conjunto de casas
que se encerravam entre si, ou seja, se no passado assim dispostas pressupunham separação
entre o índio e o branco, ou mesmo a própria segurança do núcleo, agora dispunham em seus
conteúdos a rusticidade do caipira que tão bem descreve Antônio Cândido (2010), fechado em
seu núcleo familiar e de compadrio, vivendo apartado em um sistema social que está
138
relativamente alheio às transformações em São Paulo. A detalhada descrição de Cândido
(2010) da cultura caipira anos mais tarde (1948), na região de Bofete, interior de São Paulo,
converge compassadamente com parte da cultura indígena e dos aldeamentos tão bem
precisado por Petrone (1995) em citação subsequente, que vão dos hábitos alimentares, às
vestimentas, assim como as relações sociais mais complexas em torno da religiosidade e da
agregação familiar.
Os referidos núcleos, aldeamentos ou não, de qualquer forma testemunhos do
passado, sempre abrigavam uma população relíquia sob muitos aspectos. Vivendo
em casas de pau-a-pique ou de taipa, sempre modestas e pouco confortáveis;
cultivando um pouco de milho ou de feijão, algumas touceiras de cana-de-açúcar e
um ou outro pé de fumo; queimando anualmente uma área sempre maior do que a
cultivada de fato; praticando a coleta onde ainda era possível; recolhendo lenha ou
fazendo carvão, e vestindo pobremente, de pé no chão, calças pula-brejo, camisas de
algodão, barbinha rala e toco de cigarro de palha na orelha, conforme o estereótipo,
o morador dessas áreas com frequência representava bem o caipira dos arredores de
São Paulo (PETRONE, 1995, p. 374).
Os núcleos do cinturão caipira guardam ainda maior relação com os aldeamentos,
considerando a hibridização cultural que se efetivava nestas regiões (IANNI, 1996), o
“caipiramento” ou “acaipiração” como denominado por Antônio Candido (2010 [1958]),
expressada por Almeida Junior em uma de suas mais famosas obras a retratar o cotidiano do
caipira35 (Figura 18), segundo aquilo que observara, mas também os preceitos detalhados por
viajantes como Saint Hilaire, ainda que muitas vezes pejorativas, precisas no entanto eram as
descrições que situam-se desde o século dezenove aos dias atuais. Além do branco e o índio,
havia a introdução recente do negro na miscigenação étnica, que junto a um modo de vida
adaptado ao meio rural, realizado no campo, qualificaria a tradição, a rusticidade, aspectos
que sintetizam modos de ser “caipira”, e não exclusivamente um “tipo racial” (CÂNDIDO,
2010 [1958]; LANGENBUCH, 1971; PETRONE, 1995; IANNI, 1996).
35 “Mesclaram-se os portugueses e os índios, escravos e forros, mestiços ou não, nas bandeiras, monções, roças
ou criações. Assim, enquanto se estendia a rede de povoamento e negócios, pelas longas lonjuras, formava-se a
base de uma sociedade peculiar, a sociedade caipira. (IANNI, 1996, p. 16).
139
Caipira Picando Fumo (1983) e o Violeiro (1899) – Almeida Júnior
Figura 18: A esquerda, “Caipira Picando Fumo” (1983) e à direita “O Violeiro”. Telas do pintor realista
Almeida Júnior, retratando o modo regional de vida do caipira em São Paulo no século dezenove.
Fonte: Pinacoteca do Estado de São Paulo.
Estes núcleos caipiras, como veremos em laudas posteriores, guardam acumulações,
rugosidades patrimoniais, em relação a efetiva cristalização suburbana de Carapicuíba, ou
revelam diferenças espaciais do desenvolvimento de São Paulo até implosão-explosão urbana
que sugere a periferização como concreticidade contemporânea. De fato, falar de São Paulo
não é o mesmo que falar de Carapicuíba, onde mesmo unidos por funções vitais, estavam
diametralmente distantes socialmente, como hoje despontam territórios de chácaras e sistemas
condominiais nos limites periféricos e das favelas em ambas cidades.
A proximidade física, de localização, reverbera o distanciamento social, cultural e
econômico, que depõe a favor do desenvolvimento geográfico desigual e combinado, do qual
Marx protelava no século dezenove e que se observará detalhadamente nos territórios em
questão. Como assevera Cândido (2010), há que se descriminar desde sempre as diferenças
básicas da vila de São Paulo com as do povoados em seu interior, a do fazendeiro em relação
da “gente de prol”, a do sertanista, do povoador e do caipira. Neste sentido a vinculação do
cinturão de chácaras era sempre maior com São Paulo, devido a interdependência comercial e
desfrute recreativo, enquanto o cinturão caipira subsistia por longos períodos sem haver
necessariamente o contato direto com o centro proto-metropolitano, ainda que grande parte de
sua produção excedente rapidamente fosse absorvida pela capital.
140
O ‘cinturão caipira’, que se seguia aos das chácaras se caracterizava pela cultura de
subsistência e pela produção agrícola extrativa (lenha, madeira, pedras de cantaria e
produtos cerâmicos) e artesanal (objetos de barro) destinados ao abastecimento de
São Paulo. Alguns aglomerados desta faixa são procurados pela população
paulistana para fins recreativos e religiosos. Estabelecimentos, instalações e
atividades ligadas à circulação são bastante numerosos no ‘cinturão caipira’, em
vista do papel de foco concentrador exercido pela cidade de São Paulo, o que
provoca uma grande densidade de estradas e de circulação em seus arredores. Este
cinturão, ao contrário do anterior [o de chácaras], não é inteiramente organizado em
função de São Paulo, dada a importante presença da agricultura de subsistência e de
extensas áreas incultas, e do relativo papel polarizador exercido por algumas vilas aí
situadas. Contudo, as importantes atividades de abastecimento da capital
evidentemente se organizaram em relação a esta, o mesmos e verificando, pelo
menos em grande parte, com a aludida função religiosa e de recreação
(LANGENBUCH, 1971, p. 76).
Os núcleos mais característicos da cultura caipira nos arredores de São Paulo seriam
conforme Petrone (1995) Itaquaquecetuba, Escada, São Miguel, Guarulhos, Carapicuíba e
Itapecerica. Ele destaca “[...] a existência de uma relação entre a presença dessa população
caipira e o cinturão de aldeamentos das vizinhanças de São Paulo.” (PETRONE, 1995, p.
374). Carapicuíba é um registro emblemático da paisagem rural que predominava até
princípios do século vinte, com a paisagem dos campos sujos e o vazio demográfico,
contrastante com seu panorama urbano-metropolitano atual. No limite temporal do cinturão
caipira, a descrição de Saia (1937) acerca de Carapicuíba, já na altura da quarta década do
século passado, evidencia a prevalência de uma “aldeia caipira”, a menos de 25 quilômetros
de São Paulo, com conflitos e disputas pela posse de suas terras, como também apontado por
Tenório (2003). Para Saia (1937) a própria forma “fechada” do quadrilátero, ou do retângulo
que envolve todas as casas para si mesmo e a igreja, contribuiria pela manutenção de uma
unidade. O cenário que o autor encontra no fim da década de 1930 é marcado por ranchos de
pau-a-pique, roças de milho e outros gêneros alimentícios para a subsistência dos moradores
(Figura 19). Ainda conforme Saia (1937), “o tom predominante da paisagem é dado pelos
pastos, apenas interrompendo por alguma capoeira sem importância.” (SAIA, 1937, p. 14).
141
Aldeia de Carapicuíba - 1913
Figura 19: A paisagem rural de Carapicuíba em 1913, no cinturão caipira de São Paulo.
Fonte: Acervo Fotográfico da Casa da Cultura de Carapicuíba.
Além dessa área em especial, a cultura caipira se desenvolve no interior de São Paulo
como um todo, alcançando áreas do sul de Minas Gerais, norte do Paraná, sul de Goiás e até
mesmo partes do Mato Grosso do Sul (CÂNDIDO, 2010; IANNI, 1996). Sem dúvida, esta
relação não restringe a cultura caipira a uma pura continuidade da mescla indígena com o
branco e o negro, ou aos espaços dos aldeamentos, mas a um amplo fenômeno que fundiu
consideráveis elementos em torno deste modo de viver. Se naquele momento foi relegada a
uma cultura atrasada, considerando o pensamento da época, hoje se revela como possibilidade
de um elemento híbrido e multicultural da brasilidade. Emerge como uma identidade capaz de
ser, cada vez mais, exaltada de um passado cujas marcas evidenciam a presença de diversas
rugosidades patrimoniais, desde a forma do falar, os hábitos e tradições, até as construções
mais simples nas muitas cidades brasileiras. Se os aldeamentos trazem condição de uma
narrativa crítica em favor das supressões de seus sistemas de crenças, da sua organização
espacial, do seu modo de vida, o cinturão caipira é uma vertente que processa uma latência
acumulativa das diferentes raízes culturais, as quais criticamente devem ser desmitificadas em
favor da concreticidade do real. Ou seja, de revelar as contradições que se operam
especificamente neste caso das permanências e das transformações em curso.
Diante do ostracismo, estes núcleos preservaram importantes conteúdos, dos quais,
como Langenbuch (1971), pode-se avultar a permanência da função religiosa. Esta
desempenhava importante papel ao atrair uma massa de pessoas na participação de festas,
142
como a do Espírito Santo, além de romarias e outras atividades culturais. Luís Saia (1937)
assinala especificamente sobre as tradições festivas de Santa Cruz e Santa Catarina na Aldeia
de Carapicuíba, descrevendo as relações nesta etapa da força dos mutirões nos
empreendimentos locais, como a construção ou reformas das pequenas habitações, ou nas
festividades cuja devoção aflora como força que capaz de movimentar as pessoas da região e
dar cabo aos objetivos mais singelos.
As festas de Santa Cruz e Santa Catarina atraem para a Aldeia grande número de
caipiras das vizinhanças e alguns moradores de São Paulo aparentados aí. Em volta
do páteo os sírios vendedores de bugigangas armam barraquinhas de lona, tabuleiros
de quentão, arroz doce, cocada e batata doce em calda, se dispõem nos pontos onde
possam chamar a atenção do caipira (SAIA, 1937, p. 15).
Além do papel da religiosidade, era comum, com certa periodicidade, afastar-se da
segurança e relativo convívio da habitação e seu entrono para fazer-se presente em feiras e
espaços onde se realizavam o comércio de utensílios essenciais as atividades cotidianas. Nos
arredores de São Paulo, nos primórdios do novecentos, Tenório (2003) ressalta a importância
de Pinheiros ao concentrar um grande mercado caipira, que oferecia mercadorias trazidas de
toda região e que eram comercializadas numa interface entre distantes produtores e os
consumidores locais, cuja predominância eram os frutos da terra.
Em 1910, Pinheiros já era um bairro muito conhecido de São Paulo. Para lá
ocorriam os tropeiros de Ibiúna, Piedade, São Roque, Cotia, Itapecerica da Serra,
M’Boy (atual Embu), Una e Carapicuíba, trazendo mercadorias para vender, quase
tudo produto da terra. [...] No mercado dos caipiras de Pinheiros [...] podiam vender,
além das mercadorias comuns: fazendas, sítios, chácaras, terras agrícolas e de
criação, colheitas, animais vivos isolados ou em manadas, tijolos, telhas,
pedregulhos, areia, madeiras, lenha, veículos, instrumentos agrícolas, etc. Os
tropeiros, vindos do sertão, costumavam parar em sítios existentes nos bairros
próximos e, por onde passavam, soltavam as mulas para pastar e eles mesmo, depois
de uma boa refeição, iam dormir. De madrugada, saiam para o ‘Mercado dos
Caipiras’, levando as bagagens. [...] Carapicuíba, havia muitos pousos de tropeiros,
venda e local para o descanso dos animais. [...] Em Carapicuíba a venda do Antônio
Zamella era um ponto de parada obrigatória para os tropeiros e viajantes [...]
(TENÓRIO, 2003, p. 105-106).
Isso implica apontar uma condição relativa de isolamento, pois mesmo havendo o
contato com o “mundo exterior” ainda permaneciam a parte, em seu próprio ritmo de vida,
mas sem necessariamente ignorar as dinâmicas a sua volta. O que não era puramente negativo
quando se considera que estabeleceram “[...]condições mais favoráveis para a preservação de
uma soma não descurável de traços culturalmente residuais, em certos casos quase relíquias.”
143
(PETRONE, 1995, p. 374). Em Carapicuíba, a festa religiosa mais tradicional realizada era e
continua sendo a de Santa Cruz. Numa junção entre ritos religiosos católicos e danças
profanos indígenas, ascenderam os passos do Sarabaquê e da Zagaia, que remetem às
tradições dos setecentos e que veio se manifestando gradativamente até os dias atuais, como
evidenciam os registros históricos e materiais iconográficos os mais diversos (Figura 20).
População na Aldeia de Carapicuíba – Festejos de Santa Cruz em 1913
Figura 20: A religião era uma das mais importantes funções exercidas nos subúrbios paulistanos em fins do
século dezenove e princípios do vinte. Ali permaneciam as tradições, que alicerçavam atividades diversas, como
os festejos de Santa Cruz, em Carapicuíba, realizados no mês de maio, nesta foto em 1913.
Fonte: Acervo Fotográfico da Associação Sarabaquê de Difusão Cultural e Social.
Sendo pejorativamente qualificada como retrógrada pela sociedade de então, conforme
resumida pelos relatos de viagem ao Brasil no século dezenove, como os de Saint-Hilaire
(1972), mesmo em dias atuais o termo caipira ainda pode representar em certos casos um
sentido negativo, o revés do moderno, da cidade e seus ares. A rugosidade Carapicuíba,
herança do aldeamento expressa obviamente em fins do oitocentos e início dos anos
novecentos uma unidade espacial tipicamente caipira. Sua passagem da “não cidade”, já
considerada na constituição de aldeamento, permanece na condição do novo isolamento do
vilarejo. Isso mesmo quando a capital, a apenas alguns quilômetros, já se desenvolvia com os
frutos da cultura canavieira e agora plenamente com os dividendos do café, além da instalação
de infraestruturas que sedimentariam, se não totalmente, grande parte de sua industrialização,
da qual Carapicuíba também ficaria relativamente à parte (Figura 21).
144
Mancha urbana de São Paulo – Fins do Século XIX
Figura 21: Carapicuíba no limite da mancha que se segue pelos trilhos da Sorocabana sentido oeste.
Fonte: Mapa das Colônias Oficiais (Final do Século XIX) – elaborado por Langenbuch (1971).
Mesmo com o primeiro trecho da Estrada de Ferro Sorocabana (EFS) em 1875, a
estação mais próxima instalada localizava-se justamente em Barueri, sede administrativa da
unidade Barueri-Carapicuíba36, portanto distante do pequeno aglomerado da Aldeia.
Conforme Tenório (2003, p. 91) “[...] o trem não parava em Carapicuíba para o embarque de
36 Formalmente o distrito de Carapicuíba é instituído quando da criação do município de Barueri, em 1948 – pela
Lei 233 de 24/12/1948. Carapicuíba torna-se município emancipado em 1964, pela Lei 8092 de 28/02/1964,
tendo agregados territórios de Cotia e Osasco, possuindo os distritos de Carapicuíba (centro), Aldeia de
Carapicuíba e Vila Dirce.
145
passageiros. Porém, em 1921, foi construído um embarcadouro de gados que seguiam para o
descanso de 15 por 15, em nove currais, no Campo da Boiada, atual COHAB, de onde eram
conduzidos para o abate no Frigorífico Municipal do Km 21.” (TENÓRIO, 2003, p. 91). Entre
o fim do século e a primeira estação de Carapicuíba, o transporte predominante ainda era
dominado pelos carros de boi, charretes, igualmente comum era uso de muares no transporte
de cargas. A locomoção e os fluxos de mercadorias e pessoas era ainda, basicamente, efetuado
pelo transporte de tração animal. Costa Junior (1986) ratifica este quadro de tempo moroso,
lento e longo, porém já evidencia que mesmo antes da chegada da EFS os arredores da estrada
de Itu, nas proximidades do Tietê, onde hoje se localiza a rodovia SP-280, já despontava
“uma ou outra habitação longe do Tietê”.
Após o matadouro e as olarias, mais antigos, os compradores dos lotes da Vila
Silvânia iam erguendo suas casinhas. Nos altos dos morros aparecem as igrejas e
pouco a pouco esta velha Carapicuíba foi tomando ares de Cidade. A construção da
estação em 1921, pode ser considerada o germen deste novo núcleo habitacional
edificado a mais ou menos quatro quilômetros de distância do velho núcleo da aldeia
de índios (COSTA JUNIOR, 1986).
Destarte, como no passado, sua população subsidiará o crescimento e expansão de São
Paulo, servindo a cidade com seus produtos e recursos, suas chácaras com seus braços, e no
âmbito imaterial com suas festas e tradições. Perpetua-se a reprodução da condição de
alicerce de Carapicuíba aos desígnios do desenvolvimento capitalista no território paulista.
Dá-se continuidade a um patrimônio que é fruto do trabalho, da função que serve ao
empreendimento pré-urbano e industrial que se desencadearia na capital. Seus recursos serão
essenciais ao centro metropolitano e marcarão o próximo período de consolidação suburbana.
Em comparação com as chácaras, o cinturão caipira é que melhor caracterizará os atuais
subúrbios de São Paulo, considerando que as primeiras foram rapidamente tomadas pelo
processo de metropolização.
A porção dos arredores que mais será abrangida pela expansão suburbana do
metrópole é precisamente o ‘cinturão caipira’, uma vez que o ‘cinturão das
chácaras’, mais restrito que o limite da atual cidade de São Paulo, será afetado pela
expansão mais propriamente da Capital (LANGENBUCH, 1971, p. 76).
Longe de um reconhecimento consensual, a cultura caipira, no berço moderno e da
economia pulsante do Brasil, é uma rugosidade patrimonial essencial e significativa do
processo de consolidação da metrópole paulista e do atual município de Carapicuíba. Carrega
146
a historicidade do aldeamento, por dele ter derivado, mas sobretudo pelas vivências que se
perpetuaram carregando os mais agudos traços da cultura material. Esta, como prática de
sobrevivência foi capaz de preservar o conjunto jesuítico, com soluções arquitetônicas
precárias e com as ferramentas disponíveis, o que sustentou por mais de um século o antigo
aglomerado de pau-a-pique e taipa de pilão, reforçando sua unidade em segurança das
intempéries sociais e ambientais. Também as tradições mais antigas foram perpetuadas,
resistindo às banalizações e os contínuos choques impostos pelas verticalidades das formas e
conteúdos globais, ora pelas dificuldades puramente de estar integrados, ora por simplesmente
ignorarem o mundo externo, ignorarem os ensejos modernizantes da produção e das relações
que delas derivam.
No transcorrer das políticas patrimoniais, sempre em busca da exuberância, unicidade,
singularidade diferencial, esses preceitos tão significativos foram relativamente ignorados.
Mesmo o levantamento de Luís Saia em 1937 destacando emblematicamente estes preceitos,
como as crenças, os costumes e tradições, o favorecimento das formas arquitetônicas e do
conjunto de pedra e cal projetado frente o intangível, condicionou o esquecimento e abandono
de importante parte desta cultura singular. Mesmo com os avanços de uma visão sobre os
conjuntos, ou de elementos da cultura popular, a generalização do patrimônio foi pouco
pragmática aos objetivos que poderiam resultar da preservação e divulgação dos bens
culturais, com possíveis ganhos econômicos ou o pleno reconhecimento identitário e de
respeito pelos grupos sociais.
As limitações decorrem de uma mentalidade a ser desenvolvida e que depende do
fortalecimento, mas sobretudo do empoderamento das comunidades e grupos sociais inseridos
nestes espaços. Neste sentido, cabe destacar, a título de exemplo, o caso da festa de Santa
Cruz, que talvez seja um dos elementos mais importantes para o reconhecimento e
manutenção do patrimônio cultural da Aldeia de Carapicuíba. Ele emerge em todas as análises
realizadas como presença concreta e significativa daquela rugosidade patrimonial. Porém,
tanto os documentos e arquivos em órgãos federais e estaduais pouco ou nada traduzem desta
manifestação. Cabendo ao trabalho pioneiro de pesquisadores como Pellegrini (1979),
Escalante (1981), ou mais recente de Henne (2015).
De fato, os órgãos têm um papel fundamental na preservação da Aldeia após 1940,
como será debatido, porém cabe antecipar dura crítica a respeito da negligência das tradições
e da cultura imaterial, que indissociavelmente incorporadas ao próprio conjunto da Aldeia
147
(inclusive de sua manutenção por mais de um século), foram relativamente “marginalizadas”
pelas políticas do patrimônio. Mesmo que o conjunto (material e imaterial) carregue
importante historicidade da memória nacional, ora do Brasil Colônia (com os aldeamentos
jesuíticos), ora do Reino Unido, Império e Brasil República (com as oligarquias rurais), como
também da memória coletiva que perfaz a formação da região metropolitana de São Paulo (de
seus núcleos mantenedores), ou mesmo das próprias vivências pelos grupos sociais de
Carapicuíba, este foi relativamente deixado a sorte no movimento da história e cuja
comunidade teve papel central na permanência das rugosidades patrimoniais.
4.2 A cristalização do núcleo “suburbano ex-vilarejo” em Carapicuíba
O período ora em tela marca o crescimento exponencial de São Paulo, estruturalmente
situado no contexto do ápice da produção cafeeira e de outros gêneros agrícolas, como a canade-açúcar ou algodão, e que engendram sua pré-industrialização e expansão regional (Figura
22). Esta fase marca, cada vez mais, a integração de Carapicuíba à São Paulo que, guardadas
as permanências e devidas rugosidades, discutidas ao longo destes capítulos, cristalizam o
subúrbio, culminando até meados das décadas de 1950 e 1960, com a emancipação dos
municípios e, contraditoriamente a integração geográfica da metrópole e a fragmentação das
unidades administrativas.
Este tempo consolida muitos dos atuais subúrbios paulistanos, com ampliação das linhas
férreas e, particularmente em Carapicuíba, com a criação das estações para passageiros. O
transporte predominante, antes restrito aos antigos caminhos e rotas de chão batido, carros de
boi, charretes e mulas, a partir de 1926 em Carapicuíba passam a ter o predomínio das
ferrovias, com arranjos produtivos e aglomerações em suas proximidades, dividindo a
centralidade da antiga aldeia com a nova estação. Tenório (2003) detalha como a nova estação
atraiu passageiros, como novos moradores que vinham junto aos novos empreendimentos
imobiliários iniciados em seu entorno. E junto aos novos moradores, também a instalação de
um terminal rodoferroviário, conforme crescia a demanda dessa população.
148
Expansão Metropolitana Oeste – 1921
Figura 22: Secção do mapa, observa-se arredores a oeste de São Paulo. Expansão da malha urbana se assevera ao longo dos trilhos. Detalhe de Carapicuíba, destacando a sede da Aldeia e sítio Quitaúna. Presença da EFS ao norte, sem aglomeração neste
momento.
Fonte: Arquivo Público do Estado de São Paulo (Escala 1:100.000) – Memória Pública. Mapa IGC de 1921. Organizado e editado pelo autor, 2016.
149
Em 1890 a cidade de São Paulo possuía população de 64.934 habitantes, passando
concretamente ao processo de metropolização quando chega a 579.033 em 1920 e, por fim, a
mais de 1.326.261 habitantes em 1940 (IBGE, 2011). Trata-se, pois, nas palavras de
Langenbuch (1971, p. 131), onde a “[...] pressão e consequente tendência expansionista
exercida pela cidade sobre sua periferia, naturalmente, seria mais intensa. De fato, o que se
observa no fragmento do mapa na Figura 22 “Expansão Metropolitana Oeste – 1921”, é o
amplo espraiamento da mancha urbanizada da capital, conduzida pelos caminhos e as estradas
de ferro. Os terrenos valorizados na cidade de São Paulo obrigam novos moradores a
procurarem loteamentos cada vez mais distantes, fazendo da especulação imobiliária um dos
condutores principais da expansão suburbana da região metropolitana (LANGENBUCH,
1971, p. 132-135). Na porção oeste, em que situam-se Osasco, Carapicuíba, Barueri e Itapevi
a EFS marcará a gradativa mudança dos arraiais, vilarejos e pequenos núcleos, que passam a
conviver com as novas dinâmicas territoriais induzidas pela metrópole.
A estrada de ferro, na realidade, não se limitou a orientar a suburbanização
residencial, mas continuou a fazê-lo com relação a suburbanização industrial.
Ambos os processos de ocupação suburbana dos arredores de São Paulo assumem
grande importância no período 1915/1940. O desenvolvimento de subúrbios
residenciais, anteriormente apenas incipiente, agora se inicia de modo amplo e ganha
corpo. Já a industrialização suburbana conhecera um expressivo início no período
anterior a 1915, mas o processo se acelera de tal ordem que o desenvolvimento
anterior se nos afigura extremamente modesto (LANGENBUCH, 1971, p. 140).
Santos (2013b) explica categoricamente que a expansão econômica obtida pela região
sudeste desde a segunda metade do século dezenove, não apenas resulta da modernização e
integração das diversas cidades, mas também o aprofundamento da divisão do trabalho,
implicando numa dinâmica de maior urbanização, onde sinergicamente “[...] foi possível
acolher as novas e sucessivas modernizações.” (SANTOS, 2013b, p. 70). Deve-se destacar o
papel da indústria têxtil, com grandes maquinários, ampla mão-de-obra e concentração de
capital. Assim também considerar que o fenômeno enquanto uma “industrialização periférica”
é dependente das economias centrais, das demandas internacionais e marcada pela ausência de
indústrias de bens de capital, ou mesmo, de indústrias nacionais independentes (MELLO,
1975). Cano (1975) defende que no processo ainda incipiente de industrialização há como
resultante relações modernas e capitalistas oriundas da produção cafeeira em São Paulo. Em
verdade, antes de 1920 a indústria brasileira ainda estava concentrada, praticamente, na
produção de bens de consumo básicos. Mesmo que dada as condições pré-industriais
contextualizadas, o censo de 1907 aponta oficialmente 326 estabelecimentos industriais em
São Paulo, gestados principalmente nas duas últimas décadas do século dezenove,
150
destacadamente no segmento de móveis, chapéus, calçados, bebidas, alimentos, serrarias,
sabão, velas e medicamentos. Ao contrário do restante do país, até 1919 o autor supracitado
destaca um importante salto quantitativo da indústria paulista, crescendo e se expandindo,
inclusive para o interior. Uma das razões, além da bolha de crédito que gerou uma grande
crise econômica entre a Monarquia e República, e que corroborou para aquisição e
investimentos em fábricas numa organização produtiva da indústria em pequena escala,
também pesou a imigração em práticas associadas a estas atividades (MARTINS, 1990, p.
115).
Na fase posterior da economia, considerada entre 1919 e 1929 pela periodização
realizada por Cano (1975), com o estabelecimento da prévia atmosfera industrial, houve
ganhos qualitativos importantes, tanto na diversificação, como na dinamização das atividades
e produtos industrializados. O período revela um gradativo processo de empresariamento
como cultura industrial difundida e consolidada (DEAN, 1971). São Paulo passa a suprir
também a crescente demanda do mercado em escala nacional e a tornar-se definitivamente o
centro industrial do país (CANO, 1975, p. 263). Ainda segundo Cano (1975), mesmo
preocupado em compreender precisamente as raízes da industrialização de São Paulo e os
desequilíbrios regionais provocados, ao exibir quadros comparativos entre o Brasil e suas
regiões, ratifica crescimento, de certa forma, generalizado da indústria brasileira. Isso também
corresponde a expansão dos quadros de urbanização revelados pela Tabela 02 e, sobretudo, de
população total, conforme o Gráfico 02 anteriormente posto.
O período que vai de 1929 até fins da guerra em 1945 é marcado contraditoriamente
por uma produção industrial ligada a consolidação do mercado interno, que no âmbito de
produção intelectual da CEPAL se associa a um processo de substituição das importações em
decorrência de choques adversos no âmbito econômico. “A produção industrial, que se
destinava em sua totalidade ao mercado interno, sofre durante a depressão uma queda de
menos de 10%, e já em 1933 recupera o nível de 1929” (FURTADO, 1971 [1959], p. 198).
Este período marca efetivamente a entrada do Brasil na era da industrialização. No contexto
urbano, as taxas de crescimento permanecem altas, tanto da criação de novos municípios e
cidades, como da população total. A maior aglomeração continua sendo a do Rio de Janeiro,
que centralizava o poder político e uma densa base de serviços e de atividades ligadas ao
comércio em diferentes condições. A economia em franca recuperação fazia com que a cidade
de São Paulo ultrapassasse entre as décadas de 1940 e 1950 mais de 2 milhões e meio de
habitantes, com 258 cidades em 1933, alcança em 1950 o número de 369 cidades no estado.
151
Evolução das cidades no Brasil entre o final da 1ª. Guerra Mundial e princípio da II Guerra Mundial
Estados da
Federação
1933
Número de
Municípios
1933
Unidades da
Federação
1940
Número de
Municípios
1940
Unidades da
Federação
1950
Número de
Municípios
1950
Unidades da
Federação
1960
Número de
Municípios
1960
Território de Guaporé 2 Território de Rondônia 2
Território do Acre 6 Território do Acre 7 Território do Acre 7 Território do Acre 7
Amazonas 28 Amazonas 28 Amazonas 25 Amazonas 44
Rio Branco 2 Rio Branco 2
Pará 37 Pará 53 Pará 59 Pará 60
Território do Amapá 4 Território do Amapá 5
Fernando de Noronha 1 Fernando de Noronha 1
Maranhão 53 Maranhão 65 Maranhão 72 Maranhão 91
Piauhy 27 Piauí 47 Piauí 49 Piauí 71
Ceará 51 Ceará 79 Ceará 79 Ceará 142
Rio G. do Norte 41 Rio G. do Norte 42 Rio Grande do Norte 48 Rio Grande do Norte 83
Parahyba do Norte 37 Paraíba 41 Paraíba 41 Paraíba 88
Pernambuco 83 Pernambuco 85 Pernambuco 90 Pernambuco 102
Alagôas 33 Alagoas 33 Alagoas 37 Alagoas 69
Sergipe 40 Sergipe 42 Sergipe 42 Sergipe 62
Bahia 125 Bahia 150 Bahia 150 Bahia 194
Districto Federal 1 Distrito Federal 1 Distrito Federal 1
Minas Geraes 215 Minas Gerais 288 Minas Gerais 387 Minas Gerais 483
Espirito Santo 30 Espírito Santo 32 Espírito Santo 33 Espírito Santo 37
Rio de Janeiro 48 Rio de Janeiro 50 Rio de Janeiro 56 Rio de Janeiro 61
Guanabara 1
São Paulo 258 São Paulo 270 São Paulo 369 São Paulo 503
Paraná 52 Paraná 49 Paraná 80 Paraná 162
Santa Catharina 36 Santa Catarina 44 Santa Catarina 52 Santa Catarina 102
Rio G. do Sul 83 Rio G. do Sul 88 Rio Grande do Sul 92 Rio Grande do Sul 150
Matto Grosso 25 Mato Grosso 28 Mato Grosso 35 Mato Grosso 64
Goyaz 56 Goiaz 52 Goiaz 77 Goiás 179
Distrito Federal 1
BRASIL 1365 BRASIL 1574 BRASIL 1890 BRASIL 2766
Tabela 02: Evolução das cidades no Brasil no período pré-industrial e industrial.
Fonte: IBGE – Evolução da Divisão Territorial do Brasil (1872-2010) - 2011. Organização do autor, 2016.
152
Monbeig (1998) mostra que, com a crise de 1929, a queda nos preços do café
favoreceu a diversificação agrícola e produtiva em São Paulo. Milliet (1982), por suas
pesquisas, demonstra também como os efeitos da crise fundamentaram a fragmentação das
fazendas e o aumento no número de pequenas propriedades, geradas pelas dívidas entre
patrões e colonos. Conforme Santos (2013b, p. 25) “nesse período a população ocupada em
serviços cresce mais depressa que o total da população economicamente ativa. Enquanto esta
aumenta mais de 60%, passando de 9,150 milhões, para 14,661 milhões, os ativos do terciário
mais que dobram, crescendo quase 130%, pois eram 1,509 em 1920 e são 3,412 milhões em
1940”. O quadro socioeconômico, baseado na forma de vida rural, passava a sofrer
significativas transformações.
O papel do Estado em subsidiar acordos e tratados internacionais no sentido de
facilitar a entrada de máquinas e equipamentos ao Brasil é importante de ser considerado,
além da manutenção e relação entre a burguesia industrial que se confundia com a própria
oligarquia agrário-exportadora (CARDOSO; FALETTO, 1970). A década de 1930 é a
responsável pela mudança no processo de substituição das importações, fato que não implica
necessariamente assumir uma ou outra das diversas fundamentações teóricas que hoje
rivalizam sobre as razões desta mudança, como as teorias da dependência, do crescimento
econômico, ou a crítica da razão dualista e do ciclo endógeno, todas bem descortinadas por
Fonseca (2003). Importa o papel que elas terão na expansão da indústria e urbanização em
vias de desenvolvimento.
No contexto regional, esses acontecimentos proporcionaram o desenvolvimento dos
setores industriais, ainda retrógrados no país. Mais uma vez o conceito de rugosidade permite
compreender as permanências históricas na condição não apenas de resistência das formas
espaciais, mas também na permissividade da fluidez dos mecanismos de produção.
Independente da polêmica sobre as razões determinantes da concentração do processo
industrial em São Paulo37, o peso da acumulação primitiva, nas diferentes fases econômicas
arroladas no território brasileiro, pensando no capital instalado e na infraestrutura composta,
permite a São Paulo não apenas uma vertiginosa expansão demográfica e proto-urbana na fase
pré-industrial, como também a assumir o controle e administração de diferentes processos em
períodos mais recentes.
37 Apesar de alguns consensos sobre a subordinação do processo de industrialização à produção cafeeira, o
mesmo não ocorre sobre as razões da concentração industrial no estado de São Paulo.
153
As infraestruturas territoriais não eram restritas à expansão das linhas férreas, elas se
estendem aos canais de drenagem que agora são controlados pelas empresas de energia, com
retificações do rio Tietê e Pinheiros em escala mais ampla (SEABRA, 1987). Nos subúrbios,
há o represamento dos canais secundários e terciários a fim de regular e intensificar a
produtividade cada vez mais intensiva e mecanizada dos insumos e recursos. De tal maneira,
em 1929 as águas do ribeirão Carapicuíba são represadas para a utilização do frigorífico
municipal e a vila militar, que também já eram usadas para o abastecimento de Osasco
(TENÓRIO, 2003, p. 164).
Luís Saia ao retratar a Aldeia em 1937 explica que mesmo diante dos trilhos, a
predominância da produção agrícola ainda é transportada por caminhão, sendo “pouca a
mercadoria que sai pela Sorocabana. E se hoje os caipiras vão vender os produtos das suas
roças fora da aldeia, antes não acontecia isso: só produziam o necessário para o consumo
caseiro e mais um pequeno acréscimo cuja venda os aparelhava para gastos com sal, roupa e
farina.” (SAIA, 1937, p. 16). Observa-se mais efetivamente que junto as modernizações,
importantes mudanças decorrem na articulação escalar da comunidade da Aldeia em torno de
relações fora dos seus limites espaciais pretéritos. Tenório (2003) ainda lembra uma condição
pouco ou nada urbanizada de Carapicuíba na década de 1920, em que minas brotavam em
vários pontos das vertentes, sendo mais tarde disciplinadas e contidas, resultando na forma do
lago reservatório onde hoje se localiza o parque dos Paturis. Mas são as linhas férreas que
consolidam a expansão e articulação do espaço metropolitano, as mesmas dinâmicas
traduzidas pelo “progresso” em Carapicuíba, conforme escreveu Tenório quando da fundação
da primeira estação de passageiros.
A inauguração no dia 25 de janeiro de 1926, trouxe inúmeras pessoas para esperar o
trem na pequena estação de Carapicuíba, pois esse acontecimento deu grande
impulso ao progresso da terra, com a inauguração do trecho da estrada de ferro entre
Carapicuíba e São Paulo. [...] A área inicialmente urbanizada teve sua estrutura
condicionada à três elementos principais: o vale do rio Tietê, Estrada de Ferro
Sorocabana e a antiga Estrada de Itu. À margem esquerda do rio Tietê, encontravamse áreas mais densas de edificações acompanhando a ferrovia. Já a presença da
Estrada de Itu, atraiu o povoamento em direção ao Sul, enquanto em Carapicuíba,
era a via férrea o principal elemento de atração (TENÓRIO, 2003, p. 93).
154
As antigas vilas e pequenos povoados, concentrados nos limites do cinturão das
chácaras e caipira, cedem cada vez mais espaço aos “loteamentos residenciais suburbanos”38.
Uma das principais características deste novo arranjo espacial reside justamente no fato da
extrapolação da unidade político-administrativa do município de São Paulo. A conurbação
neste período, que vai até pouco antes da década de 1950, quando se efetiva a moderna
industrialização e urbanização do planalto paulistano, limita-se às aglomerações da capital
com Santo Amaro, Guarulhos e São Bernardo. Há necessidade de se avaliar a condição de
cada caso no processo de metropolização, pois nem todos serão necessariamente
condicionados pelos trilhos, lembrando as rodovias, condições do terreno e mesmo as
condições pretéritas de desenvolvimento (LANGENBUCH, 1971).
Junto às ferrovias instalavam-se empresas e firmas. Em Carapicuíba, menos expressiva
que o vizinho Osasco, recebeu algumas unidades e instalações, das quais, referem-se a
indústria de fiação Sul-Americana e ao Matadouro Municipal. A primeira marca a chegada
dos imigrantes italianos, a formação do operariado local e uma população tipicamente citadina
em Carapicuíba. O segundo que, ao longo do tempo, tornou-se um dos principais matadouros
à abastecer a capital, subúrbios e, de forma geral, a região metropolitana que se consolidava.
Estas serão as “novas rugosidades patrimoniais” ligadas ao subúrbio, às indústrias, atividades
agroindustriais e de recursos primários-extrativistas. Estas acumulam-se, sobrepondo antigas
relações de trabalho associadas ao meio rural com a contínua inserção de técnicas e
modernizações que perpassam desde a forma de habitar (nos novos loteamentos – Figuras 23
e 24), ou de se movimentar pela cidade (os bondes elétricos, ônibus e os trens suburbanos).
Uma nova centralidade se desenvolve no entorno dos trilhos da Sorocabana em Carapicuíba,
em que a abertura de loteamentos compassava-se com as necessidades dos operários da
própria ferrovia, como aqueles cujos custos de São Paulo o pressionaram gradativamente a
morar no subúrbio e trabalhar no centro da capital. Os novos loteamentos, que a princípio
seriam procurados pelos trabalhadores da Sorocabana, depois foram sendo gradativamente
ocupados por uma infinidade de grupos e classes sociais (TENÓRIO, 2003).
38 Conforme Langenbuch (1971), seria este o período entre 1915 e 1940, marcado pela expansão centrípeta de
São Paulo através das linhas dos trens e caminhos, sobretudo pela especulação imobiliária em curso e os altos
impostos governamentais nas áreas consolidadas. Ainda segundo ele, sobressaindo os interesses especulativos, as
áreas loteadas ficaram rapidamente defasadas às funções modernas que desenvolveriam.
155
Loteamentos na Vila Teresinha – Expansão Urbana no Entorno das Estações em Carapicuíba
Figura 23: À esquerda, classificado de loteamento Vila Teresinha na Folha de São Paulo em 1946. À direita, a
estação de Santa Terezinha em 1939, que passa operar oficialmente em 1951 pela EFS, porém já fazia parada na
região desde uma década atrás.
Fonte: Estações Ferroviárias do Brasil. In: .
Instituto geográfico e Cartográfico (IGC) - Aerofotos oblíquas de São Paulo em 1939/1940.
Loteamentos no entorno da EFS – Carapicuíba, 1949
Figura 24: Planta da Vila de Carapicuíba, nas proximidades da estação central de passageiros. Mostra os
loteamentos instalados ao longo da ferrovia que marcam nova centralidade e dimensões urbanas no lugar.
Fonte: Fonte: Arquivo Público do Estado de São Paulo – Memória Pública. Mapa do Instituto Geográfico e
Geológico – de 1949.
156
Se verifica o “progresso” em Carapicuíba, conforme escreve Tenório (2003) sobre a
nova estação e expansão de loteamentos produzidos ao longo da ferrovia, o mesmo não se
apura mais ao sul, na Aldeia. Tudo leva a crer, considerando as entrevistas realizadas com
antigos moradores, além de dados, mapas e documentos secundários, que a sede da Aldeia
continuava a ser precariamente servida por veículos automotores, quando não por cavalos e
outros animais de tração, considerando sua distância dos trilhos e da estação.
Apesar da dinamização dada pela extensificação do fenômeno metropolitano em toda
região do entorno de São Paulo, sua influência direta está dirigida aos setores norte do
município, nas proximidades da linhas férreas e do rio Tietê, enquanto que as áreas ao sul
eram preenchidas por propriedades rurais e o núcleo da Aldeia, em que permaneciam os
velhos caminhos, como a estrada de Itu. Este é mais um dos elementos circunstanciais da
permanência da Aldeia, considerando seu isolamento e distanciamento das principais vias de
circulação, além do desenvolvimento de técnicas e soluções locais que iam gradativamente
sustentando a vida cotidiana neste espaço. Num segundo plano, também a função religiosa, de
um espaço simbolicamente sagrado, em que a cultura caipira de forte religiosidade se
esforçará para manter, inclusive aos dias atuais, como apontam os próximos capítulos. Para
Saia (1937, p. 16), no cinturão caipira, a situação relativa de isolamento da Aldeia que
prescinde de sua subsistência na autoprodução agrícola e da morfologia dos habitats teria
agido na manutenção nítida das especificidades arquitetônicas destes espaços. Mas, além
disso, teria agido na própria condição psicológica e comportamental de seus habitantes, que
continuaram relativamente fechados, o que em certa medida explicaria que “resguardou” e
“preservou” a Aldeia dos tempos modernos.
Esta atividade no sentido quase exclusiva de auto-abastecimento, penso que deve ser
interpretada de um modo muito especial entre os habitantes de Carapicuíba, pois
parece refletir um elemento muito forte da psicologia deles. Elemento que me
impressionou bastante porque traduz com muita lógica um aspecto característico da
arquitetura da aldeia. É verdade que as restantes localidades jesuíticas dos arredores
de S. Paulo também conservam um ou outro traço, tanto na arquitetura como nos
costumes, encontráveis em Carapicuíba, porém nunca com tamanha nitidez. [...]
Penso que milhormente se explicaria o fenômeno que resguardou e conservou
Carapicuíba, com a psicologia dos seus moradores. Fechada, arredia, voltada sobre
si mesma, quase sem tomar conhecimento do que se passa fora do seu âmbito
limitado. Esse caráter psicológico se retrata fielmente na disposição urbanística das
casas, voltada uma para as outras, num quadrado que jamais se vira para fora (SAIA,
1937, pp. 16-17).
Portanto, a expansão metropolitana de São Paulo desenvolvida neste momento, apesar
de conduzir a urbanização em toda sua órbita regional e até nacional, munirá parcialmente os
157
territórios com infraestruturas. O fenômeno resultaria na consolidação da macrocefalia urbana
que já se fazia ao longo da costa atlântica, mas que agora se concentraria multipolarizada na
região sudeste, especialmente em São Paulo. Trata-se dos mesmos nódulos centrais, cujas
rugosidades cristalizadas no passado, de uma forma ou outra reproduziam as condições
privilegiadas que já possuíam, mais densamente interconectadas pelos modernos sistemas de
transporte e de comunicações que se asseveravam. Conforme Moreira (2005) “a lei do
desenvolvimento desigual e combinado passa então a reger a nova formação,
progressivamente desigualando e invertendo a forma das relações espaciais até então
existentes” (MOREIRA, 2005, p. 17).
Esta mudança fundamental, que exige a modernização das cidades, se estabelecerá por
uma “perturbação traumática do meio tradicional” e exigiria um repensar da condição
histórica dos núcleos antigos, onde a “noção de patrimônio histórico constitui-se na
contramão do processo de urbanização dominante” (CHOAY, 2006, p. 179). Mais
precisamente no caso brasileiro, são as décadas que antecedem a efetiva industrialização
(1950) que gestarão os quadros institucionais e o pensamento sobre as teorias patrimoniais
aplicadas às cidades e aos bens culturais. Lembrando neste caso as contradições entre a
preservação e práticas urbanas, além do descompasso e a ausência de legislações que
adequassem de forma centralizada as políticas, ou que permitissem dinamismo sobre as
especificidades de cada situação. A modernização do país implica simultaneamente na defesa
dos bens nacionais em risco, tendo no movimento modernista brasileiro a sua gênese,
pensados sob influência europeia e praticamente em função de critérios artísticos do que
propriamente históricos39 (FONSECA, 1997).
Neste ponto há condição de responder com certa segurança a razão da rugosidade
patrimonial da Aldeia permanecer relativamente preservada até seu pedido de tombamento em
39 Fonseca (1997) detalha os aspectos mais relevantes do enfoque preservacionista do SPHAN de1937 até o fim
da década de 1960, destacando, entre outras perspectivas as seguintes: (a) O principal instrumento de legitimação
das escolhas realizadas era a autoridade dos técnicos, sendo desnecessário formular justificativas mais
elaboradas; (b) Prevaleceu nitidamente uma apreciação de caráter estético, baseada nos cânones da arquitetura
modernista; (c) A consideração do valor histórico dos bens não era objeto de maior atenção, a não ser
relativamente à autenticidade das fontes; (d) a prioridade era assegurar a proteção legal dos bens através de sua
inscrição dos livros do tombo, ficando em segundo plano a questão do critério nas inscrições. Esta fase é
consagrada na literatura do patrimônio cultura como “fase heróica” – evidenciando o enfoque de pedra e cal.
158
1937 e inscrição em 1940 no Livro do Tombo (SPHAN) pelas seguintes circunstâncias que se
interpenetram: (i) sua origem funcional de cativeiro e segurança, necessária do aldeamento
como organização espacial capaz de aprovisionar força de trabalho compulsória ao
empreendimento colonial e proteção ao centro, que incluía a evangelização da igreja e a
utilização do nativo em suas necessidades no processo em curso; (ii) o ostracismo do mundo
caipira, que se configura na aldeia até os primórdios da industrialização, urbanização e a
metropolização de São Paulo; (iii) função religiosa que passou a desempenhar, consagrando o
espaço, com a conservação de ritos, tradições e festejos, que passaram a exercer não apenas
uma centralidade ao espaço ao longo do desenvolvimento da cultura caipira, mas a sua
constante adoração e preservação até os dias atuais; (iv) soluções técnicas locais ou
informalismos40 (PELLEGRINI, 1979), onde o relativo isolamento do sítio fez com que sua
preservação derivasse de soluções construtivas simples, dos quais eram mantidos métodos
antigos e dependentes diretamente das condições das estruturas construídas e da natureza
regional, como a presença de barro e argila; (v) coesão social, capaz de empreender coletivos
nas reformas comunitárias dos bens comuns e particulares.
A função germinal, de aldeamento para subsidiar o empreendimento colonial, além de
sua relevância embrionária, consiste na extensão temporal e na força de captura cultural e dos
choques gerados por mais de três séculos de intensas relações entre as múltiplas etnias
indígenas com a dos colonizadores e das ordens religiosas. Esta convivência resultou numa
amplitude menor dos deslocamentos indígenas e, ainda que não se possa seguramente antever
que os nativos tenham se fixado efetivamente, tornando-se mais sedentários nesses cativeiros,
conservando residência nas proximidades do núcleo central. Também implica pensar na sua
contínua preservação, com soluções simples, das quais, inclusive, oriundas mesmo dos tantos
conhecimentos que reservavam os índios. Nos períodos de decadência, como nas
transferências ou junções de aldeamentos, ou com a expulsão dos jesuítas em algumas
décadas do período colonial, não foi suficiente para a extinção destas unidades. Deve-se
40 Estas qualidades eram diferenciadas, no entanto, das missões, que seguiam maior rigor e controle urbanísticos.
Assim, missões e aldeamentos diferenciavam-se basicamente pelas polos de concentração e dispersão,
padrão/formalismo e soluções individualizadas, assim como praticamente grande parte dos povoados e núcleos
da fase de assentamento colonial português na América. Apesar da dispersão, as aldeias estavam relativamente
próximas umas das outras, o que em São Paulo, no planalto de Piratininga, constituiriam doze institucionalizadas
por Anchieta e controlada pela Companhia de Jesus. Além de São Paulo, os aldeamentos também se
desenvolveram em outras regiões do Brasil, como Pernambuco, Rio de janeiro e Bahia. A construção das igrejas,
no entanto, eram mais fortificadas, seguindo as orientações de Roma de perpetuidade do bem, que refletia nas
construções de Taipa e Pilão, enquanto o restante do conjunto de pau-a-pique (PELLEGRINI, 1979).
159
considerar que mesmo os conflitos entre religiosos com colonos acerca do trabalho
compulsório e da escravização indígena, sempre há concílios entre os interesses,
permanecendo esta forma de organização espacial até metade do século dezenove, inclusive
após as orientações de sua extinção.
A decadência e extinção do aldeamento de Carapicuíba em razão de diversos fatores –
desde aspectos formais ligados ao plano governamental de sua extinção, a decadência,
pobreza e flagelo por que passavam os índios explorados ao longo de tantos anos, ou a
substituição e maior aceitação social da escravização do negro africano – não implica, como
sugere Petrone (1995), necessariamente no seu abandono, ou ausência de uso. Pelo contrário,
mesmo isolada, tudo leva a crer que a área jamais ficou efetivamente abandonada. Sobretudo
quando se observa a permanência de festas que chegam aos dias atuais, mas que também já
eram muito representativas, inclusive bem documentadas, em princípios do século vinte. Seu
isolamento deve ser relativizado, pois mesmo distante geograficamente das principais vias
modernas de transporte, bem como dos centros econômicos mais dinâmicos, considerando o
papel da própria vila de São Paulo até fins do século dezenove, a área sempre foi um
importante elo do trajeto que se fazia do interior para capital. Essa relação só será
efetivamente afetada e, assim mais dinamizada, quando a metropolização passará a tencionar
as rugosidades patrimoniais.
Outro elemento de relativização faz-se necessário às questões que implicam duas críticas
contundentes aos desígnios patrimoniais que encaminham na atualidade numa narrativa sobre
a aldeia. A primeira da condição indígena ao longo do tempo nestes núcleos. A clareza e
profundidade dos levantamentos realizados no âmbito da Geografia por Pasquale Petrone
(1995) e da História por Rubens B. Moraes (1992) evidenciam a condição e aprisionamento
do nativo, de cativeiro, um espaço de exceção, que reprimiu e de forma coercitiva buscou
historicamente transformá-lo numa base escrava de trabalho ou compulsória às estratégias
coloniais, incluindo aí os da própria Igreja. Que não se confunda, pois, uma convivência
harmoniosa nestes espaços, o que, de fato, não deve jamais ter existido, ainda que a mediação
jesuítica ou outras ordens religiosas tenham em certo período se contraposto aos interesses
dos colonos instalados no território. Observa-se em algumas das entrevistas, ou mesmo em
obras como as de Tenório (2003) e Henne (2015), uma narrativa que romantiza, por exemplo,
o retorno do nativo de Itapecerica da Serra para Carapicuíba, quando da sua reconstrução e
retorno no século dezoito traduziria uma ligação emocional com o lugar dos nativos. De fato,
as narrativas regionais, por vezes, objetivam traçar uma dimensão histórica e geográfica que
160
agreguem valor aos seus espaços identitários, suas tradições e ampliar as possibilidades de
desenvolvimento que por ventura se mostram com essas crenças, porém, as afirmativas são
pueris, pois as razões deste regresso tende ao infinito, inclusive como fuga e aversão aos
próprios religiosos que forçosamente tentavam integrá-los a outro sistema regimental.
Outro ponto é a respeito da frenesi pelas técnicas construtivas-arquitetônicas, inspiradas
numa tradição atinente aos intelectuais e corporações profissionais que habitam as instituições
públicas e o debate sobre o patrimônio. Nesta tradição, o destaque do espaço está no desenho
da estrutura, na especificidade técnica da construção, no assédio às formas... ao concreto que
ali é o barro sustentado pelas armações primitivas de madeira – a famosa taipa de pilão. No
contexto temporal, a valorização remonta ao Brasil colônia, agregando as glórias da história
factual, dos famosos bandeirantes, oligarcas, ou religiosos como Anchieta. Quando em
verdade, são as tradições religiosas e profanas que emergem explicativas e centrais na própria
condição de preservação. Introduzidas como mecanismos de coerção pelos jesuítas aos
nativos, as manifestações tiveram que ser flexíveis em certos pontos, comportando elementos
da tradição indígena e cristã. Por conseguinte, se de um lado a religiosidade expressa o poder
institucional da Igreja, de outro as marcas da influência indígena são latentes. Os festejos de
Santa Cruz, que ocorrem na cultura cristã em todo planeta, são realizadas na Aldeia pelo
menos desde o século dezoito, consequentemente acabam por favorecer a hipótese de que
mesmo diante da decadência do aldeamento, jamais ocorreu totalmente o abandono do local.
O ostracismo pode ser considerado real, já o abandono não. Mesmo que as festas mostrem um
ponto alto de concentração em um período específico do ano, os espaços que as sediavam
deveriam ter condições mínimas de receberem os viajantes e de sustentarem toda organização.
Estes fenômenos, que marcam o primeiro período da gênese e desenvolvimento destas
rugosidades patrimoniais, serão friccionados pela dinâmica urbana em curso, cujo marco será
o tombamento da Aldeia em 1940. Este ato, no conjunto, altera profundamente as relações da
comunidade com seu lugar, instaurando uma outra realidade cada vez mais dinamizada pela
metropolização de São Paulo.
161
4.3 Aldeia de Carapicuíba: de bem cultural à monumento nacional
De meros elementos apreciados por intelectuais, religiosos e amantes das artes, o
temário do patrimônio cultural, dinamizado basicamente pelas (i) transformações decorrentes
das revoluções burguesas, (ii) criação do Estado moderno, (iii) e os contornos da Revolução
Industrial, alcança na contemporaneidade uma nova face, que provoca impactos profundos no
cerne da sociedade. Com as revoluções burguesas instauradas no continente europeu, a
concepção tomada a partir dos Estados modernos – expressão da organização política e social
da classe burguesa – o conceito de patrimônio assume uma vinculação direta com símbolos e
manifestações culturais numa incessante busca pela materialização da ideia de nação.
Residindo neste processo um conjunto de dificuldades permeado pelo direcionamento de
políticas e ações de representação seletiva dos artefatos e de elementos imateriais e
intangíveis de uma sociedade (OLIVEIRA, 2012). No que Fonseca (1997, p. 12) associa, a
partir da produção de um universo simbólico enquanto objeto de ação política, como desafios
principais da legitimidade do patrimônio: “(...) ao mesmo tempo, buscar o consenso e
incorporar a diversidade”. Incorporar à produção de vínculos identitários a questão da cultura
nacional, no entanto, é algo duvidoso e complexo, levando em consideração a diversidade de
seus membros e, portanto, a representatividade da cultura por uma face unificada segundo esta
perspectiva41.
A formatação de uma nova ordem jurídico-institucional, submetida pelo ideário
burguês por intermédio do Estado-nação, revoluciona de forma universalizada os processos de
seleção, proteção e divulgação do patrimônio cultural. Mesmo não solapando a diversidade
cultural, essa nova ordem passou a “costurar” as diferenças culturais (HALL, 2006), onde as
classes hegemônicas “[...] conseguiram traduzir seus interesses como interesses gerais da
sociedade, [...] criando instituições que reforçavam seu lugar de poder na estrutura social, e
padrões racionalizados de condutas que englobassem as práticas dos indivíduos.” (CASTRO,
2012, p. 38). Em que pese à função normativa do Estado no tocante às políticas patrimoniais,
41 Hall (2006) nos lembra que a ideia de nação se refere tanto ao Estado-nação moderno, quanto algo mais antigo
e ligado a comunidades locais por meio da noção de natio. Evidenciando assim o próprio caráter dual entre as
escalas e pouco unificador de uma possível cultura nacional, já que o próprio conceito, em seu bojo, revelaria
essa diversidade de locais. Portanto, a força revelada por um processo unificador implica no questionamento
sobre sua eficácia no sentido de anular ou subordinar as diferenças culturais. “Para dizer de forma mais simples:
não importa quão diferentes seus membros possam ser em termos de classe, gênero ou raça, uma cultura nacional
busca unificá-los numa identidade cultural, para representá-los todos como pertencendo à mesma e grande
família nacional. Mas seria a identidade nacional uma identidade unificadora desse tipo, uma identidade que
anula e subordina a diferença cultural?” (HALL, 2006, p. 59).
162
no decorrer do século dezenove e princípio do vinte, em muitos casos, sua ação foi limitada a
áreas ou elementos em processos litigiosos, sobretudo naqueles de caráter mais monumental.
Tais evidências podem ser exemplificadas pela observação de amplas intervenções realizadas
em cidades europeias, como as promovidas por Haussmann, na França, já na segunda metade
do século dezenove, em que grande parte de conjuntos antigos medievais e populares foi
destruído (OLIVEIRA, 2012).
Soma-se a isso, no decorrer do século vinte, conforme destaca Carlos Lemos (2006), a
influência de diretrizes internacionais na regulação do tema, sintetizadas em reuniões de
arquitetos e urbanistas, intelectuais ligados aos respectivos órgãos estatais de seus países,
despontando no período sob a auspiciosa missão de concretizar as normas e especificações na
abordagem do tema42. O que daria origem às cartas patrimoniais e novas perspectivas de
abrangência do Estado para a tutela da cultura. Passando ao longo do século de uma
abordagem mais restritiva do patrimônio, como na Carta de Atenas (1931), até um enfoque
amplo em que se inserem, por exemplo, a paisagem cultural e o patrimônio imaterial.
No Brasil, antes do decreto-lei n. 25/1937, que criou e sustentou as bases e diretrizes
do SPHAN no Estado Novo (FONSECA, 1997; CHUVA, 2012; GONÇALVES, 2012),
vários projetos foram elaborados entre 1917 e 1934, visando a proteção patrimonial que já
permeava uma cultura preservacionista na Europa, com rebatimentos no território brasileiro
(SANT’ANA, 2003). Como explica Chuva (2012), na Primeira República a ideia de “país
civilizado” associava-se ao gosto europeu, que visava superar a rusticidade e os costumes
populares que haviam se estabelecido no Brasil. Enquanto que, a partir da década de 1920 e
ao longo de 1930 “[...] essa visão entra em confronto com a valorização do popular [...], que
buscava recolocar a brasilidade como algo moderno e singular (CHUVA, 2012, p. 69-70).
Este do furor dos debates e discussões ao longo da década de 1920, resultaria no plano
cultural com o modernismo consolidado no país, junto a emergência da burguesia nacional em
curso. Marcadamente, como um todo, é um período de busca pela brasilidade entre os
intelectuais e da identidade nacional forjada pelas instituições.
42 Entende-se como Fonseca (1997, p. 12) que “os intelectuais que estão direta ou indiretamente envolvidos com
uma política de preservação nacional fazem o papel de mediadores simbólicos, que já que atuam no sentido de
fazer ver como universais, em termos estéticos, e nacionais, em termos políticos, valores relativos, atribuídos a
partir de uma perspectiva de um lugar no espaço social. E são também os intelectuais que, ao apontarem, no
exercício de sua função crítica, o caráter arbitrário da representação vigente do patrimônio, atuam no sentido de
sua transformação.”.
163
A década de 1930 torna-se um marco na política nacional voltada ao patrimônio
cultural, primeiro pelo tombamento da cidade de Ouro Preto como monumento nacional em
1933 pelo Decreto n. 22.928, assim como em 1934 o decreto n. 24.735 que criava o Serviço
de Proteção de Monumentos (SANT’ANA, 2003). Depois em 1937, com implantação de
instituições e normas regidas pelo Estado em favor da proteção do patrimônio cultural
brasileiro (CHUVA, 2012). Cabe destacar que do embate entre intelectuais defensores de uma
perspectiva de valor cultural ligado aos padrões europeus e aqueles que defendiam aspectos
mais tradicionais da cultura brasileira, sobressaem estes últimos, sobretudo aqueles ligados ao
movimento modernista. Destacam Rubino (1996), Fonseca (1997), Sant’Ana (2003),
Gonçalves (2012) que destas políticas germinais foram consagrados e reconhecidos os bens
patrimoniais ligados a experiência colonial, utilizando-se a noção de risco e, de tal maneira,
direcionando as ações de preservação ao patrimônio arquitetônico. “As representações de um
Brasil colonial – o Brasil das Bandeiras e das Minas – tornaram-se a expressão dominante da
ideia de modernidade e também de brasilidade, nos anos de 1930” (CHUVA, 2012, p. 71).
Se sobressaem os modernistas, compondo a frente do SPHAN e da política nacional
do patrimônio cultural, os bens eleitos e consagrados por estas mesmas políticas fugiam da
amplitude despertada pelos diálogos e manifestações decorrentes da brasilidade em voga. O
anteprojeto de Mario de Andrade para as políticas do patrimônio foram de difícil aplicação,
considerando como explica Sant’Ana (2003), a inviabilidade justamente por não atender aos
interesses políticos em jogo. Criado o SPHAN em 1937, Mario de Andrade irá compor neste
ano o cargo de Assistente Técnico da 6ª Região Administrativa, em São Paulo, em que se
destaca Luís Saia como um dos principais membros de sua equipe. Além dele, compunham a
equipe Nuto Sant’Ana e o fotógrafo Germano. Em 1937 é produzido o “primeiro relatório”,
no qual vinte e quatro bens inventariados foram tombados. O SPHAN/SP ainda funcionava
neste período na casa de Mario de Andrade. Em 1938 ele recomenda Paulo Duarte para
assumir seu lugar no posto de direção regional do SPHAN, porém é seu discípulo Luís Saia
que, colocado à prova com estudo da Aldeia de Carapicuíba, assume a direção do serviço
(LEMOS, MORI, ALAMBERT, 2008, p. 28-30).
Como parte destas políticas, o caso do tombamento da Aldeia de Carapicuíba
converge, ao mesmo tempo, para corroborar com as teorias gerais propugnadas da ação
institucional brasileira das décadas de 1930 e 1940 (reduzida a pedra e cal e aos cânones
arquitetônicos reconhecidos pelo movimento modernista), com algumas peculiaridades no
tocante ao elemento folclórico e das tradições que foram aportes inovadores do anteprojeto de
164
Mario Andrade. Com fundamentos que destacavam-se dos preceitos importados da Europa, as
aspirações do material não afluíram necessariamente para conversão em leis concretas. O que,
no entanto, foi suficiente, como um dos mentores de Luís Saia, no exímio detalhamento de
seus estudos sobre a Aldeia de Carapicuíba, em 1937, enfocando, inclusive, como já
adiantado, o caráter psicológico do habitante local, determinado pelo ambiente fechado, bem
como as crendices, o folclore e as principais manifestações culturais. Configurando-se,
portanto, como um dos mais emblemáticos estudos para a preservação deste período
incipiente do SPHAN.
O direto do SPHAN [Rodrigo de Andrade] sempre achou o jovem estudante Luís
Saia imaturo demais para ocupar o lugar de um intelectual do peso de Mario de
Andrade. O desafio proposto por Mário e acatado pelo amigo Diretor foi fazer um
teste de capacitação ao Saia, que seria julgado pelo próprio Rodrigo. O trabalho
versaria sobre a Aldeia Jesuítica de Carapicuíba nos arredores da capital paulista.
Como incentivo ao discípulo, Mário se comprometeu publicar posteriormente a
monografia na Revista do SPHAN (LEMOS, MORI, ALAMBERT, 2008, p. 28-30).
Luís Saia fez o trabalho e assumiu a direção do SPHAN de São Paulo, sem nunca
publicar o trabalho43. Em carta de Mário de Andrade à Luís Saia em 1938, ele explica que o
relatório tratava-se de um texto literário, inclusive podendo ser confundido como por ele
realizado, aconselhando pela sua não publicação. Contudo, destaca os elementos imateriais
que Saia chama atenção, sobretudo ligado às festividades de Santa Cruz. Seria sua experiência
adquirida no planejamento e chefia da Missão Folclórica, além do convívio direto com o
mentor, que permitiu a Luís Saia essa visão mais total do patrimônio, que aflorou como
nenhum outro neste trabalho (LEMOS et al., 2008). Por base dessa pesquisa é que a Aldeia de
Carapicuíba concorrerá ao tombamento nacional pelo SPHAN, e Luís Saia se consagraria
diretor do SPHAN regional de São Paulo, cargo que ocuparia até o fim da vida, em 1975.
As notificações de número 316 de 1939 e 1940 emitidas por Rodrigo M. F. de
Andrade, então diretor do SPHAN, aos prefeitos de São Roque e de Cotia respectivamente,
informam às autoridades responsáveis pela gestão territorial a determinação do tombamento
do conjunto arquitetônico e urbanístico da Aldeia de Carapicuíba. O envio às duas prefeituras
se deve muito provavelmente ao fato das imprecisas delimitações político-administrativas
daquele período, ainda que a maioria da população da Aldeia pagasse foro a municipalidade
43 O estudo nunca foi publicado, porém pode ser encontrado integralmente para consulta no arquivo da
9ª.SRIPHAN/SP.
165
de Cotia. Consta no Livro Tombo Arqueológico, Etnográfico e Paisagístico, instituído pelo
Decreto-Lei 20, de 1937, a inscrição na folha 03 do “conjunto arquitetônico e urbanístico da
Aldeia de Carapicuíba”, cuja data refere-se a 13 de maio de 194044. Justamente o Livro
Tombo com uma concepção de registro e preservação que se transformara numa marca de
Mario de Andrade e que incluía uma vasta possibilidade de enquadramentos.
[...] Segundo sua definição, essas artes não estariam representadas apenas por
artefatos colecionáveis, mas incluiriam também monumentos, paisagens e folclore.
Surgem, então, como objetos de preservação, as jazidas funerárias, os sambaquis, as
cidades lacustres, os aldeamentos, os caminhos, as grutas, a arquitetura popular, as
capelas e cruzes na beira da estrada, um agrupamento de mocambos, um morro do
Rio de Janeiro, vocabulários, cantos, lendas, medicina e culinária indígenas, música
popular, contos, superstições, provérbios, ditos e danças dramáticas, entre outras
manifestações. [...] Deixa perceber que o critério fundamental de seleção desses bens
seria estabelecido de acordo com noções bem definidas de qualidade artística,
autenticidade e caráter nacional (SANT’ANA, 2003, p. 104 – grifo nosso).
O caráter de tombamento é ex-officio, ou seja, capaz de recair sobre ofício aos poderes
estaduais e municipais, sendo simbólico considerando não apenas a data de inscrição, mas
como relevante monumento representativo da cultura nacional. Trata-se de um dos mais
antigos tombamentos nos Livro do Tombo, geridos então pelo recém criado SPHAN. Além
do conjunto da Aldeia de Carapicuíba, inscreve-se no Livros do Tombo Histórico e de Belas
Artes a Capela de São João Batista, no ano de 1941, sob a inscrição 151 e 293
respectivamente em cada livro. Conforme detalhamento do Arquivo Noronha Santos “O
tombamento inclui todo o seu acervo, de acordo com a Resolução do Conselho Consultivo da
SPHAN, de 13/08/85, referente ao Processo Administrativo nº 13/85/SPHAN.” (IPHAN,
2016c).
O tombamento da Aldeia de Carapicuíba é um dos casos mais simbólicos da história
do patrimônio nacional em São Paulo por tratar-se do conjunto e de enquadrar-se nas
controversas projeções modernas de cultura de Mario de Andrade. Os esforços de Luís Saia e
outros agentes institucionais envolvidos com a sua patrimonialização derivam de uma nova
ordem cultural no Brasil, que ficou conhecida popularmente como movimento modernista.
Numa de suas correntes de maior influência intelectual no século passado, que buscava
valorizar as origens ligadas às sociedades indígenas, a Aldeia de Carapicuíba representava um
marco material e simbólico estruturante. Como concreticidade, era capaz de substanciar outra
narrativa controversa, mas relativamente conectada com os mitos fundadores, que vão da
44 Documento integral disponibilizado pelo Arquivo do IPHAN, seção Rio de Janeiro. Anexo – 02.
166
derrocada do romantismo indigenista em “Iracema” de José de Alencar às polêmicas obras da
imagem indígena às avessas, como “Macunaíma” de Mario de Andrade e o “Manifesto
Antropofágico” de Oswald de Andrade. Este pensamento trouxe também uma proposta de
novo sentido identitário, difundido nas mais diversas correntes do saber, da literatura às artes,
da história a edificação de novas propostas culturais refletidas pela materialidade das
primitivas comunidades indígenas do país, como expressado em Tarsila do Amaral (Figura
25).
Modernismo e as novas dimensões culturais propostas pelo resgate indigenista às avessas
Figura 25: Obras de Tarsila do Amaral - (Esquerda) Abaporu (1928), em tupi significa “homem que come
gente”, referência do Modernismo no Brasil, ligado ao movimento antropofágico de Oswald de Andrade,
Antônio de Alcântara Machado e Raul Bopp. Postulava a ingestão das tradições exteriores com as internas para a
criação de uma cultura nova e tipicamente brasileira. (Direita) O batizado de Macunaíma (1956), inspirado na
obra Macunaíma (1928) de Mario Andrade, fase avançada da artista e de técnicas utilizadas.
Fonte: (Esquerda) Abaporu (1928), óleo sobre tela, 85cm×72cm – Museo de Arte Latinoamericano de Buenos
Aires (MALBA); (Direita) O batizado de Macunaíma, óleo sobre tela 132.5 x 250 cm – Enciclopédia Itaú
Cultural.
De tal maneira, pensar Carapicuíba neste momento, no entanto, não remete a uma
dimensão urbana, considerando o pequeno conjunto de casas aos redor do largo da capela, e
as diversas propriedades rurais que abastecem com suprimentos alimentícios a cidade de São
Paulo. O patrimônio cultural então limita-se a uma concepção fragmentária e, mesmo no
Brasil com o movimento crítico de 1922, assentará sobre as grandes obras, os edifícios
maiores, o patrimônio que remete às oligarquias, grupos religiosos, bem como edifícios
públicos e monumentos fundados aos heróis da pátria. O caso de Carapicuíba carrega essas
amarras, sobretudo em relação ao plano religioso que assenta as próprias origens do
aldeamento, mas é revolucionário no que tange a riqueza inicial dos levantamentos dos bens
intangíveis, de uma proposta de valor sobre as formas que respeitava em grande medida a sua
condição de antiguidade já convertido em vilarejo caipira e marcado pelas tradições
sincréticas observadas. É pressuposto na pesquisa de Saia (1937) que os artefatos já em ruínas
167
do aldeamento primitivo, datado do quinhentismo, tenham sido reconstruídos por volta do ano
de 1727 (HENNE, 2015) e a capela em 1736 (IPHAN, 2016b). Além do valor simbólico de
uma unidade singular do Brasil colônia e associada a presença de populações primitivas, a
materialidade ali encontrada sugere “mãos indígenas” na sua (re)criação pelo trabalho, como
as típicas estruturas em madeira que sustentam as telhas da capela de São João, no centro do
conjunto. No arquivo Noronha Santos, do IPHAN, a descrição é dada pelo seguinte: “Capela
missioneira em taipa de pilão e telhado em duas águas com madeiramento aparente. Foi
reconstruída em 1736, substituindo a capela jesuítica original. Altar-mor de gosto popular e
terça decorada na sacristia demonstram a mão indígena na sua construção” (IPHAN, 2016b
– grifo nosso). Vê-se o destaque dado no próprio arquivo ao trabalho indígena associado a
arte e a um artefato específico da forma arquitetônica do bem.
O tombo da Aldeia e da capela insere-se num contexto de dinamização metropolitana
iniciado em fins de século dezenove e que se acentuaria até a plena industrialização e
urbanização regional após 1950. No âmbito cultural, a valoração se enraíza no processo de
colonização, englobando no estudo para o tombamento de Luís Saia (1937), a hibridização
assentada fundamentalmente das técnicas construtivas. O tombo marca os primeiros anos da
política patrimonial no Brasil e, mais particularmente, dos conjuntos urbanísticos. A
conversão da Aldeia de Carapicuíba em patrimônio nacional reflete justamente o papel
desempenhado por estes intelectuais, sobretudo de Luís Saia e, indiretamente, de Mario de
Andrade, na construção de uma unidade em torno dos bens materiais imóveis que pudessem
suplantar e contribuir setorialmente não apenas como uma identidade calcada no indígena
primitivo, mas da mestiçagem do caipira na convergência multiétnica com o branco europeu,
o negro africano e o índio americano. Trata-se, assim, de consolidar a própria defesa de Darcy
Ribeiro (2006 [1955]) da formação do povo brasileiro, fortemente influenciada por esses
simbolismos produzidos nas décadas de 1920 e 1930, em torno da identidade de um “povo
novo” – mestiço e multicultural.
No minucioso, porém renegado estudo de Saia45 (1937), os detalhes levantados e as
hipóteses acerca das permanências da Aldeia de Carapicuíba são contundentes, ainda assim
limitados ao plano material. Afinal, o olhar sobre os bens culturais naquele período são
evocados pelo monumento. No entanto, neste caso, já sugere-se o valor histórico da
45 Saia explica que muitos erros e exageros foram cometidos no estudo de Carapicuíba e que jamais o publicaria.
Porém, alerta da busca e procura contínuas desde documento, que mesmo tendo problema se verifica como um
dos mais importantes, inclusive à propósito do tombamento do conjunto urbanístico da Aldeia.
168
rugosidade patrimonial, ainda que criticamente associado a uma perspectiva colonialista. É
esta análise minuciosa realizada pelo autor, que vai antever desde os padrões estruturais do
sítio, sua morfologia, formas, até a influência étnica do colonizador, do jesuíta e do indígena
nas técnicas e nos materiais empregados. Conjectura sobre as diversa funções que o
aldeamento específico de Carapicuíba teve no processo histórico, buscando compreender não
apenas sua permanência, mas a influência destes elementos na psicologia do pequeno
povoado caipira. Entre o fim do sistema de aldeamentos, em meados do século dezenove e a
passagem de Carapicuíba para vilarejo caipira, a redescoberta da Aldeia por ele e,
posteriormente ao ato de tombamento, circunscreve-se na preservação do patrimônio material,
além das famílias, da religiosidade e suas festividades, das condições proeminentes de
isolamento, agora, mais uma vez, o plano institucional efetivadas pelo Estado. Não mais a
Coroa sobre a rugosidade patrimonial, ou o colonizador, se não o moderno Estado Novo do
Brasil.
Recai o tombamento ao fragmento da Aldeia, deixando a totalidade do entorno ou a
unidade mais ampla do território, o que poderia atualmente estar preservada e, com isso,
permitiria novas prospecções arqueológicas e o melhor conhecimento dos modos de viver das
populações pretéritas, ou mesmo seguindo a tradição neocolonialista do temário patrimonial,
das posições e as reais dimensões dos aldeamentos jesuíticos. Deve-se ressaltar que mesmo
embasadas por Saia (1937), considerando as festividades de Santa Cruz e de Santa Catarina,
as descrições oficiais sobre a área, mesmo as mais atuais inseridas nos cadastros do IPHAN e
CONDEPHAAT, sequer aventam especificar o patrimônio cultural intangível. Estas tradições,
se associando aos elementos materiais como elo estruturante ao entendimento das
permanências, da atual existência da rugosidade patrimonial ali circunscrita, não estão
inseridas plenamente numa narrativa institucional que assevere seu papel concretamente, ou
que assegure razões institucionais de ser um dos elementos centrais na permanência da
rugosidade patrimonial até os dia de hoje.
Além da importância do conjunto urbanístico da Aldeia de Carapicuíba possuir a antiga
estrutura jesuítica de aldeamento, da morfologia, das formas antigas, de um substrato que
resiste mesmo após sua destruição no século dezessete e reconstrução no século dezoito, outra
particularidade deste conjunto chama atenção no estudo de Saia (1937). Trata-se, da peça
horizontal, a terça da sacristia, da capela de São João Batista, que segundo ele teria sido
“executada por gente antiga da aldeia, talvez mesmo índio, é certo que seja pintura mestiça,
ainda que os habitantes de Carapicuíba a tenham como pintura indígena.” (SAIA, 1937, p.
169
30). Em nota na nova publicação do texto nos cadernos técnicos do IPHAN regional São
Paulo, existe uma retificação indicando que esta peça seria, na verdade, o antigo mastro onde
se fincava a bandeira para as festividades religiosas da aldeia, conforme Luiz Dias de Andrade
e José Saia Neto. O esclarecimento é uma vez mais ratificado por José Saia Neto que em
comunicação por e-mail informa em detalhes o seguinte:
A consideração de que a terça seria uma peça estrutural decorada, remanescente de
uma possível solução original da capela, foi feita num momento inicial no IPHAN e
mesmo do envolvimento do velho [Luís Saia] com os trabalhos de restauração. Pode
ter contribuído (e isto é apenas uma suposição) o fato então conhecido da marcante
influência indígena nas obras de arte das missões gaúchas, que o Lucio estava
estudando. Mas é fato que as circunstâncias que marcaram a experiência de
Carapicuíba tornam esta participação, ao menos na escala em que se deu no sul,
bastante improvável. Por outro lado há que se considerar que os mastros são, via de
regra de madeira de menor qualidade, visando uma durabilidade relativamente curta;
além disto, a influência da arte e cultura indígena na região, no século XIX, já estava
irremediavelmente assimilada pela cultura caipira. O que muito possivelmente
ocorreu foi que, numa das inúmeras reformas do telhado, verificou-se a necessidade
de se substituir a terça, como estas intervenções são precárias do ponto de vista dos
recursos financeiros e humanos, um mastro disponível certamente seria bastante
oportuno. Ainda que tenha sido caprichosamente decorado pela comunidade.
Durante a restauração, com a possibilidade de analisar a peça com mais proximidade
e cuidado, sua origem dúbia foi enfim reconfirmada. O interessante deste trabalho
do Saia é que incorporou muito da metodologia utilizada pela Missão de Pesquisas
Folclóricas, com o registro da festa de Sta. Cruz, de mobiliário, de equipamentos
domésticos, de técnicas construtivas, da utilização de materiais etc. (Entrevista
concedida em junho de 2016).
Fatidicamente, no entanto, no Arquivo Noronha Santos (IPHAN, 2016a) prevalece a
relevância da capela justamente pela razão da mão indígena, o que, pois, decorre duas
considerações. A primeira, mais simples e pragmática, é a de que há urgência de atualização
das informações por parte do IPHAN no Arquivo Noronha Santos, já que este é um dos mais
importantes e populares meios de acesso aos dados sobre os bens tombados. A segunda
consideração, mais complexa, reside novamente sobre a centralidade das festividades
religiosas, pois mesmo não sendo a terça necessariamente preparada para aquela função, ela
evidencia ser relativamente antiga, comprovando a secularidade das festas religiosas no local,
por fim, ao mesmo tempo colocando em dúvida se, de fato, não necessariamente foi o
indígena que ainda vivia ali que não a desenhou ou exerceu influência. Na oportunidade em
que acompanhamos as festividades de Santa Cruz no ano de 2016, o mastro foi desenhado
pela artista plástica Alaide Di Pietro e a estrutura de madeira no telhado da capela é
totalmente outra (Figuras 26, 27, 28).
170
Estrutura do telhado da sacristia – Igreja de São João Batista em 1936
Figura 26: Detalhe da terça decorada, mestiça, com desenhos indígenas e que teria sido obtida possivelmente do
mastro que sustentava as bandeiras das festas religiosas na Aldeia de Carapicuíba.
Fonte: Acervo Fotográfico IPHAN – Rio de Janeiro.
Nova estrutura do telhado da sacristia – Igreja de São João Batista em 2016
Figura 27: Detalhe da terça decorada, mestiça, com desenhos indígenas e que teria sido obtida possivelmente do
mastro que sustentava as bandeiras das festas religiosas na Aldeia de Carapicuíba.
Fonte: Foto do autor, 2016.
171
Detalhe do mastro que inaugura as festividades de Santa Cruz na Aldeia de Carapicuíba - 2016
Figura 28: As pinturas com traços indígenas são tradicionalmente produzidas no mastro com a bandeira de
Santa Cruz. No detalhe, à esquerda, festeiros colocam a bandeira no mastro decorado. À direita, festeiros fixam o
mastro na lateral do cruzeiro e em frente à igreja de S. J. Batista.
Fonte: Fotos do autor, 2016.
A atualidade das políticas patrimoniais ganha amplitude de abarcar ilimitados bens,
materiais e imateriais, assumindo uma perspectiva mecânica e repetitiva que, se amplia as
possibilidades de reconhecimento sobre a diversidade, torna-se paralelamente uma máquina
de consagração patrimonial, a maquinaria patrimonial (JEUDY, 2005; COSTA, 2011).
Naquele momento, a Aldeia de Carapicuíba ressurgia como a mais preciosa reminiscência
primitiva do território paulista, associada a uma releitura do índio, da miscigenação étnica, da
construção da brasilidade e a identidade nacional. E não são poucos os problemas e conflitos
que passaram a decorrer após o tombamento entre os organismos, instituições
intergovernamentais e a população local e entorno. No entanto, talvez seja mesmo esse
processo um dos responsáveis pela preservação do conjunto frente ao processo de
metropolização que se instalaria na região pelo surto demográfico, industrial e urbano de São
Paulo mais detalhado nos capítulos seguintes. De fato, a normatização do espaço da Aldeia
pelo Estado é apenas uma faceta da modernização por qual passaria este território nas décadas
seguintes, emancipado e constituindo-se gradativamente num típico subúrbio de São Paulo.
172
PARTE 03
CARAPICUÍBA DE SUBÚRBIO A PERIFERIA:
RUGOSIDADES PATRIMONIAIS NOS LIMITES DA
METRÓPOLE
CAPÍTULO 05: Carapicuíba de subúrbio à periferia: rugosidades
patrimoniais
Nos capítulos anteriores, em relação ao processo de metropolização e consolidação da
Grande São Paulo, especialmente a situação de Carapicuíba, é possível sintetizar alguns
pontos importantes que marcarão a passagem dos núcleos de assentamentos pretéritos,
aldeamentos, povoamentos caipiras para a dinamização e a integração orbital ao grande centro
urbano. Essas passagens permeadas pelas forças inerciais antepassadas, materiais e imateriais,
que consolidam as rugosidades patrimoniais em seu movimento de supressão, superposição e
acumulação.
O primeiro refere-se à localização do Planalto Paulistano e mais especificamente de
São Paulo e seus arredores, estabelecidos estrategicamente na rede geográfica de trajetos e
caminhos, que substanciaram a expansão territorial e a consolidação da colônia portuguesa na
América: no assentamento, no apresamento indígena, na produção agropecuária, na
comercialização, na logística primitiva de transporte dos bens, no envio de riquezas e
mercadorias aos portos. Na dinâmica histórica e geográfica, Carapicuíba decorre deste
momento, ativamente alimentada pelos anseios coloniais no segundo período.
O segundo associa-se propriamente a consolidação da unidade política e
administrativa paulistana, pela centralidade exercida quando da conversão de São Paulo em
vila pela Coroa, a primeira numa região planáltica. Neste momento, além dos caminhos, a
gestão territorial da capitania está circunscrita ao núcleo de São Paulo, tendo aporte dos
aldeamentos indígenas (jesuíticos e do padroado real) com trabalho, segurança e alimentação.
A permanência do aldeamento de Carapicuíba é verificada pela função basilar que ocupa em
relação a São Paulo e região. Trata-se de uma rugosidade patrimonial que é estabelecida
predominantemente de supressões e superposições do colono ao nativo, ainda que em menor
grau de acumulação.
173
O terceiro relaciona-se numa circunstância já posterior à Revolução Industrial na
Europa, com a instalação das primeiras indústrias no Brasil e a modernização dos sistemas de
tráfego e de transporte verificada no território paulista. Financiado pela acumulação primitiva
da cultura canavieira mas, fundamentalmente, do café, capaz de estruturar as bases materiais
que alimentariam a concreta metropolização espacial posterior. O dinamismo econômico
propiciado pelo café e a pré-industrialização paulista, marca a decadência dos aldeamentos,
com Carapicuíba e outras unidades caindo no ostracismo, do qual deriva, especificamente
neste recorte, a cultura caipira. E que, mesmo em relativo isolamento do núcleo
metropolitano, o serve como reduto espiritual e, em certa medida, com produtos básicos da
roça, manufaturados e artesanais. No limite, este período marca de forma latente a
acumulação de rugosidades patrimoniais, com a utilização das ruinas pela nova sociedade em
curso, como pela hibridização cultural que resulta o caipira, paralelamente às superposições e
supressões.
O quarto momento verifica-se com o processo urbano-industrial, pós-1950. Contexto
em que São Paulo se consolida como metrópole nacional e que este capítulo destina-se a
esmiuçar em relação à formação territorial de Carapicuíba enquanto subúrbio paulistano.
Nisto, explicando a conjuntura de “implosão-explosão” urbana (LEFEBVRE, 2012), em que
os subúrbios são formados e, posteriormente, convertidos em enormes periferias, com graves
problemas sociais, mas como no passado, ainda alicerçando o centro metropolitano.
A primeira parte recai sobre o conjunto destas transformações no recorte empírico em
questão, da ampliação e melhoramentos na rede de transporte, da emancipação e
fragmentação dos municípios suburbanos, bem como de sua articulação com São Paulo. No
caso de Carapicuíba, reflete o espraiamento urbano no entorno da Estrada de Ferro
Sorocabana, bem como as unidades habitacionais construídas nos limites com Osasco,
integrando as duas cidades e consolidando a efetiva conurbação com São Paulo. No plano do
temário patrimonial mais especificamente, o espaço da Aldeia de Carapicuíba passa por
profundas tensões, empreendidas pelo inchaço populacional, pela favelização e a ocupação
desenfreada e ilegal do território. Além disso, pelas próprias ações preservacionistas, que
instauram normas e políticas conflitantes com os moradores e a municipalidade. A segunda
parte, principia a análise da industrialização e a “implosão-explosão” urbana empreendidas
numa escala nacional, mas cujo recorte passa a ser paulatinamente São Paulo. Neste processo,
busca-se compreender o fenômeno de metropolização, sua regulamentação e sua unidade
regional que inclui Carapicuíba. Período de dinâmico crescimento populacional, expansão das
174
atividades produtivas e que se encerra ao generalizar a periferização dos subúrbios,
tangenciando a discussão da última parte do capítulo.
No âmbito das rugosidades, as permanências são ora mantidas pelas tradições que
animam os lugares e que resistem a duras penas, estando vinculadas pela contínua banalização
dos ritos e manifestações, além das tradições locais, das soluções técnicas mais simples, do
ostracismo, quando agora o papel institucional do IPHAN e das políticas urbanas devem ser
considerados centrais na “manutenção” da Aldeia, se não pela constância de sua presença, ao
menos, pelo papel que desempenha a normatização do espaço como patrimônio nacional e das
políticas públicas urbanas em curso. Qualidade que marcaria para sempre o valor e os
significados daquele pequeno conjunto de construções.
5.1 Emancipação de Carapicuíba: rugosidades patrimoniais do subúrbio paulistano
A década de 1940 marca a ruptura, a cisão das forças processuais históricas e
geográficas do lugar. Uma radical transformação advém da sua cristalização nuclear enquanto
subúrbio, influenciada pela emergência do novo centro produzido ao norte, nas margens da
ferrovia, junto as de extração mineral, a manutenção e operação da linha de ferro, bem como a
produção pecuário-frigorífica. Integrando a Aldeia de Carapicuíba num eixo perpendicular à
ferrovia, com acesso a Cotia e outros municípios ao sul, como também a rodovia Raposo
Tavares. Essa nova dinâmica, com maior integração metropolitana e geográfica pelos sistemas
de transporte e pela confluência populacional entre os núcleos a oeste de São Paulo, trouxe a
fragmentação político-administrativa, a qual tornaria o município de Carapicuíba
relativamente autônomo e, pois, potencializaria a normatização do território visando objetivos
técnicos do planejamento, bem como a permeabilidade corporativa do modo de produção
capitalista.
Esta permeabilidade, no caso de Carapicuíba, não estará concentrada necessariamente
na produção industrial, ou comercial, mas na da terra. Ao contrário de Osasco e Barueri na
produção industrial, ou Cotia com a produção hortifrutigranjeira, Carapicuíba transformou-se
num grande mercado de terras à oeste da capital, cuja renda diferencial, devido a ilegalidade
dos empreendimentos, a ausência de infraestrutura e a distância das atividades industriais e
comerciais, a transformou num reduto imobiliário para as classes trabalhadoras. Soma-se,
pois, a auto-construção, feita com precariedade aos fins de semana, ou horários de pequena
175
folga do trabalho para selar o perfil periférico funcional de Carapicuíba, ocupando
praticamente a totalidade do território e a transformando numa típica cidade dormitório e mais
dependente ao longo dos anos do centro metropolitano.
Segundo dados do recenseamento de 1940, Cotia possuía uma população total de
8.594 habitantes. Se considerar que Carapicuíba ainda estava subordinada
administrativamente a este município, sua população total não deveria passar de dois mil
habitantes. No limite, em 1951, quando foi inaugurada a segunda estação da EFS nos
arredores de Santa Terezinha, pode-se pensar já numa demanda populacional mais efetiva por
moradia que se integrasse pelas linhas com a capital, com a expansão dos loteamentos e de
infraestrutura mínima, como apontado no capítulo anterior. No entanto, a ampliação industrial
e diversificação produtiva de São Paulo, juntamente com a atração populacional de outras
regiões, em busca de trabalho e oportunidades, além da intensa urbanização verificada, não
foi um fenômeno com inclinação apenas sobre o território de Carapicuíba. De fato, a
expansão centrífuga da capital46 se estabelecia por todos os troncos ferroviários e, em segundo
plano, das rodovias. Conforme Azevedo (1958), Langenbuch (1971), Meyer, Grostein e
Biderman (2013), as ferrovias acabaram por estruturar a organização do território
metropolitano da Grande São Paulo.
Polarizado pela cidade de São Paulo, o sistema ferroviário organizou as forças
centrífugas da expansão metropolitana e, simultaneamente, reforçou a hegemonia da
capital enquanto polo centralizador. O sistema era composto então por cinco
principais ferrovias: a São Paulo Railway, a Companhia Paulista, a Estrada de Ferro
Central do Brasil, a Companhia Mogiana e a Estrada de Ferro central do Brasil. Esse
importante sistema foi montado em poucas décadas e favoreceu a urbanização dos
bairros centrais da capital enquanto expandia o território metropolitano. Como uma
infra-estrutura de caráter eminentemente econômico, o sistema ferroviário
implantado na segunda metade do século XIX estava voltado, sobretudo, para o
transporte de carga. Mais tarde ganhou características de serviço público, na medida
em que se tornou o mais importante meio de transporte de passageiros para os
municípios do entorno e mesmo para os bairros mais afastados da cidade. Do ponto
de vista intra-urbano, o sistema ferroviário abriu a chamada ‘frente oeste’ de
desenvolvimento da cidade (MEYER; GROSTEIN; BIDERMAN, 2013, p. 35).
46 Langenbuch (1971, p. 174) explica que, na verdade, o tronco da Sorocabana é um dos que menos concentrava
população na década de 1940, representando 6,5% dos moradores dos arredores paulistanos. Ainda segundo ele,
“o fato, sem dúvida, se relaciona com o pequeno número de trens suburbanos instituídos pela ferrovia durante o
período em estudo, situação esta agravada pelo fato de em toda faixa industrializada existir apenas uma estação,
a da Barra Funda. A Sorocabana realmente pouco oferecia aos moradores suburbanos em potencial.”.
176
Grande parte dos arredores de São Paulo, pouco antes da emancipação do município
de Carapicuíba47, já estão integrados geograficamente numa mancha urbana contínua, fazendo
com que os preços da terra se elevem em toda região, sobretudo nas proximidades das
ferrovias que concentravam em seu entorno os barracões industriais emergentes
(SELINARDI-SAMPAIO, 2009)48. Conforme Langenbuch (1971, p. 176) “[...] a especulação
se volta com interêsse nunca visto para os arredores paulistanos da época.”. O autor ainda
explica a formação de cinturões residenciais que ultrapassam os limites municipais, divididos
basicamente em unidades residenciais e industriais. “[...] Formam-se nítidos e definidos
subúrbios industriais e residenciais.” (LANGENBUCH, 1971, p. 176). Os limites da
urbanização verificados neste período, que ainda antecede a 1950, se expandem à oeste de
São Paulo, alcançando extensões cada vez mais amplas do território, da depressão periférica e
planalto ocidental paulista, moldando a rede urbana em torno dos trilhos e estações, bem
como das grandes propriedades de produção cafeeira e outros gêneros agrícolas (MONBEIG,
1998).
Para Godoy e Bray (2003), além da importância das ferrovias no sentido de
impulsionar e reestruturar a rede urbana no interior – produzindo novas cidades, ou gerando
outros arranjos espaciais, alteram-se ainda profundamente as relações de trabalho e de
produção. Estas, disciplinam o trabalhador, a sua organização de vida e, por fim, o próprio
modo de agir e pensar em sociedade. A ampla mercantilização da terra completa este quadro,
com a produção de pequenas unidades, lotes e loteamentos, esboçando claramente os
preceitos da geometrização cada vez mais precisa do espaço) e que concretiza extrair o
máximo de valor sobre a terra, tornando-a plenamente eficaz na reprodução das relações
47 Ainda Distrito de Barueri, após desmembramento deste último de Santa de Parnaíba e de Carapicuíba em
relação à Cotia: Lei 233 de 24-12-1948, criado com sede no povoado de mesmo nome e com terras do distrito de
Barueri. Desmembramento: Lei 8092 de 28-2-1964, elevado oficialmente à município de Carapicuíba (SEADE,
2016).
48 Ao fazer um balanço da industrialização de São Paulo na década de 1950, Selingardi-Sampaio (2009, p. 64)
explica que o traço mais marcante deste processo reside justamente na hegemonia industrial da capital paulistana
em relação ao país. E, ainda, “como principal centro industrial e único espaço metropolizados paulista, o tecido
industrial mais denso e melhor articulado do estado (as empresas criavam laços de coalescência com o território),
e concentrando atributos e recursos para o grande salto quantitativo e qualitativo que daria nos anos e décadas
seguintes: (i) nas escalas urbana, regional e nacional, como núcleo da área de metropolitana mais rica e ativa do
país, detentora de maior força de polarização; (ii) na esfera econômico-industrial, fosse potencializado sua
expansão industrial e as correlatas economias de aglomeração; fosse estendendo, progressivamente sua área de
polarização industrial para territórios próximos e, ainda, para alguns mais distantes; fosse atuando como força
comandante da inovação/reestruturação produtiva que, em breve, iria atingir as principais regiões do estado.”
(SELINGARDI-SAMPAIO, 2009, p. 64).
177
sociais (HARVEY, 2013). Sobressaindo São Paulo como centro urbano e industrial do Brasil,
aprofundando as desigualdades regionais, perfazendo “uma divisão regional do trabalho, onde
a Região Nordeste apareceu como mercado de mão-de-obra para a indústria do Sudeste, e o
Norte e Centro-Oeste como regiões de expansão da fronteira agrícola dirigida pelo Estado.”
(GODOY; BRAY, 2003, p. 199).
Pensar Carapicuíba no contexto de metropolização de São Paulo neste período deve
arrastar algumas relativizações. A primeira, sobre o papel da ferrovia que mesmo em 1951,
com a inauguração da segunda estação, ambas ainda estavam relativamente distantes do
antigo núcleo, marcado pela Aldeia, bem como das áreas primitivas de adensamento. Esta
distância fragmenta em duas unidades seu território: ao norte, a “nova Carapicuíba” – urbana,
com novos moradores, novos hábitos e em ligação direta pelo trem com a capital; ao sul, o
antigo núcleo de aldeamento, a Aldeia de Carapicuíba, fazendas e sítios – rural, com antigos
moradores, ligados às raízes e tradições locais, por vezes em ligação mais forte com Cotia e
arredores do que com a capital. Ao sul, o transporte mecanizado era dependente das linhas de
ônibus, ou indiretamente pelo trem, que demandava baldeação49. Portanto, a integração de
Carapicuíba antes de sua emancipação deve ser considerada polarizada e com características
diferentes para cada porção do seu território e com cada grupo social em questão.
As diferentes unidades territoriais de Carapicuíba, desde o princípio da dinamização
econômica pela chegada dos trilhos da Sorocabana em fins do século dezenove e a criação da
primeira estação para transporte de passageiros em 192650, estavam relacionadas por um
arranjo produtivo em comum. Antes mesmo da estação de passageiros ser fundada, havia uma
cancela para o carregamento de areia que era extraída e alimentava as construções cada vez
maiores em São Paulo (TENÓRIO, 2003). Observa-se, com isso, a escala comercial do porto
de areia, que passou a ser ampliada com essa nova possibilidade. Isso, não explica
necessariamente a interconexão entre as duas unidades de Carapicuíba, em verdade, revela o
papel desta área em relação à região polarizada por São Paulo, cuja função neste momento,
além das tradições e religiosidade buscadas na Aldeia, realiza ao norte, nas proximidades do
49 Afinal, como explica Langenbuch (1971, p. 177) “as maiores distâncias, a circulação rodoviária ainda não
gera subúrbios, mas origina ‘povoados-entroncamento’, o que revigora os já existentes. Estes povoados encerram
uma vocação de núcleos povoadores do desenvolvimento suburbano, que contudo somente se revelaria no
próximo período”.
50 Conforme Pimentel (2006, p. 32) a primeira estação de Carapicuíba, criada em 1921 e só aberta a passageiros
em 1926, denominava-se Sylviânia. “Portanto, aquela que viria a se tornar a principal estação de trem do
município, por alguns anos não se chamou estação Carapicuíba (como atualmente). Isso porque naquela época a
vila que despontava tinha o nome da fazenda que abrangia toda aquela região, Sylviânia.
178
Tietê, a extração de recursos essenciais ao desenvolvimento da metrópole, que era acentuada
conforme crescia São Paulo e seus arredores. Aqui permanece a relação de interdependência
que marca a capital em relação aos seus subúrbios desde os aldeamentos. Porém,
especificamente acerca da interconexão entre as duas unidades territoriais de Carapicuíba no
período, emerge pelo estabelecimento de dois frigoríficos, que além de servir a capital e
concentrar o rebanho regional, favorece já as fazendas locais, inseridas ao sul do distrito e que
passam a se dedicar mais intensivamente a produção pecuária, ou em serviços demandados
por esse arranjo econômico.
Como explica Pimentel (2006, p. 31) “a área atualmente ocupada pelo Conjunto
Habitacional (COHAB) correspondia ao Sítio da Fazenda Velha (de propriedade de Delphino
Cerqueira), conhecido como ‘Campo da Boiada’, local destino à engorda dos animais”.
Tenório (2003, p. 91) detalha que o embarcadouro do trem da vila Sylviânia era marcado pelo
barulho das máquinas e dos carros de boi. “[...] Em 1921, foi construído um embarcadouro de
gados que seguiam para o descanso de 15 por 15, em nove currais, no Campo da Boiada, atual
COHAB, de onde eram conduzidos para o abate no Frigorífico Municipal do Km 21.”
(TENÓRIO, 2003, p. 91). De fato, praticamente todas as grandes e adensadas unidades
territoriais contemporâneas da cidade foram neste período fazendas importantes ao
abastecimento de São Paulo, rompendo em grande medida o ostracismo que ficara em fins de
oitocentos e princípios do novecentos. Tenório (2003) também evidencia a presença de outras
fazendas locais destinadas a abastecer os dois frigoríficos, um de suínos e outro de bovinos,
provando o caráter agroindustrial de atividades produtivas, que estavam sendo modernizadas
e ampliadas logo que as novas demandas metropolitanas cresciam.
Como o braço escravo, ou do trabalho compulsório do índio exigido junto aos
aldeamentos, a atividade de engorda, abate e distribuição de carnes, extremamente necessárias
e importantes, apesar das condições degradantes e os impactos que revelam, foram segregadas
e estavam localizadas distantes dos centros consumidores. À Carapicuíba não apenas serviu o
primeiro propósito, de aldeamento que sustentaria as piores e mais essenciais necessidades de
São Paulo, como se reproduziu historicamente essa função, continuando a servir ao polo com
outras funções deletérias. Ainda que se argumente no plano cultural a importância da função
religiosa e simbólica de seus espaços sagrados e suas festividades, a banalização do caipira,
ou do próprio subúrbio, sugere tensões entre os grupos sociais, além do estabelecimento de
um conteúdo pejorativo a uma realidade com fortes traços de ruralidade e das tradições, como
também um papel pouco nobre nas execuções de atividades econômicas, ainda que essenciais.
179
Além dos frigoríficos, outras duas atividades produtivas em Carapicuíba se
interpenetram para servir a cidade-polo. A primeira, como anteriormente citada, baseia-se na
extração de areia e argila das margens do rio Tietê, bem como de um de seus meandros
abandonados que formou o Lago de Carapicuíba. Destacado tanto por Costa Junior (1987),
Tenório (2003), como por Pimentel (2006), o porto de areia é outro elemento importante na
economia de Carapicuíba em paralelo à expansão industrial de São Paulo. Em segundo plano,
a extração alimenta a criação de uma segunda atividade, ligada à transformação destes
recursos, como as pequenas olarias e, por fim, a seu armazenamento e comercialização.
Conforme este último autor, “comum em diferentes trechos do rio Tietê, a extração de areia
era uma atividade necessária ao crescimento urbano de São Paulo.” (PIMENTEL, 2006, p.
71). Como os frigoríficos, a extração de areia é uma atividade extremamente impactante e
danosa ao meio. Tenório (2003) destaca uma cratera aberta nas proximidades do atual centro
de Carapicuíba, fruto da atividade e que incorreu a um conflito judicial, entre proprietário e
arrendador. Mesmo antigas, as atividades de extração dos recursos minerais das margens do
Tietê foram constantes, servindo posterior e continuamente a outras atividades ainda menos
nobres.
Nesse período, segundo esta pesquisa, Delphino Cerqueira arrenda parte das terras
que margeavam o leito do rio Tietê a João Zeferino Ferreira Veloso, que deu início
ao processo de exploração do Porto de Areia. Como em diferentes trechos do rio
Tietê, as atividades de exploração de areia eram necessárias ao crescimento urbano
de São Paulo, e voltadas principalmente para a construção civil. A retirada de
cascalho, usado até pouco tempo atrás para o asfaltamento de ruas e avenidas,
juntamente com a retirada da areia serão uma fonte comercial importante nessa
localidade. Essa atividade mineradora cresce consideravelmente nesse período,
valorizando muito esta área, a ponto de a Estrada de Ferro Sorocabana ceder uma
cancela para o embarque desse produto, diante da alta demanda [...] (PIMENTEL,
2014, p. 50).
Na tipologia de Langenbuch (1971), uma das mais importantes classificações
sistemáticas da estruturação metropolitana de São Paulo, Carapicuíba aparece ora como
subúrbio urbano, ou mais especificamente, como “subúrbio-estação”51 (cuja estação de
Sylviânia na Figura 29 é o marco), ou ora em referência à Aldeia como subúrbio rural,
51 São os tipos de subúrbios mais numerosos, relacionam-se ao papel das ferrovias em seus territórios e no
processo de metropolização. “Surgiam em tôrno de estações ferroviárias. [...] São típicos subúrbios-estação: [...]
Suzano, Mauá, Ribeirão Pires, Osasco, Carapicuíba, [...]. Os citados se localizam em redor ou em contacto com
a estação, junto a qual se desenvolveu o centro comercial, de maior ou menor expressão.” (LANGENBUCH,
1971, p. 262 – grifo nosso).
180
“subúrbio-ex-vilarejo”52. Na Figura 30, o mapa da área edificada da Grande São Paulo e
arredores, de 1962 (LANGENBUCH, 1971), permite observar precisamente o adensamento
estabelecido no entorno das estações atuais de Carapicuíba e de Santa Terezinha, que se dirige
ao sul, pela Avenida Inocêncio Seráfico, até a altura da Aldeia de Carapicuíba. Nele ainda é
possível observar diversos núcleos que são formados ao longo das linhas férreas, como
também uma malha urbana consolidada e homogênea nos rebordos de São Paulo. E, cujos
vetores da urbanização, irradiam do centro da capital para todas as direções.
Estação Sylviânia em Carapicuíba – década de 1930
Figura 29: Marco da Formação Histórica e Geográfica de Carapicuíba - Estação Sylviânia.
Fonte: Plano Diretor do Município de Carapicuíba, Lei n. 3.074/2011
.
52 “Trata-se dos núcleos surgidos em volta de pequenos aglomerados rurais, nos quais o modesto equipamento
local parece ter exercido papel polarizador. Pudemos distinguir como tais: Piraporinha e Aldeia de
Carapicuíba.” (LANGENBUCH, 1971, p. 263 – grifo nosso).
181
São Paulo e Arredores em 1962
Figura 30: São Paulo e arredores em 1962. Em Carapicuíba se avolumam as edificações à norte, no entorno da EFS e
ao longo da Av. Inocêncio Seráfico (antiga estrada da Aldeia), que interliga as estações com a Aldeia de Carapicuíba.
Apesar de ter maior densidade e população que Barueri em 1962, Carapicuíba é ainda seu distrito.
Fonte: Langenbuch (1971). Editado pelo autor (segmentação focal da zona oeste), 2016.
182
Ainda que distantes, ambos setores de Carapicuíba, tendem a uma articulação
rodoviária, que tipifica a fusão posterior da cidade ao longo da estrada hoje chamada
Avenida Inocêncio Seráfico, que vai de ponta-a-ponta do município. Langenbuch
(1971), ao estabelecer sua tipologia ligada à estruturação metropolitana de São Paulo,
considera praticamente todos os núcleos nos arredores da capital. Mesmo não
aprofundando especificamente sobre o caso de Carapicuíba, o autor lembra que a Aldeia
seria um destes entroncamentos rodoviários que, de certa forma, comandam a
aglutinação de novos loteamentos com os subúrbios já criados. No caso, seria
justamente naquele período a Avenida Inocêncio Seráfico este canal ou eixo indutor da
expansão suburbana concentrada ao norte (novos loteamentos, empresas, comércio e
dinâmica urbana conduzida pela linha férrea da EFS) em relação ao sul, cujo limite era a
Aldeia e onde localizavam-se os pontos de ônibus. Junto a esses nódulos pretéritos e
vias, integram-se novos loteamentos e moradores. A Aldeia e os pontos rodoviários em
seu entorno unificavam toda a área pelas estações, ou outros terminais rodoviários em
Cotia, Barueri, e Osasco. Essa realidade pode ser observada na Figura 31, em outro dos
mapas da obra “Estruturação da Grande São Paulo” (LANGENBUCH, 1971), quando o
autor identifica e traça um fluxo de ônibus dos principais núcleos metropolitanos de São
Paulo. Junto a expansão centrífuga de São Paulo, houve a proliferação de núcleos
suburbanos, majoritariamente associados aos “subúrbios-estação”. Estes novos núcleos,
mais interligados à São Paulo, ou outras localidades tornadas agora mais dinâmicas com
a presença das linhas férreas, fizeram com que pequenas vilas ou aglomerados se
tornassem distritos de outros municípios, recém-criados ou não. O caso de Carapicuíba
é emblemático na cristalização de condição suburbana, pois mesmo já havendo o núcleo
da Aldeia, este se desenvolve em razão do novo núcleo servido pela ferrovia. Portanto, a
sua suburbanização tem basicamente estes dois movimentos, um gerador e outro
dinamizador, que integrados posteriormente darão uma qualidade municipal ao
território, emancipado, porém interdependente historicamente de São Paulo. Se os
benefícios da emancipação são concretos, contraditoriamente, o papel funcional deste
subúrbio em especial reservará graves problemas pela explosão demográfica posterior,
bem como da estagnação econômica que se verifica pela ausência de indústrias e sua
condição de subúrbio-residencial ou dormitório53.
53 Fluxo pendular de pessoas, que trabalham nas cidades vizinhas durante o dia e retornam ao fim da
noite.
183
Arredores de São Paulo – Ônibus Suburbanos Intermunicipais - 1965
Figura 31: No mapa observa-se as duas linhas (vermelha e azul) que fazem a interconexão rodoviária do norte e sul de Carapicuíba, ligando não apenas a população municipal à São Paulo, como a toda região. Destaca-se já neste período a relevância da
Avenida Inocêncio Seráfico entre os setores sul e norte de Carapicuíba. Fonte: Langenbuch (1971).
184
No caso de Carapicuíba, desmembra-se de Cotia em 1948, tornando-se distrito
do recém-criado município de Barueri, ficando nesta condição por 16 anos, até o
desmembramento de Barueri, emancipação em 1964 e criação do município em 1965. A
separação inicial de Cotia em favor de Barueri revela a polarização que já havia em
favor de São Paulo, dada pela estação ferroviária presente em Barueri desde 1875, três
anos após a fundação da EFS. Quando da efetiva emancipação de Carapicuíba, em
1964, a cidade já possuía duas estações54, uma aglomeração consolidada e o papel
caracteristicamente suburbano, funcionando como núcleo dormitório, ou subúrbio
residencial para expressar os termos usados por Langenbuch (1971). “Por abrigar uma
população que trabalhava em outros municípios da Grande São Paulo, convencionou-se
por caracterizá-la como ‘cidade-dormitório’” (CARAPICUÍBA, 2012, p. 12). Ainda que
assim classificada, no setor econômico, as atividades industriais na região de
Carapicuíba emergem desde a década de 1920, com a criação da fábrica de fiação em
1925, denominada Fiação Sul-Americana55 (TENÓRIO, 2003; PIMENTEL, 2014).
A emancipação de Carapicuíba na década de 1960, é outro fato comum do
processo de suburbanização metropolitana ligada a São Paulo. O aglomerado-polo
expande, afetando diretamente os pequenos nódulos populacionais no entorno da
capital, cujo raio de influência é ampliado para o interior, além mesmo do Planalto
Paulistano. Não se trata apenas de uma mancha efusiva que avança do centro para a
periferia, mas de polinucleamentos, que incorporados aos sistemas modernos de
transportes e infraestruturas, crescem juntando-se progressivamente numa conurbação
complexa. Metrópole que em princípios da década de 1960 já ultrapassa os 5 milhões de
habitantes, alcançando população em 1970 superior a 8 milhões, ultrapassando
recentemente 20 milhões de habitantes conforme dados organizados na tabela 03.
54 Outra questão importante do processo de metropolização que incorpora definitivamente Carapicuíba à
São Paulo, reside precisamente no fato de haver a ampliação em mais uma estação de trem na cidade em
1951, quando a maioria dos municípios do interior do estado, a partir de 1940, perdiam gradativamente os
trilhos e estações em favor do novo modal de transporte, estabelecido pelas rodovias e estradas. Isso
caracteriza Carapicuíba já totalmente à capital, que nos idos dos anos 1970 seria normativamente
incorporada à Grande São Paulo.
55 “A industrialização da cidade é marcada no ano de 1925, com a presença dos imigrantes, quando
Alberto Kenworthy funda a Sociedade Anônima Indústrias Kenworthy, sucedida pela Fiação Sul
Americana, que funcionava no km 25 da Estrada Velha de Itu. Entretanto, aquela foi a primeira indústria
de grande porte da cidade e não se situava em Carapicuíba. Hoje, em decorrência da criação do Município
Carapicuíba, Barueri perdeu a extensão territorial, e a Vila Lourdes, da qual fazia parte a Vila Sul
Americana, torna-se parte da cidade.” (PIMENTEL, 2014, p. 52).
185
Tabela 03: Evolução da população e taxa de crescimento geométrico anual da cidade de São Paulo, RMSP e estado de São Paulo.
Fonte: Secretaria de Desenvolvimento Urbano de São Paulo.
Anos
Município de São Paulo Região Metropolitana de São Paulo Estado de São Paulo Brasil
População
Taxa de
População
Taxa de
População
Taxa de
População
Taxa de
Crescimento
Geométrico
Anual
Crescimento
Geométrico
Anual
Crescimento
Geométrico
Anual
Crescimento
Geométrico
Anual
1872 31.385 - 837.354 10.112.061
4,1 - 2,8 2,0
1890 64.934 - 1.384.753 14.333.915
14,0 - 5,1 1,9
1900 239.820 - 2.282.279 17.318.556
4,5 - 3,6 2,9
1920 579.033 - 4.592.188 30.635.605
4,2 - 2,3 1,5
1940 1.326.261 1.568.045 7.180.316 41.236.315
5,2 5,3 2,4 2,3
1950 2.198.096 2.622.786 9.134.423 51.944.397
5,6 6,1 3,6 3,1
1960 3.781.446 4.739.406 12.974.699 70.119.071
4,6 5,6 3,2 2,9
1970 5.924.615 8.139.730 17.771.948 93.139.037
3,7 4,5 3,5 2,5
1980 8.493.226 12.575.655 25.040.712 119.002.706
1,2 1,9 2,1 1,9
1991 9.646.185 15.444.941 31.588.925 146.825.475
0,9 1,6 1,8 1,6
2000 10.434.252 17.878.703 37.032.403 169.799.170
0,8 1,0 1,1 1,2
2010 11.253.503 19.683.975 41.262.799 190.755.799
186
Nesta mesma tabela ainda é possível observar que a média da taxa de
crescimento geométrico decenal, entre 1950 e 1960, ultrapassa 6% na RMSP, enquanto
5% no município de São Paulo. Índices superiores ao do estado de São Paulo e quase
três vezes maiores que o restante do Brasil. Mais do que crescer e concentrar, as
metrópoles sofrem mudanças qualitativas, o que para Santos (2013b) a urbanização
ganharia novos conteúdos e dinâmica, condicionados pelas modernizações do território
que explicam esta nova situação. No caso da RMSP, Scarlato (2014) explica que o
crescimento do seu espaço urbano passa de 130 km² em 1940 para 420 km² em 1954, se
expandindo radialmente e integrado a um complexo sistema de transporte ferroviário e
rodoviário. Ainda que em menor expressividade na concentração industrial que outras
vias, a zona oeste neste período, servida pela antiga Sorocabana e a rodovia Raposo
Tavares, constituem um importante sistema concentrador da produção, interligando
antigos núcleos nos arredores de São Paulo, como também o interior do estado. Este
sistema torna-se ainda mais pujante e completo com a contínua reestruturação das vias
arteriais, grandes avenidas e, sobretudo, na década de 1970 com a construção da rodovia
Castelo Branco (o acesso direto a esta rodovia em Carapicuíba, no entanto, levaria
alguns anos após sua inauguração). “A estrutura radial concêntrica do plano de São
Paulo, integrada a todo esse complexo sistema de transporte rodoviário/ferroviário,
centro polarizador de uma vasta rede urbana, gerou uma verdadeira ‘implosão’ dos seus
espaços interiores.” (SCARLATO, 2014, p. 446).
Agrupados em seis unidades por Langenbuch (1971), Carapicuíba seria
justamente um dos municípios com mais acentuado crescimento demográfico, quando
regionalizado o município junto a Barueri e Aldeia, chegariam a um percentual de
1002% de crescimento entre 1940 e 1960. Reside neste processo uma polarização
importante estabelecido pela ferrovia, mas que não necessariamente acompanha o
desenvolvimento suburbano gerado por ela. A atração das estações nem sempre
proporciona condições favoráveis de habitação e transporte. Sendo que a circulação
rodoviária complementa o processo, realizando a ponte dos bairros mais afastados, os
núcleos antigos, com as estações ferroviárias, ou estações rodoviárias com hierarquia
superior (LANGENBUCH, 1971, p. 258).
A suntuosidade da concentração populacional, convergindo ao fenômeno da
macrocefalia urbana, pode ser observada quando na década de 1970 praticamente
metade da população do estado de São Paulo se concentra na região metropolitana
187
correlata. Concentração e centralidade se confundem na RMSP, num caldeirão
econômico, de intensa industrialização e mescla cultural entre modos de viver trazidos
pelos estrangeiros e grupos regionais vindos de todo território brasileiro, sobretudo do
Nordeste. Sendo contraditório, à primeira vista, que ao mesmo tempo em que as cidades
se integram geograficamente estas se fragmentam político-administrativamente.
Conforme Langenbuch (1971, p. 232), “em certo sentido a pulverização políticoadministrativa dos arredores paulistanos constitui um paradoxo, pois o processo se
verifica exatamente quando se aceleram as fusões territoriais entre alguns núcleos
suburbanos, e aumentavam as relações entre outros.”. Este parcelamento suburbano é
verificado com certa intensidade desde 1940, quando a Grande São Paulo possuía 10
municípios, passando em 1950 a 17 municípios, em 1960 com 30 unidades e, por fim,
em 1670 com 36, inclusive Carapicuíba (LANGEBUCH, 1971).
Ainda no período que antecede a emancipação de Carapicuíba, Costa Junior
(1987) destaca o desenvolvimento da Vila Sylviânia, com os loteamentos e onde
continuamente haviam construções, “nos altos dos morros aparecem as igrejas que
pouco a pouco esta velha Carapicuíba foi tomando ares de Cidade.” (COSTA JUNIOR,
1987, p. 05). O mapa da Figura 30 anterior evidencia em 1962 uma densidade elevada
de casas nesta área em especial, ultrapassando inclusive os arredores da Aldeia, que
torna-se neste prospecto, um subcentro de Carapicuíba. Também a figura 31, com o
mapa mostrando a densidade de fluxo cada vez maior entre Carapicuíba e São Paulo,
além das cidades regionais vizinhas. Ainda conforme o autor supracitado, em 1950 a
população de Carapicuíba era de aproximadamente 7 mil habitantes, somados os
moradores da Aldeia. Em uma década, em 1960, esse valor aumenta para 17 mil
habitantes (COSTA JUNIOR, 1987), crescimento, pois, de 242%, quando em 1970
chega a 54.873 habitantes (IBGE, 2016), passando em pouco mais de duas décadas a
um aumento populacional de mais de 783%. População que em princípios do século
manteve-se isolada, predominante caipira, passa a ter forte presença do imigrante
europeu, com o desenvolvimento de diversas atividades agrícolas no território. Como
decorre em muitos subúrbios paulistanos, houve a chegada dos imigrantes, que além dos
italianos e japoneses (CONDEPHAAT, 1981), cabe destacar os árabes, russos,
húngaros, alemães e portugueses56. Após cessar a vinda dos imigrantes, com o fim da
56 Além da influência cultural como um todo, sobretudo em relação aos traços mais urbanos dessas
populações, a marca dos novos habitantes (imigrantes) está materialmente gravada em toda cidade de
188
Segunda Guerra Mundial, intensifica-se a vinda de migrantes brasileiros de diversas
regiões, sobretudo Nordeste. Conforme Pimentel (2006, p. 37), “além dos piauienses, a
cidade abrigou cearenses, pernambucanos, baianos, entre tantos outros nordestinos, e
também muitos mineiros e paranaenses.”. Dos novos habitantes, conforme explica
Costa Junior (1993, p. 07), vem gente de todo lugar em busca de pequenos lotes de
terra, ou para residir posteriormente nos conjuntos habitacionais, armando barracos em
áreas devolutas, ou ocupando terrenos baldios. Com a cidade se expandindo para todo
lado, emergem “[...] habitações as mais diversas, impossível de se imaginar, cobrindo
morros e baixadas, várzeas e beiras de córregos e os bairros, as ‘vilas’ ou ‘jardins’ se
esparramaram abrangendo quase todo o território municipal que não tem zona rural, tem
apenas zona urbana.” (COSTA JUNIOR, 1993, p. 07).
Gradualmente, imigrantes estrangeiros (italianos, japoneses e outros) e depois
migrantes do Estado de São Paulo e de outros Estados estabeleceram-se na
região, tornando minoria os paulistas da própria área. Passam então a
predominar os sítios de produção hortifrutigranjeira que a partir da década de
cinquenta são absorvidos no processo de industrialização. Mais recentemente
a área, em torno da Aldeia, vem sendo transformada pela exploração
imobiliária, com o estabelecimento de chácaras residenciais e industriais.
Ainda que cercada pela urbanização desenfreada, a Aldeia de Carapicuíba se
mantém com seu rico folclore e como patrimônio cultural de indiscutível
favor (CONDEPHAAT, 1981).
No que tange essa “manutenção” da Aldeia, deve-se realizar um paralelo da
passagem de sua condição de bem patrimonial para o monumento institucionalizado.
Tal condição é deduzida dos conflitos que permeiam a intervenção do SPHAN naquele
espaço em relação à população que ali vivia há muitos anos e sem ter necessariamente a
dimensão da “relevância” histórica e artística para a memória nacional. Aparentemente,
o valor que havia ligava-se a memória coletiva, em razão das tradições religiosas e da
centralidade que havia para aquela comunidade (ponto de ônibus, escola, igreja,
festividades). Com o ato de tombamento em 1940 esses modos de viver foram
radicalmente alterados, simultaneamente ao processo de urbanização-metropolização do
território. A patrimonialização resulta dessa “consciência urbana”, criação moderna e
institucionalizada de uma nova brasilidade, na qual a Aldeia ganhava
representatividade.
Carapicuíba, como a Igreja Ortodoxa Russa, ou as comunidades como a da Igreja de Santo Antonio na
Vila Anita Caldas, com a presença de portugueses e italianos (TENÓRIO, 2003).
189
O reconhecimento institucional da Aldeia de Carapicuíba deriva de levantamentos
realizados em anos posteriores, tantos pelos estudos de Saia (1937)57, que precedem o
tombamento junto ao levantamento técnico do SPHAN58 em 1938, quanto
posteriormente pelas equipes do 4º Departamento do Patrimônio Histórico e Artístico
Nacional (4º DPHAN/SP)59, atual 9ª Superintendência Regional do IPHAN (9ª
SRIPHAN/SP). Nesta fase, pós-tombamento, já é possível a observação direta de
levantamentos detalhados e diretrizes para a preservação do conjunto urbanístico. Uma
das notas técnicas mais antigas encontradas, provavelmente da década de 195060,
evidencia que do seu aspecto primitivo conservaria apenas a estrutura retangular no qual
se organizam as casas e igreja. Por isso, segundo ainda a nota do 4º DPHAN/SP ressalta
“[...] pura e simplesmente o seu aspecto externo melhorando os elementos encontrados”,
dos quais está destacado o telhado, portas, janelas e calçamentos. Detalhe importante
em outra das notas na mesma pasta supracitada reside no entendimento da Aldeia como
monumento jesuítico e colonial, justificando não apenas seu tombamento e a
preservação, mas também uma concepção unitária, fragmentada e sintomática dos
valores visuais, estéticos e arquitetônicos do conjunto.
Percebe-se, além disso, que os documentos mais primitivos do SPHAN
encontrados no arquivo, refletem problemáticas e conflitos verificados com a
modernização da Aldeia. Essas tensões derivam de diversas instâncias, sendo
importante salientá-las, pois ainda persistem, com será detalhado mais adiante: em
primeiro plano a dificuldade com os moradores locais, pois o tombamento e as
orientações futuras tornavam-se um entrave ao acesso de serviços e intervenções
necessárias às habitações; em segundo, a municipalidade, executando obras e bem 57 Documento integral obtido no Arquivo da 9ª SR - IPHAN/SP – Pasta 00073-0218-T-39-10/11(4).
58 O Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico nacional (SPHAN), criado em 1937, passa em 1946 a
denominar-se Departamento do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (DPHAN). Em 1970 o DPHAN se
transforma no atual Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN). As referências são, pois,
diferentes em cada período, respeitando as denominações de cada contexto.
59 Em 1946 o SPHAN passa a ser denominado de Departamento do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional
(DPHAN). Em 1970 o DPHAN se transforma em Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional
(IPHAN). Em 1990 é extinto o Minc, também o SPHAN/IPHAN e a Fundação Nacional Pró-Memória
(FNPM), com a criação do Instituto Brasileiro do Patrimônio Cultural (IBPC), instituição que ficou responsável
pelo patrimônio cultural até 1994, voltando então a ser IPHAN.
60 Nota sem data, presume-se pelo conjunto de documentos da Pasta levantada que seja da década de 1950.
Documento integral obtido no Arquivo do IPHAN/SP – Pasta 00064-0218-T-39-1/11. Conjunto Arquitetônico
e Urbanístico (Tombamento).
190
feitorias na área fora das conformidades técnicas e arquitetônicas do conjunto; em
terceiro, das empresas privadas e públicas de transporte, iluminação, telefonia, visando
munir a área com seus serviços e descaracterizando paisagisticamente o “monumento”.
Outra manifestação de contrariedade do órgão revela-se em relação ao desvio da estrada
que passava pela área interna da Aldeia, que estava não apenas em desacordo com os
moradores que ali tomavam o ônibus, mas também com o departamento de trânsito que
visava atender o fluxo e mobilidade nesta área. Por fim, saliente nos arquivos e registros
é o caso da iluminação pública da Aldeia. Primeiro pela instalação de postes, fiação e
lâmpadas, em fins de dos anos 1960, logo depois pela retirada empreendida em 1971
conforme orientação do SPHAN, mas em desacordo com a municipalidade, os
moradores e a empresa de energia.
Neste momento inicial, que inicia a década de 1940, subentende-se tão somente
pelos ofícios, termos, notas e correspondências, uma ação efetiva do 4º DPHAN na
Aldeia de Carapicuíba. Trabalho pioneiro do órgão, que ao longo desta década já
demonstra apreensão dos moradores acerca de seu papel institucional, como da
condição de mudança das propriedades ao se tornarem patrimônio da União, bem como
da vida cotidiana da população ali inserida. Entende-se que pois mais vertical e absoluta
que fossem as decisões, orientações e intervenções do SPHAN na área, isto fez com que
os moradores desde cedo percebessem o espaço diferenciado que residiam ou
conviviam. Para referenciar alguns casos relevantes desta compreensão pelos
moradores, cita-se o pedido de Sebastião P. da Silva, em 28 de junho de 1943, tendo a
necessidade de reformar sua casa, como em vinte de março de 1945 o morador
Francisco M. de Camargo também solicita ao 4º DPHAN reforma de uma das paredes
da casa do finado Virgílio O. de Jesus. Outros documentos compreendidos entre 1942 e
1950 revelam uma exaustiva quantidade de pedidos por reformas e feitorias61, as quais,
algumas, o DPHAN demorava em torno de até cinco anos de avaliação e emissão da
autorização. Disso reside um descontentamento histórico com o órgão, como se
presume pelo tempo, mas também ao registrar as entrevistas de antigos moradores ou
em livros como o de Henne (2015).
61 A documentação completa está disposta atualmente na 9ª Superintendência Regional do IPHAN/SP.
Arquivo: Pasta 00064-0218-T-39-3/11(1) (2) (3). Conjunto Arquitetônico e Urbanístico (Intervenção em
Bens Imóveis Tombados).
191
Avolumam-se na década de 1950 orçamentos e notas discriminadas para
reformas do conjunto da Aldeia, além de especificamente das casas 01, 11, 13 (Figura
32), entre outras, que conforme levantamentos realizados, estavam em situação de
precariedade e foram cirurgicamente reconstruídas. Se a dimensão pública esboçada
pela patrimonialização da Aldeia, na primeira década após seu tombamento, trouxe a
apreensão dos moradores que alterar imóveis ou agir sem permissão na propriedade lhes
traria gravames, parece que na segunda década o abandono foi resultado direto das
dificuldades que o órgão possuía em manter aquele espaço, considerando que o poder
público mais que fiscalizar ou “dificultar” a sua preservação, deveria também subsidiar
as intervenções necessárias. Disso resulta um conjunto de ações ao longo da década de
1950 na Aldeia de Carapicuíba, tanto no conjunto, como nas casa em particular. Esse
momento embasa a proposição de uma possível mudança de comportamento dos
moradores e do próprio órgão de preservação frente à gestão dos bens
patrimonializados, que de fato, até o fim da década de 1940, intervenções e ações de
conservação e preservação parecem estar restritas aos habitantes, do que propriamente
das instituições públicas. Concluindo que a década de 1950, em decorrência do volume
de ofícios, notas e projetos planejados e executados na Aldeia, indica o papel mais
presente e central62 do DPHAN em operações estruturais e efetivas do conjunto no
sentido de manter efetivamente os bens em meio as tensões já mencionadas
anteriormente (Figura 32).
Intervenções nos bens imóveis da Aldeia de Carapicuíba - 1956
Figura 32: Fotos de 1956 revelam intervenções contínuas de preservação da Aldeia de Carapicuíba,
inclusive de reconstrução da casa 01 ao centro e direita e da parede lateral na casa 13 à esquerda.
Fonte: Fotos de Germano Graeser, obtida em Andrade (2006). Organizadas e editadas pelo autor, 2016.
62 “No século XIX se consolidaram dois modelos de política de preservação: o modelo anglo-saxônico,
com o apoio de associações civis, voltado para o culto ao passado e para a valorização ético-estética dos
monumentos, e o modelo francês, estatal e centralizador, que se desenvolveu em tono da noção de
patrimônio, de forma planificada e regulamentada, visando ao atendimento de interesses políticos do
Estado. Esse último modelo predominou entre os países europeus, e foi exportado, na primeira metade do
século XX, para países da América Latina, como o Brasil e Argentina, e, após a Segunda Guerra
Mundial, para as ex-colônias francesas.” (FONSECA, 1997, pp. 62-63 – grifo nosso).
192
As diretrizes de intervenção no conjunto parecem acompanhar
compassadamente o contexto brasileiro da política patrimonial no período. Esforçam-se
na criação e posterior manutenção de símbolos nacionais, calcados em conjuntos
arquitetônicos e obras específicas de valor singular. Estes símbolos são permeados pelo
conceito de arte que, na prática, remete os bens culturais a um passado colonial, de
instituições e grupos hegemônicos, caracteristicamente materiais, ou de “pedra e cal”.
Quando da emergência de elementos tipicamente populares, passavam rapidamente a
carregar narrativas heroicas e fatuais ligadas às mesmas classes dirigentes. Portanto,
bens culturais que levam em verdade um valor histórico, porém unidirecional, material e
carregado ideologicamente. Se monumento e patrimônio diferenciavam-se em teoria, na
prática eles tornavam-se uma coisa só. Como destaca Rubino (1996, p. 105) “ao retirar
igrejas, casas e pontes do anonimato, o SPHAN conferiu ao país não apenas um
passado, mas sobretudo seu passado”. Nesta fase inicial da política patrimonial, como
explica Malhano (2002), “[...] a proteção dos monumentos e de prédios históricos
representa a preservação do passado que, efetiva e subjetivamente, reforçam”. No caso
de São Paulo, os tombamentos, como prática central da política patrimonial brasileira,
nos primeiros anos do SPHAN, acabaram justamente por privilegiarem as casas
bandeirantes e igrejas jesuíticas, dos quais, sem dúvida, Carapicuíba teve destacada
importância. Criticamente, Rubino (1996) mostra que essa construção do passado
brasileiro pela política patrimonial no período apagou grande parte do potencial que São
Paulo expressava, relegando-a na marginalidade do patrimônio nacional.
A inexistência do século XX paulista apaga os rastros das massas de
imigrantes que substituíram a mão-de-obra escrava nas fazendas de café. O
ciclo econômico que prosperou na Primeira República é esquecido e, junto
com ele, paradoxalmente, a intensa experiência urbano-industrial que
permitiu a capital paulista abrigar um movimento de arte moderna, que uma
vez rotinizado, está na história anterior da própria política cultural brasileira.
A proposta de Mario de Andrade estava vinculada aos desafios que a cidade
de São Paulo não cessava de lançar, e à sua experiência cosmopolita de
intelectual polivalente. No estado de Mario de Andrade, o que se preservou
não foi a ‘pauliceia desvairada’. Nesse estado separatista, que nunca foi corte
e tampouco teve riquezas coloniais, o SPHAN só poderia ter olhos para –
usando um termo ressentido do próprio Mario de Andrade – toscas casas
bandeiristas e capelas jesuíticas (RUBINO, 1996, p. 102).
Os documentos na 9ª. SRIPHAN/SP revelam justamente a preocupação em
ordenar o conjunto segundo padrões construtivos originais, restaurações e
193
dimensionamentos técnicos para a preservação das casas, ou da estrutura do vilarejo.
Observa-se, de certa maneira, interessante avanço sobre o valor histórico dos bens e o
tratamento quase sempre do conjunto da Aldeia e dos blocos de casas que a compõem.
No entanto, ainda nesta primeira fase, o avanço é limitado em relação ao restante da
cidade, gerando dois núcleos ou centros, ainda que estes estivessem relativamente
articulados e cada vez mais integrados com São Paulo no processo de metropolização.
Na verdade, umas das principais caraterísticas do tombamento, a partir da
monumentalização do conjunto da Aldeia de Carapicuíba, perpassa os esforços de sua
individualização, orientando mesmo a reestruturação das vias rodoviárias locais para
que os fluxos de veículos, cada vez mais intensos, não impactasse os bens, restringindo
outras modernizações que com o tempo foram se desenvolvendo paralelamente à
preservação.
Na década de 1960, as transformações decorrentes da metropolização de
Carapicuíba traz à tona sérios problemas com as ocupações irregulares no entorno da
Aldeia. As melhorias de infraestrutura disponíveis e requeridas pela população
passaram a ir de encontro com as de conservação e preservação dos bens. Não apenas na
Aldeia, mas nos bairros adjacentes e que determinadas ações visando a preservação lhes
afetava diretamente, como mudanças das vias, ou a passagem de cabos da rede elétrica
ou postes. No conjunto, diversas notificações, na forma de ofício, tanto do 4º DPHAN,
quanto da Procuradoria do Estado de São Paulo e Delegacia do Serviço do Patrimônio
da União emergem na década solicitando remoções e impedindo intervenções pontuais
sobre as casas, fachadas, portas, ou janelas. Estas ações se estendem nas décadas
seguintes, com subsequente adensamento.
Por fim, cristaliza-se o subúrbio em Carapicuíba, integrado plenamente a São
Paulo, emancipando-se em um dos muitos municípios da Grande São Paulo. Dessa
construção política e administrativa, no processo urbano, deriva ainda o tombamento e a
criação do espaço normatizado da Aldeia de Carapicuíba, para além do planejamento e a
gestão do município. O que reverbera na supressão daquilo tudo que simplesmente não
foi eleito uma singularidade capaz de preservar ou digno de exemplificar a brasilidade
em construção. Essa supressão, no entanto, não é plenamente operada e algumas
tradições, como as festividades religiosas e profanas de Santa Cruz, continuam a ser
realizadas e a perpetuar antigos costumes locais. A passagem para a década de 1970
marcará uma nova fase do mesmo movimento, que tenciona o rural pelo urbano aos
194
limites, onde se estabelecerá os conjuntos habitacionais e concretizará
institucionalmente a metrópole de São Paulo.
Em Carapicuíba, grande impulso populacional também é verificado na década de
1970, com a instalação dos conjuntos habitacionais promovidos por políticas
intergovernamentais entre a federação, o estado de São Paulo e os municípios
organizados na RMSP. Nesta fase, a renda da terra será mais dinamizada, convertendose num grande negócio o empreendimento imobiliário nos subúrbios paulistanos.
Elemento que, em Carapicuíba, terá a profusão indutiva da metropolização paulistana
sentido oeste e que marcará a plena conurbação da mancha urbana entre São Paulo,
Osasco e Carapicuíba, para além dos arredores das linhas férreas, como também,
transformará a cidade numa das mais adensadas periferias metropolitanas de São Paulo.
Se a metropolização de São Paulo é acompanhada pela autonomia política dos
municípios, via emancipação e desmembramento dos territórios das unidades maiores,
os problemas agravados pela precariedade ou ausência dos serviços públicos tornaramse outra face do processo. Em princípios da década de 1970, com crescimento da
população entre 1940 e 1960 de mais de 364% para a RMSP e, especialmente, no trecho
entre Barueri e Carapicuíba de mais de 1000%, o processo de periferização se acentua,
cujo vetor de deslocamento se estabeleceria junto a alternativa de construção dos
conjuntos habitacionais nos limites dos subúrbios. Neste momento, “o sistema
ferroviário, obsoleto e abandonado pelo poder público, sem investimentos
modernizadores, permanece [...] como elo entre a cidade de São Paulo e as periferias
pobres e distantes [...]” (MEYER; GROSTEIN; BIDERMAN, 2013, p. 41).
Na década de 1970, era comum vermos caminhões apinhados de móveis,
sacos e malas, que descarregavam em Carapicuíba. Era uma verdadeira
avalanche de pessoas provenientes das migrações brasileiras, atraídas pela
industrialização de São Paulo, e como na Capital não encontravam a
facilidade de acomodação, procuravam a periferia da cidade, os subúrbios, e
os apartamentos da Cohab que lhes propiciavam o acolhimento e segurança
(TENÓRIO, 2003, p. 188).
Como evidencia o Gráfico 03, Carapicuíba, que até 1950 possuía 7 mil
habitantes passa em 1970 para mais de 54 mil, chegando em 1980 a uma população
total de 185.822 citadinos. A RMSP, como um todo, passa neste período de uma
195
população de 2.696.031 para 8.172.542. A relação estabelecida entre Carapicuíba e São
Paulo pelas linhas férreas continua a ser importante, mas a posição de Osasco deve ser
destacada. Não apenas no que tange às dimensões do trabalho operariado nas firmas ali
presentes, nem somente na diversidade comercial que apresentava, mas no próprio
nascer, já que Carapicuíba não possuía até pouco tempo uma maternidade. A ausência
de bancos, comércio, administração pública, educação, praticamente tudo antes da
emancipação concentrava-se nos municípios vizinhos, ou em São Paulo. Carapicuíba
integra um “eixo de urbanização em colar” (LANGENBUCH, 1971), dinamicamente
ligada à cidade-polo da metrópole63, chegava a 1970 permeada pela precarização que a
assinalaria na passagem veloz de um subúrbio cristalizado, para uma periferia dramática
do subdesenvolvimento pós-colonial. Não foram poucos os momentos das entrevistas
realizadas em que a precariedade do território emergia nas mais emocionadas
experiências de (sobre)viver nos arredores de São Paulo, como a passagem seguinte.
Chegava no ponto de ônibus e tinha que levar uma sacolinha com o sapato
dentro da sacolinha e deixar outro escondido, era tanto mato que você achava
que tinha o privilégio de deixar o sapato escondido no mato e pegar depois.
[...] Minha mãe era assim , ela tinha um sapato pra ir trabalhar porque ela
trabalhava no Hospital Brigadeiro em São Paulo né e outro sapato para
chegar porque era amassar barro, mas isso que eu tô dizendo é no centro, tipo
assim , tem uma avenida que quem mora aqui há muitos anos conhece que e a
avenida Sandra Maria, a rua né no caso essa Sandra Maria pra você ter uma
ideia ela sai no Toufic64 que é escola central ali né que é o Toufic Joulian que
é escola já antiga , ela era metade até o centrinho ela era asfaltada até
metadinha, metade pra lá era barro e era considerado centro, então a gente
usava dois sapatos, a gente usava metade até o centro que ia amassar barro e
depois era outro sapato (Entrevistada 01, 54 anos, Moradora da Vila Dirce).
63 “Do ‘cinturão de urbanização intercalar’ [Osasco, Taboão da Serra, São Bernardo do Campo, Diadema,
Itaquera, São Miguel Paulista...] se destacam quatro tentáculos quatro tentáculos, comandados pela
ferrovias extra-regionais antigas, tentáculos esses caracterizados pela sucessão de aglomerados pouco
distanciados entre si. Chamemo-los eixos de urbanização em colar. [...] Alguns núcleos menores se
desenvolveram um tanto quanto apartados da ferrovia, mas apoiados em ‘subúrbio-estação’: Vila Serpa
em Caieiras, Vila Dirce e Aldeia de Carapicuíba em Carapicuíba. Os dois últimos citados
correspondem ao mais expressivo caso de desenvolvimento suburbano perpendicular, verificado no
domínio dos eixos de urbanização em colar.” (LANGENBUCH, 1971, p. 298).
64 Escola Estadual Toufic Joulian. Trata-se de uma das escolas mais antigas de Carapicuíba, localizada na
região central, precisamente na Av. Rui Barbosa, 820 – Centro. Proximidade também dos trilhos, mas que
como afirma a moradora, um espaço vivido permeado pela precariedade, o abandono e os desafios do
subúrbio e da periferia paulistana.
196
População de Carapicuíba após desmembramento de Barueri em 1964
Gráfico 03: Evolução da população de Carapicuíba entre 1950 a 2010.
Fonte: Anos de 1950 e 1960 dados obtidos em Costa Junior (1987) e Langenbuch (1971)
respectivamente. Para o restante, dados do IBGE – Evolução da Divisão Territorial do Brasil - População
por Município (1872 a 2010). IBGE – Censo, 2010. Organização do autor, 2016.
As condições precárias com que se desenvolvia a região intensificam-se ao
longo da década de 1970. Com a instalação ao longo de praticamente uma década do
Conjunto Habitacional Castelo Branco pela Companhia Metropolitana de Habitação de
São Paulo (COHAB-SP) houve grande incremento populacional, não apenas daqueles
que vieram ocupar as 8.742 unidades habitacionais, subdivididas em quatro complexos
habitacionais, mas simultânea ou posteriormente ocupando áreas diversas, adquirindo
pequenos lotes clandestinos, terrenos irregulares, ocupando um espaço estratégico da
metrópole no que tange as oportunidades de emprego, mas sofrendo intensamente com a
periferização e precariedade urbana. Para Santos (2012b), estes processos de
crescimento, que demandam rápidas modernizações dos territórios no mundo
subdesenvolvido, alteram brutalmente a lógica interna das cidades. Requer esforços de
equipamentos, infraestruturas e de trabalho descomunal, sendo, no entanto, utilizada e
apropriada por poucas indústrias e grupos capitalistas com condições de articular as
escalas espaciais da produção, do trabalho, de mercados e estados. Favorece, pois, tipos
de mundialidade e modernizações perversas, que no caso de São Paulo podem ser
observadas pela concentração produtiva e o desenvolvimento desigual.
197
Tomemos o exemplo de São Paulo. Em 1969, os maiores estabelecimentos
industriais (com mais de quinhentos empregados) constituíam 4,5% do
número total. Eles empregavam 44,7% do conjunto de trabalhadores fabris e
eram responsáveis por 52% do valor da produção e 51,5% do valor da
transformação. Em 1975, as maiores indústrias eram somente 1,5 do total,
mas forneciam um percentual de emprego semelhante ao de 1969 (cerca de
44%), já com um valor produzido que se aproxima dos 69%. Isso significa
que a produção se concentrou em um número pequeno de estabelecimentos
que, por sua vez, se tornaram maiores e cada vez mais multinacionais. A
internacionalização da economia leva a uma concentração financeira e
econômica, traduzida pelas alterações das funções urbanas e por
modificações brutais da lógica interna da cidade (SANTOS, 2012b, p. 45).
Somente a COHAB Castelo Branco, iniciada a construção em princípios de 1970
e parcialmente finalizada em 197665, passou a ocupar mais de 7,5% da área territorial de
Carapicuíba, tomando o antigo campo da boiada, área da prefeitura de São Paulo,
permutada pela COHAB e financiamento do Banco Nacional da Habitação (BNH) que
passou abrigar milhares de famílias vindas de todos os cantos do Brasil. Constituindo
uma das mais vultosas operações urbanas no município, as construções contribuíram
diretamente para um dos maiores incrementos populacionais da RMSP, quando
Carapicuíba atingiu taxas geométricas de crescimento que superaram 26,5% (IBGE,
1970, 1980).
Trata-se, no período, do maior crescimento de todos os municípios da RMSP,
que teve em média um crescimento geométrico anual no período de 4,4%, destacandose Jandira, Diadema, Embu, e Santana de Parnaíba, todos com índices superiores a 10%
anual de crescimento e com concentração à oeste. Em 1980 a RMSP possui população
total de 12,5 milhões de habitantes, praticamente metade dos 25 milhões de todo o
estado de São Paulo (Tabela 04). A proliferação de habitações populares se estendeu
predominantemente pelos empreendimentos da COHAB-SP e da Companhia de
Desenvolvimento Habitacional e Urbano do Estado de São Paulo (CDHU). Carregando
preceitos técnicos e pouca participação popular, as políticas foram centralizadas e
verticais na gestão do território. A estratégia do Conselho de Desenvolvimento da
65 “Diversas dificuldades fizeram com que, nos anos seguintes ao seu início, o conjunto ficasse relegado
ao abandono. A recuperação do conjunto foi iniciada em fevereiro de 1976 pela pr6pria COHAB-SP. Por
volta de outubro do mesmo ano foram entregues 324 casas; em abril de 1977 ficaram prontos 816
apartamentos; em agosto mais 532 casas e em dezembro do mesmo ano mais 1872 apartamentos.”
(GARCIA, 1982, p. 06-07).
198
Grande São Paulo, por meio do Plano Metropolitano de Desenvolvimento Integrado da
Grande São Paulo (PMDI-GSP), na década de 1970, foi concentrada nos eixos leste e
oeste da RMSP, direcionando a expansão urbana em consideração das limitações físicas
ao norte e as reservas de água ao sul. Nesta perspectiva, multiplicaram-se nestes setores
metropolitanos os loteamentos populares e empreendimentos habitacionais orientados
pelo Estado, mas não necessariamente munidos de equipamentos básico e típicos do
sistema urbano.
A precariedade tem sido atributo permanente das periferias metropolitanas. A
partir dos anos 70, no momento em que que o Estado passa a produzir
habitação social adotando a tipologia dos grandes conjuntos, essa situação se
agrava, pois os projetos reproduziram as deficiências e carências urbanísticas
típicas das regiões periféricas. Em cada uma dessas situações – quer nos
espaços produzidos pelo poder público, quer naqueles resultantes da ação
privada – verificam-se os processos espoliativos de ocupação das áreas de
expansão urbana que resultaram em precariedades específicas dos ambientes
construídos, legando um tecido urbano desestruturado e carente de atributos
de ‘cidade’. Essa precariedade material tem duplo registro. Por um lado está
associada ao processo de produção dos espaços residenciais para a população
de baixa renda, e por outro à insuficiência crônica de investimentos públicos
na escala requerida, sendo ainda reforçada pelo descaso com a qualidade dos
espaços construídos. Tem, portanto, relação com três aspectos decisivos: com
o destino social dessas áreas, com a distribuição desequilibrada dos
investimentos públicos na cidade e com a ausência de uma política de
desenvolvimento urbana que equacione a expansão da metrópole (MEYER;
GROSTEIN; BIDERMAN, 2013, p. 51).
No que tange a aquisição da área de mais de 2.623.500,00 m² de Carapicuíba
pela COHAB, evidencia-se que não foi um processo simples, na verdade, carregado de
conflitos entre a municipalidade preocupada com os efeitos do vertiginoso crescimento
populacional e a relativa estagnação econômica frente Osasco e Barueri. Por outro lado,
os interesses verticais do estado, buscando pelo planejamento66, estabelecer ou orientar
os vetores de expansão da metrópole (Figura 33).
66 “Acreditava-se, nesse período, na permanência de um processo contínuo de concentração das
atividades econômicas e da população na RMSP, considerando provável que as vantagens locacionais e o
desenvolvimento urbano e econômico a partir do Município de São Paulo se extravasariam para os
demais municípios da RMSP e destes para a macrometrópole, e assim por diante, integrando os
municípios da região entre eles e com a sua área de entorno.” (DENISO, 2015, p. 02).
199
Perspectiva da COHAB Castelo Branco em Carapicuíba – década de 1970
Figura 33: Instalações da COHAB-SP induziram a expansão urbana e perpetuaram a função residencial e
de cidade dormitório à Carapicuíba.
Fonte: Plano Diretor Participativo do Município de Carapicuíba, 2012.
Na edição de 30 de maio de 1976 do jornal Estado de São Paulo, uma das
matérias destaca o adiamento das construções da COHAB em razão de liminar judicial
em favor da prefeitura municipal. Conforme explica a matéria, a preocupação residiria
na já desfavorável função de Carapicuíba como cidade dormitório, com uma economia
pouco desenvolvida e que a vinda dos conjuntos habitacionais perpetuaria essa condição
200
fatídica. “Pressionada pela falta de empregos, a Prefeitura pretende desestimular o
crescimento demográfico de Carapicuíba.”67. Assim também, ao estudar a reabilitação
dos conjuntos habitacionais, Otero (2009) identifica em outra matéria, em 1983 no
mesmo jornal, que a população recém instalada nos edifícios da COHAB pedem socorro
às autoridades diante da precariedade urbana do local68. Segundo ele, as condições de
moradia dos conjuntos pouco diferenciavam das favelas e ocupações irregulares na
periferia da RMSP. A precariedade também se estendia para as condições de
infraestrutura da área, perpassando os próprios edifícios, onde muitos foram implodidos
anos mais tarde por problemas estruturais irreparáveis (OTERO, 2009). Para Pimentel
(2014, p. 72), o caso de Carapicuíba é expressivamente relevante na transformação
periférica induzida pela COHAB e as casas da CDHU, transformando-a numa cidade
dormitório, considerando a distância desta nova população do trabalho e dos serviços
essenciais.
[...] Outro ponto a ser destacado neste quesito diz respeito ainda aos grandes
conjuntos habitacionais construídos pela Companhia Metropolitana de São
Paulo – Cohab, concentrando aproximadamente 19% da população total do
município [...]. Carapicuíba possui a segunda maior “Cohab” do Brasil.
Embora este termo “cidade dormitório” possa ser questionado por alguns
estudiosos, essa é uma denominação bastante usual quando nos referimos ao
município, isso porque leva-se em conta o movimento de deslocamento
pendular de seus moradores rumo, em uma primeira demanda, aos centros
industriais e comerciais e de seu entorno: Osasco, São Paulo, Barueri, entre
outros. Esse perfil periférico, motivado principalmente pela quase
inexistência de espaços industriais e um comércio local pouco desenvolvido,
força os seus moradores a se deslocarem em busca de trabalho nos outros
centros já citados (PIMENTEL, 2014, p. 72).
Na Figura 34, o mapa de áreas urbanizadas elaborado pela Emplasa (1975), no
sentido de subsidiar os Planos Diretores de Desenvolvimento Integrado da Grande São
Paulo (PDDI/GSP), especificamente neste caso dos municípios da zona oeste, expressa
o volume urbano em Osasco e Carapicuíba, em fase de integração metropolitana.
67 O ESTADO DE S. PAULO. Questão judicial adia construção de 5.400 casas. In: O Estado de São
Paulo (jornal), 30 de maio de 1976, p. 37.
68 O ESTADO DE S. PAULO. Moradores de Carapicuíba reclamam. In: O Estado de São Paulo (jornal),
13 de maio de 1983, p. 15.
201
Áreas Urbanizadas Zona Oeste da RMSP – Emplasa (1975)
Figura 34: Plano Diretor - Mapa de Drenagem... (Áreas Urbanizadas) – evidencia a densa urbanização a oeste da RMSP em 1975, destacando-se Carapicuíba e Osasco.
Fonte: EMPLASA, 1975 –Acervo Digital Emplasa. Organizado e editado pelo autor, 2016.
202
O mapa mostra que mesmo sem necessariamente finalizados, ou completamente
entregues, as habitações das COHAB’s e CDHU já representam próximo ao centro e a leste
densa ocupação física e populacional no território de Carapicuíba. Maior ocupação se
estabelece de norte a sul, em relação à estação de trem e a Aldeia de Carapicuíba. A mancha
urbanizada se estabelece mais amplamente a norte, ao longo da ferrovia, avolumando-se nas
estações vizinhas de Barueri, Jandira e Itapevi, respectivamente. Observa-se ainda neste mapa
que os municípios mais próximos da cidade-polo, São Paulo no caso, possuem maiores
núcleos urbanizados, em que Carapicuíba se desenvolve também pela proximidade com
Osasco, subcentro da metrópole na porção oeste. Como explica Pimentel (2006, p. 40), além
das COHAB’s, a década de 1970 marca o avanço da urbanização para o espaços mais
distantes da ferrovia no município, com aumento de autoconstruções e um modelo
tipicamente periférico de crescimento. De fato, ao sul o acesso pela rodovia Raposo Tavares
(SP-270) desde antes da segunda metade do século passado já interligava a RMSP ao interior
do estado. Além da Vila Dirce e adjacências, que já se desenhavam antes de década de 1970,
“novos bairros surgiram na cidade, como o Jardim Ana Estela, Cidade Ariston, Vila Menck, e,
a partir da década de 1980, como o Parque Jandaia e o Parque Santa Tereza.” (PIMENTEL,
2006, p. 41).
Como as implicações modernizadoras da suburbanização em relação ao cinturão
caipira de São Paulo, que provocaram diversas tensões no meio tradicional e cujo resultado
em Carapicuíba foi o tombamento do antigo aldeamento jesuítico, além de acentuar o debate
em torno das rugosidades patrimoniais, a década de 1970 que reverbera na periferização da
cidade, designa ainda um ajustamento maior destes elementos com as próprias políticas
urbanas. A mudança operada no plano urbano passa estar compassada com os preceitos
complexos em que se inseria a discussão patrimonial, desde a Carta de Veneza (1964) e a
propagação de referências internacionais que tangenciavam o respectivo tema, até a
incorporação teórica de historicidade ao conjunto das cidades.
Choay (1997, p.12) explica que a partir da década de 1960 “(...) os monumentos
históricos já não representam senão parte de uma herança que não para de crescer, com a
inclusão de novos tipos de bens e com o alargamento do quadro cronológico e das áreas
geográficas no interior das quais esses bens se inserem. A Carta de Veneza (1964) é o
expoente documental capaz de traduzir e justificar a assertiva de Choay (2006). A tendência
de englobar cada vez mais elementos no rol patrimonial parece ser evidente. “A sensibilidade
e o espírito crítico se dirigem para problemas cada vez mais complexos e diversificados.
203
Agora é chegado o momento de reexaminar os princípios da Carta (de Atenas, 1931) para
aprofundá-las e dotá-las de um alcance maior em um novo documento” (CARTA DE
VENEZA, 1964).
Na análise de Fonseca (1997), as consequências do desenvolvimento urbano-industrial
e do processo de metropolização no país reforçavam as tensões no âmbito do patrimônio
cultural, dificultando institucionalmente as bases criadas pelo movimento modernista na
década de 1920 e trazendo à tona outras demandas simbólicas e sociais que culminaram com a
criação do IPHAN em 1970. Mais que a diversidade trazida pela metropolização,
historicamente, mesmo as rugosidades patrimoniais normatizadas, em grande parte ligadas
aos resíduos construtivos do século dezoito, já haviam sido apropriadas por novos conteúdos e
grupos sociais, que simplesmente foram ignorados pelas políticas pretéritas. No caso da
Aldeia de Carapicuíba, uma das mais importantes evidências da contradição entre a norma
que sugere preservação e a realidade concreta que mostra sua depredação, situa-se no evento
do roubo ou desaparecimento dos sinos da capela de São João Batista em 1973, quando
sujeitos se apresentaram pretensamente como servidores do IPHAN e conseguiram retirar os
sinos com a justificativa de sua manutenção, sem nunca mais trazê-los de volta69. O
pressuposto institucional valeu-se para a subtração de um bem que demarcava o sistema de
cotidianidade da população, possivelmente sobre o falso pretexto de sua manutenção. Ao
sabor do fato, a atitude da superintendência do IPHAN em São Paulo foi fechar a capela,
privando ainda mais os moradores de seus bens culturais e das condições mínimas de
sociabilidade.
Agregar essa diversidade que crescia com a expansão da cidade incluía uma questão
ainda mais complexa, que residia no reconhecimento de um conjunto maior de bens, como
preconizava a Carta de Veneza (1964) e uma visão de totalidade que era fugidia das restritas
dimensões do passado. No Brasil é do mesmo modo contraditório que os preceitos
internacionais trazem a valorização da diversidade no plano patrimonial, quando as políticas
urbanas e culturais estabelecidas pelo golpe militar são verticais e impositivas, legando
discursos e práticas que não apenas deixam de confluir, como são concorrentes. Apesar de um
discurso comum na atualidade, até meados dos anos setenta do século passado as políticas
69 Ao analisar essa questão dos sinos por meio de jornais locais, Faccio (2010) não consegue chegar a uma
conclusão dos fins tomados pelos sinos. Ao tratarmos com antigos moradores acerca do assunto não obtivemos
respostas concretas do paradeiro dos sinos. Tudo leva a crer que este bem foi furtado. Uma perda irreparável,
considerando sua explicitação nas entrevistas enquanto elementos centrais na demarcação do tempo cotidiano no
passado da Aldeia.
204
urbanas e do patrimônio estavam diametralmente separadas. A metropolização, passa não
apenas a integrar cidades numa unidade regional mais ampla, como assevera o compasso
político em planos de desenvolvimento conjunto, como o PDDI da RMSP formulado entre
fins da década de 1970 e princípios da década de 1980, quando, inclusive, haverá orientações
específicas aos diferentes bens culturais nas mais diversas cidades da região metropolitana de
São Paulo por meio da Empresa Metropolitana de Planejamento da Grande São Paulo
(EMPLASA).
Trata-se daquilo que Sant’Ana (2014) atribui a passagem da cidade-monumento à
cidade-documento, cujo valor patrimonial perpassa o aspecto singular, excepcional, estético,
que no Brasil está relacionado a busca de uma identidade nacional e, posteriormente, para as
dimensões de permanência e de diversidade social, as quais remetem a integração com as
políticas urbanas. Ainda conforme Sant’Ana (2014) ao analisar os livros do tombo do
IPHAN, esse momento avança da valoração artística como critério de seleção (que vai de
1938 a 1950), perpassando o valor paisagístico e a ampliação de áreas protegidas
(principalmente ao longo de 1960 e 1970) e, por fim, alcança discursivamente a valorização
da área urbana como um documento, da história urbana e da sociedade brasileira (entre 1980 e
1990). Na prática, o direcionamento estratégico da Aldeia se mostra limitadamente a esses
preceitos apenas nos planos de gestão territorial. Em verdade, o que se reproduz são os
valores ainda calcados no fragmento, na singularidade, na colonialidade do poder, onde
entorno sequer conseguia se efetivar como ambiência e em que as prioridades de preservação,
como no passado, estavam distantes de Carapicuíba. Dialeticamente, o processo de
periferização urbana reverbera na marginalização das rugosidades patrimoniais da Aldeia,
tomando as formas-conteúdos das vilas e favelas vizinhas, carregando a modernidade ao
avesso.
Hoje tá tudo mudado. Antes era o sino aqui que avisava a hora de
começar e de parar. Era tudo bem isolado, não tinha todos esses
bairros aqui em volta. [...] Usava muito carro de boi, ali na esquina, tá
vendo, onde é a casa da cultura, antes era uma vendinha. [...] Aqui era
bom demais, as festas tinha muita gente, era outro tempo.
(Entrevistado 16, morador da UIT Vila Dirce, antigo morador da
Aldeia, 63 anos).
205
A década de 1980 marca um importante período de transição política do país. Trata-se
do período de redemocratização, com a saída das forças militares do cenário político, a
promulgação de uma nova constituição e a realização de eleições diretas. “[...] O
descontentamento com o regime militar era reforçado pela situação econômica e social. O
Brasil era um caldeirão repleto de movimentos e organizações por irromperem na cena
política, como adiante o processo constituinte revelaria de forma surpreendente e ampla.”
(COELHO, 2009, p. 162). Com a emergência das questões políticas e sociais, o espectro
cultural toma dimensões privilegiadas para pensar “novas identidades coletivas” (FONSECA,
1997), tornando-se num “[...] instrumento fundamental para os grupos sociais que as
constróem, e que, muito frequentemente contestam a legitimidade dos ‘patrimônios históricos
e artísticos nacionais’.” (FONSECA, 1997, p. 195).
Neste momento, mais que mapear e realizar um esforço de institucionalizar bens e
justificar a ação dos organismos patrimoniais a partir de uma identidade, cabia discutir os
critérios de valoração, compreendendo criticamente o patrimônio cultural “[...] tanto de seu
caráter acumulativo quanto das omissões, deturpações e reduções ideológicas a que ele está
inevitável e contingencialmente submetido.” (FALCÃO, 1984, p. 33). O que é explicado por
Fonseca (1997) numa dimensão histórica da cidade que não se resume apenas à sua
arquitetura, abrangendo as adaptações realizadas pelo trabalho humano, adequando o espaço
às suas necessidades (FONSECA, 1997, p. 230).
5.2 Implosão-explosão urbana e as rugosidades-monumentos-documentos
A urbanização da sociedade (SANTOS, 2013b), em termos de sua industrialização, no
caso brasileiro, só deve ser pensada efetivamente a partir de 1950 (MOREIRA, 2005). Isto em
razão da generalizada supressão da formação espacial anterior, com a inversão espacial da
população entre campo e cidade, mas da superação de indústrias tradicionais de bens de
consumo pelas de bens de produção e sua diversificação, ainda pela maior integração do
território nacional no que tange a produção, distribuição e o mercado consumidor. O que
marca uma divisão territorial do trabalho, que consolida não apenas o comando do campo pela
cidade, como de São Paulo em relação a indústria e do controle do espaço nacional
(MOREIRA, 2005, p. 17). Nesse processo se efetiva a tríade industrialização-urbanização206
metropolização, que principiada no passado, como observado nas centralidades do poder e
dos territórios, terá uma resposta intensa e plena em torno de novos modos de viver, de
trabalhar e de se relacionar com a natureza dos objetos e os objetos da natureza.
Santos (1980) evidencia amplas diferenças da urbanização dos países desenvolvidos e
subdesenvolvidos. Segundo ele, no primeiro caso, a cidade é integrante viva e de crescimento
gradativo, enquanto que nos países subdesenvolvidos o processo de urbanização teria sido
arrolado como um “corpo estranho”, “alógeno”, “(...) inserido em um meio com o qual
estabelece relações descontínuas no espaço e no tempo.” (SANTOS, 1980, p. 97). Se nos
países desenvolvidos a urbanização acompanha a industrialização, nos subdesenvolvidos ela
acompanha determinados interesses ampliados do capital, em suas diversas revoluções
técnico-científicas e de expansão rumo a novos mercados e oportunidades. Afinal, como
denuncia Carvalho (1997), muitos conflitos e perversidades resultam justamente das
condições produtivas nas relações postas pela marginalidade do capitalismo nos países não
desenvolvidos e de sua urbanização generalizada.
Causa que levou esses países a multiplicação de pequenas cidades e a hipertrofia de
cidades específicas, resultando na macrocefalia urbana70 e o parasitismo do setor terciário, em
desequilíbrio com a industrialização mais ampla e a precária permanência cultural de
estruturas tradicionais. Ao mesmo tempo em que se observa a multiplicação de pequenas
cidades com a modernização pós-guerra, a polarização do sistema urbano ainda permanece
compondo grandes núcleos de produção e controle do território, concomitantemente a
periferização e as críticas condições de vida daqueles que resistem aos sistemas urbanos
vivendo no campo. Na América Latina, até meados da década de 1950, praticamente metade
da população era analfabeta. Os países possuíam baixos índices de urbanização e
industrialização, com estrutura territorial baseada nas grandes propriedades rurais, na
dependência econômica, a propósito de ampla hibridização e arranjos culturais de várias
70 A macrocefalia (do grego μακρύς- grande e κεφάλη – cabeça) é um conceito aplicado em Geografia ao desequilíbrio
na rede urbana, dotando determinadas cidades de atratividade e polarização das funções econômicas e sociais de um
território nacional. Os resultados desta produção espacial têm sido dramáticos, com a concentração demográfica
(inchaço populacional) e a criação de megacidades que não atendem serviços básicos, como os de transporte,
saneamento, ou habitação. Com mais de 10% de toda população brasileira, a RMSP pode ser pensada neste sentido,
sobretudo quando ampliada sua escala para a Macrometrópole Paulista (incluindo outras RM’s estaduais adjacentes)
ou, ainda, a RMRJ que daria concretude a noção de megalópole, abrangendo numa pequena porção do país mais de 1/4
da população e a maior parte dos segmentos produtivos modernos do país. Ainda que com a globalização não sejam
mais coerentes certas generalizações acerca da relação entre rede urbana e o nível de desenvolvimento de um país, tal
polarização macrocefálica ainda pode ser observada em países, como Argentina, Colômbia e Uruguai.
207
naturezas. Estas características formaram os ingredientes destes novos centros urbanos,
reunindo arranjos peculiares, dramas e soluções próprias diante da nova organização histórica.
Nesse prospecto, o sentido do conceito de “implosão-explosão” urbana, trazido por
Lefebvre (2012), ainda que importante referencial teórico da evolução urbana e da cidade,
prescinde de criticidade analítica para pensar a particularidade brasileira e de parte dos países
latino-americanos. Em suas conjecturas acerca do desenvolvimento da cidade em diferentes
regimes de tempo, ele estabelece linearmente a passagem de uma rara “cidade política” para
uma recorrente “cidade comercial”, que passa à “cidade industrial” e chega até a “zona
crítica”, onde se aproximaria da utópica e virtual sociedade urbana. A implosão-explosão
urbana situa-se neste esquema, posteriormente à inflexão do rural pelo urbano, após a
formação da cidade industrial e entre a zona crítica é que se estabeleceria generalizadamente
essa expansão do “tecido urbano” e plena subordinação do campo à cidade.
Na maioria dos países desenvolvidos da Europa essas passagens são longas e bem
delimitadas, enquanto na América Latina elas estão superpostas pela velocidade que se
desenvolveram no pós-guerra. A divisão territorial do trabalho da qual resulta formasconteúdos destas novas cidades e metrópoles também não serão as mesmas daquelas pretéritas
dos países europeus (SANTOS, 1980). E a especificidade do fenômeno deve ser apontada
como meio de apreensão da atual fase de desenvolvimento desses países. Do mesmo modo, as
dimensões culturais são ainda mais complexas e diferenciadas, considerando, por exemplo,
apenas no continente americano, uma diversidade de países em que sobressaíram, apesar do
fato colonial, identidades nacionais totalmente distintas. Essa diferença de modernização é
também responsável pela especialização e hierarquização de funções, sendo que “os
resultados estão numa estreita relação com os interesses do sistema em escala mundial e
também em escala local, regional ou nacional.” (SANTOS, 1985, p. 32).
Essa problemática da “implosão-explosão” urbana ainda deriva do debate entre os
termos e as noções de “subúrbio” e “periferia” pensados no Brasil, onde procurou-se
estabelecer diferenças estruturais por diversas referências, tomando o caso específico de São
Paulo (LANGENBUCH, 1971; 2001; BONDUKI; ROLNIK, 1979; KOWARICK, 2001;
MARTINS, 2001; BURGOS 2008; FRABETTI, 2013; MARQUES, 2015), bem como
defender a passagem de um a outro fenômeno, conforme alteram-se as dinâmicas espaciais
nas cidades e metrópoles no atual contexto histórico. Trata-se assim, de compreender o
subúrbio como definidor da integração dos cinturões e áreas adjacentes à cidade-polo na
208
integração metropolitana, enquanto a periferia seria uma fase avançada, que comporta o
subúrbio, mas não limita-se a localizações e não pode ser pensada sem o processo de
desenvolvimento desigual e combinado que permeia a industrialização-urbanizaçãometropolização em curso pós-1950.
O crescimento das cidades, do número e de população, contrasta com a desintegração,
a desarticulação e o isolamento regional dos hinterlands verificados no Brasil passado. Os
centros de produção industrial estão neste momento em estreita ligação com os grandes
núcleos populacionais que se desenvolviam gradativamente, próximos dos mercados
consumidores, assim como dos principais nódulos da rede de fluxos de produtos, bens e
pessoas, que viabilizavam, inclusive, relações internacionais mais dinâmicas. Sobressai, pois,
uma contínua acumulação das rugosidades. Além disso, sobreposições serão contínuas e
pujantes, com as respectivas supressões de formas-conteúdos, pois mesmo com algum padrão
notadamente moderno e de alguma densidade sobreposta às infraestruturas passadas, esta fase
implicará mudanças radicais das cidades suburbanas.
Espacialmente, a população vivendo no campo e cidade se inverte. Não se trata
exclusivamente de uma inversão populacional rural-urbana, simplesmente como ilustrado no
Gráfico 04 seguinte, mas uma combinação de migrações internas, inter-regionais, de núcleos
menos dinâmicos para as novas áreas economicamente pulsantes. Também de permanências,
de rugosidades que convivem do passado distante, superpostas e acumuladas nas cidades
metropolizadas. Neste caso, é justamente o processo industrial o elemento econômico
determinante, bem como o estabelecimento de desigualdades regionais profundas – criando
valor e acumulando vantagens aos territórios já produtivos em favor do gradativo
empobrecimento relativo das áreas estagnadas (SINGER, 1978). Além disso, a carga cultural
de diferentes regiões mesclam-se numa unidade de múltiplas expressões, com a acumulação e
a superposição de rugosidades patrimoniais, as quais ainda incluem os traços de ruralidade em
sua complexidade regional.
209
Evolução da População Urbana e Rural do Brasil entre 1960 e 2010
DÉCADAS POPULAÇÃO URBANA POPULAÇÃO RURAL POPULAÇÃO TOTAL
1960 32.004.817 38.987.526 70.992.343
1970 52.904.744 41.603.839 94.508.583
1980 82.013.375 39.137.198 121.150.573
1991 110.875.826 36.041.633 146.917.459
2000 137.755.550 31.835.143 169.590.693
2010 160.925.792 29.830.007 190.755.799
Gráfico 04: Evolução da população urbana e rural do Brasil.
Fonte: IBGE, Censo Demográfico 1960,1970, 1980,1991, 2000 e 2010. Organização do autor, 2016.
210
De fato, além das elevadas taxas de fecundidade e aumento da expectativa de vida, que
se coadunam com a melhoria de infraestruturas, sobretudo no âmbito de saneamento básico, o
fator migratório é imperativo à compreensão do incremento populacional das cidades no
sudeste, sobretudo São Paulo e Rio de Janeiro neste período, que ainda antecede a criação
institucional e normativa das regiões metropolitanas. Esse ponto é de extrema relevância no
sentido de melhor situar a condição de existência de uma população que não é totalmente
combalida pelo fenômeno urbano, mas que dialeticamente vai edificar e dar conteúdo a essa
formação sócio-espacial em desenvolvimento. Entre 1960 a 1980 as principais áreas de
emigração foram predominantemente a região nordeste, além dos estados de Minas Gerais,
Espírito Santo, Santa Catarina e Rio Grande do Sul em menor proporção. As áreas de atração
eram os núcleos industriais, localizados principalmente nos estados de São Paulo e do Rio de
Janeiro (OLIVEIRA; ERVATTI; O’NEILL, 2011).
É sob a ótica crítica das disparidades urbanas e regionais, que acabam condicionando
grande massa popular a migrar para outras regiões de industrialização consolidada, em busca
de melhores condições de vida, forçando o Estado nacional a subsidiar ações
desenvolvimentistas e políticas públicas em regiões cuja economia ficara estagnada e onde a
população decrescia substancialmente. O Gráfico 05 evidencia em 1960 o descompasso
evolutivo da população nos modernos centros de dinamização econômica, daqueles antigos ou
muito dependentes dos principais. A representação gráfica destes últimos, na escala utilizada,
destoam amplamente dos primeiros e se homogeneízam numa continuidade crescente, porém
balanceada, sem grandes amplitudes. Deve-se destacar o papel do Brasil central que, devido a
modernização do campo, passa a ter na expansão de diversas cidades o controle regulatório e
administrativo da produção. A atratividade desta área, em razão de um política de integração
territorial, destacadamente com a construção de Brasília, aumenta circunstancialmente,
fazendo com que Goiânia e a nova capital representem não apenas núcleos nodais da nova
rede urbana, mas fundamentalmente da consolidação de uma mancha orgânica de novas
cidades do agronegócio criadas. Além de buscar sanar os desequilíbrios regionais, outra ação
necessária pautava-se nos problemas no desenvolvimento desigual dentro das próprias regiões
metropolitanas, exigindo a normatização das unidades na década de 1970.
211
Processo Urbano-Industrial: Quadro Evolutivo da População Brasileira nas Maiores Capitais Estaduais (1960-2010)
0
2.000.000
4.000.000
6.000.000
8.000.000
10.000.000
12.000.000
Evo
luç
ão
Pop
ula
cio
nal
da s M
aio
res
Ca pita
is n
o B
ras
il .
São Paulo 3.781.446 5.924.615 8.493.226 9.480.427 10.434.252 11.253.503
Rio de Janeiro 3.281.908 4.251.918 5.090.700 5.336.179 5.857.904 6.320.446
Salvador 649.453 1.007.195 1.493.685 2.056.013 2.443.107 2.675.656
Brasília 141.742 546.015 1.176.935 1.596.274 2.051.146 2.570.160
Fortaleza 507.108 857.980 1.307.611 1.758.334 2.141.402 2.452.185
Belo Horizonte 683.908 1.235.030 1.780.855 2.048.861 2.238.526 2.375.151
Manaus 175.343 311.622 633.383 1.011.510 1.405.835 1.802.014
Curitiba 356.830 609.026 1.204.975 1.290.142 1.587.315 1.751.907
Recife 789.336 1.060.701 1.200.378 1.290.149 1.422.905 1.537.704
Belém 399.222 633.374 933.287 1.246.435 1.280.614 1.393.399
Porto alegre 635.125 885.545 1.125.477 1.262.631 1.360.590 1.409.351
Goiânia 151.013 380.773 717.526 922.222 1.093.007 1.302.001
1960 1970 1980 1991 2000 2010
Gráfico 05: Processo Urbano-Industrial: Quadro Evolutivo da População Brasileira nas Maiores Capitais Estaduais (1960-2010)
Fonte: IBGE, Censo Demográfico 1960, 1970, 1980, 1991, 2000 e 2010. Organização do autor, 2016.
212
Evolução das cidades no Brasil entre 1970 e 2010
Unidades da
Federação
1970
Número de
Municípios
1970
Unidades da
Federação
1980
Número de
Municípios
1980
Unidades da
Federação
1990
Número de
Municípios
1990
Unidades da
Federação
2000
Número de
Municípios
2000
Unidades da
Federação
2010
Número de
Municípios
2010
Território de Rondônia 2 Território de Rondônia 7 Rondônia 23 Rondônia 52 Rondônia 52
Acre 7 Acre 12 Acre 12 Acre 22 Acre 22
Amazonas 44 Amazonas 44 Amazonas 62 Amazonas 62 Amazonas 62
Território de Roraima 2 Território de Roraima 2 Roraima 8 Roraima 15 Roraima 15
Pará 83 Pará 83 Pará 105 Pará 143 Pará 143
Território do Amapá 5 Território do Amapá 5 Amapá 9 Amapá 16 Amapá 16
Tocantins 79 Tocantins 139 Tocantins 139
Ter. Fernando de Noronha 1 Ter. Fernando de Noronha 1
Maranhão 130 Maranhão 130 Maranhão 136 Maranhão 217 Maranhão 217
Piauí 114 Piauí 114 Piauí 118 Piauí 221 Piauí 224
Ceará 142 Ceará 141 Ceará 178 Ceará 184 Ceará 184
Rio Grande do Norte 150 Rio Grande do Norte 150 Rio G. do Norte 152 Rio G. do Norte 166 Rio G. do Norte 167
Paraíba 171 Paraíba 171 Paraíba 171 Paraíba 223 Paraíba 223
Pernambuco 164 Pernambuco 164 Pernambuco 168 Pernambuco 185 Pernambuco 185
Alagoas 94 Alagoas 94 Alagoas 97 Alagoas 101 Alagoas 102
Sergipe 74 Sergipe 74 Sergipe 74 Sergipe 75 Sergipe 75
Bahia 336 Bahia 336 Bahia 415 Bahia 415 Bahia 417
Minas Gerais 722 Minas Gerais 722 Minas Gerais 723 Minas Gerais 853 Minas Gerais 853
Espírito Santo 53 Espírito Santo 53 Espírito Santo 67 Espírito Santo 77 Espírito Santo 78
Rio de Janeiro 64 Rio de Janeiro 64 Rio de Janeiro 70 Rio de Janeiro 91 Rio de Janeiro 92
Guanabara 1
São Paulo 571 São Paulo 571 São Paulo 572 São Paulo 645 São Paulo 645
Paraná 288 Paraná 290 Paraná 323 Paraná 399 Paraná 399
Santa Catarina 197 Santa Catarina 197 Santa Catarina 217 Santa Catarina 293 Santa Catarina 293
Rio Grande do Sul 232 Rio Grande do Sul 232 Rio G. do Sul 333 Rio G. do Sul 467 Rio G. do Sul 496
Mato Grosso do Sul 55 Mato G. do Sul 72 Mato G. do Sul 77 Mato G. do Sul 78
Mato Grosso 84 Mato Grosso 55 Mato Grosso 95 Mato Grosso 126 Mato Grosso 141
Goiás 221 Goiás 223 Goiás 211 Goiás 242 Goiás 246
Distrito Federal 1 Distrito Federal 1 Distrito Federal 1 Distrito Federal 1 Distrito Federal 1
BRASIL 3953 BRASIL 3991 BRASIL 4491 BRASIL 5507 BRASIL 5565
Tabela 04: Evolução do número de cidades no Brasil entre 1970 e 2010 – efetiva industrialização, urbanização e metropolização do país.
Fonte: IBGE – Evolução da Divisão Territorial do Brasil (1872-2010) - 2011. Organização do autor, 2016.
213
Como evidenciam o Gráfico 05 e Tabela 04, além do aumento da quantidade de
municípios criados, em pouco mais de uma década, a população de Brasília já saturava os
limites populacionais planejados para o Distrito Federal, chegando a mais 500 mil habitantes.
Esta realidade é apresentada por Paviani (1996; 2010), mostrando não só o crescimento da
população, mas da violência e da pobreza, da suburbanização e posterior periferização, que
não mais se limitam ao território do Distrito Federal, abrangendo também os estados de Goiás
e Minas Gerais e dando a atual configuração da Região Integrada de Desenvolvimento
(RIDE) do Distrito Federal e Entorno, alcançando hoje mais de 4 milhões de habitantes
(IBGE, 2015).
No ano de 1970 o índice de urbanização do Brasil chega a 56% (IBGE, 1970; IPEA,
2006), levando em consideração o número total residente, onde cinco cidades possuíam mais
de 1 milhão de habitantes: São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador, Belo Horizonte e Recife.
Outras capitais, como Fortaleza e Porto Alegre, já bem próximas deste valor, com mais de
800 mil habitantes cada, conforme dados elencados no Gráfico 05, além de alcançar um total
de 5.565 municípios em todo território nacional. Cidades estas tomadas individualmente, sem
os respectivos subúrbios, que só serão mais tarde regulamentados enquanto regiões
metropolitanas. A divisão territorial tem vertiginoso aumento, passando de 2.766 municípios
na década de 1960 e chegando a 3.953 municípios em 1970, um aumento de 1.187 municípios
em uma década, destacados na Tabela 03. Essa densidade e concentração de população,
dinamizada por uma pujança industrial, de serviços e de ampla estrutura comercial, emerge na
vida cotidiana dos centros urbanos trazendo outras relações sociais.
Em fins dos anos 1970 e princípios de 1980 o percentual de população urbana chega a
65%, igualando-se a taxas de urbanização de países europeus desenvolvidos. Mas, ao
contrário da condição de desenvolvimento destes últimos, a lógica prevalecente nas grandes
cidades é o caos. Mais contraditório é, sem dúvida, o caso de São Paulo, com mais de 6
milhões de habitantes no princípio da década de 1970, acompanhada da deterioração das
condições de vida da maior parte de sua população. Analisando diversos dados neste período,
como nível de renda, mortalidade infantil, demanda habitacional, consumo alimentar, entre
outros, Camargo et. al. (1976) revelam um agravamento das condições de vida da população
inserida em São Paulo e seus arredores. “O processo de desenvolvimento recente redundou no
empobrecimento, não só em termos relativos mas inclusive em termos absolutos, de
consideráveis parcelas das classes trabalhadoras.” (CAMARGO et al., 1976, p. 57). A riqueza
214
era concentrada pelo empresariado burguês, em que pese alguns operários mais especializados
que passavam a se beneficiar de uma condição financeira mais confortável.
O contraste entre a sofisticação do consumo de uma minoria e as condições precárias
de vida da maioria tende a ampliar-se. O modelo de expansão industrial, verificado
nos últimos 15 anos, apoiou-se justamente na produção de artigos de consumo
durável e de luxo, destinado aos estreitos círculos de renda média e alta. Os estratos
inferiores, excluídos desse mercado de consumo, pagaram não obstante alto preço. A
deterioração das condições de vida da maioria da população trabalhadora acentuouse, enquanto a economia do país crescia a uma significativa taxa de 10% ao ano,
dando origem ao que, por muitos, foi designado “milagre brasileiro”. Mas que tipo
de milagre é esse, em que o desenvolvimento significa piorar a vida da maioria da
população? (CAMARGO et al., 1976, p. 59).
Concorda-se com Singer (1973) que a razão dos problemas, bem como seus resultados
perversos, não são determinados pela “explosão demográfica” apenas, ou propriamente da
metropolização das cidades, mas como consequência do desenvolvimento capitalista no país:
concentrando capitais e a riqueza; pulverizando a pobreza e marginalização da/na cidade para
obtenção de alta exploração do exército industrial de reserva (obtenção plena da mais-valia);
especulação fundiária, submetida a criação de altos valores pelos empreendedores
imobiliários e os proprietários da terra urbana. Para Singer (1973), o crescimento das
metrópoles apenas evidencia ainda mais os desequilíbrios econômicos e sociais
historicamente estabelecidos pela processo colonial e do desenvolvimento industrial
dependente dos países centrais. Trata-se, pois, de uma força inercial, agravada pelas escalas
que alcançava o fenômeno de metropolização. “O crescimento acelerado das metrópoles em
países não desenvolvidos acentuou e tornou mais perceptível uma série de desequilíbrios,
principalmente entre procura e oferta de habitações e serviços urbanos, que compõe uma
problemática urbana específica.” (SINGER, 1973, p.117).
No caso de São Paulo, a urbanização de Carapicuíba carrega todos os problemas
sociais e econômicos inerentes às grandes periferias paulistanas, ou de países
subdesenvolvidos mais amplamente. Produz, em verdade, o drama da metropolização como
simetria oposta de polos de riqueza e de valorização que seletivos espaços de São Paulo
perpetuam. Emergem barracos, favelas e os conjuntos de baixa renda que sistematicamente se
deterioram, junto aos graves problemas ambientais, associados, entre outros fatores, da
ocupação de encostas com elevado índice de declividade, ausência de saneamento, tratamento
de esgoto e áreas adequadas para disposição de resíduos domésticos e industriais, resultando
na contaminação dos canais hídricos generalizadamente. Se as habitações cumprem o papel
215
da precariedade do uso do solo urbano, as atividades econômicas associadas à extração de
areia, que com tempo passa a conformar definitivamente a Lagoa de Carapicuíba, completam
a trajetória que perpetuaria uma das cidades mais problemáticas do Brasil até os dias atuais71
(Figura 35). Frente aos graves problemas, singela é a problematização que justifica o
planejamento integrado de Carapicuíba à RMSP pela EMPLASA (1981):
Com seus 185 mil habitantes registrados em 1980 e 44m² da área, Carapicuíba
apresenta uma das maiores densidades demográficas da RMSP. Este fato se agrava
com a pequena oferta de empregos em seu território e reduzida receita municipal.
Dado o seu alto crescimento populacional, que é acompanhado de harmônica e
ordenada evolução econômica, urbana e social, há necessidade fundamental da
adoção, ao nível legislativo, de uma política de desenvolvimento integrada
(EMPLASA, 1981, p. 10).
Paisagens de Carapicuíba - Conversão do Subúrbio em Periferia de São Paulo
Figura 35: Imagens revelam as formas da paisagem urbana de Carapicuíba, após consolidação do subúrbio a sua
periferização que perdura até os dias contemporâneos.
Fonte: Fotos do autor, 2014.
71 Carapicuíba é uma das cem cidades mais vulneráveis social e economicamente do Brasil. Compõe o grupo
chamado G100, constituído pela Frente Nacional dos Prefeitos (FNP) e que reúne cidades com mais de 80 mil
habitantes, de baixa renda e alta vulnerabilidade socioeconômica.
216
As transformações urbanas que compreendem Carapicuíba, além do plano econômico
e político, marcam grandes mudanças culturais. As relações tradicionalmente estabelecidas
passam a ser tensionadas pela emergência de uma nova população que carrega consigo os
regionalismos e amplas diferenças de hábitos e costumes. O tempo lento do subúrbio caipira,
de escalas relativamente restritas do vilarejo, onde todos e todas, de forma direta ou indireta,
eram conhecidos, ora estabelecendo laços de compadrio e amizade, ora de familiarização ou
de inimizade, muda radicalmente. Os modos de habitar, de se relacionar, de se transportar, de
se alimentar... tudo é significativamente tencionado pela nova velocidade estabelecida da
modernidade, dando novas dimensões espaciais e temporais à metrópole e interpenetrando
profundamente os munícipes de Carapicuíba.
[...] Era diferente sim. Todo mundo era conhecido, muito amigo, subia no ônibus
parecia uma família, tudo junto, as pessoas que moravam se cumprimentavam, bem
caloroso, eram poucas pessoas, tudo conhecido. Quando cresceu na época isso aí
perdeu. Agora a gente não sabe quem é quem, não confia, porque aqui tem muito
problema, violência [...] (Entrevistada 02, moradora da UIT Vila Dirce, 65 anos).
Olha a gente ia a pé, até tinha ônibus mas a gente normalmente ia a pé, a gente
cortava caminho tinha as trilhas e a minha mãe limpava à igreja aí depois aqui tinha
umas chácara que tinha muita goiaba. Goiabeira e ai a gente pegava uma sacola
cheia de goiaba pra minha mãe fazer doce a goiabada e o lanche que a gente levava
pra escola Japão e goiabada caseiro que ela fazia, era muito gostoso então era assim,
era uma vida muito gostosa, diferente do que ela é hoje [...] (Entrevistada 03,
moradora da UIT Aldeia de Carapicuíba, 54 anos).
[...] Aqui era o sossego que a gente tinha no interior. Aqui no bairro, aqui um
conhecia o outro, o outro conhecia o um. (Entrevistado 04, morador do Centro, 76
anos).
Mais uma vez, no entanto, estas transformações não estão necessariamente restritas à
uma ou outra cidade, mas a maior parte dos subúrbios paulistanos. No entanto, algumas
poucas conseguiram necessariamente conservar ou preservar conjuntos de formas ou unidades
de períodos pretéritos. De fato, a tensão por novos loteamentos, espaços industriais e
comerciais, colocaram abaixo se não a maior parte, relevantes bens até então materializados
no subúrbio. Em Carapicuíba, o período entre a cristalização do núcleo suburbano desde fins
do século dezenove até 1950, junto a efetiva emancipação em 1964 e a incorporação
normativa à Região Metropolitana de São Paulo em 1967 (lei estadual)72 e 1973 (lei
72 É no ano de 1967, pelo decreto 47.863, que o então governador de São Paulo, Roberto C. de Abreu Sodré,
criava o Conselho de Desenvolvimento da Grande São Paulo72, presidido pelo Governador do estado, como
órgão de caráter consultivo para assuntos atinentes ao desenvolvimento da Área Metropolitana de São Paulo.
Estabelecia-se neste decreto os limites espaciais da Grande São Paulo, compreendida em sua demarcação
preliminar pelos municípios de Barueri, Brás, Caieiras, Carapicuíba, Cajamar, Cotia, Diadema, Embu, Embu
217
federal)73, marca a passagem de muitas mudanças, das quais o modo de vida rural para o
urbano é, sem dúvida, uma das mais significativas.
A passagem de uma ordem espacial tipicamente rural para a urbana não se realiza tão
somente pelas transformações materiais, técnicas e do mundo do trabalho, ainda que elas
sejam centrais e rebatam em outras instâncias do social. Elas afetam diretamente o plano das
tradições, das subjetividades, da cultura em seu sentido mais amplo e, pois, todo o sistema de
significações que se explicam nos modos de viver. Mesmo com a velocidade empreendida na
metropolização de Carapicuíba, as mudanças não foram realizadas abruptamente,
permanecendo as rugosidades patrimoniais, quer pela organicidade e adaptações no plano
cotidiano dessa população, quer pela direta ação do Estado, das normas, das classes sociais,
famílias e instituições com objetivos mais pragmáticos em relação à produção do espaço.
Eu sempre venho de carroça [sobre o transporte usado na ocasião da Festa de Santa
Cruz na Aldeia de Carapicuíba]. Tenho os cavalos, deixo num pasto aqui perto de
casa, desde criança eu mexo com isso, costume da família. Duro que eu fico
preocupado de largar ele ali em baixo, agora aqui roubam de tudo, podem levar
alguma coisa da carroça até o próprio cavalo. [...] Conversa com o tio ali, ele tá de
carona hoje, mas trabalhava desde a época do campo da boiada, melhor amansador
de cavalo de Carapicuíba e região. (Relato colhido de um dos familiares de festeiros
em 04 de maio de 2016, em meio à Festa de Santa Cruz na Aldeia de Carapicuíba).
Aqui todo mundo me conhece por Toninho Boiadeiro. Venho na festa desde muito
tempo. Tem pouco hoje, lotava demais, e olha que não tinha nem luz, imagina, era
luz da fogueira, frio, e uns bambus com fogo em cima ali perto do bar [aponta para o
atual bar de motoqueiros, casas de números 01 e 02, antigo restaurante de empadas
chilenas]. Aqui era chão batido, uma poeira só que levantava, mas bonito de ver,
sabe? Eu era daqui mesmo, trabalhava ali no matadouro do 21, vinha tudo de cavalo,
charrete, o povo vinha de longe, quermesse bonita, cheia, tinha até aqueles guardachuva de doce [...] (Relato colhido de um dos antigos familiares de festeiros em 04
de maio de 2016, em meio à Festa de Santa Cruz na Aldeia de Carapicuíba)
Sem ignorar as transformações no mundo do trabalho, da propriedade da terra e da
intensa urbanização, este fato, por si só, não dá conta de qualificar a complexidade que
Guaçu, Ferraz de Vasconcelos, Francisco Morato, Franco da Rocha, Guarulhos, Itapecerica da Serra, Itapevi,
Itaquaquecetuba, Jandira, Mairiporã, Mauá, Moji das Cruzes, Osasco, Poá, Pirapora do Bom Jesus, Rio Grande
da Serra, Ribeirão Pires, Santana do Parnaíba, Santo André, São Bernardo do Campo, São Caetano do Sul, São
Paulo, Suzano, Taboão da Serra.
73 A materialização da política nacional neste tema, em especial, é dada com o ato de sanção legal de oito regiões
metropolitanas em 1973: Belém (com 2 municípios); Belo Horizonte (com 14 municípios); Curitiba (com 14
municípios); Fortaleza (com 5 municípios); Porto Alegre (com 14 municípios); Recife (com 09 municípios);
Salvador (com 08 municípios); São Paulo (com 37 municípios). E, em 1974, da unificação do Rio de Janeiro e
Guanabara, cria mais uma região metropolitana, a do Rio de Janeiro (GOUVÊA, 2005).
218
carrega o espaço geográfico. Sobretudo na contemporaneidade, em que o modo de produção
ressignifica as cidades, regiões e países, segundo estratégicos interesses, mas também
incorporam dialeticamente a própria condição de resistir a ele. Diversos são os casos, como os
redutos agrícolas e um modo de vida relativamente camponês que sobrevive em plena mancha
urbana paulistana. Ao revés, muitos exemplos podem ser indicados de cidades, que mesmo
distantes das metrópoles, possuem aspectos relativamente semelhantes a uma grande cidade,
inclusive, com a própria negação dos vínculos rurais em razão de um potencial significado de
modernidade vinculado pelos padrões de urbanidade.
A questão do patrimônio cultural, para além mesmo do exemplo setorial, é uma das
mais importantes qualidades deste processo. Além de permear todas as atividades produtivas,
já que os bens estão diretamente enraizados pelos sujeitos nos territórios, o fato é que a
cultura não necessariamente expressa a forma direta e mediata no espaço geográfico. Mas
revelam em seus conteúdos o plano intangível das representações, das diversas
temporalidades que guardam as tradições, os sentimentos de pertencer, os de existir e as
condições de reprodução da vida em sociedade. Mesmo que marcadamente pressionada pelas
relações de produção, a cultura exerce relativa autonomia da economia, transportando no
espaço elementos e fenômenos residuais, rugosidades patrimoniais que, por vezes, não estão
configuradas nas narrativas históricas oficiais, mas gravadas efetivamente no corpo e na
mente dos indivíduos e grupos.
Olha aí, essa casa mesmo é de 1953, um patrimônio aqui, ninguém sabe, só a gente
daqui mesmo. Tudo do patrimônio é lá sobre a Aldeia. Pois aqui era tudo pasto, aí
era um campo de futebol bem grande, ia até aquela esquina, saudade viu? Da família
só fiquei eu, aqui cresceu demais, mas a gente não esquece, não esquece nada [...].
(Entrevistado 06, morador da UIT Centro, 64 anos).
Rapaz, eu gosto daqui, cresci no bairro, tudo que conquistei foi aqui, com muita luta,
sabe? Não tinha nada, era tudo precário, a gente vivia como dava. [...] Lembrança é
dos amigos, da família, do CSU né, do futebol, da rapaziada lá. Eu não tenho
intenção de mudar, aqui fiz minha vida. (Entrevistado 07, morador da UIT Cidade
Ariston, 45 anos).
Em Carapicuíba, porém, fundem-se muito particularmente os planos do patrimônio
cultural, tanto do intangível, quanto do material, se é que uma separação seja coerente.
Realidade que carrega desde os alicerces coloniais da formação territorial da maior metrópole
brasileira, até as especiais tradições e modos de viver historicamente no quadrilátero da
219
Aldeia. Contribui não apenas ao pensamento multiescalar e dialético da produção particular
das famílias locais, do próprio município, ou da RMSP, mas da sua condição universal
estabelecida nas estratégias coloniais, na renda da terra, na reserva de mão de obra, ou na
consolidação de uma das maiores aglomerações espaciais do planeta. Ao mesmo tempo,
permanecendo parte das festividades tradicionais, os ritos, as relações entre as famílias que
desde muito tempo guardam relíquias imateriais nas tantas memórias que as envolvem.
Ao considerar vários documentos, mapas, relatórios, estudos e levantamentos técnicos,
além dos diálogos com a população local, as análises levam a considerar a centralidade dos
elementos normativos, que não apenas contextualizam o desenvolvimento das rugosidades nas
décadas de 1980 até hoje, como detalham intervenções precisas de restauro e orientação dos
moradores locais desde 1940. A reflexão é sobreposta também às políticas estabelecidas na
escala municipal em congruência com os da região metropolitana, bem como as
recomendações internacionais que subsidiam o pensamento e as práticas de conservação,
preservação e difusão do patrimônio cultural desde então. Outro elemento que se descortinou,
tornada central nas análises, foi a Festa de Santa Cruz na Aldeia, uma proeminência da
sacralização do rito e do espaço, que permite rememorações e relações combinadas entre
antigos moradores em meio as festividades.
A metropolização de Carapicuíba, historicamente operada em favor de São Paulo,
passa à condição institucional, do qual a gestão e o planejamento de seus territórios estão
normativamente encadeados a entidade regional. Em grande medida, a política urbana agora
estará compassada à política cultural, onde o papel da Aldeia desponta como central nos
primitivos planos de desenvolvimento territorial e do qual o PDDI de 1981 destaca. Ele deriva
da institucionalização da metrópole paulista, de um processo mais amplo de debates em torno
das primeiras políticas metropolitanas travadas em São Paulo, que deriva no zoneamento do
conjunto como área de interesse especial, por seu valor histórico. Este documento legal acaba
por apoiar mais amplamente o desenvolvimento metropolitano e, por sua vez, orienta o
parcelamento e regularização do uso do solo de Carapicuíba, instituído pela Lei 714, de
25/04/1984. De fato, entre as décadas de 1960 e 1980, ainda que pioneiro e incipiente, além
do DPHAN, depois o IPHAN, como também o CONDEPHAAT74 (que tomba o conjunto ex 74 No estado de São Paulo é criado o Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e
Turístico – CONDEPHAAT, por meio da Lei nº 10.247, de 22 de Outubro de 1968. O conselho foi instituído
com a finalidade de proteger, valorizar e divulgar o patrimônio cultural no estado de São Paulo. Estas atribuições
foram confirmadas, em 1989, pela Constituição do Estado de São Paulo, através do Artigo 261, deliberando que
220
officio em 24/07/1974) atuarem diretamente sobre o conjunto, a municipalidade, bem como a
entidade regional representada pela EMPLASA, passam a integrar comissões no sentido de
racionalizar e qualificar as premissas de preservação da Aldeia de Carapicuíba. Esta, cada vez
mais pressionada em relação à explosão demográfica em curso e, por consequência, a
ocupação irregular do entorno, bem como das intervenções modernizantes em todo conjunto.
Se a retórica da perda é fundamental aos projetos políticos da Aldeia enquanto documento da
história nacional, os conflitos com os moradores locais se acentuavam pelas novas restrições
estabelecidas no acesso e usufruto das modernizações.
Contraditoriamente, essas políticas se acentuam concomitantemente ao abandono
institucional da área nos anos anteriores. Em ofício75 da direção da 9ª DRSPHAN ao
Ministério da Cultura (MINC), datado de 1986, notificando sobre as proposições de
planejamento da EMPLASA e o enquadramento do conjunto urbanístico e arquitetônico da
Aldeia na lista de prioridades e interesses do Programa de Recuperação e Revitalização de
Núcleos Históricos do MINC, é possível ratificar as proposições aventadas anteriormente.
Pois, no referido documento, exaspera-se o caráter da tensão exercida pela metropolização.
Num primeiro ponto acerca do trânsito que gradativamente impacta os bens, depois pelas
ocupações irregulares no entorno, descaracterizando a paisagem nos limites do monumento
tombado e, ao final, a precária condição do próprio conjunto, referindo-se mais
especificamente às casas, como ilustra a Figura 36.
Tensões exercidas pela metropolização de São Paulo na Aldeia de Carapicuíba
Figura 36: À esquerda, imagem da casa 16, parcialmente destruída. À direita, imagem de uma casa de alvenaria,
situada às margens do conjunto.
Fonte: 9ª SRIPHAN/SP – 1983. Organizado pelo autor, 2016.
o “Poder Público pesquisará, identificará, protegerá e valorizará o patrimônio cultural paulista, através do
Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico do Estado de São Paulo.”
(CONDEPHAAT, 2010).
75 Ofício número 177 (?) de 08 de agosto de 1986 (SRDPHAN/FNPM). Disposta atualmente na 9ª
Superintendência Regional do IPHAN/SP. Arquivo: Pasta 00064-0218-T-39-5/11(5). Conjunto Arquitetônico e
Urbanístico (Intervenção em Bens Imóveis Tombados).
221
A justificativa do órgão em defesa do monumento frente à metropolização neste
documento é complementada por outras alegações, como a da singularidade da Aldeia, ao
tratar-se do único conjunto de edificações tombadas pelo SPHAN no estado de São Paulo que
seria testemunho dos primeiros séculos de colonização. Exalta-se, outra vez mais, o caráter
reduzido geograficamente de conjuntos tombados em âmbito federal em São Paulo. Ainda
conforme o ofício supracitado, pela relativa simplicidade e fragilidade do conjunto, mereceria
atenção especial considerando a sua importância histórica. Essa separação e individualização
da Aldeia de Carapicuíba da totalidade urbana-metropolitana, faz dela uma anomalia, a qual
seus moradores, gradativamente são surpreendidos com ações verticais e pouco democráticas
sobre seus espaços de vida. O que para Scarlato e Costa (2013) representaria um
deslocamento de pensamentos e práticas, que agravam a perda da existência histórica e
memorial, ao tentar segmentar e separar o fragmento da totalidade sem a ela retornar os fatos
ante as contradições e identidades que revelam a cidade. Esta segmentação da Aldeia de
Carapicuíba privilegiaria a salvaguarda fragmentária, que reverbera a história da cidade numa
história institucional, catalisada formalmente em bens específicos, desconsiderando que ela só
se revela em relação ao todo.
Os limites ampliados da metropolização fazem com que os requerimentos e pedidos
diversos de intervenção a 9ª SRIPHAN/SP deixem as pequenas obras pontuais dos moradores,
para agora se concentrarem na avaliação sobre pedidos de criação de loteamentos adjacentes e
áreas industriais pela municipalidade, como o Parque Jandaia, ou o Distrito Industrial. As
discussões ainda concentram-se, por fim, nas novas demandas modernizantes da área, o que
poderia impactar diretamente o conjunto, porém, dialeticamente, quando já se estabelecia a
sua degradação pelo relativo abandono dos próprios órgãos públicos e a incapacidade técnica,
procedimental e financeira dos moradores na preservação. Já em princípios da década de
1990, como evidenciam as imagens das Figuras 38 e 39, obtidas por levantamento de equipe
técnica do IPHAN, as condições arquitetônicas e urbanísticas da Aldeia mantinham-se, como
na década anterior, bastante precárias, inclusive com o avanço de postes, fios elétricos,
ocupações e construções modernas que gradativamente iam descaracterizando paulatinamente
a tão buscada originalidade do conjunto.
Mesmo as orientações legais, como a mudança do fluxo de veículos, permaneciam
sem qualquer alteração, prevalecendo o descompasso dos projetos e estratégias elencadas
222
conjuntamente em relação às práticas exercidas naquele espaço. Ao longo dos levantamentos,
observa-se que além das premissas teóricas assentadas no fenômeno de urbanização e do
processo de metropolização, emergem importantes pistas das tensões exercidas pelas novas
dinâmicas de aglomeração e do sistema cultural sobre as rugosidades patrimoniais de
Carapicuíba. Tensões estas que não apenas resultam da destruição de parte das formas
geográficas tombadas, ou das mudanças funcionais dos espaços, mas também de sua
reprodutibilidade técnica, ou da manutenção da própria paisagem. Se num momento estas
ações são coordenadas e orientadas por técnicos do patrimônio, base institucional que pensa
normativamente e aplica consolidadas diretrizes internacionais, em outro sobressaem soluções
alternativas da população, das quais condicionam a reprodução da vida em grupo e se
cristalizam na precariedade de sua sobrevivência (Figuras 37 e 38).
Impactos resultantes da metropolização na Aldeia de Carapicuíba – 1991
Figura 37: Fotos mostram diversas descaraterizações sofridas entre as décadas de 1970 e 1980: postes,
calçamentos, cobertura do solo por massa asfáltica e novas construções.
Fonte: 9ª SRIPHAN/SP – 1991. Organizadas pelo autor, 2016.
223
Impactos resultantes da metropolização na Aldeia de Carapicuíba – 1991
Figura 38: Fotos mostram diversas descaraterizações sofridas entre as décadas de 1970 e 1980: postes,
calçamentos, cobertura do solo por massa asfáltica e novas construções.
Fonte: 9ª SRIPHAN/SP – 1991. Organizadas pelo autor, 2016.
No primeiro plano, das formas e espaços em microescala, várias adaptações foram
realizadas nas casas sem devida orientação, ou em outros casos em que não houve soluções
dos moradores, respeitando-se o tombamento e as bases institucionais, as condições eram de
abandono e precariedade. No segundo plano, da escala metropolitana, havia em curso, em
toda a área do entorno e grande parte dos subúrbios paulistanos, o processo de favelização,
consumado pela periferização de todo território de Carapicuíba, do qual a Aldeia não era
poupada. Além disso, praticamente todas as diretrizes do PDDI (1981), ou aquelas
estabelecidas na década anterior pelo plano diretor municipal, não haviam sido efetivamente
realizadas, como o desvio do trânsito da Aldeia, ou a criação de espaços mais adequados
visando o estacionamento de veículos, ou a realização de atividades menos impactantes.
Obras de modernização se efetivaram contrariamente às orientações dos planos, como o
asfaltamento do largo, ou a construção de um amplo degrau para proteção do cruzeiro jesuíta
diante do trânsito pesado pela Aldeia. Em terceiro plano, do fenômeno urbano, a reprodução
do drama nos subúrbios paulistanos verificava-se nos graves problemas econômico-sociais,
materializados tanto pelo desenvolvimento desigual das regiões em escala nacional, quanto
pelas determinações da divisão territorial do trabalho nas perversidades observadas
fundamentalmente nos países subdesenvolvidos.
Por fim, no período de periferização de Carapicuíba, que se acentua entre as décadas
de 1970 até fins da década de 1990, resistem grande parte dos bens diante do relativo
224
abandono institucional e das modernizações que se operam em seu entorno, ou que se
estabelecem no próprio conjunto urbanístico e arquitetônico demarcado e instituído. No caso
imaterial, plano que talvez mais tenha se transformado neste contexto, cabe destacar,
novamente, a continuidade da Festa de Santa Cruz como elemento central da valorização
simbólica e funcional do espaço que se perpetuava no tempo. Cabe destacar ainda o papel da
entidade federal após tombamento, além de órgãos estaduais, metropolitanos e municipais que
passam gradativamente a apoiar projetos e ações sobre o patrimônio cultural ali situado. Esta
realidade permite defender, uma vez mais, que se não diretamente, ao menos indiretamente o
Estado potencializou a permanência de algumas rugosidades patrimoniais, ligadas sobretudo
ao conjunto arquitetônico e que constituiu ideologicamente a produção de valor dos bens ali
edificados. Não tão efetivo, porém, foi a ênfase nas circunstâncias imateriais e dos
simbolismos enraizados na cultura caipira e das tradições religiosas.
Elementos que, todavia, as famílias conservavam por mais de um século naquele lugar
e que concomitantemente a preocupação institucional com as formas geográficas da Aldeia,
iam mantendo como podiam as tradições seculares. Os desdobramentos da vida cotidiana
moderna impactavam diretamente esta realidade, que nos leva a acreditar que a concretização
das festas e tradições só foi possível graças aos esforços coletivos das famílias que tiveram
seus filhos e netos ainda iniciados nas atividades pretéritas, mantendo-se em pleno século
vinte e um. O que, no entanto, não assegura plenamente a reprodução mais contemporânea
destas manifestações culturais pelas novas gerações. Se foram estas manifestações condições
operantes mais fundamentais da permanência do pequeno povoado caipira, do conjunto
relativamente isolado e com importantes funções religiosas, “descoberto” e descrito por Luís
Saia em 1937, com a normatização estabelecida pelo Estado em 1940, a dinâmica de atuação
institucional e a de expansão metropolitana, levam a questionar qual exatamente seria o papel
da população local nestes novos tempos? Se foi condição fundamental da preservação no
passado, com a realização dos ritos e a reprodução das tradições religiosas e profanas no
espaço da Aldeia, fortalecendo laços e rememorando sua unidade, como isso funcionaria
precisamente em períodos mais recentes? O evento da patrimonialização altera em que
sentido esse papel historicamente exercido pelos moradores na permanência do espaço e
reprodução das relações sociais? Estas questões são algumas à balizar as reflexões seguintes e
que se concatenam também no capítulo final da tese.
225
5.3 Os conceitos de subúrbio e periferia para pensar as rugosidades na metrópole de São Paulo
Esse lugar é um pesadelo periférico
Fica no pico numérico de população
[...]
Aqui a visão já não é tão bela...
Não existe outro lugar...
Periferia é periferia...
[...]
Periferia é periferia... Milhares de casas amontoadas...
Periferia é periferia... Vacilou, ficou pequeno pode acreditar...
Periferia é periferia... Em qualquer lugar... Gente pobre...
[...]
Periferia é periferia... Vários botecos abertos, várias escolas vazias...
Periferia é periferia... E a maioria por aqui se parece comigo...
Periferia é periferia... Mães chorando, irmãos se matando, até quando...
Periferia é periferia... Em qualquer lugar.... Gente pobre....
[...]
Periferia é periferia... Deixe o crack de lado, escute meu recado...
(RACIONAIS MC’S – Periferia é periferia)
A letra “Periferia é periferia” do grupo de rap paulistano “Racionais MC’s” evidencia
algumas qualidades fundamentais do fenômeno de periferização resultante do fenômeno
urbano-metropolitano. O pesadelo de viver às margens da civilidade, nas grandes
aglomerações humanas de um país subdesenvolvido, com prevalência da pobreza e violência,
são focos musicados pelos artistas que cresceram e vivem no Capão Redondo, uma das
maiores áreas periféricas de São Paulo. A visão da paisagem, segundo eles, já não é tão bela:
lixo, viciados, drogados, botecos, escolas vazias. O trabalho precário e marginalizado, que
ocupa o tempo da população, permite que seus filhos sejam cooptados pelo crime, pelo
tráfico, perpetuando a reprodução dos graves problemas sociais que afligem esses lugares.
Fruto do modo de produção e da urbanização contemporânea, a periferia se concretiza em
múltiplas escalas. São, pois, fatos urbanos, concretudes do processo de metropolização,
subconjuntos das grandes cidades. Uma unidade, no entanto, se sobressai, “periferia é
periferia em qualquer lugar” e “a maioria aqui se parece comigo”. Respectivamente,
universalidade e relações de pertencimento pela semelhança despontam na música, mostrando
a unidade, as relações de familiaridade e de vínculos sociais.
Slums é o termo anglo-americano que Mike Davis (2006) atribui às novas formas de
habitar e sobreviver num submundo de pobreza generalizado. Trata-se de uma das facetas da
generalização do fenômeno urbano, a generalização das favelas, dos barracos, o “climatério
urbano” em que se ultrapassa na atualidade a marca de um bilhão de seres humanos
empobrecidos nas cidades, sobretudo dos países subdesenvolvidos, mas não apenas nelas. Tal
realidade desponta no filme “O Ódio” de Mathieu Kassovitz, analisado por Harvey (2013),
226
em relação aos subúrbios franceses, cenário onde há maior convergência de semelhanças, do
que propriamente diferenças da situação de vida periférica entre o mundo desenvolvido e
subdesenvolvido. Em uma das cenas é possível observar a surpresa dos jovens da periferia,
que protagonizam o longa-metragem, ao recebem tratamento cavalheiro e cordial dos policiais
no centro de Paris, em relação à truculência que agem nos espaços marginais da capital. Os
três jovens amigos que vivem na periferia parisiense ainda carregam origens conflitantes: o
primeiro ascendente africano, o segundo judeu e o último árabe, todos, porém, tem na
marginalização do êxodo uma raiz identitária, assim como uma trajetória geográfica comum
que os une. Assim também, o que dizer dos guetos étnicos e de pobreza no Brasil, ou Estados
Unidos (países tão diferentes)? Musicados pela banda de rock carioca O Rappa, há um
trabalho cuidadoso em exprimir essas semelhanças no refrão: “tudo, tudo, tudo, tudo igual /
Brixton ou Bronx ou Baixada / Salve o jazz, baião e os toques da macumba também”76. Seus
versos apontam para as universalidades do gueto em vários pontos do planeta, da exclusão, ou
da segregação étnico-espacial que se agrava, sem restrição, nos grandes centros
metropolitanos. Se a generalização do urbano traz novas dinâmicas sociais é este fato que
obriga também novas reflexões em relação às cidades nas ciências humanas e sociais. A
sociedade urbana (LEFÈBVRE, 2012), enquanto uma hipótese teórica central é uma
importante baliza, assim como as hipóteses abaixo colocadas, que do mesmo modo carrega
uma carga de ambiguidade e não encerram qualquer discussão, ou tese. Tornam-se, em
verdade, um ponto de partida e não um ponto final.
A urbanização assumiu as raias de uma hiperurbanização, especialmente a partir da
década de 1950, tendo o ritmo de urbanização sofrido uma aceleração que originou
uma grande revolução ecológica, política, econômica e social na organização
espacial da população mundial. A proporção da população global em crescimento
que vive nas cidades duplicou em trinta anos, e observamos atualmente maciças
concentrações espaciais de pessoas numa escala até agora julgada inconcebível.
Vêm se formando cidades e sistemas urbanos mundiais (como os que surgem, por
exemplo, em toda a Europa) que têm tido rápidos efeitos de transformação no
funcionamento da economia política global. Os centros urbanos e suas regiões
metropolitanas tornaram-se entidades competitivas bem mais importantes na
economia mundial, com todo tipo de consequências políticas e econômicas
(HARVEY, 2013, p. 94).
Os modelos espaciais clássicos, destacadamente o de centro e periferia, são colocados
em xeque frente ao fim das antigas dicotomias urbano-rural (em que as noções de campo e
cidade passam por novas conceituações: ruralidades e urbanidades no que tange ao sistema
76 Brixton, Bronx Ou Baixada. O Rappa. Compositor: Marcelo Yuka e Nelson Meirelles - DRX - LPA.
227
cultural; em relação à aglomeração torna-se comum o termo “rurbano” – junção entre espaços
aglomerativos e difusos da cidade e do campo; no plano econômico, a revolução verde
moderniza o campo, gerando a agroindústria e novas cidades rurais, entre outras dimensões
que podem ser exploradas), como também entre as escalas geográficas local-global (cidades
globais, cidades mundiais, teorização sobre as redes, seus fixos e fluxos). O peso da história
também parece padecer frente à era dos “pós” (“pós-moderno”, “pós-industrial”, “pósurbano”) e das distopias. Elementos que indubitavelmente confrontam o pensar dos conceitos
de periferia e de subúrbio, que mudaram radicalmente com a expansão do fenômeno urbano e
o crescimento das cidades.
Em verdade, no âmbito da lógica dialética todos os modelos podem e devem ser
colocados em prova. O modelo, como mera tautologia representativa da imaginação, da
criação abstrata e subjetiva do ser social, é uma produção frágil e contextual da cultura: seja
ele religioso, científico e até filosófico. Como sinaliza Harvey (1992), logo na tese
introdutória de sua mais representativa produção, as mudanças em curso no mundo
contemporâneo são seletivas e parciais, cujos propósitos ainda continuam a ser o da
reprodução das relações capitalistas, bem como da força de trabalho numa nova dimensão
internacional, mais complexa e reestruturada espacialmente. “[...] Essas mudanças, quando
confrontadas com as regras básicas de acumulação capitalista, mostram-se mais como
transformações da aparência superficial do que como sinais do surgimento de alguma
sociedade pós-capitalista ou mesmo pós-industrial inteiramente nova.” (HARVEY, 1992, p.
08).
Soja (1993) também desmantela tais conjecturas, ao evidenciar as reestruturações
espaço-temporais como momentos recentes estabelecidos pela necessidade de ampliação do
modo de produção capitalista em meio a uma série de crises contínuas77 no pós-guerra.
Assim, pois, o fim de uma era, do passado, não pode ser jogado fora ou descartado e,
portanto, a história como presente é o pilar crítico do desenvolvimento capitalista das cidades
77 “[...] Mais especificamente, elas podem ser vistas como uma cadeia complexa de crises: na divisão
internacional do trabalho estabelecida e na distribuição global do poder político e econômico; nas funções
expandidas e hoje claramente contraditórias do estado nacional; nos sistemas previdenciários keynesianos e nos
contratos sociais estabilizadores entre governos, empresas e a mão de obra organizada; nos padrões de
desenvolvimento regional desigual que se haviam tornado tão solidamente estabelecido dentro do dos países no
século anterior; nas formas de exploração das mulheres, das minorias e do meio ambiente natural; na morfologia
espacial, na industrialização e no financiamento financeiro das cidades e das áreas metropolitanas; na concepção
e na infraestrutura do meio ambiente construído e do consumo coletivo; e nos modos como as relações de
produção capitalistas se imprimem na vida cotidiana, desde o processo de trabalho no local de trabalho até a
reprodução da vida, da mão de obra e do poder patriarcal na família e no lar.” (SOJA, 1993, p. 194-195).
228
na nova ordem urbano-global (COSTA et. al., 2015). Harvey (2013) é ainda mais crítico, ao
ver diversas narrativas trazerem a globalização como fenômeno atual da reestruturação
capitalista, quando, em verdade, este se opera no mínimo desde a expansão colonial no século
quinze. E, contraditoriamente, ao tempo em que se realiza uma drástica organização
geográfica, falsamente destituída de conflitos e tensões, em favor da fluidez e permeabilidade
do modo de produção, mais visíveis ficam as lutas entre classes e entre os lugares, que “com
muita frequência se interpenetram, e que o capitalismo pode muitas vezes conter a luta de
classes por meio de uma estratégia de dividir para governar aplicada a essa luta” (HARVEY,
2013, p. 85).
Entendendo estas mudanças pela ótica de diversas intervenções estruturais das cidades
e o novo arranjo espacial do urbano, gestados a partida década de 1970, é necessário que se
faça uma reflexão crítica de que, apesar de avanços, as relações nas grandes cidades
continuam a favorecer a reprodução ampliada da condição de desigualdade, onde as novas
etapas selam o retrógrado padrão de pobreza e acumulação extremos (ARANTES, 2002).
Altera-se os contextos, reestrutura-se a produção, que é concentrada e, depois, pulverizada, e
se perpetuam intervenções de todos os níveis e escalas nas cidades, adaptadas a fluidez do
capital e dos grandes projetos internacionais para seletivos territórios. Passamos de uma
cidade que condiciona a produção de valor e a acumulação, para uma metrópole que é em si o
próprio valor de troca materializado enquanto mercadoria, sendo geridas e consumidas para a
acumulação em todo planeta. Portanto, altera-se determinadas relações importantes, mas a
mesma lógica produtiva se perpetua outra vez mais, sobre diferentes ângulos, novas práticas e
denominações.
Ora, a impressão que se tem é que, apesar da nova fraseologia interativa, estamos
diante da reposição da armadilha clássica do subdesenvolvimento (ou seja, da
modernização sem desenvolvimento, isto é, sem homogeneização social), a velha
dualidade brasileira, elevada aliás agora a paradigma da polarização mundializada.
Aliás, salta à vista antecipada do skylíne do terciário avançado qual será o padrão
que servirá de parâmetro para a valorização recuperadora, o estilo característico da
riqueza, por definição não universalizável, do núcleo orgânico do sistema. Esta
antena global tampouco irradiará socialmente também, como nunca foi o caso,
noutros períodos de reprodução de nossa pobreza em massa, do padrão cosmopolita
de consumo das elites periféricas, a cujos requisitos a modernização vinha então
atender (ARANTES, 2002, p. 69).
No movimento globalizante e globalizador do capital, como drenar todas as
especulações criadas em torno de fins e de começos que se teorizam na operação diacrônica
das novas posições estabelecidas pelos objetos geográficos? Ou pelas funções despertadas
229
indissociavelmente entre uma e outra forma em suas articulações multiescalares? Se a
literatura internacional compreende e classifica como subúrbios as cidades e áreas
administrativas geograficamente marginais, distantes porém interligadas regionalmente a
cidade-polo metropolitana, influenciando escritos em todos os países ao longo do último do
século, é a noção de periferia que será edificada como melhor retrato das contradições urbanas
do modo de produção capitalista nos países subdesenvolvidos. E, no extremo, da própria
conversão do subúrbio em periferia, quando os limites territoriais do grande centro passam a
ser virtuais diante do processo de conurbação e a metabolização do aglomerado numa única
mancha urbana.
Ao conjecturar acerca da compressão espaço-tempo, Harvey (1992) fundamenta
importantes hipóteses das novas dimensões geográficas estabelecidas com o avanço
tecnológico dos meios de transporte, de locomoção e mobilidade, mas também das unidades
regionais criadas com objetivos econômicos, políticos e culturais. Traduzidas pela noção de
“ideologias geográficas”, Moraes (1988, p. 93) explica que a construção das identidades
regionais carregam falsas comunidades de interesse. Isso é particularmente importante no
caso da pesquisa, considerando que muitos valores locais, nem sempre são concretamente
aqueles históricos, mas atuam tão somente aos objetivos corporativos que se constroem na
união entre capital e Estado. O que merece cuidado, pois a pulverização destes projetos
modernizantes, ou a criação de condições para a difusão dos interesses hegemônicos, só é
possível em favor de uma aceitação, uma mentalidade aliada aos fragmentos, cujos
regionalismos ou nacionalismos, junto a instalação dos meios técnicos, permitem um fluxo
ainda mais intenso de mercadorias, pessoas e serviços, operando simultaneamente como
difusores de comportamentos, padrões de vida e modos de se relacionar. Enquanto as
limitações geográficas (rugosidades patrimoniais, barreiras, fronteiras, contornos políticoadministrativos), bem demarcadas das periferias ou áreas suburbanas passam a ser
tensionadas e reconfiguradas. A metrópole é extrapolada em uma nova dinâmica de limites
fragmentados e interconectados, reais e virtuais, onde seus impactos em países
subdesenvolvidos, no rebordo marginal do sistema mundo, merece atenção pela peculiaridade
destes processos. Ali, as condições de vida revelam o drama que a retórica da modernidade e
das ideologias geográficas não exaltaram ou deixaram de explicitar em diferentes fases do
processo histórico.
Tal eficácia advém do fato de esses valores servirem à fragmentação da organização
popular. As entidades restritas obstaculizam a soldagem dos interesses políticos dos
230
dominados, em escalas maiores. O regionalismo é, assim, um grande instrumento de
separação e de diferenciação. Observa-se que a identidade pelo espaço, ao mesmo
tempo que cimenta concepções nacionais ao nível das classes dominantes, atua na
dispersão dos dominados, em seu secionamento no território. Para as elites, o
nacional como horizonte geográfico para as classes populares, o local ou no máximo
o regional como perspectiva de espaço. Portanto, a concepção do território unindo
ou dividindo os sujeitos políticos (MORAES, 1988, p. 101).
Esta fragmentação da organização popular é operada a todo vapor nas grandes cidades,
em todo planeta. Do que resulta uma série de concepções e limites conceituais entre espaços
marginais, que na prática, derivam da espoliação contínua do trabalho e da terra, mas que na
teoria são focos de reivindicações e de projetos ambíguos e diferenciados, ou, por outro lado,
clientelistas, populistas e orientados a interesses particularizados de grupos sociais. Porém,
antes de entrar propriamente na análise teórico-conceitual das noções de subúrbio e periferia
na contemporaneidade, vale um retrospecto que intenta subsidiar um pouco mais sobre seu
entendimento e aplicação. Na visão clássica de George (1983), a princípio, a noção de
subúrbio desponta enquanto uma unidade territorial, que carrega um sentido deliberadamente
pejorativo; daquilo que está fora da cidade, ou seja, desprovido do privilégio dos citadinos.
Estes últimos, isentos de obrigações, direitos e deveres. “O subúrbio é, originalmente, e
juridicamente, o bairro suburbano que escapa às taxações e obrigações da cidade, mas
também de seus privilégios e de sua proteção.” (GEORGE, 1983, p. 76). Esta designação é
apropriada pela condição de não-cidade que deriva o aldeamento em cinturão caipira, ou
mesmo nos limites da industrialização de São Paulo em que Carapicuíba esteve a parte do
fenômeno urbano e das civilidades despertadas por ele. O pejorativo remete as tantas falas que
os mais velhos moradores indicavam da ausência de infra-estrutura, da designação de “pé
sujo” e da distância propriamente que viviam da cidade, de São Paulo.
Em grande parte da Europa ou Estados Unidos, o subúrbio é um bairro distante da
cidade e não se configura propriamente como um município ou distrito. Este conceito também
perde no tempo a conotação pejorativa, tipicamente europeia diga-se de passagem, ganhando
significação de uma área de expansão urbana simplesmente, um centro em particular e, mais
atualmente, espaço valorizado, de refúgio das mazelas urbanas e das grandes cidades. O
sentido clássico trazido por George (1983), no entanto, passa a ser mais adequado em certa
medida ao conceito de periferia atualmente, no que tange sua carga negativa inicial, ou como
no Brasil enquanto qualidade do trabalhador. Esta última qualificação emerge nos discursos e
nas formas de agir reforçando em diversas ações, um projeto identitário de classe. Porém, para
George (1983), a ideia de periferia estaria associada à de ausência e, pois, de dependência
231
local de estruturas regionais, não havendo uma ambivalência de ganhos e perdas que o
subúrbio expressaria. O que converge também com as ideias de Martins (2001), que vê a
necessidade de separar conceitualmente subúrbio e periferia, entendendo, pois, cada problema
que essas unidades possuem em particular.
[...] De todo modo, as zonas periféricas são desprovidas de quadros financeiros,
administrativos, culturais, acima da escala estritamente local. Elas são, então,
reatadas organicamente, por laços complementares, com a cidade, ou formam
complexos arbitrados pela cidade e no interior dos quais efetuam trocas de produtos
e serviços (GEORGE, 1983, p. 79).
O problema da periferia é o problema do tumulto da ocupação, o da urbanização
patológica, da exclusão, da falta de efetivas alternativas no mundo urbano. O
problema do subúrbio é hoje essencialmente o problema da velhice, do encontro de
políticas públicas para lidar com os idosos e, sobretudo, para que continuem tendo
crescente acesso a um modo de vida em desenvolvimento, propriamente urbano, que
aponta na direção do bem estar social. O problema da periferia é o do
desenvolvimento econômico. O problema do subúrbio é o do desenvolvimento
social, o da realização ampla das promessas do desenvolvimento econômico que o
subúrbio já conheceu. Isso significa, em grande parte, uma revolução cultural
(MARTINS, 2001, p. 79).
Mesmo sendo diferentes, periferia e subúrbio podem ser coincidentes. Este é um ponto
central, já que a expansão da pobreza, da cidade informal e “não planejada”, do
desenvolvimento desigual, em vários países e regiões, se materializa nos subúrbios,
sobrepondo aspectos muitas vezes remanescentes da cultura rural com a marginalidade
periférica produzida pelo sistema urbano. “Os conceitos de subúrbio e periferia reportam-se a
realidades diferentes, embora às vezes possam ser coincidentes.” (LANGENBUCH, 2001,
p.89). As periferias se esparramam desde algumas décadas aos subúrbios, criando uma
unidade totalmente compacta e complexa, que pode ser exemplificado com o caso da
expansão do Capão Redondo entre São Paulo e Embu das Artes, ao sudeste da RMSP, ou
mesmo entre Osasco e Carapicuíba, na zona oeste, em meio a expansão dos conjuntos
habitacionais. No entanto, se o limite administrativo é fundamental na caracterização de
subúrbio, a periferia não depende necessariamente de uma localização, menos ainda da
formalidade jurídica e normativa de estar contida no perímetro urbano, de um núcleo da
região metropolitana, ou áreas rurais. Esta pode estar no centro de Paris, ou no subúrbio de
Mumbai, no centro de São Paulo, ou nos limites da metrópole, como Itapevi (município da
RMSP), ou em Parelheiros (extremo sul do município de São Paulo).
232
Periferia não pressupõe a intercalação entre ocupação urbana incipiente e campo,
que nos subúrbios se não for mais verificada hoje, já ocorreu no passado. Pelo
contrário, a periferia pode ser caracterizada por elevada densidade de construções
urbanas e pessoas, quase sem deixar espaços abertos em seu permeio. Também não
há nenhuma vinculação com limites administrativos, que no caso dos subúrbios pode
ou não ser considerada fundamental. Quando se fala em periferia, quase sempre o
pensamento recai em espaços de uso residencial (com o pequeno equipamento de
comércio e serviços necessários ao atendimento local), raramente se incluindo áreas
industriais na concepção mental, enquanto para os subúrbios, tanto geógrafos
franceses como americanos, seguidos pelos brasileiros propõem até classificações
funcionais, adjetivando-os: residenciais, industriais recreativos, hortícolas, etc. Além
disso, o termo periferia é empregado em várias escalas diferentes (LANGENBUCH,
2001, p. 89).
Para Bonduki e Rolnik (1979) é importante definir periferia como parte do território
da cidade com baixa renda diferencial. Segundo os autores, as noções geográficas de periferia
(margem, distância do centro), ou sociológicas (habitação das classes trabalhadoras) seriam
insuficientes sem esta perspectiva econômica da renda fundiária e sua valorização relacional
pela presença de equipamentos urbanos. Recentemente, ao estudar a construção social do
conceito de periferia, utilizando como recorte a metrópole de São Paulo, Tanaka (2006) chega
à conclusão de que sua maior contribuição carrega “carga conceitual contida na noção
sociológica de singularidade de uma sociedade subdesenvolvida” (TANAKA, 2006, p. 138 –
grifo nosso). Trata-se da cidade informal, distante da regulação e controle do Estado, mas que
dialeticamente nutri a cidade formal e só existe em relação a esta. Assim, portanto, sua
generalização é muito dificultada, já que cada favela, cortiço e conjuntos de barracos, mesmo
contendo elementos comuns, tem na dimensão relacional, da qual dialoga-se com Bourdieu
(1999), de cidades e contextos específicos o quadro fundamental de suas características.
Segundo ainda autora supracitada, o conceito de periferia sofreu esvaziamento ao
longo da década de 1990, o que hoje seria insuficiente arcabouço explicativo da realidade
urbana, um descompasso do prospecto teórico em relação à realidade empírica. Segundo ela,
o conceito de periferia perdeu seu referencial analítico, sendo incapaz de dar sentido as lutas e
movimentos sociais urbanos (TANAKA, 2006, p. 154). Discordamos em grande medida,
acreditando do poder de universalização que todo conceito tem, ao menos provisoriamente,
bem como no papel identitário e de pertencimento que hoje ganham as periferias em todo
planeta. No entanto, em grande medida, se em alguns países os subúrbios são referências de
qualidade de vida, integrado à vida urbana da cidade-polo, com certas facilidades de acesso
aos serviços e equipamentos públicos e privados, no Brasil ele se confunde por esses aspectos
supracitados (renda diferencial do solo urbano, distância das instituições e equipamentos
públicos, além de serviços como os de segurança, saúde, ou educação) com a própria
233
dimensão de periferia. Trata-se, pois, de uma confusão comum no Brasil, considerando que
mesmo o uso político generalizado da noção de periferia, esta possivelmente já vem sendo
uma das características do subúrbio, ou de algumas cidades suburbanas, que passaram a
receber e concentrar grande parte dos trabalhadores e as populações mais pobres que ali foram
se instalando ao longo das últimas décadas do século passado.
Tanaka (2006) ainda insiste que “[...] a produção da periferia explicada pela
superexploração da força do trabalho não tem mais o sentido anterior, na medida em que hoje
não é mais suficiente explicar a pobreza urbana pelo rebaixamento dos salários dos
trabalhadores industriais” (2006, p. 154). De fato, a periferia mudou, talvez não seja explicada
exclusivamente pela relação estruturada entre centro-periferia, ou as condições de trabalho do
passado, e mesmo talvez pela diferença de renda fundiária. Porém, negá-la como
concreticidade espacial da exclusão e, ainda, dissociar desigualdade social da desigualdade
urbana (acesso à terra e benefícios da urbanização), justificando sua fragilidade explicativa
hoje é desperdiçar anos de formulação teórica e a contribuição de diversos intelectuais latinoamericanos na prática de projetos urbanos nestes espaços. Mais além, é perder o potencial que
a noção de periferia ganhou no senso comum e hoje empreende certa unidade identitária e
simbólica. Essas dimensões implicam no sentimento de pertencer, grandeza social
representada não apenas como reflexo das intenções político-partidárias, ou mera ideologia
populista, mas na produção da vida cotidiana, nas diversas atividades práticas.
Consequentemente reproduzidas, estas ações podem ser retratadas em alguns versos musicais
de “Fim de Semana no Parque” do grupo Racionais MC’s, do início da década de 1990 e mais
recentemente, com torcedores organizados reverenciando as favelas e periferias em escala
mundial, frente a mídia de massa (Figura 39). O que leva a reflexão se as dimensões de
periferia se ampliaram, foram reestruturadas, concretamente se moveram para outras áreas e
municípios, ou atingiram o plano imaterial dos modos de viver, elas devem ser
profundamente analisadas, o que não obriga, e talvez nem seja possível, esvaziar a discussão
conceitual de periferia sem o aporte de autores e da realidade ulterior.
234
[...]
Milhares de casas amontoadas ruas de terra
esse é o morro a minha área me espera
gritaria na feira (vamos chegando!).
Pode crer eu gosto disso mais calor humano.
Na periferia a alegria é igual,
é quase meio dia a euforia é geral,
é lá que moram meus irmãos meus amigos,
e a maioria por aqui se parece comigo,
e eu também sou bam bam bam e o que manda,
o pessoal desde às 10 da manhã está no samba.
Preste atenção no repique, atenção no acorde
[...]
(Racionais MC's – Fim de Semana no Parque – Letra: Mano Brown e Edy Rock)78
Jogo final do mundial interclubes da FIFA em Tóquio (Japão): “the favela is here” - 2012
Figura 39: A noção de periferia ganhou o senso comum e hoje empreende certa unidade identitária e simbólica
daqueles que sobreviveram anos na precariedade e exclusão das favelas e nos limites do espaço urbano nos
países subdesenvolvidos. No detalhe, as imagens mostram a torcida organizada do Corinthians (clube de futebol
de São Paulo) com cartazes exaltando sua condição de favelados, condição típica da periferia. Clube da massa,
sua torcida organizada Gaviões da Fiel transformou-se em movimento social e é cada vez mais comum observar
a expressão favela passando de uma significação pejorativa para outra de batalha, força e resistência.
Fonte: Revista Exame e Blog Maloqueiro Sofredor. Disponível em:
Revista Exame .
Blog Maloqueiro Sofredor: . Acesso em fev. 2016.
Martins (2001) insiste que a generalização das noções de periferia aplicadas ao
subúrbio tornou-se um problema, considerando as particularidades históricas de cada unidade
espacial. Segundo ele, “[...] os problemas são completamente diferentes nesses dois diferentes
espaços.” (MARTINS, 2001, p. 79). De tal maneira que a periferia, segundo o autor, virou
uma espécie de doutrina populista e partidária, que funcionaria como barreira ideológica
78 Ao fim da música “Fim de Semana no Parque” há participação especial de Netinho de Paula, do grupo de
pagode Negritude Júnior, que exalta lugares das periferias na própria música, como se observa: "Pode crer
Racionais Mc's e Negritude Junior juntos, vamos investir em nós mesmos mantendo distância das drogas e do
álcool. Aí rapaziada do Parque Ipê, Jd. São Luiz, Jd. Ingá, Parque Ararí, Váz de Lima, Morro do Piolho e Vale
das Virtudes e Pirajussara É isso aí mano Brown (é isso ai Netinho paz à todos)". Netinho em seu grupo de
música, formado nas Conjuntos Habitacionais (COHAB’s) de Carapicuíba, também exalta em suas letras a vida
nestes espaços, mostrando as festas e encontros nas COHAB’s.
235
poderosa, em conflito com as populações regionais. Todavia, com os estudos de Kowarick
(1979), a noção de periferia torna-se predominante para explicar e referenciar o espaço de
vida do trabalhador, enfatizando a espoliação urbana (ausências e precarização do mundo
urbano aos trabalhadores – moradia, saneamento, transporte...). Do mesmo modo que Burgos
(2008), defende-se que a ideia de subúrbio ficou anacrônica em relação a periferia, justamente
em razão do avanço do tecido urbano metropolitano, onde a extensão do espaço tornou-se
homogêneo e funcional à reprodução social integradas ao centro e adjacências do núcleo
urbano. Segundo Frabetti (2013), Kowarick também foi precursor a utilizar o termo periferia
para expressar “[...] zonas urbanas marcadas pela auto-construção das casas proletárias, tendo
sido pioneiro no uso desse termo” (FRABETTI, 2013, p. 10). Mais que isso, na própria
substituição terminológica de subúrbio para periferia de forma generalizada (FRABETTI,
2013).
De difícil delimitação, Frabetti (2013) faz um esforço teórico e metodológico de
retratar as noções de subúrbio e periferia. Segundo o autor, por existir na literatura uma
confusão entre os conceitos é necessário, como pensa Martins (2001), distingui-los e delimitálos. Entende-se, porém, que este problema é causado pela diferença que existe na urbanização
dos países desenvolvidos em relação aos subdesenvolvidos, fundamentalmente entre Estados
Unidos e a América Latina. Do ponto de vista geográfico, enquanto nos Estados Unidos e
Europa, os subúrbios são áreas mais distantes dos centros urbanos, na transição com os
espaços rurais e ocupados por uma classe média no refúgio dos males urbanos, na América
Latina e, mais especificamente no caso do Brasil, a aglomeração suburbana está logo no
entorno metropolitano, dos nódulos macrocéfalos da rede urbana. Integrados à economia
metropolitana, estes municípios suburbanos ou espaços com graves problemas sociais
tipicamente periféricos estão localizados nos limites de enclaves condominiais e do próprio
centro de São Paulo. “Neste caso, diferente do que o corre no entorno das metrópoles norteamericanas, o subúrbio no Brasil é caracterizado como área de segregação, e não de autosegregação urbana.” (FRABETTI, 2013, p. 10).
Semelhante é a reflexão de Langenbuch (2001), explicitando que nos Estados Unidos
o subúrbio (suburb) é reconhecidamente, científica e popularmente, um espaço distante do
centro urbano, porém integrado à cidade. O ponto-chave é, pois, a separação administrativa do
subúrbio do centro e suas margens. Neste país, ele representa o espaço de vida cotidiana das
classes médias e altas. “É claro que também há subúrbios habitados por pessoas de menor
renda, mas esses fogem ao estereótipo.” (LANGENBUCH, 2001, p. 88). No caso da França,
236
historicamente avulta o meio rural, associado inclusive a uma etimologia: distante, porém
sobre às ordens administrativas urbanas (banlieue). Com a expansão das malhas urbanas, os
limites tornaram-se virtuais entre municípios, vilarejos e povoados. Todavia, os termos
continuam, tanto em um e outro país, prevalecendo a formalização das divisas administrativas
e, pois, o reconhecimento diferenciado de cada unidade urbana. Ao contrário, no Brasil e
talvez mesmo por força de nossos geógrafos e geógrafas, a dimensão de subúrbio não é
restrita ao viés administrativo. Conforme Langenbuch “ao contrário daqueles países, os
municípios são até superdelimitados com relação à sua sede, é comum que boa parte das
bordas incompletamente urbanizadas, mesmo em grandes cidades, fiquem dentro de seus
limites administrativos.” (2001, p. 87). O autor ainda traz exemplos importantes, como o
estudo de Aroldo de Azevedo dos subúrbios orientais de São Paulo (AZEVEDO, 1945), que
incluem áreas do município de São Paulo e que são tradicionalmente consideradas periferias.
Mais uma vez, estas dificuldades de delimitação resultam das virtualidades entre as
demarcações administrativo-municipais, o que neste caso se aproxima mais
caracteristicamente de pensamento da metrópole na ótica do espaço concebido (LEFÈBVRE,
2006).
À medida que as aglomerações metropolitanas vão crescendo, os subúrbios mais
antigos são inteiramente engolfados pela massa edificada compacta e contínua da
cidade, pouco ou nada se diferenciando dos bairros urbanos, permanecendo como
‘subúrbio’ no imaginário popular [...] (LANGENBUCH, 2001, p. 88).
No passado, “o subúrbio estava mais distante”, suprindo a cidade-polo com seus
produtos agrícolas e de base. Com as mudanças nas formas de organização e produção, a
evolução dos meios de transporte e dos sistemas de infraestruturas, cidades num raio
geográfico cada vez maior vão estar integradas mais intensamente aos centros metropolitanos.
Esta perspectiva locacional do subúrbio parece resvalar em outra noção central de distinção
espacial; a periferia. No sentido tomado de Martins (2001), o subúrbio também concentra o
exército industrial de reserva, quando seu crescimento e expansão vinculam-se com a
dinâmica de industrialização e a instauração concreta do processo de metropolização. É o
espaço onde está concentrado o trabalhador. A ausência de infraestrutura urbana é comum
nestes locais, porém existe certa organicidade entre um mundo rural em transformação, com a
presença de chácaras, a produção agrícola, de extração mineral e grandes áreas verdes. Alguns
destes mesmos pontos são, contraditoriamente, pensados por Kowarick (1979) como central
às periferias, excetuando a historicidade do subúrbio marcada por traços do mundo rural.
237
Este subúrbio, dissecado pelos trabalhos de Azevedo (1945), do cinturão verde
(SEABRA, 1973), das chácaras ou caipira como denominados por Petrone (1995), incluíam
setores de São Paulo e municípios adjacentes com funções específicas e em comum, que por
estas características descritas anteriormente, não pode ser plenamente compreendido
exatamente como hoje. No entanto, mesmo diante das radicais mudanças nos termos
geográficos em relação à distância do centro urbano e do trabalho (ampliação das localizações
influenciadas pela metrópole), ou nas questões sociológicas pela presença da classe
trabalhadora (exclusão/segregação – hoje também as classes mais abastadas vivem nos
subúrbios em enclaves de segurança e lazer), pensamos que ainda haja coerência em
classificar por esta designação as cidades no entorno de São Paulo. Estas mudanças, ainda
são operadas pela instância econômica, em que a renda diferenciada da terra (BONDUKI;
ROLNIK, 1979) se inverte, ou passa por outras lógicas, das quais a periferização continua
sendo uma das mais destacadas (marginalidade, segregação, pobreza e violência) e, mais
recentemente, os enclaves urbanos (redutos condominiais de luxo, servidos por rodovias
privadas de alta velocidade), como também modernizações substanciais decorrentes da
desconcentração industrial (saneamento, mobilidade e habitação).
O entorno metropolitano possuía valores de terra mais baixos, que se valorizavam
conforme se aproximava dos espaços centrais. A presença de infraestruturas e instituições
nestas áreas centrais forçava a valorização do solo urbano, fazendo com que a classe
trabalhadora buscasse na margem da metrópole sua habitação. Com a expansão da mancha
metropolitana, o raio suburbano se amplia, a franja marginal aumenta e as antigas áreas
delimitadoras passam a ser rigorosamente muito complexas de diferenciação ou de
qualificação como as feitas por estes autores supracitados. Mesmo diante da topologia clássica
desenvolvida para cada unidade suburbana da RMSP de Langenbuch (1971), na atual fase da
sua metropolização, seria de difícil correspondência com a realidade contemporânea, mesmo
que ainda seja imprescindível para a compreensão da estruturação da grande São Paulo.
Assim também, de trabalhos pioneiros do IBGE, publicados na Revista Brasileira de
Geografia sob coordenação de Speridão Faissol.
As cidades que explodem no mundo em desenvolvimento também entretecem novos
e extraordinários corredores, redes e hierarquias. Nas Américas, os geógrafos já
mencionam um leviatã conhecido como Região Metropolitana Ampliada Rio-São
Paulo (RMARSP), que inclui as cidades de tamanho médio no eixo viário de 500
quilômetros entre as duas maiores metrópoles brasileiras, assim como a importante
238
área industrial dominada por Campinas; com uma população atual de 37 milhões de
habitantes, essa megalópole embrionária já é maior que Tókyo-Yokohama (DAVIS,
2006, p. 16).
Martins (2001) defende que o subúrbio é a negação da periferia, pois o primeiro seria
o espaço da ascensão social, enquanto o segundo o espaço da falta de alternativas de vida. No
entanto, esta perspectiva muito se aproxima de um passado bucólico dos subúrbios, das
chácaras, dos imigrantes com suas propriedades familiares, as tradições regionais, que
praticamente inexistem no presente, ou que permanecem como rugosidades patrimoniais
coexistindo precariamente a outros fenômenos tão ou mais marcantes. Assumindo uma
postura relacional e de interdependência na pesquisa acerca de subúrbio e periferia, mesmo
acreditando que existem diferenças e que essas são fundamentais para os distintos
encaminhamentos políticos de cada espaço, não há acordo num distanciamento tão amplo
como sugere Martins (2001, p. 79). Mesmo que o conceito de subúrbio ainda esteja mais
restrito ao âmbito acadêmico, ou propriamente na reflexão do espaço concebido, ele não deve
ser ignorado pela geografia, ou mais pragmaticamente nas políticas públicas associadas ao
planejamento urbano e gestão do território. E mesmo que criticamente conforme Martins
(2001) ele venha há alguns anos sendo confundido pelo partidarismo político, que o embaraça
com as favelas e guetos, ou mesmo as periferias, na prática da representação social, do senso
comum e, até mesmo nas dimensões lógicas-formais essa separação não existe. O que se
separa de fato são as qualidades deste subúrbio, ou das tantas periferias, que passam a conter
além dos instâncias sociais clássicas (fator geográfico/localização, social/trabalho/habitação,
econômico/renda diferencial), outras variáveis, sobretudo culturais.
Não à atoa, observa-se a cada dia fracassos nas políticas públicas por ignorar não
apenas o universo dos conceitos, mas fundamentalmente as suas inexatidões concretas em
cada particularidade periférica, ou suburbana. Mesmo diante de uma dada estrutura de tempo,
sob a égide do modo de produção capitalista e suas verticalidades nos territórios, Diadema,
São Caetano, Guarulhos, Carapicuíba, todos municípios suburbanos de São Paulo, possuem
trajetórias únicas, que sintetizam suas comunidades, o trabalho de sua população na produção
do espaço, da cidade. E, mesmo que certas características sejam semelhantes nestas unidades
suburbanas, elas tornaram-se escassas, ou insuficientes de enquadramento pleno na
atualidade.
O mesmo questionamento é levado a cabo por Rosa (2009) sobre as periferias, tratadas
formalmente pelos estudos urbanos como dicotomias em relação à cidade – formal x informal;
239
norma x exceção; regular x irregular; legal x ilegal. A autora examina justamente se essas
abordagens dualistas não residiriam na própria consolidação das problemáticas condições de
vida da população pobre das periferias, considerando ações pontuais, intermitentes e
clientelistas das políticas públicas. Assim, considera que “não deixaria escapar as relações
extremamente dinâmicas e móveis que caracterizam na prática tais fronteiras, em especial no
contexto mais recente de produção das cidades, recaindo, muitas vezes, em interpretações – e
intervenções - homogeneizantes sobre as favelas e periferias?” (ROSA, 2009). Esse
questionamento é importante por mostrar a complexidade e os limites que a concepção de
periferia traz à reflexão de uma teoria geral sobre as mesmas, ou a flexibilização de seus
preceitos frente a cada caso e situação.
A noção de uma periferia uniforme, ocupada por um grupo socialmente homogêneo
– “os pobres” –, marcada pela ausência de equipamentos e serviços urbanos, vem
sendo sistematicamente contraposta. A começar pela concepção de periferia como
‘território sem Estado’, propalada, ainda hoje, por grande parte da literatura:
algumas dessas pesquisas têm demonstrado que, nas duas últimas décadas, houve
um investimento público significativo nas áreas periféricas da cidade, especialmente
em termos de infra-estrutura, serviços e equipamentos urbanos, o que teria sido
acompanhado pela melhoria dos indicadores sociais dessas áreas (ROSA, 2009,
n.p.).
Publicação recente do CEM, organizado por Marques (2015), oferece uma compilação
de artigos, dos quais muitos tratam justamente de problematizar as transformações
socioeconômicas e dos grupos sociais na metrópole de São Paulo. Em um destes textos,
Marques (2015, p. 198) mostra inclusive uma tendência de elitização nas periferias da
metrópole. Um pouco diferente do sentido aqui assumido, pois o termo periferia utilizado
pelo autor tem ao longo do texto sentido estritamente “geográfico” (margens, distanciamento)
onde o subúrbio acabaria por se enquadrar mais plenamente, sem que para isso o autor nomeie
como tal. Lembrando que aqui se assume a noção de periferia com dimensões sociais,
econômicas e culturais, além mesmo do fator locacional. No entanto, mesmo apontando os
enclaves de riquezas nas margens da metrópole, reconhece ainda a permanência da
concentração de pobreza nestes setores mais distantes do centro metropolitano (MARQUES,
2015).
[...] Os processos recentes sugerem ser necessário escapar cada vez mais de
interpretações duais, abrindo espaço para existência de diversos tipos de espaços (e
grupos sociais) intermediários na metrópole. Isso não significa o completo
240
desaparecimento de uma de uma estrutura grosseiramente radial e concêntrica em
suas dimensões mais gerais, e muito menos das desigualdades socioespaciais que
caracterizam São Paulo de maneira tão intensa, mas a sua recomposição em padrões
mais complexos e contínuos (MARQUES, 2015, p. 05).
Utilizando de análises fatorais, por base de indicadores e o entrecruzamento de
diversos dados e informações, Marques (2015) chegou a importantes resultados sobre os
padrões de classes nas fronteiras da RMSP que, em grande medida, corroboram com sua
defesa, onde prevalece não só a complexidade, como ainda a heterogeneidade de espaços e
grupos sociais nestes locais ao longo dos últimos anos. De tal maneira, que classificados os
grupos sociais (conforme renda, moradores por domicílio, raça, escolaridade, entre outros
indicadores) e espacializados os dados, o autor oferece um mapa ilustrativo destes processos,
como pode ser observado na Figura 40.
Distribuição das classes sociais por localizações na RMSP – 2010
Figura 40: Complexidade das classes e grupos sociais na RMSP indicam necessidade de repensar a geografia
das periferias e subúrbios considerando novos fatores sociais, econômicos, políticos e culturais.
Fonte: Marques (2015, p. 196).
241
A interdependência entre centro e periferia ainda se faz fundamental, no entanto a
efervescência de novos nódulos e dinâmicas nestas relações traz à tona condição singular na
firmação de múltiplos núcleos na rede de localidades intrametropolitanas. Mesmo em uma
metrópole como São Paulo, onde os limites entre as cidades já não sejam tão evidentes, ainda
prevalece a existência de uma hierarquia, um escalonamento metropolitano qualitativo, que
vai desde suas formas, reveladas pela paisagem, até dimensões políticas e ideológicas
associadas às funções desempenhadas por cada localidade, em cada cidade. Ou seja, cada
unidade do todo tem, portanto, sua particularidade. E, tamanha é a expressividade das
aglomerações suburbanas e periféricas nos países subdesenvolvidos, que a sua complexidade
atual, bem como a diversificação das classes sociais estabelecidas nestes espaços suscitam
algumas ponderações que conduzem as reflexões posteriores sobre o caso empírico de
Carapicuíba.
Primeiro, os subúrbios, enquanto unidades espaciais históricas, devem ser
considerados em suas particularidades, ou seja, nas suas condições únicas no âmbito
multiescalar (regional, nacional e internacional) que contemplem seus processos sociais,
políticos, econômicos e, fundamentalmente, culturais. A dimensão universal que o conceitua,
que o aproxima das realidades americanas, europeias e em todo mundo subdesenvolvido, deve
estar compassada com a formalidade administrativa do planejamento e a gestão das
metrópoles (governança urbana). Neste sentido, considerando certos limites formais e
normativos apenas.
Segundo, a superposição entre subúrbio e periferia deve ser pensada quando o
elemento locacional sobressair, além de certa homogeneidade social que configure um e
outro. Ou seja, dimensões sociais conexas às geográficas e históricas de lutas e de reprodução
à margem da cidade formal, da incapacidade de usufruto da civilidade urbana, da realização e
da qualidade de vida usurpada, segregada, restrita aos centros e núcleos mais valorizados e
seletivos economicamente do espaço urbano. Fala-se pois, num subúrbio densamente
precarizado, que socialmente se aproxima das periferias ou favelas (mesmo com as melhorias
de infraestrutura e das condições de trabalho nos últimos anos), e não daquele da vida rural,
das chácaras ou, mais recentemente, dos enclaves elitizados ou das grandes redes de
condomínios. Nisso, subúrbio e periferia fundem-se num conceito prático, num projeto mais
amplo de reivindicações unitárias. Enquanto pensá-los apenas pelas complexidades e
heterogeneidades (muito associado à dimensões formais e administrativas do planejamento
estatal) torna a tarefa de compensações e justiça social muito mais difíceis e distantes. Caindo,
242
em grande medida, na crítica sobre a teorização das várias classes e modos de produção
(capitalismos distintos), da qual não somente Harvey (2013) ataca de forma contundente, mas
que Massey (2009) protela criticamente das variações das teorias a cada situação específica.
Terceiro, a noção de periferia não depende necessariamente de sua posição geográfica,
sua ordem é estabelecida fundamentalmente pelas instâncias sociais, culturais-ideológicas,
econômicas e políticas, cuja margem reside igualmente no sentido de segregação, pobreza e
ilegalidade. Fenômeno que sintetiza as desigualdades no desenvolvimento e na produção do
espaço urbano, e que dialeticamente só existe em relação à riqueza, ao trabalho e a cidade
formal, aos enclaves de segurança, natureza e lazer produzidos em espaços tão próximos
geograficamente, quanto socialmente distantes. No que concerne à organização espacial, do
planejamento territorial, faz-se necessário administrativamente uma distinção da periferia com
o subúrbio, o que na prática e no espaço percebido (das representações sociais) nem sempre
estará separado, ou mesmo diferenciado. Mas, nos planos, a periferia é de São Paulo, de
Osasco ou Carapicuíba, ou seja, ela se faz presente de maneira particularizada em cada
unidade e sob certo desígnio da metrópole, da cidade-polo às cidades suburbanas. Destas
últimas, algumas das quais tomadas por grandes favelas e áreas de risco, que marcam o
desenvolvimento suburbano juntamente com o processo de metropolização de São Paulo.
Os preceitos teóricos, noções, categorias e conceitos até aqui traçados funcionam
como lentes que auxiliam e sintetizam o olhar sobre o real, ou seja, as dimensões
contemporâneas da metropolização, das permanências geográficas, das rugosidades
patrimoniais, que incitam o entendimento mais amplo de sociedade brasileira em conexão
com as particularidades da RMSP. Nisso, destacadamente dos bens históricos e culturais,
assim como o potencial de transformação e de resistência que possivelmente oferecem frente
as forças modernizantes. Estas forças acometem a urbanização num mero elemento
reprodutivo do modo de produção capitalista, reificando as relações sociais, enquanto o
patrimônio cultural representaria um elemento essencial enquanto barreira ou estímulo
conflituoso das rugosidades, que trazem os embates e proposições nos/dos lugares de outras
lógicas e racionalidades.
243
CAPÍTULO 06: Múltiplas e Atuais Temporalidades Sobrepostas em Carapicuíba
Este capítulo sintetiza o presente, no contínuo diálogo entre referencial empírico com
os fundamentos teóricos, da metropolização ao patrimônio cultural. Enquanto unidade
metropolitana, de subúrbio à periferia de São Paulo, Carapicuíba passa por importantes
modernizações, onde o patrimônio cultural converte-se num grande potencial para novas
atividades produtivas, junto à permanência das tradições, bem como a resistência e adequação
frente a este movimento. É a superposição residual de espaços e a convivência desigual dos
diferentes sistemas de tempo que permitem as condições e qualidades contemporâneas deste
lugar. Trata-se assim de uma particularidade, ou aquilo que Santos (2012a) chamou de tempo
espacial de cada lugar.
A estrutura da cidade, munida de infraestrutura e instalações que, em grande medida,
foram sendo ajustadas no descontrole de seu crescimento e na resolução de parte de seus
dramas, concatena adaptações simples, junto às novas necessidades e padrões modernos. Se o
asfalto chega, ele preenche apenas as condições pretéritas da rua, revelando uma simbiose
entre a fluidez dos veículos automotores com vias estreitas, compactas e sem integração. De
fato, essas formas se impõem às grandes intervenções modernizadoras pelas condições
históricas de sua constituição e reproduz em Carapicuíba sua iminente sina de cidadedormitório, ou uma rugosidade patrimonial ignorada na margem metropolitana, em que os
setores econômicos se desenvolvem limitados aos setores de serviços e do comércio. Junto,
carrega as dificuldades de um sistema ambiental comprometido pelos usos e abusos da
metrópole, em compasso com às habitações precárias, o adensamento demográfico e a
conversão das grandes favelas em bairros. No plano simbólico, a periferia ganha identidade,
ganha qualidade, aproxima-se das virtualidades lefevrianas da urbanização total, ou da
urbanização do território como postula Santos (2013b), porém convivendo com diversos
problemas que historicamente lhes foram perpetuados enquanto alicerces de São Paulo. Na
colônia como aldeamento-marginal que protegia e fornecia mão-de-obra ao núcleo-central,
posteriormente por novas demandas de insumos, que iam da construção civil que edificaram
São Paulo, aos gêneros alimentícios que mantinham parte da grande metrópole. As novas
condições despertadas sempre convivem com velhas relações, velhas formas-conteúdos, as
quais ora resistem ao movimento total das modernização e suas consequências, ora são
absorvidas por este movimento no sentido de dinamizarem e potencializarem as próprias
estruturas do modo de produção, porém com uma nova roupagem e adaptadas narrativas.
244
6.1 Carapicuíba entre a urbanização social e a urbanização do território
Entre 1960 e 1980 a cidade de São Paulo passa de 3,7 milhões de habitantes para 8,4
milhões. Assim também, verifica-se no Rio de Janeiro uma população que em pouco mais de
duas décadas cresce de 3,2 milhões para pouco mais de 5 milhões de habitantes. Aumento,
sem dúvida, substancial, que marca materialmente a solidificação do urbano sobre o rural, das
atividades industriais que também incorporam o campo, além das funções urbanas ligadas a
uma nova dinâmica de trabalho e de vida como um todo. É neste contexto de explosão
demográfica e da estruturação metropolitana brasileira que se estabelece os limites da cidade
industrial para a metropolização do território. Configura-se a “implosão-explosão”
(LEFEBVRE, 2012), com dinâmica concentração urbana, êxodo rural, ampliação da extensão
do tecido urbano e subordinação do rural-agrário pelo urbano-industrial. Trata-se da passagem
para a nova ordem espaço-temporal, técnico-científica-informacional (SANTOS, 2006), e a
urbanização da sociedade (SANTOS, 2013b).
Entre 1980 e 1991, intervalo dos censos realizados pelo IBGE, revela-se um saldo
migratório negativo da RMSP em 205 mil pessoas, “[...] o município de São Paulo reverteu
seu posto de atração populacional ao registrar uma perda superior a 700 mil habitantes [...]”
(DEDECCA, MONTALI, BAENINGER, 2009). Com a RMSP mantendo ainda uma taxa de
crescimento geométrico anual positivo, porém a taxa média acima de 4,5% entre 1970 e 1980,
declina para 1,86% entre 1980 e 1991, “[...] e esta redução continuou entre 1991 e 2000
(1,64%), atingindo 0,97% anuais entre 2000 e 2010.” (RIBEIRO et al., 2012, p. 07). Neste
mesmo prospecto, indicam Oliveira et al. (2011, p. 29) que “nos últimos anos da década de
1980 e nos anos 1990 observou-se uma diminuição no volume desses migrantes e a formação
de novos fluxos migratórios, incluindo se, nesse contexto, as migrações a curta distância e
aqueles direcionados às cidades médias.” As principais regiões metropolitanas desaceleram
seus crescimentos, sobretudo após o ano 2000, sendo as cidades suburbanas e as periferias
que mantém em grande medida o incremento positivo do crescimento.
A essa tendência decorre outra, de ampla metropolização em várias regiões brasileiras,
passando de nove o número original, para dezenove regiões metropolitanas oficialmente
criadas até o ano 2000 e até 2015 somam-se setenta regiões metropolitanas criadas
oficialmente79 (IBGE, 2015). Fenômeno que junto a estagnação ou diminuição do crescimento
populacional nas metrópoles principais, como Rio de Janeiro e São Paulo, Santos (2013b)
79 Apêndice 06 (Regiões Metropolitanas no Brasil – 2015).
245
designou de “desmetropolização”. Em outras palavras, a desmetropolização sintetizaria a
repartição dos antigos núcleos de população com os mais recentes, realizando a “involução”
metropolitana, não apenas com crescimento populacional menor da cidade polo, ou núcleo, de
forma inferior à sua região, mas pela substituição da produção fabril pelos serviços associados
às novas tecnologias, às pesquisas e desenvolvimento. Neste processo, as metrópoles
brasileiras que realizaram o movimento de concentração, agora continuam a se desenvolver
pela dispersão e o controle de grande parte da produção realizada no território nacional. São
Paulo, neste sentido, estaria presente por “dissolução” em todas as outras metrópoles, sendo
onipresente na articulação dos fluxos e das redes estabelecidas na integração do território.
Estaríamos deixando a própria urbanização da sociedade para a urbanização do território
(SANTOS, 2013b).
Esta urbanização do território provoca ampliação dos equipamentos e infraestruturas
territoriais, que desde os anos 2000 teria resultado num aumento de mais de 430 quilômetros
quadrados de área urbanizada na RMSP, alcançando aproximadamente 2.200 quilômetros
atualmente de malha metropolitana (MEYER et al., 2013, p. 45). Fenômeno que pode ser
melhor ilustrado pelas dimensões espaciais alcançadas nos Mapas 06 e 07 seguintes.
A despeito das áreas mais adensadas da RMSP, cidades como Carapicuíba e Diadema
ainda mantiveram saldos positivos, mas já em significativa redução comparativamente às
décadas anteriores (IBGE, 1980; 1991). Considerando a região metropolitana, o crescimento
populacional no período entre os dois censos foi de 22,9%, marcado espacialmente pela
expansão das periferias na capital e cidades vizinhas, cuja população residindo em favelas
teve crescimento de 120% em pouco mais de uma década (MEYER, et al., 2013). Em
Carapicuíba, os saldos positivos referem-se às construções da COHAB ao longo da década de
1970, que junto ao relativo baixo preço do solo urbano induziu não apenas a vinda de
moradores aos apartamentos populares ao longo dos anos de 1980, mas a procura por
loteamentos e, por conseguinte, habitações precárias as mais diversas em todo território
municipal, sobretudo nos seus limites com Jandira, Osasco e Barueri. Deve-se destacar uma
ampla ocupação irregular e de favelização no município, como destaca o Mapa 08,
respectivamente com as Zonas Especiais de Interesse Social (ZEIS) e os Padrões de Ocupação
do Solo Urbano.
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248
249
Como indicado no mapa 06 e nas imagens obtidas em campo, em praticamente todos
os setores da cidade há presença de núcleos e habitações da população de baixa renda (ZEIS 1
e 2)80, como ao longo da linha férrea e das estações de trem, destacando-se a já consolidada
Vila Municipal (Figura 41). A expansão periférica, apesar da preponderância de camadas
mais pobres e vulneráveis da população, também foi concretizada por setores intermediários e
nobres da sociedade. Em Carapicuíba e ao redor da Aldeia, numerosos foram os bairros que
surgiram neste período, ou que cresceram rapidamente, como Santa Tereza, Vila Industrial,
Parque Jandaia, Jardim Angélica, Maria Beatriz e Novo Horizonte. Com explicam Meyer et.
al. (2013, p. 220) “a concomitância na ocupação de áreas urbanas por classes sociais muito
distintas do ponto de vista socioeconômico tem sido frequente tanto em setores de
urbanização recente quanto em setores de urbanização mais antiga”.
Vila Municipal nos trilhos da CPTM – Carapicuíba/SP
Figura 41: O conjunto de habitações subnormais se estende ao logo de praticamente toda linha da CPTM em
Carapicuíba. No detalhes, perspectiva mas proximidades da estação de trem de Santa Terezinha. Na parte
superior da imagem à direita, destaca-se o edifício da igreja de Santa Terezinha, abaixo habitações precárias e a
locomotiva sentido capital.
Fonte: Fotos do autor em campo, 2013 e 2016.
Dialeticamente, como no passado entre a antiga Aldeia de Carapicuíba e os novos
bairros e loteamentos adjacentes à ferrovia Sorocabana, neste período o polo diferencial
urbano, no que tange tanto a elementos econômicos aos culturais, se desenvolve entre os
condomínios da Fazendinha e Granja Viana, de alta renda e que de certa forma concentram
considerável área verde ao sul, e na outra porção norte e central do território as COHAB’s, os
novos loteamentos ou antigos que se expandem, tornando Carapicuíba numa cidade cuja
80 Conforme o Art. 60 da lei 3074/2011 (Plano Diretor Municipal), as Zonas Especiais de Interesse Social –
ZEIS são demarcadas a partir da existência de: I. Favelas; II. Habitações coletivas precárias; III. Parcelamento e
loteamentos irregulares de baixa renda; IV. Conjunto habitacional de promoção pública; V. conjunto de unidades
habitacionais precárias; VI. Imóveis não edificados ou subutilizados com potencial de ocupação por Habitação
de Interesse Social.
250
densidade supera 10 mil habitantes por quilômetro quadrado. A Aldeia de Carapicuíba, na
palavra de um dos moradores locais81, sintetiza o lugar como um portal entre as
desigualdades, “o limite entre riqueza e pobreza”. No entanto, apesar da proximidade física,
prevalece ampla distância econômica e social entre favelas e condomínios residenciais, “[...] e
não chega a gerar formas de inclusão social ou urbana, uma vez que cada um dos grupos está
assentado em sistemas urbanos isolados.” (MEYER et. al., 2013, p. 220). Esse contraste é
parcialmente revelado pela prefeitura municipal, quando destaca a diferença de densidade
populacional no estudo realizado que fundamenta o Plano Diretor Participativo Municipal,
regulamentado pela lei 3074/2011.
É importante destacar, no entanto, que a distribuição da população no
território de Carapicuíba não é homogênea, com amplos contrastes entre as
áreas de maior e menor densidade. Verifica-se que os bairros ao norte e no
centro – Ariston, Capriotti, Roseira, Vila Menck, Vila Cretti – são mais
densos, com atenção especial para a Cohab Carapicuíba, cuja implantação foi
uma das causas do crescimento populacional intenso nos anos 1970 e hoje
conta com altíssima densidade demográfica. Também os bairros ao longo da
Avenida Inocêncio Seráfico, que corta Carapicuíba de norte a sul e constitui
uma centralidade linear no município, apresentam altas densidades. Em
contraste, os bairros na porção sul de Carapicuíba – como a Fazendinha, São
Camilo, Granja Viana e parte da Aldeia – são menos adensados. Organizados
em condomínios horizontais, abrigam a população de mais alta renda do
município e mantêm importantes áreas verdes. O centro, próximo à linha
férrea, não é uma área de grande aglomeração populacional devido ao
predomínio de imóveis para uso comercial (CARAPICUÍBA, 2012, p. 15).
Em Carapicuíba, a taxa de crescimento que era de 12,9% entre 1970 e 1980, passa de
1980 a 1990 para 3,92%, chegando ao fim da primeira década deste século a 1,78%, conforme
ilustra o Gráfico 0682. A redução, porém, nesta fase, não impediu a expansão das favelas e de
graves problemas sociais, evidenciando que a problemática metropolitana não reside
exclusivamente na explosão ou na contingência demográfica (SINGER, 1978).
81 Agente Cultural, 35 anos. Entrevista realizada em julho de 2016.
82 A população de Carapicuíba vem crescendo de forma consistente desde 1970, superando 369 mil habitantes no
recenseamento de 2010. Embora se verifique um crescimento em relação a 2000, este se deu em ritmo menor do
que nas décadas anteriores. Entre 1980 e 1991, a taxa geométrica de crescimento populacional foi de 3,92% ao
ano, enquanto na última década não chegou a 1%. De 1981 e 1990, o município ganhou 87 mil habitantes,
enquanto que entre 2000 e 2009 o incremento populacional foi de menos de 26 mil. (CARAPICUÍBA, 2012, p.
15).
251
Taxa de Crescimento Populacional em Carapicuíba (1970-2007)
Gráfico 06: Taxa de Crescimento Populacional (% a.a.) em Carapicuíba.
Fonte: IBGE (1970, 1980, 1991, 2000, 2007); Dedecca et al (2009).
Apesar da generalidade que possa emergir de um discurso mais amplo e crítico sobre a
qualidade e eficácia dos serviços públicos nas cidades brasileiras, no caso de Carapicuíba as
contradições perfazem a sobreposição da precariedade junto ao desenvolvimento de novos
serviços e atividades econômicas. Somadas, marcam toda a cidade, porém, o que se espelha
na totalidade da paisagem urbana são condições estruturais regulares, insuficientes e precárias
dos padrões de ocupação. Outro ponto a se destacar é a situação do comércio e dos serviços
que passam efetivamente a dotar Carapicuíba com uma vida mais independente da capital,
como serviços bancários, lojas de departamento, supermercados, redes de fast food,
academias, entre outras estruturas ligadas propriamente ao mercado de bens de consumo que
convergem hoje para a construção no novo shopping na UIT Vila Dirce área do Parque
Planalto (Figura 42). Os serviços públicos, também precários, se avolumam com a construção
de postos de saúde mais descentralizados, bem como a rede de transportes que vai sendo
integrada regionalmente, tanto pela construção de novas vias – como a Rodovia Mario Covas
(Rodoanel trecho Oeste) – quanto por meio da ampliação e melhorias das avenidas e ruas
locais. São, uma vez mais, infraestruturas e serviços que perpetuam um amplo conjunto de
novas relações e valores gerados no entorno de São Paulo, que em Carapicuíba marca a
passagem da urbanização da sociedade (relações superestruturais, sistema ideológicocultural), à urbanização des seus territórios (sistema de infraestruturas).
252
Cidade precária e ilegal justaposta a modernização e sofisticação dos serviços em Carapicuíba
Figura 42: Nas proximidades do Parque Vila Planalto a presença de modernos serviços comerciais, bancos,
franquias e o novo shopping em meio às favelas e casas autoconstruídas com esgoto à céu aberto na Vila
Planalto, UIT Vila Dirce, Carapicuíba (RMSP). Fonte: Fotos do autor em campo, 2016.
Ainda que limitados, os serviços atendem em grande medida o consumo e
necessidades básicas da população, o que antes restringia-se às cidades regionais, ou
propriamente São Paulo. As modernizações se efetivam tanto nas escalas regionais, quanto
locais, ou seja, de infraestruturas instaladas dando novos rumos e sentidos metropolitanos,
quanto em âmbito local dos bairros e vilas em Carapicuíba. Repercutindo nas relações sociais,
que se reverberam na criação de novos enclaves imobiliários e industriais – como a área da
Fazendinha, com uma população de alta renda, ou ainda mais recentemente, na instalação do
condomínio Alphaville, além da própria Granja Viana nos limites do território com Cotia, ou
o distrito industrial, paralelo ao rodoanel e pouco menos de um quilômetro da Aldeia.
Articuladas com São Paulo pela rodovia Castello Branco ao norte, rodovia Raposo Tavares ao
sul e interligadas pelo sistema Rodoanel, permitem dinâmica fluidez de pessoas e
mercadorias, inclusive com outras rodovias e regiões metropolitanas de São Paulo, sobretudo
da Macrometrópole Paulista. São, pois, significativas às mudanças, trazendo ainda para o
novo contexto urbano uma organização que interioriza na RMSP os serviços e atividades,
antes exclusivos ao centro, ou às cidades regionais como Osasco ou Barueri.
No entanto a sina periférica e de cidade- dormitório permanece. Na esteira da análise
econômica e social da Macrometrópole Paulista83, segundo as funcionalidades de cada
83 Aglomeração urbana, que concentra quatro regiões metropolitanas contíguas (São Paulo, Baixada Santista,
Sorocaba, Campinas e Vale do Paraíba e Litoral Norte, além de duas aglomerações urbanas (Jundiaí e
Piracicaba). “São 173 municípios que concentravam, em 2010, 73,3% do total da população paulista, 83,4% do
253
unidade deste grande conjunto urbano, distribuídas por uma tipologia elaborada pelo
entrecruzamento de dados por Meyer et. al. (2013), ainda classificam Carapicuíba no grupo de
cidades-dormitórios, mais especificamente no subgrupo de baixa renda. O estabelecimento
desta classificação se baseia nas mais baixas faixas de renda, além de ausência de funções
industriais ou de serviços mais amplos e sofisticados, como também das limitações dos
equipamentos culturais e de lazer. Aranha (2005) ao destacar a capital São Paulo como
município atrativo ou polo principal dos deslocamentos pendulares metropolitanos, revela a
exponencial diferença entre núcleos de dispersão, o qual Carapicuíba é um dos mais
destacados. A diferença substancial os que saem e entram no seu território é de uma
proporção aproximada de 6 mil pessoas que entram em relação aos quase 65 mil que saem
diariamente pelas diversas modalidades de transporte, segundo as necessidades de trabalho,
serviços, ou lazer, não apenas a São Paulo, como para Barueri e Osasco no eixo oeste da
RMSP (ARANHA, 2005).
Lembrando casos de municípios típicos na RMSP, como o de Francisco Morato,
Itaquaquecetuba e Carapicuíba, Meyer et. al. (2013, p. 256) apontam situações empíricas
exemplares de expansão da população favelada e dos municípios-dormitório na Grande São
Paulo. Explicando que mesmo possuindo uma série de conjuntos habitacionais produzidos
pelo Estado, prevalece a precariedade urbana e o baixo valor imobiliário, com concentração
da “[...] população de baixa renda sem oferecer postos de trabalho na escala necessária.”
(MEYER et. al., 2013). Em levantamento de campo realizado, por meio do questionário
qualificado de opinião semiestruturado, aplicado a população local, a prevalência de pessoas
economicamente ativas que atuam fora de Carapicuíba é marcante em todos os seis setores da
cidade. Áreas como a da Aldeia, Fazendinha, ou Vila Dirce, o percentual relativo ultrapassou
65% do total entrevistado, ou seja, não excluindo aposentados, pensionistas, desempregados e
estudantes. Revela portanto que, mesmo com a ampliação e diversificação de atividades
econômicas desenvolvidas nos últimos anos, Carapicuíba não perdeu um de seus aspectos
funcionais mais importantes na escala regional metropolitana, que é o de ser uma cidadedormitório.
No entanto, como advertido por Ojima, Silva e Pereira (2007), a maioria das cidades
com grandes fluxos pendulares diários, sobretudo negativos, que as caracterizariam enquanto
Produto Interno Bruto (PIB) estadual e 27,6% do PIB brasileiro –, além de abrigarem cerca de 50% da área
urbanizada do Estado (EMPLASA, 2014).
254
cidades-dormitório, não possuem necessariamente uma relação de baixa dinâmica econômica
e de qualidade de vida. Ainda que no caso de Carapicuíba, a combinação de IDH e PIB per
capita84 seja extremamente inferior aos municípios da Grande São Paulo, o que faz com que a
mesma possua divisas limitadas e oferta ainda mais restrita de serviços públicos, a presença
de luxuosos condomínios e áreas de alto padrão de chácaras também contrastam com o perfil
periférico do município. Mesmo neste perfil de setores extremamente vulneráveis social e
economicamente, as habitações hoje já passam a receber serviços básicos, como rede de água
e esgoto, recapeamento asfáltico, calcamentos e luz elétrica (IBGE, 2010; EMPLASA, 2010).
De fato, os únicos setores enquadrados com uso padrão urbano de ocupação considerado bom
no município localizam-se ao sul (CARAPICUÍBA, 2012), nos setores das UIT’s Fazendinha
e Aldeia de Carapicuíba, esta última, no entanto, mais heterogênea, destacadamente com
melhor índice e qualidade de vida (Figura 43). Porém, mesmo nestas áreas avizinham-se os
assentamentos precários, como as do Jardim Tonato e Ana Estela localizados nos limites da
Fazendinha.
Padrões de ocupação e assentamentos precários em Carapicuíba - 2010
Figura 43: Padrões de ocupação e assentamentos precários nos mapas indicam apenas partes do setor sul do
município de Carapicuíba com padrões adequados de ocupação e relativa ausência de assentamentos precários.
Fonte: Plano Diretor Participativo do Município de Carapicuíba. Via Pública, 2012.
84 PIB per capita 2013 de R$ 11.442,26 e IDHM 2010 de 0,749 (IBGE, 2010; PNUD, IPEA, FPJ, 2013).
255
Os diversos investimentos públicos em infraestrutura, mobilidade, saneamento e
habitação, importantes para a melhoria das condições de vida na cidade, realizados nos
últimos trinta anos, não foram suficientes à plena superação dos dramas vividos na periferia
da região metropolitana de São Paulo. Se não para a expansão de um novo modelo privado e
corporativista de planejamento e gestão do espaço urbano (SANTOS, 2013b). O que no caso
de Carapicuíba faz com que sua tipologia no âmbito da RMSP, passe efetivamente da
tradicional funcionalidade suburbana para periférica, de condição rural e das tradições que
resistem até meados dos anos de 1950, para o urbano-dormitório de baixa renda (MEYER et
al., 2013), em que a maior parte da população espoliada (KOWARICK, 1979) permanece
relegada do direito à cidade (LEFÉBVRE, 2001).
Nas últimas décadas houve o agravamento das condições gerais de inserção urbana
dessa população, o que pode ser constatado nas novas características ao padrão
periférico, isto é, a multiplicação de loteamentos em áreas impróprias, o crescimento
expressivo das favelas na região metropolitana e o acentuado crescimento
populacional nos município-dormitório, ao mesmo tempo em que se acentuam os
contrastes em alguns municípios metropolitanos, que recebem investimentos
imobiliários expressivos na formação de núcleos autônomos com qualidade de vida
diferenciada em relação à predominante nos municípios onde se instalam (MEYER,
et al., 2013, p. 66).
Em Carapicuíba, estas novas dinâmicas metropolitanas – derivadas do processo de
reestruturação espacial asseverada na década de 1970 e ao longo das décadas de 1980, 1990 e
anos 2000 – contraditoriamente carregam importantes modernizações inerentes ao aumento da
produção, escoamento e consumo de mercadorias na metrópole, mas também carregam
problemas estruturais de desigualdade, pobreza e violência urbana, sob a égide de uma
racionalidade fragmentária, alienante e normativa entre o trabalho, o cotidiano e a cidade.
6.2 Intervenções urbanas e o novo contexto do Aldeia de Carapicuíba (1980-1990)
De fato, o viver cotidiano é paulatina e simultaneamente separado do mundo do
trabalho, mas dependente de suas determinações, perpetuadas em padrões de vida e de
comportamentos dirigidos estruturalmente para e pelo consumo, do qual o patrimônio cultural
torna-se mais um elemento potencial. No caso da Aldeia, o patrimônio emerge de seus bens
materiais e as tradições ali manifestadas na década de 1980, que rompe com a antiga política
256
federal de preservação, calcada numa concepção monumentalista e posteriormente de valor
histórico (em Carapicuíba a passagem entre rugosidade-monumento à rugosidade-documento
nunca se efetivou plenamente), passando às recentes concepções de rugosidade-instrumento,
ou seja, uma forma-conteúdo capaz de ser manipulada, gerida e controlada por interesses que
perfazem o planejamento e a governança urbana (de forma incompleta e precariamente).
Não é coincidência que se articulam concretamente diferentes interesses sobre este
espaço de memória nacional ao longo dos anos de 1980. Marcados pelas orientações e
compatibilização das diretrizes metropolitanas para expansão urbana como garantia da
preservação do patrimônio ambiental (EMPLASA, 1979), desenvolvidos plenamente no
PDDI (EMPLASA, 1981) e, posteriormente, na Lei de Uso e Ocupação do Solo (EMPLASA,
1986). O espaço da Aldeia de Carapicuíba, fragilizado pela ausência das políticas públicas ao
longo de décadas, além das limitações orçamentárias e as dificuldades de intervenção nos
bens pelos moradores, passa a integrar uma nova estratégia no âmbito do território
metropolitano. Estratégia cuja centralidade deriva de seu valor histórico e cultural, agora
sistematizado precisamente no zoneamento em unidades geometricamente mapeadas e
associadas mais efetivamente a um uso potencial econômico-turístico, de atividades
institucionais e de serviços comerciais correlatos, que de uma ação conjunta estabelecida entre
as diferentes entidades estatais (destacadamente a municipalidade através de suas secretarias,
além de parte da sociedade civil organizada, a EMPLASA e o CONDEPHAAT no âmbito
estadual e, por fim, o SPHAN/IPHAN em nível federal). As orientações legais estabelecidas,
fracionando o território da Aldeia de Carapicuíba em restrições de uso e ocupação do solo por
zonas85 (Mapa 09), fundamentam uma década de intensas intervenções na área, não limitadas
apenas ao largo, mas a um perímetro mais amplo, que irá convergir com a criação do Parque
Municipal da Aldeia de Carapicuíba no ano de 1996.
85 ZPH: Zona de Preservação Histórica;
ZPP: Zona de Preservação Paisagística;
ZUC: Zona de Urbanização Consolidada.
257
258
Essas intervenções foram recorrentes, pontuais, mas gradativas entre 1982 a 1989
(Figura 44), pelo Programa de Recuperação e Revitalização dos Núcleos Históricos
(PRRNH/Fundação Nacional Pró-Memória/MinC-MDU). Das quais destacam-se reformas
estruturais das casas, com apoio das entidades e dos próprios moradores, bem como o
estabelecimento de recomendações à população e orientações dos órgão superiores à
municipalidade. Cabe destacar a reconstrução da casa 16 e reformas importantes na igreja,
além de obras diversas, como nas casa 5 e 15, com telhados trocados por equipe conduzida
pelo CONDEPHAAT – ainda assim, nos arquivos observam-se que os projetos executados
não foram plenamente suficientes para a manutenção da Aldeia, considerando anos de
abandono86.
Intervenções na Aldeia de Carapicuíba – 1985
Figura 44: Reformas no conjunto urbanístico da Aldeia de Carapicuíba e capela de São João Batista, 1985 PRRNH/SPHAN/6Fundação Nacional Pró-Memória/MinC-MDU.
Fonte: Arquivo 9ª.SRIPHAN/SP.
Apesar do PRRNH ser considerado um fracasso (SANT’ANNA, 2014), na Aldeia os
acordos de cooperação foram importantes para a concretização de intervenções importantes.
86 Conforme documentação obtida no Arquivo da 9ª SR - IPHAN/SP – Pasta 00068-0218-T39 5/11(1-6).
259
Mais do que propriamente uma política voltada exclusivamente para os bens materiais, o
programa foi concebido na gestão de Aloísio Magalhães como meio de promoção social, pelo
empoderamento da população, passando da instância tutora e fiscalizadora, para funções de
orientação, negociação e como promotora de atividades nestes espaços (SANT’ANNA, 2014).
O que, todavia, os arquivos não revelam ter ocorrido no caso da Aldeia, se não as mesmas
intervenções que já decorriam desde a década de 1940. Nisso, contudo, há plena concordância
do fracasso da política do PRRNH, considerando conjuntamente naquele período o fracasso
do planejamento integrado e as recomendações das diretrizes urbanas que só se efetivariam
problematicamente mais de uma década depois, ao menos no plano da infraestrutura, porque o
incentivo ao controle social ou do apoio àquela população praticamente inexistiu.
Se as reformas foram frequentes pelo SPHAN no período, com o apoio inclusive do
CONDEPHAAT, igualmente os moradores iam adaptando a estrutura interna das pequenas
habitações seculares às necessidades modernas. Destas, cabe destacar a melhoria do piso, do
forro e pequenas construções que viabilizavam a sobrevivência naquele espaço. Os relatos de
Henne (2015), acerca da vida e cotidiano de seus familiares no espaço da Aldeia, evidenciam
o papel daquela comunidade na sua manutenção. Ela explica que as tensões não eram restritas
apenas aos moradores, mas com a própria igreja, ao lembrar quando Luís Saia mandou fechar
a capela de São João Batista por um dos santos ter sido retirado dali, ou quando determinou
que obras de melhorias fossem colocadas ao chão, brigando com o padre e moradores. Mesmo
perante tantas restrições e conflitos gerados em torno de uma gestão compartilhada de seus
bens com o Estado, ou mesmo, por vezes, das limitações verticais que sofriam diante do
abandono de políticas públicas, os moradores resistiam e persistiam em buscar soluções que
por vezes feriam o Decreto-lei nº 25/1937, ao mesmo tempo em que lhes possibilitava viver
minimamente com conforto e permanecer efetivamente ocupando aquele lugar.
Não havia um entendimento entre o técnico e os moradores do quadrilátero; o
diálogo era muito difícil e até hostil. Para os habitantes das casinhas de pau-a-pique
preservar era melhorar, colocar piso nas casas, azulejos, forro, pois acreditavam que
modernizando as casas, além de conseguirem um maior conforto, estavam
cuidando daquilo que eles haviam deixado de herança para eles. A relação dos
habitantes da Aldeia com o patrimônio material era existencial; eles tinham uma
relação de pertencimento em relação ao espaço que ocupavam. Desta forma,
sentiam-se à vontade para usufruir como quisessem daquele local. Já para o IPHAN,
a Aldeia havia se tornado um bem cultural e, como tal, teria que ser valorizado e
preservado, mas esses valores eram ignorados pelos moradores e faltava
comunicação e entendimento entre as partes. (HENNE, 2015, p. 67 – grifo nosso).
260
Em outra escala, as transformações na metrópole derivadas da desconcentração
espacial da indústria paulista ao longo dos anos de 1980, tornava-se mais um entrave na
manutenção da Aldeia. Não somente pelas transformações materiais do tecido urbano
necessário à produção industrial, a qual o aldeamento já estava acuado e restrito, como ainda
no próprio sistema urbano de relações funcionais acomodados, que já era crítico frente aos
choques de valores. Emergem novas demandas por um distrito industrial no município. Além
da expansão imobiliária induzida pelo Estado, agora representantes patronais e empresas de
médio e grande porte articulam-se com a municipalidade em favor de subsídios para as novas
instalações industriais. No ano de 1988, é desenvolvido um projeto de criação de zona
industrial nas adjacências da ZPP da Aldeia. O qual encontrou dificuldade por parte da
inadequação legal do PDDI (EMPLASA, 1981) e da Lei de Uso e Ocupação do Solo
(EMPLASA, 1986), bem como na análise do IPHAN. O Ofício 112/SENJ/89 (3977/88) pede
aprovação de empresa de aerossóis na área de entorno, assim como pede sugestões “[...] que
não só atropelem instalações de indústrias em nosso território, mas que, abram perspectiva
para instalações de outras, que contribuam na economia e no progresso, especialmente,
visando ampliação do número de empregos.”87. O teor do ofício supracitado revela as tensões
entre a administração de Carapicuíba em relação ao bem tombado e sua área de entorno, como
às leis e instituições que contribuem para sua preservação. Este documento é taxativo por
manifestar a oposição entre preservação e progresso, este último ligado às noções de
crescimento econômico e de ampliação de empregos, no que a Aldeia transparece nos termos
enquanto um enclave, uma rugosidade de difícil plasticidade às cirúrgicas medidas urbanas e
de infraestrutura. Revela ainda o campo de lutas estabelecido por moradores preocupados com
suas casas e tradições, as instituições em relação ao que estabelece a lei e o papel da memória
nacional, as empresas e a gestão municipal de forma corporativa no sentido de ampliar lucros
e divisas respectivamente.
Um dos fatores negativos elencados pelo SPHAN em relação à instalação do distrito
industrial na ZPP seria justamente a ausência de estudos que justificassem a alteração da Lei
de Uso e Ocupação do Solo, bem como da ausência de rede sanitária que afetaria as condições
de salubridade ambiental naquela área, afora inadequações com a própria legislação urbana e
87 Ofício 112/SENJ/89 (3977/88). Arquivo da 9ª SR - IPHAN/SP – Pasta 00068-0218-T39 5/11(1-6).
261
que exigiria uma reformulação geral dos termos legais de difícil materialização. No entanto,
em carta de esclarecimento dirigida ao município, o diretor da 9ª.SRIPHAN/SP, explica que o
patrimônio cultural não é um entrave ao desenvolvimento, ou propriamente a industrialização
e os benefício sociais que dela podem derivar. Neste documento88, o arquiteto Victor Hugo
Mori informa as condições de instalações do distrito, entendendo a possibilidade de pequenas
instalações, o respeito a legislação e a implantação de infraestrutura necessária. Com certeza,
ciente da precariedade do espaço da Aldeia e dos desafios que a instituição possuía com as
limitações orçamentárias do período de crise no país, Mori aproveita o ensejo consultivo para
pressionar os gestores e os interessados. Recomenda assim que em contrapartida às
instalações, que houvesse em definitivo o desvio da estrada da Aldeia como já havia no plano
da Cia. de Metro, bem como a ampla arborização da área, inclusive incitando a participação
da iniciativa privada nestas ações e colocando à disposição a equipe e assessoria do SPHAN.
A instalação do distrito se efetiva, mas sem acatar todas as recomendações elencadas
anteriormente pelo SPHAN. Em 1991, em relatório de vistoria na Aldeia, o técnico Luís Saia
Neto (9ª.SRIPHAN/SP), problematiza as condições do patrimônio pelos seguintes
apontamentos: (a) aumento do tráfego de veículo pelo espaço da Aldeia; (b) ocupação
acelerada e desordenada do entorno; (c) intervenções sem orientação nos bens tombados; (d)
poluição visual por cabos elétricos e de telefone na Aldeia. Observa-se, portanto, que as
tentativas anteriores foram, de certa maneira, frustradas de um acordo mais efetivo entre as
entidades. A velocidade com que o processo de ocupação dessas áreas se define marca escalas
mais amplas de periferização, por qual sobrevinha todo o município ao longo da última
década, que mesmo com a cooperação interinstitucional seria de difícil combate.
Esses problemas derivam de uma dinamização do espaço urbano de Carapicuíba,
compreendido pelas pesquisas por meio da nova ligação a rodovia Castello Branco,
integrando-a mais plenamente ao centro e adjacências do núcleo metropolitano, o que já
acontecia com a rodovia Raposo Tavares ao sul. No plano intra-urbano, com o asfaltamento
da avenida Inocêncio Seráfico, realizado em parte na década de 1980, e depois pelo Plano de
Pavimentação Participativa (PPP) em princípios da década de 1990 (TENÓRIO, 2003). O
asfaltamento da avenida é um marco para a população residente no entorno, sobretudo na
unidade territorial da Vila Dirce e adjacências, quando os entrevistados relataram de forma
88 Documento datado e assinado em 1989. Arquivo da 9ª SR - IPHAN/SP – Pasta 00068-0218-T39 5/11(4).
262
pormenorizada da precariedade que viviam sem ele no passado. Contraditoriamente,
intervenções que passavam a sobrecarregar o fluxo de veículos pesados ao longo da Aldeia,
como de toda cidade em expansão, para grande parte dos moradores do município elas
traziam benefícios inestimáveis ligados a urbanidade como qualidade que nunca tiveram.
[...] se o centro era barro imagina os outros bairros né, era só terra, demorou para
progredir Carapicuíba, viu, demorou! (Entrevistado 08, morador da UIT Vila Dirce,
58 anos).
Aqui, que você tá vendo, era tudo barro, pó, sujeira... Foi no governo do prefeito
Fuad, ele arrumou muitos inimigos aqui, retirou muita gente, clientes não podiam
entrar aqui no comércio, cimentou tudo, o asfalto nós pagamos por parte da avenida,
criou muitos inimigos mesmo, principalmente petistas [...] (Entrevistado 09,
morador da UIT da Vila Dirce, 55 anos).
Dois anos depois, em 1993, a situação parece ser ainda mais grave, quando no ofício
10289 da prefeitura de Carapicuíba ao Instituto Brasileiro do Patrimônio Cultural (IBPC)90
também aponta a seriedade de problemas estruturais na Aldeia, como a destruição por cupins
das madeiras, criticando a ausência do CONDEPHAAT e da necessidade de apoio técnico e
de acompanhamento pela instituição. Esse pedido de socorro se consolida numa força tarefa
entre as entidades, que culmina alguns anos mais tarde com a criação do Parque da Aldeia, no
ano de 1996. Um convênio foi firmado entre o Ministério da Cultura no plano federal com
contrapartida do município de Carapicuíba. Das ações, as desapropriações abrangeram um
área considerável, que foi do topo da colina até o fundo de vale, com mais de cem famílias
expropriadas, uma parte realocada e com a criação de uma lagoa. Tudo isto junto da execução
do antigo projeto de desvio do trânsito da Aldeia, o recapeamento e nivelamento do largo,
assim como ampliação da área arborizada, capaz de ambientar os bens tombados e servir para
o lazer e atividades que o parque sugeria. Sucederam em anos seguintes diversas manutenções
no conjunto urbano da Aldeia por parte das instituições, fazendo permanecer o bem cultural
em meio ao lazer e entretenimento do parque. Somados, as obras de relativo vulto entre a
instalação do parque e as reformas necessárias à manutenção do patrimônio tombado
89 Arquivo da 9ª SR - IPHAN/SP – Pasta 00068-0218-T39 5/11(5).
90 Em 1990 é extinto o Minc, também o SPHAN e a FNPM, com a criação do IBPC, instituição que ficou
responsável pelo patrimônio cultural até 1994.
263
chegaram a aproximadamente cem mil reais para o governo federal, conforme documentos
levantados na 9ª.SRIPHAN/SP91.
Naquela ocasião, (primeiro mandato do atual prefeito Fuad Chucri – sic) o prefeito
resolveu implantar um ‘antigo projeto urbanístico’ de iniciativa do IPHANEMPLASA. Este projeto visava executar na Estrada da Aldeia que ligava a Raposo
Tavares com o centro da cidade um desvio de modo a não permitir o cruzamento de
caminhões e ônibus no pátio da aldeia jesuítica. Esta proposta propunha, além do
desvio viário, a criação de um parque no entorno da Aldeia demolindo-se todas as
construções clandestinas (cerca de uma centena) que envolviam o monumento. A
implantação do parque se iniciou com esses recursos do convênio com o Ministério
da Cultura. [...] Considerando a implantação do Parque da Aldeia uma ação
municipal exemplar no campo da preservação do patrimônio cultural, exemplo este,
que deveria ser seguido por outros municípios sem grandes recursos financeiros, o
IPHAN tem procurado colaborar modestamente para valorização e preservação e
preservação desta joia do urbanismo brasileiro. [...] (Informação Técnica da 9ª.
SRIPHAN/SP ao Ministério Público Federal).
Mesmo compreendendo as dificuldades da preservação e a precariedade do caso de
Carapicuíba, em entrevista concedida, José Saia Neto, um dos técnicos da IPHAN que mais se
dedicou neste período aos trabalhos na Aldeia, explica a importância do parque no sentido de
proteger o entorno do bem tombado e, portanto, a garantia ainda precária da preservação do
conjunto urbanístico pela instituição em conjunto com a gestão municipal naquele período.
O tombamento e restauro tem garantido precariamente a preservação do conjunto. A
sensibilidade de um antigo Prefeito, Sr. Fuad Chucre, garantiu a preservação do seu
entorno imediato, que estava perigosamente ocupado, com a criação do parque. Por
fim, algumas famílias moradoras garantem uma certa diversidade de ocupação e as
manifestações culturais que dão vida ao local (José Saia Neto, entrevista concedida
em junho de 2016).
Estas intervenções empreendidas pelo município de Carapicuíba, se teve total
anuência e apoio dos órgãos patrimoniais, como pode ser observado na passagem supracitada
do IPHAN, para os moradores resultaram em muitos transtornos e conflitos. As tentativas de
retomar, ou manter as formas pretéritas do aldeamento jesuítico, passaram a tencionar um
patrimônio cultural concebido pela cultura híbrida do caipira e do subúrbio, que os moradores
adquiriram com o longo tempo ai vivendo. Isso incluía, por exemplo, a retirada dos coqueiros
que estavam há muitos anos e eram adorados pela comunidade. Segundo Henne (2015, p. 80),
mesmo provando por registros fotográficos que os coqueiros ali permaneciam por quase um
século, não conseguiu mantê-los. Porém, ainda segundo a autora, um governo depois, a
91 Arquivo da 9ª SR - IPHAN/SP – Pasta 00068-0218-T39 5/11(5).
264
comunidade conseguiu que os coqueiros fossem devolvidos (HENNE, 2015). No plano
intangível, os procedimentos técnicos afrontavam os simbolismos e tradições, como a
derrubada do cruzeiro para reforma e a sua disposição no chão da Aldeia, nesta mesma
intervenção, concomitante com a estruturação do parque.
[...] Havia a necessidade de tirarem o Cruzeiro para a realização daquele serviço
[cimentar o piso do pátio]. Me lembro que quando vi o cruzeiro jogado no chão
passei muito mal [...]. Tia Nenê estava indignada e comentou que ele que ele [o
prefeito] não sabia a força que a Cruz tinha, que ele estava brincando com coisa
muito séria. [...] Me lembro que ela falou: ‘Helenice, Santa Cruz é poderosa, esse
povo não sabe com o que eles estão mexendo, eles não têm fé em nada, estão
destruindo a nossa Aldeia. Esse nariz de tucano (se referindo ao prefeito Fuad) quer
acabar com a Aldeia. (HENNE, 2015, p. 81).
Deve-se ponderar que essas intervenções, sobretudo a criação do Parque da Aldeia,
acatando os projetos estabelecidos na década de 1980 pelo PDDI, além dos produtos de
debates interinstitucionais, é fruto de uma política mais ampla frente a periferização que
Carapicuíba enfrentava e não apenas do patrimônio cultural. A precariedade urbana exigiu
medidas urgentes e radicais, das quais espaços de lazer e entretenimento tornavam-se pauta
das tentativas de modernizar o território e subsidiar um modo de vida mais intensamente
permeado pela metropolização. Junto aos problemas de periferização no entorno Aldeia
somavam-se as verticalidades institucionais sobre as rugosidades patrimoniais que ainda
abrigavam muitas famílias no década de 1990. E, ao revés, com a centralidade conquistada
pelo patrimônio cultural no período, concomitantemente foi a evasão das famílias do pequeno
vilarejo, junto as dezenas de famílias retiradas do entorno para a criação do parque. “Por falta
de uma política pública adequada à preservação, como já comentei, perdeu-se o que há de
melhor em um patrimônio histórico que é o ser humano. [...] Hoje quem chega para visitar a
Aldeia, durante o dia imagina estar em um local abandonado, pois não há um só local para
fazer um lanche.” (HENNE, 2015, p. 31).
A criação de áreas públicas, de lazer e cultura, foram concretizadas em maior parte
entre 1993 e 1996, com a inauguração do Parque dos Paturis, nas proximidades com Osasco e
as COHAB’s, o Parque da Vila Planalto – importante elemento redutor do impacto das chuvas
e catalisador da drenagem entre as UIT’s Vila Dirce e Centro – e mais recentemente, a criação
do Parque Gabriel Chucre (Mapa 10), este último disposto na área onde ficava o antigo lixão
do município, no contorno da lagoa. E, por fim, do Parque da Aldeia, que marca o entorno do
conjunto tombado do aldeamento – igualmente isolando o patrimônio cultural e as áreas
nobres do avanço urbano periférico (Mapa 11).
265
266
267
Mudança fundamental se opera de um discurso de perda ligado ao monumento para a
rugosidade-documento, que para além da preservação da unidade, ao mesmo tempo gera um
questionamento sobre sua visibilidade por meio do conceito de paisagem. Nesta perspectiva,
emerge a necessidade do delineamento das áreas envoltórias, nas novas concepções daquilo
que deveria ser a área do entorno de um bem tombado, já que a orientação “(...) centrada no
conceito de visibilidade, implica mais ainda que a anterior [edifícios e obras particularizadas]
na colaboração dos moradores para ser implementada” (FONSECA, 1997, p. 231). Sem
dúvida, a expectativa de vultosos retornos econômicos, fizeram com que muitos espaços
passassem por incrementos de infraestrutura e melhorias funcionais da paisagem à
mobilidade, porém criando tensões e nítidas fronteiras entre turistas e a população local,
inclusive com esvaziamentos sazonais das áreas e setorização das relações sociais (CIFELLI,
2005; OLIVEIRA, 2012). Uma série de desafios sendo gradativamente despertada no âmbito
da “teoria patrimonial”, que agora passa englobar maiores fragmentos e unidades territoriais,
como da “prática patrimonial”, cuja relação entre os sujeitos e seus espaços passa a ser
dinamicamente hierarquiza, quantificada, mediatizada, objetificada por projetos alheios às
populações inseridas nestes territórios, ou a grupos sociais historicamente hegemônicos.
É necessário pontuar que para além mesmo da crítica a economia política, cuja
reprodução das relações sociais depende de um amplo conjunto estrutural, permeado entre
outras categorias pela vertente ideológica-cultural, a cidade só recentemente passou a ser
tratada no conjunto como um bem cultural. Contraditoriamente, a normatização operada nos
territórios indica que essa possibilidade só é cada vez mais concreta a partir dos interesses
produtivos indagados pela criação de novas necessidades germinadas massivamente pelo
mercado do lazer e entretenimento. Numa primeira etapa de reflexão acerca da necessidade de
salvaguardar a memória e, portanto, da manutenção de determinadas construções humanas, a
cidade não foi objeto de referência em políticas de preservação, até mesmo porque suas
funções nunca tiveram qualquer relação de valor histórico. Só mais tarde foram concebidas
como obras que materialmente eram capazes de revelar a identidade da nação, da cultura, da
sociedade. Mas ainda incapazes de uma perspectiva integrada de desenvolvimento urbano
(OLIVEIRA, 2012).
Concomitantemente, em 1996 é inaugurado no Parque da Aldeia a sede da
organização não governamental da OCA - Escola Cultural, com atividades recreativas e
educativas às crianças e jovens da região. Atuando com projetos sociais, as atividades na
Aldeia pela OCA tornam-se frequentes, buscando conscientizar estudantes sobre a
268
importância daquele espaço e, num viés cultural calcado nas tradições afro-brasileiras, como a
capoeira e o maracatu, dar maior qualidade e complexidade ao processo educativo e aos novos
tempos de Carapicuíba. As diversas visitas ao local evidenciam que hoje são os alunos e
agentes de cultura desta instituição, junto com a comunidade, a desenvolver efetivamente
práticas neste espaço.
Outro marco legal no âmbito municipal é efetivado no ano de 1998 na transformação
do espaço da Aldeia e adjacências, por meio de decreto municipal, numa Área de Preservação
Ambiental (APA). Neste processo, aviltado pela população local, revela-se o papel
operacional da comunidade frente à expansão urbana desenfreada sobre o aldeamento, assim
como a degradação ambiental do entorno. Mais que isso, o papel central que as questões
ambientais emergentes traduzem numa prática cada vez mais compassada com os interesses
políticos e sociais, que não se exprimem apenas nos interesses da preservação dos recursos
naturais, mas aqueles ligados diretamente a cultura e sua reprodução. No caso,
especificamente pela comunidade de moradores do bairro Santa Terezinha, nas proximidades
da Aldeia, que em ofício ao CONDEPHAAT, revela a luta pela aprovação do decreto pelo
município e as dificuldades enfrentadas por conflitos de interesse com a atual gestão
municipal92. Na verdade, desde a década de 1980 a Sociedade de Amigos do Bairro da Aldeia
de Carapicuíba esteve a frente de vários pleitos e alternativas para a “proteção da Aldeia”,
inclusive com a criação de políticas de preservação junto a municipalidade (FACCIO, 2010).
A tensão que perpassa os antigos moradores não se encerra apenas com o IPHAN ou a
gestão administrativa do município, mas entre eles e os novos moradores que agora margeiam
o espaço da Aldeia. Destes, cabe destacar algumas falas que mostram importantes disputas
pela realização de atividades culturais no pátio da Aldeia. Em um dos casos, uma das
moradoras explicitou a importância da realização da cultura caipira no lugar, da vinculação
histórica e que outras manifestações, como o funk ou o forró, poderiam descaracterizar o
patrimônio cultural. Percebe-se nitidamente o espaço de luta que se estabelece politicamente
em torno das manifestações e práticas culturais, a qual a Associação Sarabaquê – ligada às
famílias Camargo e Leite, que possuem o direito de uso da maioria das habitações e que há
mais de um século perpetuam os rituais religiosos e profanos da comunidade – buscam
92 Anexo 04 - Notificação da associação de moradores do entorno da Aldeia (1998) ao Condephaat e Iphan:
denúncias de depredação e problemas na Aldeia de Carapicuíba.
.
269
priorizar além das festas de Santa Cruz e Santa Cruzinha, também a romaria e o festival de
viola caipira que ocorre no primeiro sábado de cada mês. Além da Associação, a OCA tem
livre circulação, pela presença que se efetiva com o espaço construído na área do Parque e
pelo apoio que dão continuamente à comunidade. Em outras falas, as dimensões do
patrimônio cultural emergem como extremamente negativas, rivalizando com o
desenvolvimento e todas as possíveis positividades da modernidade. Em uma das entrevistas,
no bairro da Aldeia, em sua ZUC, um morador explicou diversos problemas em relação ao
conjunto tombado, como a dificuldade de ampliação de atividades comerciais, ou do pleno
desenvolvimento para o bairro.
Eu não gosto. Perdemos muita coisa boa aqui por causa da Aldeia. Veja lá, os
bairros perto do centro, tem Extra, tem posto de gasolina, mercados e um monte de
coisa. Aqui a gente precisa pelo menos ir lá na Vila Dirce, pegar a Inocêncio que é
complicado. Eles não pensaram nisso, porque se pensassem na gente iam ver que o
que precisamos é de comércio, de trabalho. Agora, ali mesmo tem o parque, até aí
tudo bem, porque parece mesmo que muita gente usa, mas e a Aldeia? Nada. Nada
mesmo, só um monte de coisa que impede aqui. Não tem turismo, ninguém vai nem
na igreja, porque pelo que sei nem tem nada mais lá. [...] O povo preferia que
derrubasse, o bairro parou. (Morador do Jardim Marilu – UIT da Aldeia, aposentado,
58 anos).
Em fins dos anos de 1990 outras intervenções sobre a Aldeia continuam a ocorrer
junto as já analisadas anteriormente, mas é nesse mesmo ano de 1998 que, a par de relatoria e
registro fotográfico sobre as irregularidades constatadas pelo IPHAN (Figura 45), iniciam-se
amplas reformas. Intervenções estratégicas que foram executadas por empresa de engenharia
e que abrangiam ampla reforma tanto da capela, quanto do pátio, além de telhados, como as
das casas 20 e 21. Esta ação é sugestiva, inicialmente pelas precárias condições observadas na
figura subsequente, quanto ao compasso das políticas urbanas que complementam à instalação
do parque. Sem dúvida, esta foi uma das mais vultosas intervenções no espaço do aldeamento
até então, considerando especialmente o conjunto urbanístico da Aldeia, desde seu
tombamento em 1940. Ao contrário das reconstruções cirúrgicas, de ações pontuais nas casas
ou na capela, observa-se uma preocupação mais ampla com o conjunto93.
93 Anexo 05 - Ofício do Iphan (1998) à prefeitura de Carapicuíba acerca de execução de obras e restauros na Aldeia.
270
Intervenções no Conjunto da Aldeia de Carapicuíba em 1998
Figura 45: À esquerda, planta e perfil de parte da Aldeia utilizado no projeto de restauração. À direita, relatório
fotográfico com irregularidades e algumas obras iniciadas.
Fonte: Arquivo 9ª.SRIPHAN/SP.
No entanto, Henne (2015) denuncia a péssima qualidade dos serviços executados no
convênio realizado entre a prefeitura de Carapicuíba e o Ministério da Cultura por meio do
IPHAN. Tal afirmação parece ter coerência, primeiro porque que se desdobra cinco anos mais
tarde uma nova requalificação do espaço, com gastos elevados para um local que sempre
esteve relativamente à margem das políticas federais de preservação. Em segundo plano, mais
tarde, há pedido de explicações do Ministério Público federal (MPF) sobre as obras
executadas à 9ª.SRIPHAN94, provavelmente por algum tipo de denúncia realizada e que não
fora possível identificar precisamente nos arquivos. Segundo a autora, além do serviço de
dedetização de cupim ter sido ineficiente, “[...] para a confecção dos madeiramentos dos
telhados e das cumeeiras foram usadas madeiras de péssima qualidade, tanto é que, a maioria
dos moradores após pouco tempo depois teve que refazer os telhados senão já estaria tudo no
chão.” (HENNE, 2015, p. 85). Essas tensões são, portanto, permanentes, sobretudo ao longo
das últimas décadas do século passado.
Entre os dois decênios finais do século passado, é verdade, ampliam-se as intervenções
locais, que vão de restauros e reformas pontuais, no limite à reestruturação urbana resultante
no desvio da estrada e criação do parque da Aldeia. No entanto, esvaziam-se as tradições do
lugar, as quais resistem de forma precária diante da urbanização do território e, agora,
94 Arquivo 9ª.SRIPHAN/SP, no processo nº. 01506000219/2003-31 – Vol. II/II.
271
pensadas para um plano mais simbólico e potencial do turismo e atividades culturais, do que
propriamente como a rememoração ou estreitamento de laços familiares e de amizade. Menos
ainda acerca da religiosidade que permeava todas as atividades, dificuldade que, como
comprovado, também deriva de ações da própria igreja na resistência de manutenção das
antigas práticas ali realizadas. A citação seguinte evidencia exatamente algumas dessas
transformações.
[...] E aí ficou um negócio meio ruim porque no começo você ia lá encontrava todo
mundo e de repente você começa a frequentar um lugar que você não conhece
ninguém então você tende a se afastar né e as festas também passaram a não ser boas
como eram antigamente e o que que tinha aqui em Carapicuíba? Tinha o cinema,
hoje em dia nem cinema tem mais. [Sobre a festa de Santa Cruz, na Aldeia de
Carapicuíba] Então, assim... antigamente lotava o pátio de estudante que vinha
fazer trabalho, filmar , tinha mais barraquinhas, barraca de comida tradicional,
então fazia quentão, o pessoal tomava muito quentão, comia churrasquinho
, porque era época de inverno, em maio já é frio em São Paulo né, então mexia com
a economia também né, hoje o pessoal não faz barraquinha porque não tem público
e vai investir o pouco que tem e não tem público pra consumir que ele comprou
(Entrevistada 10, moradora da UIT Aldeia de Carapicuíba, 58 anos).
Como se apreende, a população mais antiga de Carapicuíba processa na década de
1990 a derrocada das próprias relações sociais que se estabelecem em torno de festas e
atrações populares, permeadas ou não pela religiosidade. As mudanças operadas no cotidiano
trazem novos modos de vida, que pouco se comunicam com o passado suburbano e ligado à
cultura caipira, se não num espectro folclórico e simbólico, que apesar das práticas que efetiva
e, pois, das novas relações que gera, sugere uma dinâmica acumulativa, porém mais
independente das rugosidades espaciais. De tal maneira, a dança de Santa Cruz da Aldeia
passa a ser representada em diferentes espaços, com subsídios de programas e políticas
públicas, num prospecto cultural que é totalmente diferente da ligação religiosa e espacial que
possuía no passado. Como é o caso da romaria, em que mesmo havendo sobreposição entre
sagrado e profano, torna-se preponderante, gerando nos grupos mais antigos ligados às
tradições conflitos de difícil mensuração, não apenas em Carapicuíba, mas em outras
realidades.
Como no passado, as ações dos órgãos patrimoniais, assim como a governança
metropolitana expressada no planejamento e gestão do sistema urbano, seja no âmbito
estadual ou municipal, perpetuam uma lógica preservacionista estritamente sobre os bens
materiais, ou de “pedra e cal”. Limitadas a ações de restauros e orientações técnicas nos
acordos ministeriais com a municipalidade, observando-se um distanciamento do Estado com
a comunidade e suas tradições. Situações que reverberam nos tantos conflitos, limitados aqui
272
na descrição dos casos mais emblemáticos. A frenética busca pela originalidade dos objetos,
principalmente a das formas arquitetônicas construídas, suas técnicas de taipa de pilão, ou
pau-a-pique, às formas coloniais do retângulo jesuítico calcado nas Leis das Índias, aliadas ao
potencial instrumental de ser objeto turístico ou peça decorativa (que nunca se efetivou
concretamente), abandonaram possibilidades mais democráticas e coletivas de apreensão do
patrimônio cultural da Aldeia e, portanto, de sua própria preservação.
6.3 Da rugosidade-monumento-documento a rugosidade-instrumento (2000-2014)
As renovações urbanas em Carapicuíba marcam um novo tempo e cristalizam no
espaço, além de formas geográficas destinadas à fluidez do capital, em paralelo, do mesmo
modo, equipamentos de lazer e áreas recreativas, que passam a fazer parte do cotidiano do
trabalhador. Destarte, a própria lógica dos bens culturais, expressão das tradições locais, vão
sendo convertidas em expressões instrumentais, que se associam aos anseios do
entretenimento e do espetáculo. No caso da Aldeia, claramente indicado pela criação na área
adjacente ao pátio um amplo anfiteatro para shows e atividades culturais. Além disso, o
surgimento de um restaurante chileno com a venda de empadas, um ateliê de artes, a criação
posterior do estacionamento, bem como o desvio do fluxo de trânsito local. Cada vez mais
segregada da cidade, seja pela barreira constituída por densa vegetação instalada, pelos limites
do parque e das expropriações realizadas, ou pelo fluxo de trânsito alterado, a rugosidade
patrimonial da Aldeia ganha novos contornos, em que sobressaem narrativas e anseios em
torno de uma autonomia calcada em novas atividades produtivas no local.
No movimento histórico em que se insere o patrimônio nacional da Aldeia, a tentativa
de reintegrar plenamente suas dimensões universais é observada ano de 2001, quando se
verifica em memorando do coordenador do GT-IPHAN, ligado ao Monumenta95, solicitando à
9ª.SRIPHAN/SP indicação de monumentos para a possibilidade de integrar o regulamento
95 Programa de acordo de empréstimo e cooperação internacional entre o governo federal, através do Ministério
da Cultura e o IPHAN com o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID). O Monumenta tem por objetivo
o desenvolvimento do patrimônio cultural brasileiro associado aos sítios e conjuntos urbanos (DUARTE
JUNIOR, 2010). O Monumenta é “símbolo primaz da universalização do patrimônio cultural brasileiro, [...] um
representante, no Brasil, das ações globais de requalificação e renovação de centros de cidades antigas do mundo
[...] (COSTA, 2011, p. 17).
273
operativo do programa. A indicação é relativa a possibilidade deste espaço agregar
investimentos do acordo de cooperação entre Ministério da Cultura com o Banco Mundial
(BID). Ao trazer os fundamentos preservacionistas praticados internacionalmente, o programa
é considerado um importante rebatimento das ações globais na escala dos locais (COSTA,
2011). De tal maneira, considerando a relevância dos bens inseridos na Aldeia96, estes passam
a compor uma listagem inicial de possíveis projetos a serem executados pelo Monumenta.
De fato, ao estabelecer indicadores que pudessem classificar e hierarquizar
objetivamente as áreas passíveis de desenvolvimento dos projetos97, a Aldeia de Carapicuíba
obteve a melhor classificação do estado de São Paulo. Além dos problemas já elencados
anteriormente, fatores como pluralidade, descentralização, diversidade e risco, foram
determinantes para que a mesma ocupasse a 16ª. colocação entre os 94 sítios ranqueados
como prioritários a receberem os projetos de todo Brasil (à frente, inclusive, das primeiras
cidades a receberem os recursos e projetos do Monumenta). Interessante nesse processo é
observar o enquadramento pelo programa em relação a Aldeia, listado pelo aspecto de
interesse ao patrimônio indígena, quando na verdade essa perspectiva seria muito
questionável e relativa mais propriamente a patrimônio colonial, desde que se considere o
aldeamento enquanto um cativeiro. A posição da Aldeia de Carapicuíba na listagem final
mostra sítios históricos até então com pouco destaque das políticas patrimoniais brasileiras
(DUARTE JUNIOR, 2010).
Diante da incapacidade revelada de sustentar importantes contrapartidas exigidas pelo
programa, sobretudo por ser um dos municípios com menor orçamento da RMSP e do espaço
da Aldeia contar com poucos moradores ou empresários capazes de arcar com parte dos
custos das intervenções, o acordo final entre os vinte e seis conjuntos excluiu o aldeamento de
Carapicuíba. O que revela o caráter do Monumenta em privilegiar áreas com certa vocação
para a dinamização econômica e de maior representatividade monumental, cuja crítica de
Costa (2011) é contundente por traduzir o caso de Ouro Preto-MG, Patrimônio da
96 Dado suas características históricas (tanto no plano da origem do monumento, quanto pela integralidade de
suas formas atuais), dos riscos decorrentes da expansão urbana descontrolada sobre a área (conforme apontam
EMPLASA, IPHAN ou a própria municipalidade) e, por fim, das dificuldades de uma cidade periférica e cuja
população é impossibilitada de intervenções (isso, no entanto, não era um fator positivo para o Monumenta,
ainda que um dos critérios de seleção dos projetos fosse a situação de risco, na prática o que se concretizou
foram projetos cujos municípios e agentes privados puderam pagar).
97 Conforme Duarte Junior (2010), os critérios de seleção consideraram os seguintes aspectos: pluralidade;
descentralização; homogeneidade; diversidade; singularidade; vazio cronológico e risco.
274
Humanidade, onde o programa restaurou 19 monumentos e 34 imóveis privados. Se
analisarmos friamente os valores investidos nas restaurações em Ouro Preto pelo Monumenta,
veremos que apenas os custos da obra executada na Capela das Dores chega a ser maior que
todo o montante gasto com obras na Aldeia de Carapicuíba desde seu tombamento em 1940.
Seletividade de investimentos claramente identificada na escala das cidades de Ouro Preto e
Diamantina por Costa (2011), que ampliada à escala nacional evidenciará contradições ainda
maiores, consagrando os já reconhecidos lugares do patrimônio, que se perpetuam pela
legitimidade de políticas governamentais e por investimentos em setores restritos do espaço
urbano ou por aqueles que conseguirem pagar por parte destas ações. Mesmo não sendo
selecionada, verifica-se a contínua tentativa de imprimir à Aldeia a consagração de seus bens
patrimoniais, ressignificando seus conteúdos e materializando uma lógica produtiva que essa
reserva de valor ainda guarda.
Se consideradas com criticidade a forma institucional de atuação do IPHAN em
relação a preservação da Aldeia de Carapicuíba, no período em que Luís Saia conduziu ali os
trabalhos e ações, as políticas mais contemporâneas dirigidas pelo órgão não deixaram de
assim permanecer, fazendo dos habitantes locais alegorias animadas do pequeno conjunto
isolado. Até hoje, o estudo de Luís Saia (1937) é um dos mais completos a considerar a
estrutura material do conjunto arquitetônico, bem como das tradições e costumes ali
praticados. Sem esquecer de importantes trabalhos sobre o folclore (PELLEGRINI, 1979) e
propriamente sobre a Festa de Santa Cruz (ESCALANE, 1981). Essa ausência de ações,
diálogos e políticas públicas fez com que no decorrer do tempo os munícipes de Carapicuíba,
ou mesmo a própria comunidade inserida no aldeamento, estivessem quase sempre alheios aos
planos nacionais das ações federais na área (que se reverbera no próprio desconhecimento das
instituições de preservação, dos bens protegidos – Gráfico 07).
275
Gráfico 07: Desconhecimento das instituições e políticas de preservação do patrimônio cultural98.
Fonte: Questionários semiestruturados aplicados nas UIT’s pelo autor, 2016.
Da busca de perpetuar uma identidade nacional, que era impetrada pela reprodução
dos dogmas arquitetônicos, das técnicas construtivas do colonizador português e da igreja
católica, somam-se as várias tentativas de tornar o conjunto num recurso turístico, ou de
atividades integradas aos serviços e atividades que o modo de produção passava a exigir,
sobretudo numa metrópole como São Paulo, que ultrapassava seus 15 milhões de habitantes.
Trata-se, muito genericamente, do conceito usado por Sant’Anna (2003) da “cidade-atração”,
ligado às intervenções potenciais de instrumentalização do espaço para as novas atividades
produtivas em jogo. Segundo a autora supracitada (SANT’ANNA, 2003), ao analisar a
preservação de centros históricos em São Paulo, Rio de Janeiro e Salvador no período da
década de 1990, explica que
O foco da preservação esteve, principalmente, na valorização, recuperação e
reconstituição minuciosa de fachadas principais, com grande ênfase na
reconstituição e até reinvenção de elementos concebidos como de especial valor
patrimonial. As operações de conservação caracterizam-se inda pelo uso de
98 Valores obtidos através dos 205 questionários semiestruturados aplicados nas UIT’s de Carapicuíba.
276
estratégias de isolamento entre o novo e o antigo, verificando-se a tendência de se
operar em pólos extremos, isto é, ou por meio da produção de pastiches ou de
formas absolutamente contratantes. [...] Nos anos 90, imperou, portanto, uma
concepção do patrimônio urbano de caráter facadista e concentrado em poucos
elementos arquitetônicos. Essa concepção foi favorecida e reforçada pela lógica
financeira e promocional que presidiu a montagem e a execução da maioria das
operações e pelo vínculo dessas ações como entretenimento, com o lazer cultural e
com o turismo de espetáculos. Decorreu ainda de uma falta generalizada com o
papel informativo, documental e social do patrimônio (SANT’ANNA, 2003, p. 166168).
A terminologia cidade-atração não se ajusta plenamente à Aldeia de Carapicuíba,
primeiro porque a formação do conjunto tombado remete ao contexto do Brasil Colônia, de
uma instalação isolada espacialmente do campo ou da cidade. Mais tarde passa a ser
compreendida como uma herança rural, mantida e preservada pela cultura caipira. Tornandose município somente após os idos da década de 1950, quando se emancipa e é integrada
efetivamente a São Paulo pelas linhas de trem e sistemas rodoviários, é que o patrimônio
comportaria as dimensões diretamente relacionadas ao plano urbano. Isso, no entanto, com
narrativas que limitaram-se aos dois contextos iniciais, já que as narrativas do patrimônio
exigiam a excepcionalidade histórica ou a representatividade central das dimensões
identitárias nacionais em criação (o índio – o colonizador português – o jesuíta). Por isso,
mesmo que reunida ao sistema urbano, desde o princípio da integração à Grande São Paulo,
esta não expressa em suas formas-conteúdos aparentemente qualquer relação direta.
Descompassada com o restante do entorno, dos condomínios e de habitações populares, das
indústrias e das vias expressas, revela-se a pequena área, com paisagem de casas simples, ou
um vilarejo, como denominou Langenbuch (1971), tornando incongruente um conceito de
cidade ou centro histórico propriamente. Nesse sentido, enquanto conceito, a rugosidade
patrimonial torna-se peça-chave ao referenciar um espaço que congrega traços rurais e
urbanos, ou de exceção se quiser pensar o espaço do aldeamento enquanto cativeiro indígena,
ou como um patrimônio cultural que carrega todas essas dimensões e mais as dos munícipes,
que ali criaram seus próprios sistemas de representações.
Se não há ajuste do conceito, por outro lado, as ações empreendidas no espaço da
Aldeia, assim como os resultados delas, se assemelham plenamente com a análise da autora
sobre os centros históricos destas grandes metrópoles. Em Carapicuíba, mesmo a importância
de criar um parque urbano no entorno dos bens tomados, gerando opções de lazer a
empobrecida população local, resultou porém no estabelecimento de uma fronteira entre
bairros ricos e pobres daquela unidade territorial, assim como entre frequentadores do parque
277
em relação ao pátio da capela de São João Batista. O qual tornou-se num espaço pouco
frequentado durante o dia e ocupado por moradores de rua durante a noite. No entanto, devese apontar a constante tentativa de sustentar a rugosidade patrimonial organizada, segura e
preservada, com a presença constante do policiamento no local e pinturas periódicas das
fachadas das casas e capela “[...] com vista à atração de atividades e usuários capazes de
dinamizá-las economicamente e promover a valorização do parque imobiliário.”
(SANT’ANNA, 2003, p. 161). Tal valorização acompanhou o uso institucional do mobiliário
na Aldeia pela secretária e casa da cultura, a biblioteca municipal e, atualmente, a secretaria
de turismo de Carapicuíba. Uma base da polícia militar foi instalada, uma sede dos correios,
além da posterior criação de duas associações: Sarabaquê de Difusão Cultural e Social e a
Romaria Feminina de Carapicuíba.
Outra perspectiva é a ausência documental das tradições, da memória coletiva, que
asseguraram por tanto tempo a permanência daquela rugosidade, como ainda se constituem
num dos elementos mais importantes, tanto para a comunidade, quanto para a totalidade do
município. Essa ausência não é expressada apenas por órgãos de preservação, como o
IPHAN, ou CONDEPHAAT que pouco se reclinaram em munir gestores e moradores com
ferramentas apropriadas para o preservação, mas também pelas instituições municipais, as
universidades públicas e privadas, bibliotecas e até mesmo a igreja. Não há um museu na
cidade, não existe arquivo público, as bibliotecas municipais possuem limitações
documentais, a casa da cultura ou a própria secretaria de turismo diante de suas limitações
reclinam-se ao limite em apoiar as festividades e as visitas de poucas escolas e universidades.
A rugosidade monumento-documento permanece, porém as ações de instrumentalização não
se efetivam plenamente, ainda que como pode se observar não cessarão as tentativas, o que
sugere algumas reflexões traçadas no próximo subitem do capítulo.
A Aldeia e seu entorno expressam intensa metropolização, com a projeto de heliporto
e a construção do rodoanel Mario Covas (Trecho Oeste), tornando-se estes símbolos materiais
maiores do processo, marcando a paisagem com contrastes de tempos distintos que, de fato,
são um continuum só. Em princípios do século vinte e um as articulações multiescalares da
Aldeia de Carapicuíba são impactadas e rebatem não apenas tentativas de enquadramento
num processo global em que o patrimônio cultural se pronuncia com a economia, com a
política, o planejamento e a gestão metropolitanas. Estas carregam importantes e novas
infraestruturas e articulações locais-nacionais-globais por meio da metropolização. Processo
278
que continua a incidir em Carapicuíba e a flexionar os territórios às novas funções exigidas
pela Grande São Paulo.
No ano de 2001 instala-se numa área com mais de 55 mil metros quadrados, nos
limites da ZPP da Aldeia de Carapicuíba, uma base de helicópteros tida como referência
mundial no segmento de heliportos, na manutenção e customização de aeronaves e em
serviços de hangaragem, abastecimento, taxi aéreo, entre outras atividades estratégicas. De tal
maneira, como os embates acerca do distrito industrial, quase uma década antes, as obras em
curso naquele período foram paralisadas por embargo extrajudicial expedido pelo MPF,
impetrada pelo IPHAN. Cabe ressaltar a justificativa da ação ao MPF, calcada na importância
da Aldeia pela sua singularidade e excepcionalidade (já que permaneceu frente aos outros
sítios paulistas), mas fundamentalmente pelo seu valor monumental e de técnicas construtivas
e arquitetônicas (como a taipa de pilão ou estruturas portantes de madeira roliça). Quando, de
fato, os mais prejudicados seriam justamente os moradores locais, com possível aumento do
fluxo de trânsito nas vias adjacentes, mudança dos padrões de ocupação e uso do solo, além
da poluição sonora.
O embargo das obras de construção de um heliporto nas proximidades da Aldeia de
Carapicuíba se justifica pela necessidade de se avaliar o impacto que o
empreendimento poderá causar ao conjunto tombado, com vistas a avaliar seu
impacto visual assim como evitar os potenciais riscos à sua integridade e à sua
conservação. [...] Trata-se de um conjunto de pouco mais de 20 singelas edificações,
extremamente frágeis, último testemunho dos aldeamentos jesuíticos característicos
da ocupação inicial do planalto paulista, as quais, ademais, constituem um
verdadeiro repositório de técnicas construtivas tradicionais (taipa de pilão, pau a
pique, tijolos de barro, estrutura portantes de madeira roliça, coberturas de telha capa
e canal, etc). Contrariamente ao que ocorreu em São Miguel, Embú, Escada, onde
somente as igrejas ou capelas sobreviveram, ou em Pinheiros, Santo Amaro,
Tatuapé, ou São Paulo, onde pouco ou nada restou das instalações, esta aldeia é
único remanescente urbanístico da primeira fase de ocupação do planalto paulista.
Sua conservação e proteção é, portanto, especialmente necessária, exigindo cuidado
e atenção redobradas. Neste sentido, está sendo realizado um grande esforço para
que se criar (sic) em torno da aldeia um parque que a proteja até do convívio com as
humildes, mas agressivas, habitações que caracterizam a periferia paulista
(Justificativa do Pedido de Embargo do IPHAN ao MPF. Processo:
2001.61.00.007167-0).
Compreende-se que o sentido do discurso traduzido no documento citado é revelador
em primeiro pelo desconhecimento da área em que se insere o aldeamento, já que o parque
havia sido finalizado há mais de cinco anos. Depois, a narrativa marcadamente
segregacionista, que separa o bem tombado do restante da cidade, isto é, das habitações
periféricas que a circundam, porém nada se fala das chácaras, condomínios e empresas que ali
279
também disputam espaço e território. Em terceiro, o culto ao monumento pelo seu valor
histórico e de antiguidade99 (RIEGL, 2014 [1903]), em que a permanência do conjunto se
diferencia de todos os outros casos. Por fim, ainda neste fragmento, a emergência do discurso
da perda, o qual reitera e justifica que ações como as instalações modernas em jogo poderiam
decretar o fim da pequena, singela e frágil Aldeia de Carapicuíba.
Após mandato de segurança requerido pela empresa HELIPARK e acolhimento do
MPF as obras foram retomadas, já que o espaço localizava-se fora do perímetro de entorno
considerado por lei municipal (PDDI, 1981, 1986). No entanto, a paralisação funcionou,
estrategicamente, no sentido de uma avaliação pormenorizada dos impactos diretos e indiretos
das instalações da base pelos órgãos de preservação, destacadamente o IPHAN e o
CONDEPHAAT. Além disso, foram estabelecidos acordos e medidas entre os interessados,
considerando principalmente o desvio dos voos da área tombadas, assim como cuidados
preventivos em relação a poluição sonora, trepidações e outros impactos que por ventura
afetassem diretamente o aldeamento. Em entrevista, no entanto, uma das moradoras locais
explicou a existência do alto fluxo de aeronaves que cruzam ou circundam a Aldeia, além do
barulho que fere o sossego daquele espaço. Impactos que na atualidade requerem novos
diálogos entre os órgãos de preservação, a comunidade e a empresa por novos acordos e
procedimentos.
Paralelamente, finalizam-se as obras do trecho oeste do rodoanel Mario Covas, nas
proximidades da Aldeia de Carapicuíba, sobre o ribeirão Carapicuíba. Perfazendo nesta área o
sistema Castello Branco/Raposo Tavares, com implantação de vias marginais e acessos aos
municípios de Cotia, Osasco e Carapicuíba. A importância desta nova ligação rodoviária para
Carapicuíba se insere no contexto de modernização paulatinamente maior do seu território.
Seja pela integração com outros municípios da Grande São Paulo, na conectividade da via
com o distrito industrial, ou pelas novas intervenções urbanas que se desenvolvem a partir da
chegada de novos moradores (edifícios residenciais, loteamentos de chácaras e condomínios)
e atividades nestas áreas (apresentações culturais, comércio e serviços mecânicos). Cada vez
mais, portanto, estabelecendo uma nova cidade frente ao pequeno conjunto que, por sua vez,
permanece com suas antigas formas, abrigando, porém, outros conteúdos e ações.
99 Pelos aspectos estéticos do monumento o valor de antiguidade pressupõe a intervenção arbitrária na sua
existência, sem sofrer acréscimos, reduções, ou mesmo restituições que as forças naturais deterioraram. Ao valor
histórico se acrescenta a possibilidade de intervenção a partir do momento em que o valor de antiguidade foi
estabelecido, ou seja, sinteticamente, a partir do momento em que se qualifica o bem como um patrimônio
cultural a ser preservado (RIEGL, 2014).
280
Entre 2003 e 2004, da licitação ao início das obras, uma reforma estrutural na Aldeia é
operada através do convênio Minc/SE/FNC de recursos dirigidos ao Projeto Conservação
Preventiva de Bens do Patrimônio Histórico Artístico Nacional, conduzido pela
9ª.SRIPHAN/SP sob a denominação de Projeto de Revitalização da Aldeia de Carapicuíba.
Neste processo, entre outros documentos, a carta convite 03/2003100 em suas descrições
gerais, apesar do caráter informativo, considerando a especificidade do pleito licitatório e o
convite de possíveis empresas em realizar as obras, pode ser considerada uma das mais
completas descrições do espaço da Aldeia de Carapicuíba desde o texto original de Luís Saia
em 1937. Além disso, pode ser considerada a obra estrutural mais cara e vultosa desde seu
tombamento, onde a alocação de recursos chegou a mais de R$139.000,00101. Se adicionados
os valores aplicados nas intervenções em 1998, após inauguração do parque, em sete anos os
investimentos do governo federal na área ultrapassam R$200.000,00, considerando, porém,
mais os aditivos de contrapartida do município o valor é ainda maior.
Os valores parecem irrisórios para a preservação de um conjunto de bens culturais
materiais e intangíveis com a relevância histórica da Aldeia, sobretudo quando comparados
aos valores de projetos como o Monumenta, desenvolvidos em centros históricos de diversas
cidades e que ultrapassam a casa dos milhões de reais. Trata-se, no entanto, de saliente
incremento econômico ali investido e, como comprovam os documentos e relatos, jamais
realizados no conjunto da Aldeia no passado. O que comprova o papel marginal no quadro do
patrimônio nacional por ele ocupado, lembrando que São Paulo foi ignorado pela ausência da
monumentalidade de suas construções quando esse pressuposto era um dos fundamentos do
tombamento e das políticas públicas de preservação no período de pedra e cal, ou numa
cidade periférica cuja funcionalidade carrega a sina da dependência e do desenvolvimento
desigual que se perpetua em níveis regionais da metrópole nacional ao sistema mundo.
As imagens do relatório de restauro (Figura 46), submetidas ao IPHAN pela empresa
contratada para realização das obras, comprovam uma vez mais a ênfase de atuação sobre o
mobiliário. Das intervenções realizadas no “projeto de revitalização”, constam serviços
preliminares (mobilização e indicação), demolição e retirada (telhas, trechos de alvenaria,
entulhos), estruturas e coberturas (madeiramentos, mobiliários), esquadrias (recuperação de
100 Arquivo da 9ª.SRIPHAN/SP - Processo 0506000219/2003-31 (Volume I).
101 Arquivo da 9ª.SRIPHAN/SP - Processo 0506000219/2003-31 (Volumes I e II).
281
portas e janelas), revestimentos (pisos e pinturas diversas), imunização e limpeza (tratamento
das madeiras e combate às formigas e cupins).
Projeto Básico de Restauro da Aldeia de Carapicuíba – 2003/2004
Figura 46: (1) Perfis das faces de intervenção do conjunto da Aldeia de Carapicuíba; (2) Aplicação de
cupinicida; (3) Pintura de portas e janelas; (4) Restauro de batentes e soleiras; (5) Fachada casas 01 e 02 como
encontrada antes da execução do projeto; (6) Fachada após reconstrução e restauro – 2004. Recursos
Minc/SE/FNC.
Fonte: Arquivo da 9ª.SRIPHAN/SP.
Uma das maiores intervenções foi a reconstrução quase que inteira das casas que
abrigavam o restaurante nos números 01 e 02, que já haviam sido reconstruídas ainda na
gestão de Luís Saia no SPHAN/SP, depois novamente na década de 1980 (provavelmente em
1986) 102 e, agora, mais uma vez eram adequadas às condições pretéritas que possuíam e
foram descritas no processo de tombamento. A envergadura das intervenções são ressaltadas
pelo IPHAN em correspondência com o MPF, como segue:
102 Ao fazer um mapa com nome dos moradores da Aldeia, Escalante (1981) aponta como proprietários das casas
01 e 02 Bento Pereira, colocando entre parênteses que as duas casas ruíram. Por sua vez, fotos de fins da década
de 1980 observadas com moradores e no arquivo da 9ª.SRIPHAN/SP mostram a sua presença no conjunto.
282
Desde 2004 o IPHAN tem trabalhado para a recuperação deste conjunto. A primeira
etapa envolveu todas as construções voltadas para o pátio norte e biblioteca
municipal no pátio oeste. Nesta segunda etapa que se conclui neste mês de março,
foram restauradas todas as casas do pátio leste incluindo o Posto da Polícia Militar e
do pátio sul, incluindo a reconstrução completa da cobertura do centro dos caixilhos
e portas da Igreja. Quase todas as edificações foram parcialmente desmontadas,
seus moradores transladados para as construções já restauradas, e
posteriormente realocados em suas casas restauradas e tratadas contra xilófagos.” (Relatório do IPHAN ao MPF – Representação 1.34.000.069.2004-75 –
requer informações das obras de 1998 e condições atuais do patrimônio cultural da
Aldeia de Carapicuíba – grifo nosso).
Finalizado o projeto no ano de 2004, um ano depois é operada uma proposta de
trabalho, com nova intervenção no espaço da Aldeia, agora na sua rede elétrica. Se as ações
são pontuadas como de interesse da manutenção da qualidade paisagística, associada ao valor
de antiguidade do monumento, novas tensões são despertadas com a população local,
inclusive com a posterior saída do restaurante da Aldeia, frente aos embates com o IPHAN e
moradores locais. Uma das moradoras explicou que a manutenção do restaurante ali era difícil
pelas dificuldades que o proprietário tinha com as restrições interventivas limitadas nos
espaços construídos. Explicou ainda que outro problema associava-se à dificuldade de
estacionamento dos veículos, distante do local, além de que a presença dos carros no pátio
gerava tensões com a comunidade, sobretudo nos festejos tradicionais da Aldeia. Ainda sobre
as instalações elétricas, uma das últimas intervenções operadas na Aldeia no ano de 2014 foi a
passagem dos cabos aéreos para o subsolo e implantação de nova iluminação do pátio por
meio de amplos postes metálicos nos extremos da área.
A atual administração demonstrando interesse pela Aldeia resolveu efetuar a
iluminação do pátio da Aldeia. Para isso foi preciso destruir parte do piso para
efetuar obras subterrâneas. Tivemos uma Festa em que dançamos em meio a buracos
e ferros. Mas, em nome da melhoria, aceitamos animadamente as mudanças. Tudo
parecia muito bem até que, para nossa surpresa, de um dia para o outro, foram
colocados postes enormes de ferro em toda a Praça, uma agressão aos nossos
olhos.” (HENNE, 2014, p. 86 – grifo nosso).
Como é passível de compreensão, as contínuas intervenções realizadas nas três últimas
décadas na Aldeia de Carapicuíba, além das tentativas de enquadrá-la em projetos de maior
vulto como o Monumenta, assentam-se sobre infraestruturas limitas ao pequeno conjunto
tombado. Ora em reparos na área do pátio da igreja de São João Batista, ora em uma ou outra
habitação, ora nos mobiliários, ou ainda acerca de instalações elétricas ou pontualmente em
283
problemas mais urgentes que eram denunciados e protelados junto ao IPHAN. Ressalta-se,
uma vez mais, a importância destas cirúrgicas e estruturais reformas, que apesar dos baixos
valores empregados, revelam-se os mais importantes em toda história de atuação dos órgãos
de preservação ou da municipalidade naquele espaço. Não apenas pelos investimentos em si,
mas sobretudo pelas relações de conflito e tensão que se estabelecem concomitantemente com
o entorno em conjunto destas operações. Seja diretamente, inicialmente pela criação do
parque e a desapropriação de mais de uma centena de famílias da área, ou indiretamente pelas
modernizações operadas no distrito industrial, do asfaltamento das vias laterais, do desvio do
fluxo de veículos da Aldeia, dos novos moradores, ou por último, na instalação da base de
helicópteros e o rodoanel.
Esta última fase, da contínua busca por unir a preservação da Aldeia com modernas
atividades produtivas, a qual denominamos de rugosidade-instrumento, não foi concretamente
realizada. Pelas análises in locu, leituras, diálogos com a população e dirigentes culturais do
município, isso derivaria do esvaziamento da Aldeia, sobretudo pelas políticas públicas não
possibilitarem efetivamente a permanência delas, dos serviços e moradores no local. Depois,
por não haver apoio aos projetos e as tradições seculares que animam aqueles espaços, como
o estabelecimento de cooperação e incentivos que propiciassem uma estrutura básica às festas
e atividades religiosas da comunidade. Por último, a base do desenvolvimento calcada no
turismo e na cultura frustrou-se, sobretudo pela dificuldade de acesso ao local, a violência que
impera em Carapicuíba, mas também na ausência de projetos locais e em conjunto com outros
municípios para ampliar a promoção da Aldeia e do parque como destino turístico na Grande
São Paulo103.
Um importante parêntese deve ser colocado em relação a narrativa desenvolvida pelo
circuito “Taypa de Pilão” em referência às cidades e objetos consagrados e explorados nas
atividades turísticas. Em trabalhos anteriores, principalmente em Oliveira (2012), acerca do
Roteiro dos Bandeirantes, pontuamos criticamente a ideologia geográfica traduzida pela
imagem heróica dos bandeirantes em São Paulo, explorada e reproduzida sistematicamente
pelas agências comerciais e empresas de turismo junto às secretarias municipais de cultura e
turismo. No caso deste circuito, uma vez mais, prevalece o valor patrimonial sobre o
bandeirante, às ideias de ampliação do território brasileiro, além dos arquétipos de fé, bravura
103 A criação forma, do circuito turístico “Taypa de Pilão”, no ano de 2009 junto com Embu, Santana de
Parnaíba, Barueri, Cotia e São Roque, anuncia a tentativa de potencializar o turismo na área, bem como na
região como um todo, porém passados mais de meia década sem se concretizar efetivamente.
284
e força lançados aos monumentos e cidades como sinônimos de uma história, que na verdade
é irreal e ideologicamente comprometida com o subjugo colonial e a subordinação militar das
expedições que assassinaram milhares de famílias indígenas, além da escravização de outros
milhares (Figura 47).
Os roteiros de um dia já estão sendo comercializados pela Graffit Viagens e
Turismo, com a proposta é divulgar a história do bandeirismo paulista, com
visitas aos prédios tombados pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico
Nacional (Iphan) e pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico,
Artístico e Turístico (Condephaat). Partindo do tema histórico, os roteiros de um dia
ganham mais atrações dependendo da região e do município. [...] O Circuito
Paulista Taypa de Pilão convida turistas para desbravar o interior do Estado e descobrir a verdadeira história de força, fé e coragem dos bandeirantes. Eles
utilizavam as construções de taipa de pilão para o descanso nas caminhadas ao
interior, com o fim de ocupar espaço e expandir o seu domínio (Matéria na página
oficial da Prefeitura Municipal de Embu das Artes - grifo nosso).
Postal Rota Carapicuíba do Circuito Taypa de Pilão
Figura 47: Verso do postal “Rota Carapicuíba do Circuito Taypa de Pilão”. Antiguidade, patrimônio histórico
nacional protegido (tombado), bandeirantes, jesuítas, técnicas construtivas e colonização são algumas das
qualidades exaltadas.
Fonte: Postal Circuito Taypa e Pilão, Prefeitura de Carapicuíba, 2013.
Traídos pela paisagem, longe do que promete o circuito, ainda que de alguma beleza
estética, os turistas ao chegarem na Aldeia de Carapicuíba se deparam com o pequeno
conjunto de casas térreas que circunda a capela, onde os edifícios remetem a um núcleo rural
285
em meio à metrópole, do que a monumentalidade que possivelmente o desbravador teria
produzido (Figura 48 e 49). Se, de fato, o valor histórico estivesse voltado para narrativa
bandeirante, esta deveria ter um significado muito mais trágico que heroico. Afinal, no melhor
dos cenários, os limites do culto a torturadores e assassinos, ou a um espaço de exceção, de
aprisionamento e cativeiro, só pode prescindir mesmo a decadência desta sociedade. Onde, no
entanto, a resignificação em torno da realidade concreta deste patrimônio traria condições de
outra estratégia de desenvolvimento, superando a patológica narrativa que o circuito continua
a insistir, e reforçando a criticidade nas funções do bandeirante e do jesuíta, recolocados nos
persistentes problemas contemporâneos, muitos dos quais são originados desde a colonização
nos territórios latino-americanos.
Conjunto da Aldeia de Carapicuíba
Figura 48: Perspectiva do conjunto urbanístico da Aldeia de Carapicuíba, rugosidade patrimonial.
Fonte: Postal Circuito Taypa e Pilão, Prefeitura de Carapicuíba, 2013.
286
Ordem e número das casas na Aldeia de Carapicuíba
Figura 49: Croqui com a distribuição das vinte pequenas casas, a igreja e o cruzeiro da Aldeia de Carapicuíba.
Fonte: Escalante, 1981.
Tornar formalmente o patrimônio cultural urbano num dos elementos do planejamento
territorial, apesar de fundamental, não foi capaz de democratizá-lo em sua preservação. Os
avanços discursivos são evidentes, no entanto a prática mostra que alguns dos principais
problemas urbanos residem num planejamento territorial que prioriza valorizar certas
unidades em detrimento de outras. Manifestando-se desde a escala de localidades
relativamente pequenas, com seus núcleos históricos destacados do continuum urbano, até a
reprodução mundialmente sistêmica dos processos por meio da Lista do Patrimônio Mundial
(UNESCO) e de ações que se limitam aos interesses e esforços de (re)valorizações específicas
do território. Como Costa (2011), compreendemos que “[...] a ‘cidade histórica’ deve ser
pensada, planejada, enquanto totalidade urbana e não centrada no núcleo tombado, para assim
se efetivar tanto a preservação do patrimônio quanto a prática do planejamento urbano.”
(2011, p. 143). Ao perceber a cidade de Carapicuíba em sua dimensão metropolitana,
observará facilmente no âmbito de sua periferização, que não apenas as políticas patrimoniais
foram ausentes ao núcleo principal, como a todo território municipal, ou mais criticamente, a
ausência é a própria forma de conivência, de um abandono proposital que se faz para a
produção diferencial de valores sobre os territórios.
287
No ano de 2011, pode-se apontar para uma das mais importantes e diferenciadas
políticas do IPHAN para a Aldeia de Carapicuíba: a contratação de consultoria para subsidiar
a elaboração de normativas para sítios urbanos tombados no estado de São Paulo. Estas
atividades desenvolvidas em várias cidades de São Paulo puderam ampliar o raio de ação e o
olhar para além dos monumentos isolados, sistematizando dados e mapeando de forma
integrada o entorno dos bens tombados. Os trabalhos ainda reclinaram-se em oficinas e
atividades dialógicas com a comunidade, no intuito de sustentar a participação da população
nos processos decisórios sobre futuras ações na área e, até então, pode ser considerado, no
plano das políticas públicas, do planejamento e gestão urbana e do patrimônio cultural, algo
inédito desde as estratégias do PDDI em Carapicuíba e diante das verticalidades praticadas.
Apesar dos limites estabelecidos por um público alvo, que incluía servidores da prefeitura de
Carapicuíba, moradores, usuários da Aldeia e representantes da OCA, as atividades
trabalharam a conscientização, levantando, porém, anseios, potenciais de desenvolvimento e
limitações que por ventura existissem. Na discussão que finda a rugosidade patrimonial de
Carapicuíba materializada na Aldeia de Carapicuíba e, pois, na sua população e comunidade é
que melhor será explorado o referido documento, além dos levantamentos primários obtidos
ao longo da pesquisa. Trazendo uma perspectiva de leitura que transcende as intervenções e
políticas públicas realizadas ao longo do tempo naquele espaço, porém, carregando essas
ações e práticas nas relações e representações da população local.
6.4 O novo espaço da Aldeia, o novo tempo de Carapicuíba: Patrimônio Cultural e Vida
Cotidiana na Periferia de São Paulo
Urge pensar a crise urbana, ou a urbanização crítica (DAMIANI, 2015), também
como uma crise de identidade, cuja ausência do direito à cidade se reverbera concretamente
na condição precária da entidade cultural, de práticas sociais não enquadradas ou limitadas ao
sistema de cotidianidade imposto verticalmente pela vida moderna, bem como do potencial de
desenvolvimento a partir de uma práxis horizontal e coletiva. Não se trata, portanto, de mera
questão subjetiva, ou de uma exclusiva entidade do todo social, mas de um conjunto mais
amplo, em que se concatenam também a economia, a política e o espaço geográfico como
fundamentos indissociáveis da vida cotidiana. Objetificados e inertes no tempo e espaço, os
referenciais de vida em Carapicuíba, cada vez mais efêmeros frente as transformações dos
espaços e relações, perpetuam-se nos velhos mitos fundadores estabelecidos, os quais se
288
concentram nas falas dos moradores em imagens difusas e ligados a história fatual e heróica
do Brasil. No polo oposto, emergem permanências, práticas e atitudes plenas de consciência
histórica, as quais reverbera o potencial de pensar, decidir e realizar coletivamente a cidade.
Do mesmo modo, o papel da geografia na ativação destes potenciais, naquilo que Costa
(2016) reitera dos “utopismos patrimoniais”, enquanto meios de substanciar iniciativas
localizadas e alternativas para além de ações estigmatizadas e predatórias dos territórios pelo
modo de produção atual.
Para Costa (2011), o empoderamento dos bens materiais-simbólicos pela população
seria capaz de sustentar o enfrentamento da patrimonialização global e, portanto, dar outro
sentido para as políticas urbanas pelo ordenamento territorial. Para o autor, “sem a tensão
eficaz dos polos local/global, sem a constante mutação dialética das determinações
mediadoras e das questões intermediárias que ordenam o território urbano (...), não nos
aproximamos da realidade que abarca a patrimonialização global.” (COSTA, 2011, p. 181).
Esta tensão que se efetiva entre cultura e poder ainda perdura e é acentuada pela
patrimonialização, agora numa outra perspectiva de significância, mas que ainda é tratada
muitas vezes de forma neutra ou naturalizante sobre os conflitos sociais. E assim também
decorre no polo dialético da preservação, pois talvez em menor proporção, já que tal
quantificação é dificultada, restam muitos elementos, unidades e conjuntos de formas
geográficas, ou conteúdos que não foram subtraídos totalmente pelo imperialismo e a lógica
pervertida das modernizações. Neste sentido, a autora supracitada lembra da importância que
as lutas sociais possuem para afirmação e fortalecimento das identidades, bem como das
memórias como resistência frente a racionalidade econômica e produtiva contemporânea.
[...] afirmar e fortalecer identidades culturais que se encontram em risco em função
das necessidades de expansão e modernização capitalista que avança sobre
territórios de grupos sociais mais vulneráveis. [...] mobilizar memórias e patrimônio
por meios destas lutas constituem formas de resistência contra a lógica do progresso
e da racionalidade econômica, que defendem a constante ‘renovação’ da cidade,
destruindo bairros como lugares de sociabilidade, para implantar novos eixos
viários, grandes equipamentos da indústria cultural, ou formas de morar autosegregadas (SCIFONI, 2013 p. 527).
Em síntese, ao passo que é verificado o distanciamento dos sujeitos de sua produção
material e espiritual, dos frutos do trabalho individual e coletivo, surgem interessantes
possibilidades a partir de sua marginalidade frente ao sistema “sociometabólico do capital”
(MÉSZÀROS, 2011). Do qual o patrimônio cultural remete as bases mais primitivas da
289
construção institucional da identidade nacional e, assim, da condição de sua própria crítica,
em que a Aldeia de Carapicuíba acaba por ter relevante papel neste processo, não apenas pelo
reconhecimento institucional, mas pela permanência das tradições e laços que se estabelecem
em seu redor. Isso, sem dúvida, coloca inúmeras questões desta construção, acerca da
representação histórica e geográfica que o munícipe possui de sua cidade, mas
fundamentalmente da reafirmação de outras dimensões até então subjugadas pela retórica
patrimonial.
Nesse processo, inicialmente, emerge o papel da superestrutura, que opera orgânica e
metabolicamente sobre a sociedade, no sentido ideológico de suplantar imaginários coletivos
ligados a uma matriz identitária. Destacando-se, pela própria indicação dos entrevistados,
numa história formal, compassada com os preceitos memoriais e sentidos de nação,
geograficamente operados na ideia de formação territorial em escalas que vão do local ao
global. Nos relatos, a unidade da Aldeia de Carapicuíba é capaz de integrar
indiscriminadamente diferentes personagens e contextos explicativos, porém restrito a uma
dimensão de ampla incursão pelo passado, de relações entre territórios e de certa harmonia
cultural entre grupos sociais.
Esses fatos sugerem um espaço harmônico de convivência entre o índio e o jesuíta, em
torno das necessidades coloniais de então. Pouco se aventa do caipira, do imigrante
suburbano, ou da periferia enquanto unidade cultural. A festa de Santa Cruz torna-se quase
sempre, por exemplo, um elemento central neste dimensionamento, ao considerar que ela
resulta da mescla de diferentes culturas, corroborando para os mitos fundacionais de nossa
miscigenação étnica. Esta realidade limita-se a escamotear as contradições perpetuadas pela
escravização do índio em favor do colono português, da Coroa, ou da própria Igreja em busca
de estabelecer pelos jesuítas uma nova organização social em territórios latino-americanos.
Ou até mesmo, do papel que ela tem para os modos de uso do território na atualidade.
Deve-se pontuar, no entanto, que grande parte dos entrevistados diz não conhecer a
história de Carapicuíba (Gráfico 08), isso invariavelmente em relação à idade, gênero, tempo
de residência no município, nível de educação, ou qualquer classe que se queria qualificar os
indivíduos. Fato que deve ser reconhecido por uma concepção de história que remete aos
compêndios enciclopédicos de fatos marcantes e universalmente aceitos – os quais sugerem,
uma vez mais, facetas reificadas dos bens patrimoniais que foram produzidas pelo esforço
coletivo de toda essa comunidade. Vive-se, pois, uma história cuja a vida e o cotidiano destes
290
entrevistados não relacionam-se diretamente com a cidade, mesmo estes habitando e
trabalhando ali por tantas décadas. As dimensões de história, portanto, restringem-se a
colonização epistêmica que impositivamente se apropriou dos fatos e explicações dos
processos que produziram a atual realidade. Experiências, vivências do urbano, dimensões do
trabalho, são perdidas em poucas citações, das quais relacionam-se às velhas narrativas
fatuais, heroicas e dissociadas da concreticidade do real. Trata-se de uma dimensão de
patrimônio-territorial ainda desvinculada do utopismo revelador das contradições, ou
denúncia da exploração (COSTA, 2016)104.
Gráfico 08: Resultado dos entrevistados que disseram conhecer ou não a história de Carapicuíba.
Fonte: Questionários semiestruturados aplicados nas UIT’s pelo autor, 2016.
O fenômeno de “desconhecimento” da história torna-se numa questão indicativa de
um processo de invisibilidade perante a construção da realidade espacial de Carapicuíba,
convergindo na ausência das rugosidades (normatizadas ou ligadas à memória coletiva)
sintetizar a diversidade e as dinâmicas dimensões de vida que se estabelecem neste território.
Longe, pois, dos caipiras, da realidade suburbana e, ainda mais, do plano periférico que hoje
reveste a cultura e o modo de viver nestes espaços. Ainda que múltiplas temporalidades se
interponham na cidade, cujas manifestações e aprofundamento das entrevistas revelam, a
104 Conforme Costa (2016, n.p.), “concretamente, utopismos potencializam a realização de uma simultaneidade
de práticas territoriais alternativas, com a liberdade de iniciativas localizadas; estimulam novos comportamentos
situados de resistência às ações predatórias e de estigmas sobre o território”.
291
percepção é a de que a memória coletiva e os espaços simbólicos estejam descolados da
história, ou pelo menos não a componham como algo importante e central. Cabe sublinhar a
particularidade de alguns entrevistados que disseram conhecer a história, destacando a
emancipação municipal como fato importante e mais representativo para Carapicuíba. O que
não está distante, necessariamente, de um processo de fragmentação política mais ampla,
quando o quadro de crescimento populacional da metrópole ultrapassava o primeiro milhão de
habitantes e o planejamento e gestão corporativos dos territórios foram sendo divididos entre
interesses os mais diversos. Além de algumas respostas dirigidas por moradores, em grande
parte da própria Aldeia, em relação à memória de espaços representativos pelas relações com
a família. E, ainda, de moradores de outros setores que revelam a importância da cidade em
relação às amizades construídas, das experiências vividas coletivamente nos campos de
futebol de várzea, nas igrejas e áreas públicas de Carapicuíba. Estes últimos patrimônios,
vinculados às vivências e experiências no plano urbano, reiteram utopismos singularistas e
existencialistas (COSTA, 2016), que junto ao aprofundamento crítico e reversão das
narrativas do espaço normatizado e precariamente universalizado da Aldeia convergem para
estratégicas de resistências na periferia de São Paulo. No caso da Aldeia de Carapicuíba, ela
resiste como uma rugosidade patrimonial cujo utopismo patrimonial singularista é, em si, o
próprio bem normatizado, ora negligenciado frente a outros, com maior valor artístico ou
suntuosidade, ora por carregar o drama indígena, a cultura caipira, as relações suburbanas e
tradições que marcam um continuum histórico e alicerçaram a formação metropolitana de São
Paulo. Um patrimônio-territorial localizado e capaz de expressar sua singularidade frente as
universalidades da metrópole e da memória nacional, da qual a afirmação da existência social
é um caminho de reafirmação de outras possibilidades de desenvolvimento para além dos
modelos traduzidos por preceitos e intenções externas ou verticais.
Em segundo lugar, as infraestruturas em Carapicuíba, que incluem os equipamentos
culturais e o tempo livre do trabalhador para o lazer e entretenimento, revelaram-se precários
e ausentes. Se as transformações territoriais exigem sistêmicas mudanças ideológicasculturais, tão importante é a capacidade de as infraestruturas permitirem que essas novas
relações utópicas sobre as rugosidades patrimoniais se efetivem concretamente. A
urbanização do território de Carapicuíba, apesar dos problemas que as normas e a legalidade
trouxeram para aqueles que dela foram capitaneados para fora da cidade, trouxe no entanto
infraestruturas que não devem ser ignoradas por incondicionais melhorias relatadas ao longo
dos levantamentos junto à população local.
292
Sim ... melhorou, tem área de lazer, tem parques, escola, faculdade, mas mesmo
assim eu acho que o governo não conseguiu conter, da minha infância eu acho que a
violência foi um negócio marcante mesmo. [...]Abandonei o Paturi e por quais
motivos? Então, o lugar está abandonado, já fui muito ali já, gostei muito de la
também e tinha umas festas, eu ia muito lá aí né... [...]Não é só isso, depois aí o
Paturi ficou abandonado e você passa lá é uma presença de abandono o pessoal usa
muita droga. [...] Eu acho um lugar bonito ali só que você vai perdendo o gosto
né, eu achei a Aldeia mais bonita, é mais longe, mas é mais interessante.”
(Entrevistado 11, morador da COHAB 05, 42 anos).
Quanto ao uso dos equipamentos culturais da cidade, ao levantarmos a frequência
atual dos grupos de cada setor urbano em museus e espaços simbólicos da cidade – assim
como a participação em festas populares, de associações de bairro, bem como uso de áreas de
lazer, praças ou outros espaços públicos relevantes – percebe-se não somente um número
pequeno de participantes ou usuários, mas o clamor de ausência e precariedade destes
aparelhos no município e na própria região em que a população entrevistada vive e trabalha.
O que pressupõem a máxima, de que os espaços de socialização e maior encontro social do
passado, se esvaem diante de problemas estruturais tipicamente proporcionados pela condição
de um espaço periférico o qual a cidade se transformou. No caso de parte desta população,
com menor renda, implica a ausência e precariedade dos equipamentos públicos, de falta de
recursos financeiros para o acesso às áreas mais distantes com melhor infraestrutura, além do
tempo cada vez mais disputado pela precarização/flexibilização do seu trabalho que, dia após
dia, passa a ser desenvolvido na própria periferia. Contraditoriamente, são, no entanto, os que
mais indicaram utilizar os espaços elencados na pesquisa, assim como os menos críticos
acerca de suas atuais condições105 (Gráficos 09 e 10).
105 Entre outros casos, podemos citar três moradores da COHAB 2 que disseram pescar na Lagoa dos Paturis,
assim como observamos banhistas na Lagoa do Parque da Aldeia e diversas disputas de futebol aos fins de
semana em campos na cidade.
293
Gráfico 09: Entrevistados que disseram utilizar ou não equipamentos públicos e culturais de Carapicuíba.
Fonte: Questionários semiestruturados aplicados nas UIT’s pelo autor, 2016.
Gráfico 10: Entrevistados por UIT1s que utilizam ou não equipamentos públicos / culturais de Carapicuíba.
Fonte: Questionários semiestruturados aplicados nas UIT’s pelo autor, 2016.
Em verdade, outros espaços passam a sistematicamente ocupar a sociabilidade desta
população, com várias citações dos shoppings e áreas comerciais, os primeiros nas cidades
adjacentes, ou no próprio bairro e cidade (Gráficos 11 e 12). De fato, ao se analisar as
quatorze Zonas Especiais de Interesse Cultural (ZEIC), estabelecidas pelo plano diretor
294
municipal (CARAPICUÍBA, 2012), considerando uma cidade com aproximadamente 400 mil
habitantes (IBGE, 2010), observará a insuficiência, carência e má distribuição destes pontos
de cultura.
No Planalto não tem condição, só droga, está tomado por drogados, tá tudo
abandonado lá. Coloca zero aí porque tem que melhorar muito as coisas, nunca mais
fui não. O da Aldeia é até um pouco melhor, mas só de manhã mesmo, porque
depois é complicado (Entrevistada 11, moradora da UIT Vila Dirce, 36 anos).
Encontro muito aqui na rua mesmo [Av. Comendador Dante Carraro], ou ali na rua
Mauá, jogava muita bola no CSU, no bairro e na avenida aqui é tudo conhecido
(Entrevistado 12, morador da UIT Cidade Ariston, 37 anos).
A presença, por mais crítica que seja deste conjunto, limita-se porém aos extremos do
município, atingindo o setor norte nas proximidades do trilhos da CPTM e nos limites sul nas
proximidades da Aldeia. Um grande vazio se estabelece entre o Centro e Vila Dirce, cuja
ausência maior é constatada no setor da Cidade Ariston, COHAB’s e limites do bairros
Tonato, Menck e adjacências. Somado a isso, existem poucas bibliotecas municipais, onde os
acervos são pequenos e não sistematizados, além da inexistência de museus públicos ou
particulares (Figura 50).
Gráfico 11: Espaços de encontro se realizam nos bairros e no cotidiano das estações e do comércio local106.
Fonte: Questionários semiestruturados aplicados nas UIT’s pelo autor, 2016.
106 Valores relativos às médias simples obtidas através dos questionários semiestruturados aplicados nas UIT’s
de cada espaço referencial da cidade. Variando entre 0 e 5, os participantes da pesquisa foram solicitados a
quantificarem os locais que mais encontravam amigos, familiares, ou pessoas conhecidas em Carapicuíba.
295
Figura 50: Distribuição irregular e insuficiente de equipamentos culturais no município de Carapicuíba.
Fonte: Plano Diretor Participativo do Município de Carapicuíba. Via Pública, 2012.
296
Os eventos culturais e festas tradicionais definham nas limitações orçamentárias e
políticas do município, além de pouca, mas ainda importante iniciativa dos indivíduos,
famílias e grupos locais. Portanto, se opera ínfima articulação nos espaços de encontros,
transformados em espaços de passagens, sustentados por uma lógica padronizada de viver
funcionalmente em redes, ativadas para o deslocamento trabalho-casa, ou estrategicamente
para o consumo dirigido da população. São nestes espaços e momentos recorrentes os
encontros, dados nas estações de trem e de ônibus, ao longo do percurso do trabalho, nos
supermercados, ruas comerciais, ou avenidas da cidade – destacadamente no próprio bairro
(20,95), no centro (15,67), avenida Inocêncio Seráfico (8,03), estação ferroviária/rodoviária
(7,88)107.
Gráfico 12: Espaços de encontro se realizam majoritariamente nos bairros e nos espaços do cotidiano.
Fonte: Questionários semiestruturados aplicados nas UIT’s pelo autor, 2016.
Por outro lado, o levantamento revela a representatividade da Aldeia em relação aos
parques municipais, bem como a ausência de citações de outras áreas simbólicas que
poderiam ter maior efetividade no uso cultural e socialização. A Figura 50 anterior, portanto,
ao apresentar igrejas e monumentos evidencia que as ZEIC’s são extremamente restritas e
pontuais em Carapicuíba, indicando a ausência dos equipamentos que asseguram
desenvolvimento educativo, cultural e entretenimento aos seus munícipes.
107 Valores relativos às somas das médias obtidas através dos questionários semiestruturados aplicados nas UIT’s
de cada espaço referencial da cidade. Variando entre 0 e 5, os participantes da pesquisa foram solicitados a
quantificarem os locais que mais encontravam amigos, familiares, ou pessoas conhecidas em Carapicuíba.
297
Desdobra-se um nítido compasso de precariedades no sistema urbano, do qual a
ausência ou insuficiência dos equipamentos culturais devem ser destacados. Tal fenômeno, no
caldeirão de culturas que se hibridizam com o crescimento da cidade, colocam em cheque a
cristalização e a permanência das próprias tradições. Ora pela mescla e competição, ora pelo
esquecimento e abandono, ora ainda pela permanência precária por intermédio das
resistências das famílias e comunidades organizadas do local. Esta criticidade foi tratada por
Pellegrini (1979), ao analisar as transformações das expressões folclóricas na Aldeia em fins
da década de 1970. Segundo o autor, as festas mais tradicionais ali realizadas, como a de
Santa Cruz e Santa Cruzinha, passavam já por relativo esvaziamento, quando não ao
desaparecimento, como é caso da festa de Santo Reis, considerando a morte dos mais velhos
mantenedores dos festejos, bem como uma mudança profunda de relações que o sistema
urbano havia carregado até ali, como a dessacralização e banalização dos ritos
(PELLEGRINI, 1979).
Em diversas situações da pesquisa é possível considerar lacunas e fragmentos nas
associações dos munícipes em relação com as festividades religiosas. Tanto que no caso da
Festa de Santa Cruz, por exemplo, emerge em muitos dos entrevistados uma dissociação entre
a dança realizada e os festejos religiosos e profanos no espaço da Aldeia. Transparece nas
falas uma manifestação que, mesmo tendo origem no catolicismo – em razão da cruz, trataria
hoje o papel de um espetáculo folclórico de Carapicuíba. O que sugere uma perda de
referenciais dos moradores mais antigos, onde mesmo apesar da dessacralização em curso, a
sua realização é justaposta e tradicionalmente ligada aos ritos religiosos. Helenice Camargo,
produtora cultural e membro da Associação Sarabaquê de Difusão Cultural, uma das
responsáveis pela realização dos festejos na Aldeia, problematiza uma série de questões que
hoje permeiam a baixa procura e dificuldade de realização das festas. Destas, destacam-se a
violência que aflige o local, especialmente no período noturno, quando se materializam as
comemorações. Depois, também o esvaziamento do largo da Aldeia, pois os mais velhos se
foram e os mais novos não tiveram o mesmo interesse. Além disso, lembra da falta de apoio
das instituições, desde a igreja que permanece quase sempre fechada, ou das próprias
entidades governamentais e, sobre o público que participa hoje das festividades, explica o
seguinte:
São poucos perto do que tinha antigamente, as próprias pessoas que moravam
nas casas viam as festas da aldeia como economia, modo de mexer com
economia, então eu morava aqui colocava uma barraquinha aqui na frente da
298
minha casa e aqui eu vendia o que eu quisesse: doce caseiro, churrasquinho,
quentão, vinho quente, porque se eu quisesse colocar, eu fazia, eu vendia,
porque tinha público. De repente foi isso ai foi esvaziando foi esvaziando e aí
o pessoal deixou de vir. Não tem segurança, vem de carro não tem
estacionamento, tem um aqui atrás, mas aí não tem segurança e o pessoal fica
com medo de ser assaltado quando vai embora... nunca aconteceu mas quem
não conhece Aldeia fica com medo de riscar o carro dele.” (Helenice
Camargo Henne, entrevista realizada em julho de 2016).
Em relação aos mais jovens, o desconhecimento, desinteresse e banalização se
sobressaem, fenômeno do qual Pellegrini (1979) já havia constatado. Contudo, mesmo diante
desta problemática, a grande maioria da população entrevistada disse conhecer pelo menos
uma das festas realizadas no local. Destacando-se nos resultados tabulados a festa de Santa
Cruz, Corpus Christi, a Romaria e São João, mas principalmente a encenação da Paixão de
Cristo, promovida pela municipalidade e hoje na visão popular a mais importante festa da
Aldeia108 (Gráfico 13).
Gráfico 13: Festividades principais da Aldeia, segundo os moradores das UIT’s em Carapicuíba.
Fonte: Questionários semiestruturados aplicados nas UIT’s pelo autor, 2016.
As razões que explicam a encenação ocupando tal posição provém não apenas da
promoção do espetáculo teatral, acompanhado por ampla articulação municipal de suas
108 Conforme o Jornal Metrópole, o evento da encenação, no ano de 2016, teria atraído mais de 40 mil pessoas à
Aldeia. Para assistir entre os dias 2 e 3 de abril, “o evento foi produzido pela Prefeitura de Carapicuíba, por meio
da Secretaria Municipal de Cultura e Turismo e contou com a participação de mais de 220 atores e atrizes entre
profissionais e amadores. É importante ressaltar que todo o elenco participou do espetáculo voluntariamente.” –
disponível em: . Acesso em jun. 2016.
299
principais secretarias, mas de que a representação em si da peça independe exclusivamente de
um público católico, de culto a determinados santos, ou propriamente das tradições religiosas
historicamente realizadas naquele espaço. Isso traz à tona o interesse de uma diversidade de
público, inclusive de outras vertentes religiosas, como protestantes, e parte considerável dos
moradores da cidade, carentes de atividades culturais e espaços de lazer. Mas, destas
tradições, as festividades de Santa Cruz são as principais manifestações preservadas ao menos
desde o século dezoito até os dias atuais
A festa de Santa Cruz não tem origem em Carapicuíba. É uma comemoração religiosa
ligada ao cristianismo e que remete inicialmente a Roma, provavelmente ao sétimo século
depois de Cristo. Conforme explica Escalante (1981), citando Frei Basílio Rower, nas origens
haviam duas festas, uma nas Gallias, comemorada em maio e outra em Roma, comemorada
em setembro. De tal maneira, “[...] a festa remete aos primórdios do cristianismo,
conservando as duas datas até os dias presentes.” (ESCALANTE, 1981, p. 37). Nos dias
atuais, em Carapicuíba, a festa de Santa Cruz continua a ocorrer em maio e em setembro.
Neste último mês em proporções mais singelas, com o nome de Santa Cruzinha. Em verdade,
a programação da festa de Santa Cruz é iniciada no dia 24 de abril, com a novena e finalizada
com a zagaia109 no dia 04 de maio. Trata-se de uma comemoração milenar, a qual sedimenta
relações e permeia o plano religioso e espiritual das comunidades onde se manifesta. Em
todos estado de São Paulo existem festividades de Santa Cruz, sendo as mais tradicionais
ligadas aos aldeamentos e, sobretudo, Carapicuíba.
Quanto ao surgimento da tradição de Santa Cruz em São Paulo, esta é muito antiga, de
difícil delimitação. Deve ser assinalável sua antiga presença em Embu, Itaquaquecetuba,
Cunha e Tatuí, além de Carapicuíba (ESCALANTE, 1981). Martins (2001) ao caracterizar os
subúrbios lembra de sua infância permeada de festas religiosas como a de Santa Cruz. Albino
(2014), ao fazer várias entrevistas com moradores de Osasco para tratar o rural naquela
cidade, vislumbra a centralidade da festa em Carapicuíba para antigos moradores que
participavam anualmente, o que sugere, uma vez mais, a centralidade da Aldeia como espaço
da festa e tradição, e principalmente o envolvimento de grupos sociais num escala regional de
participação. Nas obras de Escalante (1981), Henne (2015) e Tenório (2003), esta festividade
em Carapicuíba remete ao padre Belchior de Pontes, o mesmo responsável pela reconstrução
109 Nome de origem indígena que provavelmente se associa às lanças indígenas e a hibridização da tradições
festivas dos jesuítas e índios Guaianases. Relaciona-se hoje à dança final sagrada e profana da festa de Santa
Cruz na Aldeia de Carapicuíba, quando há despedida e a evocação de forças para o próximo ano.
300
da Aldeia no século dezoito. Outros vilarejos e núcleos populacionais oriundos dos
aldeamentos revelam a permanência desta mesma tradição, mas com várias diferenças entre
elas e, por vezes, com descontinuidades das comemorações, ainda que traços indígenas
estejam presentes em todas elas (ESCALANTE, 1981, p. 42-45). Trata-se, pois, nas unidades
de aldeamentos, dos esforços pela evangelização do índio, agregando elementos possíveis de
sua própria cultura e suprimindo aqueles considerados mais profanos, como a reverência às
fogueiras, então substituídas pelas cruzes e velas110. “O padre Belchior de Pontes, ao instituir
o Sarabaquê, substituiu a fogueira, em torno da qual os indígenas dançavam, por uma cruz
rústica de madeira; porém ainda hoje é acesa uma fogueira. É o fogo simbólico [...]”
(ESCALANTE, 1981, p. 37).
Como posto nos capítulos anteriores, a consagração religiosa do espaço da Aldeia, no
século dezenove e nas três primeiras décadas do século vinte, parece ter sido um elo
fundamental da imaterialidade que permeia não apenas uma coesão social entre os moradores,
convertendo o espaço em lugar pelas relações afetivas e as diversas experiências
desenvolvidas, mas também da permanência estável da disposição geográfica das formas
arquitetônicas do conjunto primitivo do aldeamento jesuítico. Tenório (2003), ao tratar em
várias partes de sua obra acerca da Aldeia de Carapicuíba, mostra a necessidade de reverência
a esse espaço, que segundo ele não guardaria apenas a secular igreja, mas a terra por onde
tanta gente ilustre havia passado. Em suas palavras, “Carapicuíba é um templo! Templo de
nossa história! Ali ninguém deve entrar de cabeça coberta. Todos devem descobrir-se em
sinal de respeito. Porque ali está o começo, o alicerce, o tronco da nossa história: João
Ramalho.” (TENÓRIO, 2003, p. 51).
O discurso textual de Tenório (2003) traz à tona múltiplos simbolismos do espaço da
Aldeia quando o compara a um templo. Esse desígnio pode recair tanto ao plano sagrado,
representado pela antiga igreja e as tradições religiosas a ela ligadas, quanto à perspectiva do
profano, associada aos referenciais dos mitos fundadores brasileiros. Neste último caso, o
autor lembra mais especificamente a figura de João Ramalho, colonizador que se hibridizou
aos índios nativos e que está ligado à formação geográfica e histórica de São Paulo. Tal
perspectiva desperta, uma vez mais em seu discurso, a hipótese da relevância histórica e
religiosa da Aldeia de Carapicuíba. Considerando ser sua obra relativamente recente, do
110 Na pesquisa de mestrado de Pellegrini (1979), cita-se Manoel da Fonseca numa passagem que remete a
colocação da cruz no centro do pátio da Aldeia de Carapicuíba, onde passavam os índios e religiosos a
manifestarem cantos, danças e festividades ao redor do maior símbolo cristão.
301
último quartel do século vinte, a relativa atualidade dos simbolismos na sacralidade da Aldeia
de Carapicuíba, quanto na sua importância histórica descrita pelo autor. Todavia, agora
pensada além do plano regional dos arredores paulistanos, quando da sua incorporação a lista
nacional de bens históricos protegidos pelo Estado, ganhando assim uma escala mais ampla e
integrada aos planos fundadores.
Como a obra de Tenório (2003) tem maiores qualidades descritivas do que
propriamente analíticas, na sua perspectiva a dança de Santa Cruz, chamada popularmente de
Sarabaquê, vincula-se a um ato de religiosidade, limitando o leitor a entendê-la nos limites do
culto ou da fé cristã, ou católica mais precisamente. “A Dança de Santa Cruz, ou Sarabaque,
conhecida como Sarabague ou 15 com 15, é apenas um ato de religiosidade, composto por
danças e cânticos.” (TENÓRIO, 2003, p. 58). Quando, na verdade, possui uma dimensão
cultural importante no sentido de dar sacralidade, conteúdos complexos que entremeiam
sentimentos de pertencimento ou identidade e, no limite, a própria permanência preservada do
espaço da Aldeia. Coloca-se em questão outra das suas proposições, de que após doutrinados
os índios imitariam os passos ou as sucessivas etapas da dança. “Depois de doutrinados, os
mesmos [índios] imitavam os passos da dança, num ritmo lento e repetitivo, ao som do recoreco, pandeiros, cuícas, puitas e viola. Houve, porém aculturação dos índios e negros pela
mistura de instrumentos musicais.” (TENÓRIO, 2003, pp. 58-59). Na citação vê-se
claramente alguns elementos contraditórios, pois muitos dos instrumentos utilizados são
mesmo de origem indígena, ou africana, bem como os passos e rodas muito se assemelham a
observações de danças que ainda são manifestadas em todo território brasileiro, por diferentes
etnias indígenas.
Em síntese, a dança de Santa Cruz desenvolvida em Carapicuíba deriva da própria
cultura indígena, sendo inserida a religiosidade cristã como mecanismo de persuasão, ou
doutrinação à fé católica pelos jesuítas aos índios aldeados. Uma imposição colonial, vertical,
porém, não sem haver agregação e carga residual da cultura colonizada. Sem a qual talvez não
fosse plenamente possível a Igreja concretizar sua tarefa colonial complementar. Festa antiga,
pois, marcada no espaço da Aldeia e no tempo da colônia, que transcendeu as gerações e
continua contemporânea (Figuras 51 e 52). Mantida pela ação das famílias que a adotaram na
transição para a cultura caipira e a cristalização suburbana de Carapicuíba. Diante da ausência
de outros dados e de obras que aprofundem em específico acerca desta polêmica, interessante
passagem de Henne (2015) converge plenamente para uma leitura da qual acredita-se ser mais
coerente sobre a sua origem e desenvolvimento da festa de Santa Cruz.
302
Figura 51: Diferentes momentos da festa de Santa Cruz na Aldeia de Carapicuíba.
Fonte: Acervo Fotográfico da Casa da Cultura de Carapicuíba e da Associação Sarabaquê de Difusão Cultural e Social. Editadas e organizadas pelo autor, 2016.
303
Figura 52: Permanência em diferentes momentos da festa de Santa Cruz na Aldeia de Carapicuíba.
Fonte: Acervo Fotográfico da Casa da Cultura de Carapicuíba e da Associação Sarabaquê de Difusão Cultural e Social. Editadas e organizadas pelo autor, 2016.
304
Acredita-se que a Festa de Santa Cruz tenha sido uma forma encontrada pelos
jesuítas para catequizar os indígenas. Assim, eles utilizaram-se da dança que já era
comum aos indígenas e infiltraram a religiosidade através dos versos e da imagem
da cruz. As festas de maio já eram comuns na Europa, com árvores frutíferas e flores
enfeitando as casas. Aqui elas são substituídas pela cruz, que da mesma forma é toda
enfeitada de flores ora naturais, ora em papel crepom, sendo assim o símbolo maior
da festa (HENNE, 2015, p. 33).
É também a autora supracitada que ao fazer um livro de memórias da Aldeia, em torno
do Sr. Mimi (seu pai) e Dona Nenê (sua tia), relata a complexidade que possui esse espaço,
suas tradições e simbolismos, mas sobretudo, ainda que indiretamente, acerca das tensões
emergentes ao longo dos últimos setenta anos em torno do IPHAN, da municipalidade e dos
próprios moradores que ali se enraizavam. Com estas tensões e transformações, a
dinamicidade da própria cultura, que faz com que a dança e as cantigas de Santa Cruz tragam
sim elementos da tradição, porém permeada de renovados elementos introduzidos.
Diante do exposto é possível conjecturar de forma propositiva que a festa de Santa
Cruz é um elemento cultural que fundamenta processos sociais mais amplos, estruturados
categoricamente em razões políticas, econômicas, ideológicas, históricas e geográficas. Se a
sua manifestação deriva dos contornos coloniais estabelecidos naquele território, cujo objetivo
centrava-se na coerção do índio e que tinha por estratégia romper cada cômodo ou unidade de
sentido que figurava o conjunto total de compreensão do universo pelo nativo, os ritos e
cultos impostos resultam em fragmentos táticos deste processo. Isto se torna ainda mais
complexo com a mescla cultural e a nova sociedade estabelecida em fins do oitocentos e
princípios do novecentos.
Compreende-se que no princípio a imposição não pode ter havido sem que explicações
coerentes fossem estabelecidas entre as razões práticas do mundo cristão e do mundo de
entidades indígenas, estabelecendo uma mescla que, em último caso, compunha claramente
uma hibridização, manifestadas nas tradições visíveis de um ou outro mundo. Tal realidade,
dada no período colonial, em processo de transformação com o fim dos aldeamentos, em
princípios dos oitocentos, não foi suficiente para que, mesmo no ostracismo e marginalização
que ficaram essas unidades territoriais, as tradições, os hábitos e os costumes pudessem
efetivamente desaparecer.
O que se apreende do caso de Carapicuíba é que as festividades permaneceram e são
traços importantes à compreensão das rugosidades patrimoniais, desde a permanência material
dos espaços sagrados, a imaterialidade da folia, até as funções de perpetuar outros conteúdos,
305
que puramente a doutrinação exercida no período anterior. Isso em favor de que, apesar da
iminente presença da Igreja nos festejos, uma nova centralidade organizativa e de apropriação
das atividades passa a ser consolidada pelas família locais. Estes argumentos podem ser
percebidos na descrição minuciosa de Henne (2015, p. 24-25) acerca das tradições de Santa
Cruz na Aldeia de Carapicuíba, com muita propriedade, já sua relação com estas
manifestações estão diretamente interconectadas por ser da família Camargo, uma das
“guardiãs” de sua contínua materialização.
[...] Nós das famílias guardiãs desta tradição, participamos das Festas de
Santa Cruz como se estivéssemos vivendo um outro momento, totalmente
diferente do nosso cotidiano. Nós não apenas interpretamos a chegada dos
jesuítas e a colonização dos indígenas, mas vivenciamos uma experiência
cultural com certeza de outra ordem. [...] As Festas de Santa Cruz são as
mesmas em todos os anos, mas são diferentes daquelas anteriores; a tradição
é mantida e inovada. O fenômeno festivo aflora com a Dança de Santa Cruz
que é capaz de atrair a atenção de indivíduos estranhos à festa e fazê-los se
emocionar quando iniciam os primeiros passos (HENNE, 2015, p. 24-25)
A força desta população no sentido de manter as tradições e sua reprodução não é
apenas o fio condutor da permanência, mas a própria rugosidade patrimonial capaz de animar
e condicionar diretamente as relações entre os sujeitos e os objetos ali tombados. As famílias
não estão completamente sós neste percurso de manutenção e reinvenção das tradições. A
emancipação em 1964 traz a efetividade do poder municipal, como o tombamento o papel da
entidade federal articulada ao estado. De tal maneira que o papel normativo do Estado,
operando mais diretamente sobre o conjunto da Aldeia desde a década de 1940, apesar dos
conflitos e tensões, apresenta organicidade ao longo do tempo, ora pela ausência, ora pelas
soluções conjuntas com os agentes locais. Altera-se, pois, uma noção possivelmente reificada
em torno dos objetos técnicos, dos bens tombados, do sítio em si, para uma visão de que a
permanência continua residir como sempre nos sujeitos, nas instituições que os organizam,
como na perspectiva da sua produção material e imaterial ao longo do tempo.
A rugosidade patrimonial permanece deste embate de construção e desconstrução, do
qual a dinâmica entre supressões, superposições e acumulações revelam resistências, atos de
permanência, que tangenciam a memória coletiva e influem nas vivências que dão cores e
brilhos a um bem cultural convertido normativamente em monumento nacional. Reafirma-se
as sobreposições de memória coletiva e memória nacional, já que as rugosidades patrimoniais
são este misto inseparável de espaços vividos, concebidos e de representação (Figuras 53 e
54).
306
Entrecruzam o sagrado e profano nas festividades de Santa Cruz da Aldeia de Carapicuíba
Figura 53: Nas imagens superiores, à esquerda procissão pela Aldeia; à direita Dança de Santa Cruz em frente
ao bar de motoqueiros. Ao centro, à esquerda velas de orações postas ao pé do cruzeiro e à direita, festeiros em
meio a Zagaia, dança de despedida, ao fim das festividades. Nas imagens inferiores, à esquerda festeiros
dançando o Sarabaquê e à direita cruz enfeitada em frente uma das casas da Aldeia.
Fonte: Fotos do autor - Festividades de Santa Cruz, 2016.
307
Preparo das Festividades de Santa Cruz na Aldeia de Carapicuíba
Figura 54: Nas imagens superiores, à esquerda confecção de artesanatos pelas mulheres na sede da Associação
Sarabaquê de Difusão Cultural e Social – que são vendidos na quermesse da festa. A imagem superior direita,
tradição das cruzes postas em frente as casas, cujos enfeites com rosas e outros apetrechos são aspectos
fundamentais da tradição. Na imagem ao centro, coreografia em roda, no sentido anti-horário e em pares na
dança de Santa Cruz. Na imagem inferior o Sarabaquê, dança sagrada, de saudação, feita linearmente pelos
festeiros. Fonte: Fotos do autor nas festividades de Santa Cruz, 2016.
308
Esta realidade se baseia na própria condição empírica estabelecida, de maneira
integral, observada nas festividades do ano de 2016. Ali foi possível acompanhar todo o
esforço das famílias, suas preocupações, angústias e realizações, tanto nos momentos prévios,
como no desenvolver das atividades. Também o papel do poder público, diretamente da
municipalidade, apoiando com a divulgação, com seus servidores presentes na organização,
cedendo espaços institucionais para recepção dos festeiros e auxílio. Além da Igreja e sua
comunidade, mantendo aberto diariamente o espaço da capela e realizando missas e cortejos
ao longo dos dias de festividade. É, por fim, uma sinergia de ações, de articulações e preparos
que convergem numa das mais antigas manifestações culturais do país e de São Paulo,
congregando um público diverso, mas fundamentalmente uma conjunto de famílias da região
em torno da Aldeia de Carapicuíba.
Na atualidade o reconhecimento mais amplo da população de Carapicuíba sobre o
espaço da Aldeia111 associa-se às festividades religiosas da Romaria (tradição que hoje reúne
o maior número de pessoas no local, que seguem juntas até a cidade de Pirapora do Bom
Jesus), de Corpus Christi (com os tapetes enfeitados e procissão no local), de Páscoa
(encenação da paixão de Cristo na concha adjacente à Aldeia) e, por fim, também as
comemorações de Santa Catarina, Santa Cruz e Santa Cruzinha. Mas, não apenas, elas
extravasam o plano sagrado, ou religioso, perfazendo em muitas falas e apontamentos as
tradições caipiras e, para muitos outros, emerge como um importante espaço lúdico, de lazer e
atividades físicas na cidade, ainda que simultaneamente indiquem também ser um parque
perigoso a depender de horários e pontos específicos.
As tradições caipiras evidenciam a força da permanência cultural que preenche e
sustenta o pequeno quadrilátero colonial. Este modo de vida, como destacado no capítulo
anterior, deriva do fim do sistema de aldeamentos em Carapicuíba, com o relativo isolamento
e ostracismo que permaneceu até por volta da primeira metade do século passado. Ou seja,
matriz cultural anterior ao tombamento da Aldeia como patrimônio nacional e que concatena
diferentes matrizes étnicas na formação histórica e geográfica do lugar e que alcança, em
pleno século vinte um, importantes manifestações que permanecem, simbolicamente,
permeando o cotidiano da população ali inserida, inclusive pela festa de Santa Cruz e Santa
Cruzinha.
111 Levantamento feito pela aplicação qualitativa de questionários semiestruturados à população de Carapicuíba
no ano de 2016. Resultados aprofundados no capítulo seguinte.
309
Isso, portanto, não escapa do tratamento realizado anteriormente sobre a passagem
espacial de Carapicuíba do subúrbio à periferia, mas amplia uma criticidade que se assevera
até mesmo nas festas profanas mais atuais, como os rodeios (extintos na cidade), a festa
nordestina (realizada com shows em espaço fechado, restrito e controlado), ou mesmo as
religiosas das populações negras, destacadamente a de São Benedito e Nossa Senhora do
Rosário112 (com pequena adesão e reconhecimento da população de Carapicuíba, ainda que
profunda conexão e relação entre diferentes grupos sociais que do sincretismo fazem uma das
mais belas expressões da diversidade contemporânea da RMSP, como buscam ilustrar as
Figuras 55, 56, 57, 58).
Congada de São Benedito e N. S. do Rosário de Carapicuíba
Figura 55: Congada na Vila Menck, chamada rememora antigos participantes falecidos. Ao canto direito
imagem de São Benedito, abaixo chapéu do Boiadeiro no sincretismo da festa.
Fonte: Foto do autor, 2016.
112 Festas de grande participação da população negra de Carapicuíba. No ano de 2016 tivemos oportunidade de
acompanhar as manifestações na Vila Menck, com a presença de grupos regionais de jongo, congada, capoeira,
dança de reis e samba de roda.
310
Roda de capoeira homenageia S. Benedito e a libertação dos escravos
Figura 56: Capoeira no caldeirão de culturas em Carapicuíba - RMSP.
Fonte: Foto do autor, 2016.
Índios de diversas etnias na Festa de S. Benedito em Carapicuíba
Figura 57: Danças lineares e circulares realizadas por índios de diversas regiões da Grande São Paulo, durante
as festividades de São Benedito, Nossa Senhor do Rosério e Libertação dos Escravos em Carapicuíba – RMSP.
Fonte: Foto do autor, 2016.
311
Jongo nas festividades de S. benedito, N. S. do Rosário e Libertação dos Escravos
Figura 58: Jongo, com a participação das comunidades de São José dos Campos, Piquete e de Embu.
Fonte: Foto do autor, 2016.
Compete destacar, no entanto, a permanência da tradicional saída da Romaria da
Aldeia à Pirapora do Bom Jesus, realizada também por outros grupos da Grande São Paulo e
residentes no interior, como Itu, Porto Feliz, Salto, Cabreúva e Tietê, que marcam anualmente
as festividades religiosas e profanas tipicamente da cultura caipira paulista. Assim como,
apesar das dificuldades apresentadas, as festas de Santa Cruz e Santa Cruzinha. As festas da
Aldeia perduram, resistem mesmo diante da criticidade de uma urbanização totalitária. Afinal,
elas são atos coletivos dos grupos sociais, que como explica Almeida (2102) reativam a
“memória coletiva”, imbricadas num contexto que perpassa o cerimonial e a diversão, onde
sagrado e profano possuem ligações essenciais. Essas dissociações entre sagrado e profano
não são reveladas nas falas de membros do grupo social reclinado na organização dos festejos,
o que leva a crer fortes laços com a tradição pretérita e na organicidade do rito em relação às
famílias e instituições responsáveis pela materialização das folias. Na comunidade de Santa
Catarina, ou para grande parte de antigos moradores do bairro, a dimensão da festa é
reveladora das crenças coletivas, cujos símbolos extravasam puramente o presente, ao se
312
conectarem com representações do passado, rememorando antepassados, onde as expressões
daquele território correspondem às experiências e realizações do grupo social. Portanto a festa
reproduz relações espaciais e sociais dos grupos territorializados, instrumentalizando os
fenômenos com seus ritos, normas, calendários e espaços de manifestações (ALMEIDA,
2012).
Deve-se reconhecer transformações neste processo. No passado, as celebrações de
Santa Cruz calcavam-se fundamentalmente em atos religiosos, inclusive na dança do
Sarabaquê como uma de suas determinações, enquanto hoje perpassa um sentido mais
simbólico, que perpetua a presença das famílias e amigos integrados ao festejo profano e
indistintamente à cultura caipira. No limite, conforme nos explicou um dos moradores, a
própria igreja já não adere totalmente ao rito, lembrando que o padre enviado na ocasião de
Santa Cruzinha, neste ano, se recusou a fazer todo o percurso da procissão entre as casas da
Aldeia, o que gerou revolta por parte dos festeiros. Muito antes, Henne (2015) relata tensões
entre a comunidade e um antigo padre que não aspirava seguir a tradição dos horários das
missas que eram marcados e compassadas em função das manifestações profanas tacitamente
constituídas. Considerando, por fim, a mudança do interesse, do público e dos sentidos das
manifestações no tempo.
Ainda sobre as comemorações de Santa Cruz, nas falas de antigos moradores, assim
como nos trabalhos acadêmicos revisados (PELLEGRINI, 1979; ESCALANTE, 1981;
TENÓRIO, 2003; HENNE, 2015), há memória e descrição de uma festa de maiores escalas,
diferenciada na ocasião de visitas de campo e observações por seu conteúdo e manifestação.
Não simplesmente pela pequena adesão da população local às celebrações, mas aos conteúdos
que sofreram influência direta do sistema urbano e de suas modernizações. Outro fator
importante leva a crer que a perda de centralidade destes ritos traria a sobreposição de outras
festividades, com caráter de maior agregação pelas condições exigidas na atualidade (forte
aparato de segurança, recursos públicos-privados, investidos e infraestrutura básica).
Cabe ressaltar que, com exceção das festas conhecidas pela população, alguns
entrevistados citaram a festa do dia do índio na Aldeia, que em certas ocasiões do passado foi
muito celebrada naquele espaço, como foi possível constatar nos arquivos da 9ª
SRIPHAN/SP. Ao aplicar os questionários na UIT da Aldeia ainda houve doze citações da
festa de Santa Catarina, que segundo informações dos moradores é uma realização da
comunidade que frequenta de forma mais assídua as missas e a igreja. Constatou-se, pois, que
313
o maior conhecimento das festividades deriva dos moradores mais antigos e próximos da
Aldeia. Por outra perspectiva, e considerando a totalidade dos questionários aplicados na
cidade, a grande maioria desconhece qualquer rito tradicional, ou de sua história
propriamente. Importante assinalar que mais de 85% dos 78 entrevistados que assim se
pronunciaram são adultos com idades entre 18 e 34 anos, oriundos de outros municípios e que
vivem relativamente distantes da UIT da Aldeia. Além disso, utilizam majoritariamente
espaços de lazer e cultura em outras cidades da Grande São Paulo, destacadamente São Paulo,
Barueri e Osasco respectivamente.
Chama atenção que mesmo a maioria da população entrevistada desconhecendo o
IPHAN, o CONDEPHAAT e a presença de bens materiais tombados no município113, há
pleno conhecimento da relevância histórica e, pois, cultural desta área em especial. Não
apenas se destaca o conhecimento sobre o espaço, por mais criticamente que operemos na
análise das falas dos moradores, mas também seu uso e a presença dos ritos e festejos
tradicionais. É destacável que para uma grande parte da população abordada, sobretudo a mais
jovem, o espaço da Aldeia de Carapicuíba destaca-se mais pela sua funcionalidade enquanto
parque, ou seja, pelo lazer que propicia, do que propriamente pelo conjunto arquitetônico
tombado. Do que, em outras palavras, poderia-se lembrar como um dos marcos patrimoniais
do Brasil colônia, além da relevância da própria atividade institucional do patrimônio cultural
nos primeiros momentos de sua criação. Uma das moradoras da Vila Dirce expressa que
mesmo estando na região metropolitana de São Paulo, a área do parque da Aldeia se
assemelha a uma atmosfera do interior.
Antigamente só tinha mato, era a Aldeia e em volta era tudo matão e no meio
daquele mato tinha um lago que não era frequentado por que era muito sujo,
agora faz uns 5 ou 6 anos foi feito o parque muito da hora, bonito, bacana
você vai lá dá impressão que você tá lá em Itu no interiorzão de São Paulo,
Sorocaba, lugar gostoso, você vai ali e fala: tô no interiorzão porque é um
lago bom de andar em volta e gente andando pra caramba, o pessoal fica até
tarde, calorzão fica embaixo das árvores depois da caminhada em vez de
beber água por causa do calor pega uma cervejinha gelada, muito bom, muito
legal! (Entrevistada 01, moradora da UIT Vila Dirce, 54 anos).
113 Dos 205 participantes da pesquisa, apenas 02 indicaram conhecer ou já ouvir falar do IPHAN ou
CONDEPHAAT. Em relação a conhecer bens protegidos na cidade, 68 disseram conhecer alguma coisa, citando
majoritariamente a Aldeia, além de outras poucas citações, como a Santa Terezinha, Oca e o Tancredão.
314
Os questionários aplicados, assim como a realização de entrevistas, mostram de forma
muito generalizada a participação de grande maioria dos munícipes em festejos no local, mas
que se situam sobremaneira numa dimensão do passado, e não na atualidade. A vinculação
entre as UIT’s da Vila Dirce e da Aldeia é mais integrada, considerando a proximidade entre
as unidades, como a formação pretérita de ambas, que decorre da expansão urbana
paralelamente à avenida Inocêncio Seráfico. Isso reverbera numa relação dos entrevistados
que é mais intensa com o espaço da Aldeia em relação às UIT’s da Fazendinha, do Centro,
COHAB e Ariston. A maior parte dos entrevistados que relataram jamais ter visitado o largo
da Aldeia e desconhecer a relevância histórica e cultural da mesma, concentram-se no Centro
e Ariston. Assim como o conhecimento das atividades ali praticadas variam em dois grupos: o
primeiro ligado aos bairros e moradores mais antigos, que conhecem as festas religiosas mais
tradicionais, como as de Santa Cruz, Corpus Christi, Santa Catarina e a Romaria; e um
segundo grupo, de moradores e bairros mais novos da cidade que associam as festividades à
Encenação da Paixão de Cristo (espetáculo realizado na concha adjacente ao largo da Aldeia,
com grande investimento de recursos) e as festas juninas e os festejos de São João.
Focando e buscando compreender a dinâmica espacial da Aldeia também nas outras
UIT’s de Carapicuíba, para além das observações e diálogos travados exclusivamente com
gestores e moradores da comunidade, observa-se uma tendência de falas e apontamentos da
população pela prevalência de um espaço familiar, permeados por pessoas de todas as idades
em busca de lazer e atividades físicas. Essa perspectiva acompanha uma das premissas
majoritárias da passagem do espaço da Aldeia enquanto espaço das tradições e da história,
para o espaço do uso público e do entretenimento (Gráfico 14).
Gráfico 14: Representação dos usos do espaço da Aldeia pelos entrevistados.
Fonte: Questionários semiestruturados aplicados nas UIT’s pelo autor, 2016.
315
Ainda que predominante a dimensão do lazer que o parque evoca, tanto nas
entrevistas, quanto nas observações, o uso religioso e de tradições está superposto, inclusive
por duplas citações e apontamentos, considerando que esta era uma questão aberta aos
entrevistados114. Justamente, as mais citadas depois do espaço das famílias e do lazer, são as
tradições, as festas e a religiosidade do lugar. Ao fim, aparece o turismo e atividades didáticas
e pedagógicas realizadas por estudantes e professores. A convivência entre usos articula-se
nas fragmentações operadas pela relativa autonomia de cada centralidade, delimitadas pelas
UIT’s. Em verdade, são poucos aqueles que se deslocam corriqueiramente do Ariston, nos
limites com Barueri, ou do Centro para fazer uso do parque da Aldeia e de outros espaços de
lazer e cultura da cidade, a não ser em eventos e festejos maiores. No cotidiano, o uso do
Parque da Aldeia é realizado pelos moradores dos bairros locais, sobretudo nos fins de
semana (Figura 59). Por vezes, mais facilitado é o deslocamento para o centro metropolitano,
ou regiões centrais, que os próprios bairros de Carapicuíba. Observa-se aqui, uma certa
regionalização estabelecida entre o setor norte, mais integrado ao centro metropolitano e
regional pela proximidade com as linhas férreas, enquanto o setor sul, incluindo a Vila Dirce e
parte do Ariston, é mais dependente de ônibus urbano e veículos particulares, que trafegam
pelas vias arteriais e Raposo Tavares.
Parque da Aldeia de Carapicuíba em um domingo de primavera
Figura 59: Parque da Aldeia de Carapicuíba, uma opção de lazer e sociabilidade de Carapicuíba-RMSP.
Fonte: Foto do autor, 2016.
114 Apêndice 01 - Questionários semiestruturados aplicados nas UIT’s de Carapicuíba.
316
O processo de periferização, com a chegada de milhares de moradores, induzidos pelas
políticas de planejamento e gestão do espaço urbano pelo Estado, fazem do território de
Carapicuíba um retalho de centralidades, nem sempre conectados, tão pouco integrados a uma
unidade comum, que uma cidade média ou pequena quase sempre apresentam. Os limites
entre bairros e outras cidades tornam-se virtuais, constituindo-se numa dimensão política, mas
sobretudo de relações que se estabelecem em torno da produção: do trabalho, do comércio e
serviços, do que propriamente constata-se das tantas falas, de um passado em que as tradições,
amizades e laços familiares desenvolviam-se em encontros e a identidade com bens materiais
e intangíveis e que se constituíam na prática como patrimônio cultural. Sem negar, porém, as
novas vivências ou experiências nestes antigos espaços, por mais que sejam
instrumentalizadas e condicionadas organicamente pelas relações de produção, ou em projetos
que buscam estabelecer novas lógicas permeadas por outras práticas culturais (como é o caso
da OCA, na Aldeia – Figura 60).
Festa de batuques do maracatu na Aldeia
Figura 60: “A festa é de Sta. Cruzinha, mas a Aldeia é nossa!” - Gritou um dos percussionistas por ocasião da
Festa de Sta. Cruzinha, 2016.
Fonte: Foto do autor, 2016.
Mesmo que precários, a manutenção das formas e o exercício de regulação e controle
do espaço da Aldeia pelas instituições e políticas públicas foram sistematicamente
contribuindo com os esforços da comunidade para a preservação dos traços da arquitetura e
dos objetos geográficos, mas dialeticamente segregando o conjunto tombado do restante da
317
cidade. Transformações que se processaram pelo isolamento das habitações e o pátio da
capela do restante da cidade. Exceção apenas no caso da área de urbanização consolidada, na
ZUC que integra bairros adjacentes, como o Jardim Marilu, Parque Santa Tereza, Jardim Lice,
Vila Conquista e que não decorreram das expropriações realizadas entre 1993 e 1996. No que
se refere às representações da população sobre as mudanças decorrentes na cidade nos últimos
anos, as quais estão diretamente associadas à Aldeia, as infraestruturas foram as mais citadas
e observadas como positivas ao longo de todo a atividade de pesquisa (Gráfico 15), nas
diferentes unidades do seu território.
Gráfico 15: Como as transformações afetaram a vida da população de Carapicuíba entrevistada.
Fonte: Questionários semiestruturados aplicados nas UIT pelo autor, 2016.
Ao longo dos questionários aplicados, a maior parte dos moradores, mesmo
identificando avanços significativos na infraestrutura da cidade, entendendo a importância e
apontando como positivas as transformações, explicavam que estas foram limitadas. Mais que
isso, que a ausência de normas, de leis, de gestão e planejamento ao longo de anos criaram
uma situação muito singular em Carapicuíba. Em verdade, a densidade demográfica do
município, unida a ampliação do número de veículos automotores, junto às antigas formas
urbanas – espontâneas ou criadas a partir de precárias e simples soluções – historicamente faz
com que as alternativas de intervenção sejam extremamente complexas, bem como as
alternativas de seus munícipes se estabeleçam em consensos tácitos pelas experiências com a
cidade.
318
No ano de 2015, outra intervenção importante é operada ao longo de toda avenida
Inocêncio Seráfico, por meio de requalificação do seu calçamento. Esta operação de vulto
estético passou a influenciar a mobilidade e a dinâmica local ao ampliar a área de pedestre
revestida, porém, diminuindo as áreas de estacionamentos. Considerando a grande quantidade
de atividades comerciais neste setor e a cultura do automóvel, bem como a frequência de
ônibus metropolitano que interligam os nodais urbanos à estação ferroviária e a RMSP,
tornou-se comum a invasão das calçadas pelos veículos, bem como reclamações advindas dos
proprietários do comércio local.
A cultura daqui de Carapicuíba ainda tem essa cultura de não obedecer à lei de
trânsito, normas, Carapicuíba cresceu sem norma, desorganizada, então ficou essa
cultura tanto que hoje a Inocêncio Seráfico ela já foi largada. Tem hoje bastante
amarelinhos multando ,eles não entendem que não podem subir na calçada, eles
acham que calçada é lugar de carro e acabam subindo e reclamam se leva multa, é
diferente quando levam para outra cidade eles vão pra Osasco... Carapicuíba sai
daqui, vai pra Osasco e respeita bonitinho as normas de lá, Carapicuíba... a cidade
aqui que não tem dono, todo mundo faz o que quer, então tem sim esse lado, agora
com as multas de trânsito tá fazendo o Carapicuibano entender que tem que
obedecer às leis de trânsito, também ficou meio sem normas até na questão dos
animais mesmo [...] (Entrevistada 01, moradora da UIT Vila Dirce, 54 anos).
Virou cidade que não tem planejamento tem alguns bairros que foi planejado mas
isso depois, os bairros planejados tem o que? 20 ou 30 anos que o bairro planejado
aqui, tem o bairro planejado ali na Jandaia, outro bairro planejado a Cohab é
planejado mas tirando isso Carapicuíba inteira não é planejado [...] (Entrevistado 13,
morador da UIT Vila Dirce, 62 anos).
Quando não diretamente sobre o processo de urbanização, revelados pelos sistemas
espaciais de aglomeração, densidade e de modernização do território, as falas situam-se
especificamente sobre a gestão e o planejamento, bem como para elementos como melhorias
no saneamento ambiental – incluindo aí drenagem urbana (controle de enchentes) – além da
melhoria na mobilidade, habitação e áreas de lazer (Gráfico 16). Emerge, portanto, a
representação de transformações ou mudanças ligadas diretamente à urbanização territorial do
município, que sobressai nas muitas falas e observações realizadas. Estas, seguidas daqueles
que não conseguem ver significativas mudanças na cidade, e outros que entendem que as
maiores transformações foram no espectro econômico ou político – que associam-se com a
319
urbanização e infraestrutura diretamente – e, depois, na educação, segurança e saúde quando,
por fim, lembram ainda do lazer, cultura e entretenimento.
Gráfico 16: Mudanças importantes lembradas por moradores entrevistados de Carapicuíba.
Fonte: Questionários semiestruturados aplicados nas UIT pelo autor, 2016.
Deve-se considerar que para grande parte da população as intervenções e
modernizações que se processam nos sistemas urbanos são centrais para um município que
por anos amargurou a ausência do Estado, a precariedade dos serviços públicos, assim como o
drama de estar distante do acesso aos bens que a cidade potencialmente oferece. De maneira
que dos 205 entrevistados, apenas 43 disseram ter uma relação sentimental com a cidade,
considerando-a aqui não enquanto um objeto, como se verificou acerca da reificação de sua
história. Neste caso, das relações sentimentais, estas sempre estiveram situadas nas relações,
nas ações e no âmbito das amizades, das famílias, das práticas sociais. Essa identificação e
relação com os espaços de Carapicuíba estabeleceram-se em favor de algumas citações mais
comuns, como a da infância, de lembranças e experiências positivas, do acolhimento, de
relações amorosas como namoro e casamento, além da convivência com amigos e familiares.
Moramos aqui há muitos anos, não tem como não gostar, faz parte da nossa
vida esse lugar. Foi onde nasci e cresci. Passei toda infância aqui. Em
Carapicuíba o povo é muito acolhedor, faz amizade fácil (Entrevistado 14,
morador da UIT Cidade Ariston, 52 anos).
320
Eu gosto sim, da COHAB principalmente. Você deveria perguntar mais do
bairro, porque a cidade é muito grande. Veja, pois mesmo morando na Vila
Creti, lá perto do centro, foi aqui na COHAB que fiz os amigos. É muito
diferente a depender do lugar da cidade. Eu morava aqui antes, minha família
ainda mora, eu sai. Mas é aqui que tenho os amigos e sempre que posso
venho aqui. A COHAB aqui foi onde fiz minha vida. (Entrevistado 15,
morador da UIT COHAB 02, 35 anos).
Além de aprovarem as últimas intervenções e assinalarem de que ainda há muito por
ser feito, aproximadamente 84% dos entrevistados dizem gostar da cidade, variando
qualitativamente aquilo que mais gostam tendencialmente a depender do bairro. Deve-se
destacar, porém, citações de que Carapicuíba é uma cidade sossegada ou tranquila, das boas
relações no bairro com as pessoas conhecidas e familiares e, por fim, do fácil acesso que
possuem às grandes cidades, de São Paulo propriamente. Essas tendências variam conforme
às UIT’s, onde a Aldeia e Fazendinha destacam-se pelos apontamentos da presença de amplas
áreas verdes, por exemplo, e onde no Centro Ariston e COHAB’s sobressai o acesso aos
centros urbanos da região metropolitana (Gráfico 17). Quanto ao caso do conjunto tombado
da Aldeia apenas uma indicação, na própria UIT correlata, evidenciando uma vez mais o
distanciamento da população de Carapicuíba com os bens culturais da cidade.
Gráfico 17: População entrevistada aponta o que mais gosta em Carapicuíba.
Fonte: Questionários semiestruturados aplicados nas UIT’s pelo autor, 2016.
321
Estas variáveis são diagnósticas ao apontarem para o potencial que as políticas
patrimoniais ainda não tocaram; o das vivências e experiências da população com a cidade e
seus bens. O conhecimento da Aldeia como bem protegido da cidade – manifestado por 1/4
dos entrevistados – não implica necessariamente na consciência explícita de relações entre
aqueles objetos com sua diária resistência pela presença e animosidade dadas pelos sujeitos. O
espaço da cidade se revela algo positivo para população quando este remete à memória de
experiências pessoais e, pois, coletivas, em torno de analogias com amigos e familiares, desde
a infância aos dias atuais. Lembrando relativamente a centralidade dos equipamentos urbanos,
que juntos potencializam os anseios e necessidades dessa grande diversidade de moradores
(ligados a antiga condição rural, caipira, suburbana e atual de metrópole, cidade dormitório e
de enclaves).
Diversidade que pode ser esclarecida pela crítica de um patrimônio cuja narrativa
selecionou histórias que mais suprimem do que propriamente explicam, acumulam ou
sobrepõem essa diversidade. Uma rugosidade que ainda hoje torna-se marginal ou refém dos
preceitos mais arcaicos das políticas do patrimônio, enquanto documento ou símbolo de uma
história universal, geograficamente particularizada no poder imperial sobre a colônia, no
deleite da fatalidade acrítica do desbravamento bandeirante, da civilidade cristã, ou da
apropriação produtiva de novas atividades mercantis pela démarche da arquitetura de taipa de
pilão. O lúdico e o tempo livre, racionalizados em favor da plena capitalização da vida,
transformam os encontros segmentados entre os semelhantes. O potencial de atividades e
convivências materializadas nas/pelas rugosidades patrimoniais operam sistematicamente a
musealização cristalizada e do uso institucional restrito e pouco diverso (órgãos públicos,
museus, entre outras funções). Falta, junto a outra lógica de relações sociais, a integração à
vida do trabalhador, a retomada do reconhecimento, o resgate das raízes de pertencimento
concretizadas pela produção prática e cotidiana da cultura. Ou, drasticamente, a vida
continuará a ressoar apenas os ecos do passado, enclausurada nas melhor das hipóteses no
âmbito da casa, experimentando um mundo artificial e manipulada pelas ferramentas de
comunicação e informação, quando não apropriada por mais trabalho expropriado.
Uma organização diferente do ‘tempo livre’, que transforma em prolongamento do
trabalhado e do lucro, contribui para essa reformulação do público. Dos cafés da
manhã de trabalho ao trabalho, aos almoços de negócios, ao trabalho, aos almoços
de alguns dias aos jantares de sociabilidade rentável. O tempo livre dos setores
populares, coagidos pelo subemprego e pela deterioração salarial, é ainda menos
livre por ter que preocupar-se com o segundo, terceiro trabalho, ou em procurá-los
(CANCLINI, 2006, p. 288).
322
Simultaneamente, o potencial permanece resistente às distopias que levam-nos a
suspeitar do fim da história, de uma condição sem voltas, de uma dinâmica de poder universal
imposto verticalmente em todos os territórios, violando a complexidade do trabalho humano
na produção de seus bens, de suas artes e de suas ciências. Essas utopias emergem das tantas
falas indicativas que se impõem diante da segregação urbana e da ausência do direito à
cidade, marcadas pela conquistas materiais realizadas do antigo barraco transformado em casa
de alvenaria, da conquista do logradouro e das infraestruturas básicas que permitem o
deslocamento e mobilidade, da relação simbólica com Carapicuíba que ganha substância de
uma periferia que enfrenta e luta dia-a-dia contra as imposições severas e estruturais postas
pelo modo de produção contemporâneo. Juntos, esses elementos, remetem aos utopismos
patrimoniais (COSTA, 2016), ao partirem de uma profunda crítica e denúncia, até alcançarem
a resignificação de uma narrativa história e geografia próprias dos territórios.
323
CONSIDERAÇÕES FINAIS
As considerações acerca das particularidades da formação territorial brasileira pelo
prisma dialético das universalidades que se interpenetram desde a colonização até a
consolidação urbano-metropolitana, perpassam a compreensão das qualidades inerentes e
essenciais dos processos em curso. Para isso, adotando no caso do fragmento empírico, das
rugosidades patrimoniais e metropolitanas em Carapicuíba, os sentidos e finalidades da
colonização do planalto paulistano, da consolidação do Estado-nação brasileiro, até o
desenvolvimento da Região Metropolitana de São Paulo (RMSP) – cujo espraiamento pela
implosão-explosão urbana e onipresença virtual incorpora e dinamiza praticamente a
totalidade do território nacional – por meio dos desdobramentos institucionais da
patrimonialização e das políticas urbanas. Na análise empreendida, a noção de rugosidade
embasada em Milton Santos (1977; 2012d [1996]; 2012 [1978]; 2012c [1978]; 2013a [1978])
foi capaz de substanciar o olhar para as sucessivas formas-conteúdos que se interpenetram e
cristalizam-se espacialmente nas diferentes etapas de desenvolvimento dos núcleos, cidades e
metrópoles. O esforço de situar e empiricizar seus preceitos teóricos fundamentais realçam a
necessidade de superar a noção pelo conceito estruturado e categorizado conforme a essência
provisória da realidade. Nisto, compreende-se o papel do conhecimento produzido no âmbito
disciplinar, de sua contribuição. Do mesmo modo, a contínua necessidade de colocar à prova
esse conhecimento face ao dinâmico movimento da história depreende do esforço analítico e
da possibilidade dual de decodificação do fenômeno: o primeiro, de refutar os preceitos
teóricos, em razão da realidade que já não pode ser explicada por eles, e criar um novo
arcabouço conceitual; o segundo, como no caso da tese, de reafirmar os preceitos teóricos
estabelecidos, somando e ampliando os fundamentos, igualmente expandindo os limites
reflexivos, analíticos e operacionais dos conceitos e temas de abordagem (o patrimônio na/da
metrópole).
Carapicuíba e grande parte das cidades que compõe a metrópole paulista despontam
desses embriões e nódulos fundacionais que perpassam intensamente todas as fases de
desenvolvimento de São Paulo. Ainda que grande parte da produção material destas cidades
tenha sido suprimida pelas modernizações, operadas pela recorrente industrializaçãourbanização dos territórios, a possibilidade do resgate das primitivas e atuais rugosidades
patrimoniais marcam a apreensão das essências que alicerçaram a mais dinâmica metrópole
324
do país, mas que nem sempre apresentam-se em suas condições materiais ou necessariamente
livres de cargas ideológicas em suas existências. Esse foi, em grande medida, o esforço
empreendido na pesquisa, compreendendo cinco eventos que marcam os períodos de
formação, desenvolvimento e consolidação da Aldeia de Carapicuíba entre as supressões,
superposições e acumulações que dialeticamente compreendem as rugosidades patrimoniais.
O primeiro evento marca a gênese das rugosidades patrimoniais de Carapicuíba,
associada ao fenômeno de colonização e o estabelecimento de uma das unidades do antigo
sistema de aldeamentos. Nela, constatou-se a configuração das supressões das formas e dos
conteúdos pretéritos, no limite com a apropriação das formas cristalizadas e o esforço de sua
contínua superposição. O segundo evento relaciona-se ao declínio dos aldeamentos e a
conversão do aldeamento em vilarejo típico do cinturão caipira. Neste processo, identificou-se
a latência das categorias de acumulação e superposição das formas-conteúdos, que
caracterizaram mais intensamente a rugosidade patrimonial por sua “mestiçagem”,
sacralização e o relativo ostracismo que permanece até sua patrimonialização. O terceiro
evento se estabelece com a transformação da Aldeia num típico subúrbio paulistano, e o
tombamento do conjunto como patrimônio nacional pelo SPHAN. Esses eventos marcam a
integração rodoferroviária da Aldeia de Carapicuíba com São Paulo e atuação recorrente do
Estado em relação aos bens materiais e os modos de viver pela população naquele lugar. O
quarto evento deriva da plena industrialização de São Paulo, quando realiza-se a implosãoexplosão urbana, com expansão e efetiva integração da malha urbana da capital com seus
subúrbios. Os limites empobrecidos desta expansão integram a Aldeia, com a consolidação de
ocupações irregulares, favelização e a contínua degradação do patrimônio tombado pela
intensidade dos impactos causados e a ausência de políticas e ações institucionais para sua
preservação. O quinto evento refere-se à urbanização territorial, empreendida pela
reestruturação produtiva de São Paulo, a instalação de infraestruturas que se consolidam
parcialmente na cidade, além de intervenções mais amplas na Aldeia e entorno, no sentido de
sua instrumentalização e preservação.
Com a pesquisa e contextualização sobre os aldeamentos paulistas, foi possível
ratificar conexões estruturais entre tempos distintos no caso de Carapicuíba, desde o cinturão
caipira, a formação dos subúrbios até a implosão-explosão urbana, que perpetuam
semelhanças, continuidades e cisões histórico-geográficas: do trabalho espoliado; da renda
diferencial da terra e de seus recursos intensamente explorados e mercantilizados; das forças
inerciais impetradas por redes urbanas de poder; dos mecanismos de segregação e auto325
segregação; da cultura como razão prática de resistência; da reprodução ampliada das relações
de produção numa dilatada e sistemática divisão territorial do trabalho; do desenvolvimento
desigual e concentrado; das possibilidades utópicas de vir a ser, despertadas por uma práxis
revolucionária em que a cultura e espaços públicos têm papel central.
Em Carapicuíba, sua situação marginal não deriva apenas da distância geográfica,
considerando sua relativa proximidade ao centro metropolitano, mesmo em tempos remotos,
mas de funções deletérias que servem ao polo e que derivam desde os primitivos tempos
coloniais. Estas funções exigiram formas geográficas nem sempre duradouras ou sofisticadas,
pois a intermitência foi condição fundamental, seja pelas políticas de reordenamento
territorial exercidas na colônia pela Coroa e a Igreja, ou posteriormente das políticas urbanas,
metropolitanas e do patrimônio cultural. Essa sina não acompanha necessariamente os
conteúdos, que na latência das acumulações e das superposições (tradições, ritos, modos de
viver), germinaram profundas raízes nos sujeitos históricos que ali permaneceram no
descompasso temporal da “modernidade concentrada” e avivaram as singelas habitações, a
capela e seu largo, ao som de velhas violas, na transmissão oral musicada das lendas e
crendices, na rememoração de seus antepassados, na vida simples hibridizada que subsistiu
por até três gerações quando da flexão com o urbano e acolhimento do espaço pelo Estado por
meio de sua patrimonialização.
O tombamento da Aldeia de Carapicuíba em 1940 como patrimônio nacional é um
marco da incipiente política institucional na estruturação concreta da ideia de nação para o
Brasil pós-colonial. Os sentidos dessa escolha referem-se aos potenciais identitários de
representação das principais matrizes étnicas e culturais do povo brasileiro, que marcam e
possibilitam a contínua difusão dos preceitos fundacionais calcados, mormente, nas ideologias
históricas e geográficas do período. A constituição do Estado moderno exigia no plano
cultural reforçar a internalização de uma universalidade cultural, uma unidade capaz de
explicar e sustentar as relações de pertencimento e de legitimação das instituições estatais e
classes sociais em processo de consolidação. As técnicas construtivas, o patrimônio barrococolonial, as igrejas e prédios maiores foram os fundamentos na escolha dessa incipiente
política patrimonial.
A escolha da Aldeia como patrimônio nacional insere-se à década de 1930 na
atmosfera do movimento modernista, de reinvenção plural da unidade nacional entre a cultura
popular e erudita pensada pelo anteprojeto de Mario de Andrade ao SPHAN. O antigo espaço
326
do aldeamento, conforme minucioso esforço analítico do estudo para o tombamento, realizado
por Luís Saia sob orientação de Mario de Andrade em 1937, contemplou além das habitações,
das formas geográficas ligadas ao plano de urbanização colonial e das técnicas construtivas,
também a profundidade das tradições particulares da cultura hibridizada e sintetizada pelo
caipira, como os festejos e expressões folclóricas da dança de Santa Cruz, ou os utensílios
domésticos e as crendices populares de então (ferraduras nas portas, ou o símbolo de Sinhô
Samão para a proteção da casa). Sem jamais ser publicado, o estudo é revelador do potencial
de pluralidade e questões subjetivas à cultura e preservação no anteprojeto de Mario Andrade
que, de forma concreta, trata-se no caso da Aldeia de um dos estudos mais bem caracterizados
dessas acepção germinal e reveladora do valor histórico que o pequeno conjunto se impunha
frente as grandes obras artísticas e arquitetônicas do barroco mineiro, mas fundamentalmente,
da tentativa de clarificar a mescla entre culturas eruditas e populares, desde a dança do
Sarabaquê, até o preenchimento coletivo das paredes externas de pau-a-pique das construções
no sistema de mutirão, sempre indagadas a origem de técnicas e procedimentos que resvalam
ora no colono, ou no religioso, ora no ameríndio, ou no afro-brasileiro.
Por ser o aldeamento um espaço colonial de exceção (estratégico ao poder imperial
nas primeiras fases de assentamento), tanto o sentido de cidade como de monumento (tal qual
é o caso de Ouro Preto), tornam-se inadequados ao emprego terminológico no caso da Aldeia
de Carapicuíba no período que precede a 1940. Este, um pequeno fragmento histórico sem
nunca efetivamente ser urbano ou rural até sua patrimonialização, é um território litigioso e de
contradições perpetuadas ora pelo subjugo e escravização, ora pelas razões práticas de
existência e o ato de sobreviver diante do isolamento e do ostracismo. As formas geográficas,
essenciais às funções do cativeiro, da proteção militar, abastecimento e aos conteúdos
ideológicos-culturais no processo de “amansar” e “cativar” o índio, tornam-se as rugosidades
que mais tarde sustentam a possibilidade do existir, superpostas pelas funções e conteúdos
acendidas no acúmulo com a produção do trabalho livre e o modo de vida a partir das
hibridizações contínuas entre os grupos sociais.
Em um período de pouco mais de um século, entre o fim dos aldeamentos no dezenove
e a plena integração de Carapicuíba enquanto subúrbio de São Paulo em meados do século
vinte, a Aldeia enquadra-se nos limites do cinturão caipira. Nele, há um relativo isolamento
do conjunto, do grupo social, que vai gradativamente preservar as rugosidades patrimoniais.
Estas necessidades implicam não apenas em intervenções isoladas nas casas, mas no conjunto
do espaço de convivência, em que as relações sociais são fortalecidas, predominantemente as
327
religiosas, que passam a gradativamente sacralizar pelas tradições seculares o atual vilarejo
caipira. Contexto tencionado por uma integração mais dinâmica dos núcleos históricos com
São Paulo e outras centralidades urbanas regionais, que superpõe aos antigos caminhos às
linhas férreas, articuladas hierarquicamente numa nova rede de produção, circulação e
consumo. Trata-se de uma fase com importantes modernizações, com espraiamento da
urbanização ao longo das linhas e estações de trem, cujas rugosidades patrimoniais foram
paulatinamente suprimidas e superpostas para o atendimento de outra lógica de produção. Se
o papel do uso cotidiano e das relações sociais no espaço da Aldeia foram determinantes a sua
preservação, neste momento o Estado é quem dividirá essa função, exercida, porém, a partir
de diversos conflitos, que culminariam, inclusive, na dilapidação da autonomia popular a
propósito de seus territórios e, em certa medida, no próprio aniquilamento de alguns bens
materiais, das tradições e simbolismos.
No contexto suburbano e de implosão-explosão urbana de São Paulo, verifica-se a
generalização do fenômeno em Carapicuíba, com o adensamento e “explosão demográfica”
pelas estratégias do ordenamento territorial que fragmentou o território de Carapicuíba numa
nova unidade política-administrativa (emancipação em 1964), além de impulsionar a
expansão da RMSP nos sentidos leste e oeste por meio da construção de milhares de
habitações nas COHAB’s e CDHU’s, favorecendo a transformação funcional de muitos
subúrbios em cidades-dormitórios, bem como a emergência de múltiplos problemas sociais.
As políticas públicas favoreceram concomitantemente a especulação imobiliária, com a
criação de muitos loteamentos irregulares por agentes privados, além da consolidação de
bolsões de pobreza em áreas de risco em todos os setores do município. Milhares de
trabalhadores passaram a integrar a dinâmica de vida na cidade, contribuindo para consolidar
um caldeirão de culturas. No plano da Aldeia, este momento desponta em uma série de ações
que visam integrar as políticas urbanas-metropolitanas às políticas culturais, considerando a
pressão sofrida pelo espaço na intensificação do fluxo de trânsito, do crescimento de bairros e
vilas no entorno, bem como nos limites do próprio quadrilátero do conjunto tombado.
As dimensões históricas e documentais das rugosidades se reafirmam nos planos e
estratégias de planejamento, porém, na prática a Aldeia torna-se um contínuo objeto a ser
apartado da expansão urbana em favor de sua preservação, bem como utilizado enquanto
instrumento turístico e de atividades ligadas à cultura. O bem cultural passa a uma efetiva
condição de bem patrimonial. Esta realidade, no entanto, além de não ser capaz efetivamente
de impedir os conflitos entre a expansão metropolitana de São Paulo, a municipalidade, o
328
SPHAN e comunidade ali residente, ainda os exaspera. De fato, as políticas pouco são
eficazes no sentido de plenamente impedirem os impactos visuais, sonoros e paisagísticos que
a urbanização trazia. Os projetos elaborados pelas instituições estatais no conjunto só sentirão
algum efeito anos mais tarde, quando as intervenções são mais recorrentes no sentido de
adequação dos bens ao conjunto do parque municipal, ou como potencial catalisador de novas
atividades produtivas. No plano imaterial, mesmo com os preceitos modernos balizados
internacionalmente, as ações na Aldeia ignoram o potencial da própria preservação pela
manutenção das tradições e restringem as intervenções mais basilares às reformas pontuais do
conjunto, ignorando as dificuldades enfrentadas de perpetuar ritos e festejos, ou de melhor
sustentar o empoderamento de sua população em relação as relíquias ali presentes, que
estavam em processo de desaparecimento ou pauperização diante do fenômeno urbanometropolitano e de periferização em curso.
No que tange as décadas mais recentes, cuja intensidade e pujança do crescimento
metropolitano de São Paulo é refreado por sucessivas crises, com a desconcentração das
indústrias e a produção de novas infraestruturas territoriais, o papel exercido por Carapicuíba
ainda permanece num contexto universalmente compreendido como base metropolitana de
sustentação. Mesmo com o conjunto das taxas de crescimento geométrico reduzidas, as
cidades da periferia, com seus braços e condições limítrofes, darão incremento populacional a
RMSP, animando o atual cenário, inclusive no contexto de maior complexidade dada pelas
revalorizações espaciais e a instalação de sistemas condominiais e enclaves residenciais nos
territórios da periferia. Este é o período de maiores intervenções no conjunto tombado, onde
se efetivam parte dos planos de desenvolvimento pensados para a RMSP, Carapicuíba e, mais
notadamente, para a Aldeia entre 1970 e 1980, e parcialmente realizados na década de 1990 e
anos 2000.
Os sentidos da Aldeia perpassam uma reconfiguração, operada no plano do cotidiano,
imersos pela dessacralização do espaço, bem como por funções que deixam de ser a totalidade
do habitar para as de entreter (desvinculação das festas e tradições com o espectro religioso) e
as de abrigar serviços, repartições públicas e não governamentais. Esta mudança é recorrente
das políticas urbanas e patrimoniais que não asseguraram a presença das famílias instaladas
(ausência de uma política de empoderamento/controle social e as verticalidades restritivas na
própria condição de adequar a vida sob a nova realidade metropolitana), bem como
fragmentam o monumento de seu contexto urbano, do entorno direto, descolado da cidade
como um todo. O advento e criação do parque da Aldeia, com as desapropriações e instalação
329
de equipamentos públicos, perfaz uma dinâmica de transformações cujos campos de luta se
estabelecem na apropriação dos espaços de lazer e cultura, ora pelas famílias tradicionais do
lugar, ora pelas novas demandas cotidianas da diversidade metropolitana. Neste conjunto se
sobrepõe os moradores de rua que do parque fizeram residência e da Aldeia um espaço de
estar, aos munícipes que diariamente arranjam caminhadas, atividades físicas e destacam a
centralidade das sociabilidades e encontros ali realizados. As rugosidades patrimoniais
convertem-se numa plataforma, num substrato capaz de gerir festejos religiosos e profanos, os
espetáculos e dramas cotidianos, as múltiplas temporalidades que continuamente resultam das
supressões, superposições e acumulações.
Dialeticamente, as rugosidades patrimoniais de Carapicuíba, desde a gênese até o uso
cotidiano contemporâneo, revelam um continuum que perfaz o desenvolvimento do próprio
sentido e conteúdo urbano. Se não por caracterizar-se numa centralidade, ao menos por
sustentar essa qualidade, com formas-conteúdos que apesar dos efeitos de sua fragmentação,
são partes do urbano potencializadoras de sociabilidades e convivências, da possibilidade
crítica de ressignificação e apropriação pelas condições contraditórias ou conflituosas que as
rugosidades propiciam. Nem sempre explicitadas, as forças ideológicas valem-se do cotidiano
para gradativamente operarem uma ideia reificada dos bens patrimoniais, suficientes para
perpetuar uma visão acrítica e naturalizante das desigualdades e injustiças sociais.
Concretamente, estas emergem no caso em questão até mesmo da simples e cômoda
designação “Aldeia de Carapicuíba”, terminologia prolixa, difusa e que remete
ideologicamente a um significado passível de dúbio entendimento de suas funções e
conteúdos pretéritos (uma pseudoconcreticidade). Aldeias eram espaços indígenas por
natureza, ainda que a palavra já seja uma construção alegórica cujas origens são o Ocidente, a
Europa, o português que historicamente generaliza o termo a pequenos núcleos de população
até os dias atuais. Tão somente o sentido de aldeia situar-se-ia neste prospecto ideológico,
ainda que mais generalizadamente possa ser compreensível como território indígena na
particularidade linguística brasileira. O que o aldeamento, de forma alguma sugere. Valendose, porém, de estratégias políticas e econômicas mais efetivas, que juntas e combinadas às
forças ideológicas, constituem dimensões de salvaguarda que segregam os bens das
comunidades locais em favor de sua consagração nacional-universal de apropriação e fruição.
Isto requer considerar essas rugosidades patrimoniais do ponto de vista de suas
singularidades, onde mesmo designada de Aldeia, a qualificação de aldeamento permeie os
sentidos e seja suficiente de revelar o drama dos povos primitivos, numa consciência crítica
330
dos preceitos da formação social, econômica e cultural do Brasil. Há que se considerar que a
Aldeia de Carapicuíba é assim chamada há pelo menos duzentos anos, que implica numa raiz
identitária que, apesar de carregar dificuldades pela significação difusa, remete às memórias e
ao conjunto de sujeitos, famílias e grupos sociais que ali se enraízam e assim a denominam.
Considerando isso numa possibilidade crítica de repensar aqueles bens patrimoniais na
dimensão de sua população, o que não impede e é favorável de atacar os sentidos de
acumulação que sugerem harmonia e distopia, em favor da tragédia de supressão e
superposição que acarretou a quase extinção das sociedades indígenas destes territórios, da
banalização do caipira, da segregação dos subúrbios acerca das possibilidades de fruição da
cidade e do urbano, bem como a precariedade, violência e desumanização da periferia. Com
isso, confirma-se com a pesquisa uma tendência histórica de ações que suprimiram parte da
autonomia das populações moradoras da Aldeia. Trata-se de um dos polos dialéticos que
evidenciam a gravidade, sobretudo do tempo contemporâneo, de perda da dimensão memorial
do plano coletivo em favor de um espaço alegórico, vazio e “musealizado”, um atrativo
cultural do parque correlato, que esporadicamente serve instrumentalmente ao folclore e as
manifestações religiosas cujas particulares são cada vez mais universais. Seu potencial de
valorização para o mercado, apesar de nunca efetivamente se concretizar, resguarda-se nas
oportunidades que desde meados dos anos de 1980 se pronunciam pela instalação de chácaras
residenciais e condomínios nas proximidades da Aldeia, em que o parque passa a
limitar/barrar a expansão periférica que se pronuncia historicamente ao longo do eixo arterial
da avenida Inocêncio Seráfico (de norte a sul) e a catalisar as novas infraestruturas instaladas
na área e entorno (que vão do Rodoanel, até a microescala de ampla iluminação e nivelamento
com concreto do conjunto patrimonializado).
Por fim, é possível concluir a latência dos processos sociais envoltos na preservação
da Aldeia de Carapicuíba desde os remotos períodos de sua gênese à atual metropolização.
Configura-se num emblemático caso de permanência frente às modernizações operadas em
São Paulo pela industrialização-urbanização-metropolização. Onde o papel de sua população
foi fundamental pela resistência e perpetuação das memórias e tradições ligadas as
rugosidades patrimoniais (tanto ao espaço material, quanto aos ritos religiosos e festejos
profanos), mesmo diante dos conflitos despertados pela institucionalização e conversão
monumental de seus bens culturais em patrimônio da memória nacional e dos processos
urbanos em curso (inclusive com o esvaziamento da Aldeia), parte das famílias locais e dos
núcleos adjacentes (os quais resultam, em parte, das políticas e ações de remoção) mantém
331
relações cotidianas no espaço da Aldeia, o que a torna num espaço referencial e vivo para sua
comunidade. Nos limites do tempo atual, existe uma preocupação pelo distanciamento e
desinteresse na reprodução destes valores, destes modos de viver, destas práticas
socioespaciais, o que ao longo dos diálogos e pesquisa se mostrou pelas vozes dos festeiros
mais antigos, pelos sujeitos entrevistados, pela observação do esvaziamento das festas
tradicionais e as incertezas advindas deste futuro onde se asseveram o desenraizamento, a
impessoalidade, a banalização e a violência. Mais do que os limites dos bens culturais
patrimonializados, a crise urbana acomete amplos setores da metrópole, o que requer uma
práxis transformadora das políticas urbanas e patrimoniais na totalidade dos territórios, que
vai das estratégias educacionais, do empoderamento e controle social, às condições equânimes
de acessibilidade e direitos a cidade e suas infraestruturas instaladas. Esta talvez seja a única
saída possível das prisões de um passado e presente perversos, que Milton Santos (2014)
assevera em favor de um futuro “espaço do cidadão”, permeado de justiça, o respeito a cultura
e possibilidade de busca da liberdade. Eis o que deve cumprir o patrimônio cultural e a
metrópole.
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(Carapicuíba/SP). Localização Topográfica: AA01/M031/P01/ Cx.0603/ P.0003 /
Env.01;02;03;04;05;06. Período: 16/05/1949 - 05/09/1986 Fotos: 16. Recortes/Jornais: 06.
Mapas e Plantas: 14. Conteúdo: Histórico; cópia de fotografia; legislação; recortes sobre a
capela de Carapicuíba; turismo; festa da aldeia.
● INVENTÁRIO CAPELA DE SÃO JOÃO BATISTA. (Carapicuíba/SP). Localização
Topográfica: AA01/M031/P01/ Cx.0603/ P.0003 / Env.07;08;09;10. Fotos: 22. Mapas e
Plantas: 01. Conteúdo: O dossiê contém documentação fotográfica e mapa.
● IPHAN/OBRAS/CASA. Casa: Aldeia de Carapicuíba-Parte 1. (Cotia/SP). Arquitetura
Civil Localização Topográfica: AA01/M044/P06/ Cx.0424/ P.1852. Período: 1942 - 1956
Est. Conservação: Regular.
● IPHAN/OBRAS/CASA. Aldeia de Carapicuíba-Parte 2 (final). (Cotia/SP). Arquitetura
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Forma: Original, Cópia Est. Conservação: Regular.
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(Carapicuíba/SP). Localização Topográfica: AA01/M065/P01/ Cx.0963/ P.2612. N. do
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Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico do Estado. Unidade de
Preservação do Patrimônio Histórico.
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Volume I e II, 2003. Arquivo da 9ª Superintendência Regional do IPHAN/SP.
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Arquivo da 9ª Superintendência Regional do IPHAN/SP.
DOCUMENTOS CARTOGRÁFICOS (Cartas, Plantas e Mapas Históricos)
● ATLAS DIGITAL DA AMÉRICA LUSA. Aldeias e aldeamentos no século XVI.
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Acesso em: mai. de 2016.
● BASE CARTOGRÁFICA GEORREFERENCIADA dos logradouros da Região
Metropolitana de São Paulo. Edição de 2014. Centro de Estudos da Metrópole. São Paulo
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● CARTAS GEORREFERENCIADAS com divisão territorial e demográfica da Região
metropolitana de São Paulo. Disponibilizados pelo CEM, 2014.
● MAPA-INVENTÁRIO DE BENS CULTURAIS da RMSP (1986, Carapicuíba – Escala
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● MAPA DO PLANO DIRETOR de Drenagem para Carapicuíba, Osasco, Jandira, Itapevi e
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● MAPA PDDI (Plano Diretor de Desenvolvimento Integrado da GSP – Carapicuíba).
Programa Desvio da Aldeia de Carapicuíba (1981, Escala 1:2.000). Elaborado pela
EMPLASA.
● MAPA DE USO DO SOLO de Carapicuíba (1980, Escala 1:10.000) PDDI - Plano Diretor
de Desenvolvimento Integrado da GSP – Carapicuíba. Elaborado pela EMPLASA.
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● MAPA DE CONTROLE E PREVENÇÃO de inundações com base em tendências da
expansão urbana (1980, Escala 1:25.000). Elaborado pela EMPLASA.
● MAPA DO PLANO DE PRESERVAÇÃO da Aldeia de Carapicuíba – Zona de Preservação
Histórica (1973-1980, Escala1:2.000). Elaborado pela EMPLASA.
● MAPA DE DENSIDADE POPULACIONAL de Carapicuíba (base IBGE, 2010). Plano
Diretor Participativo e Indicador de Qualidade de Vida de Carapicuíba. Prefeitura Municipal
de Carapicuíba. Elaborado pelo Instituto Via Pública, 2012.
● MAPA DE EVOLUÇÃO URBANA de Carapicuíba (1580-2000). Plano Diretor
Participativo e Indicador de Qualidade de Vida de Carapicuíba. Prefeitura Municipal de
Carapicuíba. Elaborado pelo Instituto Via Pública, 2012.
● MAPA DE PADRÃO DE OCUPAÇÃO de Carapicuíba. Plano Diretor Participativo e
Indicador de Qualidade de Vida de Carapicuíba. Prefeitura Municipal de Carapicuíba.
Elaborado pelo Instituto Via Pública, 2012.
● MAPA DE HIERARQUIA VIÁRIA do Município. Plano Diretor Participativo e Indicador
de Qualidade de Vida de Carapicuíba. Prefeitura Municipal de Carapicuíba. Elaborado pelo
Instituto Via Pública, 2012.
● MAPA DE HIDROGRAFIA da Região do Sub-Comitê Pinheiros-Pirapora. Plano Diretor
Participativo e Indicador de Qualidade de Vida de Carapicuíba. Prefeitura Municipal de
Carapicuíba. Elaborado pelo Instituto Via Pública, 2012.
● MAPA DE RENDA ATUALIZADA por Bairros de Carapicuíba. Plano Diretor
Participativo e Indicador de Qualidade de Vida de Carapicuíba. Prefeitura Municipal de
Carapicuíba. Elaborado pelo Instituto Via Pública, 2012.
● MAPA DE ÁREA URBANIZADA e com vegetação. Plano Diretor Participativo e
Indicador de Qualidade de Vida de Carapicuíba. Prefeitura Municipal de Carapicuíba.
Elaborado pelo Instituto Via Pública, 2012.
● MAPA DE ZONAS ESPECIAIS de Interesse Ambiental. Plano Diretor Participativo e
Indicador de Qualidade de Vida de Carapicuíba. Prefeitura Municipal de Carapicuíba.
Elaborado pelo Instituto Via Pública, 2012.
● MAPA DE ZONAS ESPECIAIS de Interesse Cultural. Plano Diretor Participativo e
Indicador de Qualidade de Vida de Carapicuíba. Prefeitura Municipal de Carapicuíba.
Elaborado pelo Instituto Via Pública, 2012.
● MAPA DE ZONAS ESPECIAIS de Interesse Social. Plano Diretor Participativo e
Indicador de Qualidade de Vida de Carapicuíba. Prefeitura Municipal de Carapicuíba.
Elaborado pelo Instituto Via Pública, 2012.
● MAPA DE ZONAS ESPECIAIS de Assentamentos Precários. Plano Diretor Participativo e
Indicador de Qualidade de Vida de Carapicuíba. Prefeitura Municipal de Carapicuíba.
Elaborado pelo Instituto Via Pública, 2012.
364
● MAPA DE CENTRALIDADES. Plano Diretor Participativo e Indicador de Qualidade de
Vida de Carapicuíba. Prefeitura Municipal de Carapicuíba. Elaborado pelo Instituto Via
Pública, 2012.
● MAPAS DOS ALDEAMENTOS E CAMINHOS ANTIGOS contidos em diversas obras,
dentre as quais, na Geografia, de Pierre Monbeig, Aroldo de Azevedo, Pasquale Petrone e
Juergen Richard Langenbuch.
● PLANTA DA RECONSTRUÇÃO HISTÓRICA e topográfica aproximada de São Paulo em
1850. Elaborado pelo Departamento Geográfico e Geológico de São Paulo. (Arquivo Público
do Estado de São Paulo – Memória Pública).
● PLANTA DA CIDADE DE SÃO PAULO mostrando todos os arrabaldes e terrenos
arruados (1924 – Escala 1:30.000). Elaborado pela Comissão Geográfica e Geológica.
(Arquivo Público do Estado de São Paulo – Memória Pública).
● PLANTA CENTROS DE SAÚDE com Densidade de Habitantes em Carapicuíba (PDDI Plano Diretor de Desenvolvimento Integrado da GSP – Carapicuíba). Elaborado pela
EMPLASA.
● PLANTA DA CIDADE DE SÃO PAULO e municípios circunvizinhos (1943 – Escala
1:50.000). Elaborado pela Repartição de Eletricidade da São Paulo Tramway Light & Power
Co. Ltd. (Arquivo Público do Estado de São Paulo – Memória Pública).
● PLANTAS DA CIDADE DE SÃO PAULO mostrando seu desenvolvimento (de 1810 a
1922 – Escala 1:20.000). Elaborado pela Comissão Geográfica e Geológica. (Arquivo Público
do Estado de São Paulo – Memória Pública).
● SEADE, Fundação Sistema Estadual de Análise de Dados. Mapas históricos. Disponível em
. Acesso: mar. de 2016.
LEVANTAMENTO DE DADOS ESTATÍSTICOS
● CEM. Centro de Estudos da Metrópole. Base de dados: demografia, divisão territorial,
bases cartográficas... São Paulo: CEM, 2014.
● CENSO DEMOGRÁFICO 2010. População residente em 2000 e população residente em
2010, por situação do domicílio, com indicação da população urbana residente na sede
municipal, área total e densidade demográfica, segundo as mesorregiões, as microrregiões e
os municípios. Rio de Janeiro: IBGE, 2011. Disponível em:
/resultados_do_universo.pdf>. Acesso em: fev. 2016.
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Carapicuíba: dados socioeconômicos, socioambientais, caracterização de domicílios, uso do
solo... 2011.
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● EVOLUÇÃO da divisão territorial do Brasil 1872-2010. Rio de Janeiro: IBGE, 2011. 261
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In: O Estado de São Paulo (jornal), 12 de maio de 2011. Disponível em:
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● SALTO, Prefeitura Municipal. Breve histórico da cidade de Salto. Disponível em:
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● SÃO PAULO, Empresa Paulista de Planejamento Metropolitano – Emplasa. Por dentro da
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● UNODC, United Nations Drug Control Programme and the Centre for International Crime
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study. Dispnível em: < https://www.unodc.org/unodc/en/press/releases/2014/April/some437000-people-murdered-worldwide-in-2012-according-to-new-unodc-study.html>. Consulta
em: fev. 2016.
FONTES AUDIOVISUAIS
● O RAPPA. Brixton, Bronx ou Baixada: álbum “o Rappa”. Gravadora Warner Music, 1994.
● O ÓDIO [La Haine]. Direção: Mathieu Kassovitz. França. Canal +. 1995. DVD (98min),
NTSC, color.
● RACIONAIS. Periferia é periferia: álbum “sobrevivendo no inferno”. Gravadora Cosa
Nostra, 1997.
● RACIONAIS. Fim de semana no parque: álbum “raio x do Brasil”. Gravadora Zimbabwe,
1993.
● SABOTAGE. Cocaína: álbum “rap é compromisso”. Gravadora: Cosa Nostra, 2001.
367
ANEXO 01
NOTIFICAÇÃO Nº. 316 (1939) SPHAN AO PREFEITO DE SÃO ROQUE/SP
SOBRE O TOMBAMENTO DA ALDEIA DE CARAPICUÍBA
368
ANEXO 02
NOTIFICAÇÃO Nº. 316 (1939) SPHAN AO PREFEITO DE COTIA/SP
SOBRE O TOMBAMENTO DA ALDEIA DE CARAPICUÍBA
369
ANEXO 03
NOTIFICAÇÃO Nº. 257 (1940) PREFEITURA MUNICIPAL DE COTIA AO SPHAN
CONFIRMA ATO DE TOMBAMENTO DA ALDEIA DE CARAPICUÍBA
370
ANEXO 04
NOTIFICAÇÃO DA ASSOCIAÇÃO DE MORADORES DO ENTORNO DA
ALDEIA (1998) AO CONDEPHAAT E IPHAN – DENÚNCIAS DE
DEPREDAÇÃO E PROBLEMAS NA ALDEIA DE CARAPICUÍBA
371
ANEXO 04
NOTIFICAÇÃO DA ASSOCIAÇÃO DE MORADORES DO ENTORNO DA
ALDEIA (1998) AO CONDEPHAAT E IPHAN – DENÚNCIAS DE
DEPREDAÇÃO E PROBLEMAS NA ALDEIA DE CARAPICUÍBA
372
ANEXO 05
OFÍCIO DO IPHAN (1998) À PREFEITURA DE CARAPICUÍBA ACERCA
DE EXECUÇÃO DE OBRAS E RESTAUROS NA ALDEIA
373
APÊNDICE 01
QUESTIONÁRIO QUALIFICADO DE OPINIÃO SEMI-ESTRUTURADO
APLICADO A POPULAÇÃO LOCAL – CARAPICUÍBA/SP
1. DATA: 2. LOCAL:
3. SEXO: 4. IDADE:
5. OCUPAÇÃO: 6. ESCOLARIDADE:
7. MORA EM CARAPICUÍBA HÁ QUANTO TEMPO? (0-10) (11-29) (30 OU MAIS ANOS) 8. ORIGEM DA FAMÍLIA (REGIÃO DO BRASIL)
9. GOSTA DA CIDADE? (SIM) (NÃO) 10. O QUE MAIS GOSTA?
11. TRABALHA EM CARAPICUÍBA? (SIM) (NÃO/ONDE?) 12. QUE TRANSPORTE MAIS USA PARA O TRABALHO?
13. VAI COM FREQUÊNCIA A SÃO PAULO/CIDADES DA RMSP? (SIM) (NÃO) 14. RAZÃO DO DESLOCAMENTO ÀS CIDADES DA RMSP?
15. UTILIZA OS PARQUES E ESPAÇOS PÚBLICOS DA CIDADE? (SIM) (NÃO) – CITAR O PRINCIPAL 16. PARTICIPA DE FESTAS POPULARES OU RELIGIOSAS DA CIDADE? (SIM) (NÃO) – CITAR A PRINCIPAL
17. CARAPICUÍBA É CIDADE PERIGOSA? (SIM) OU (NÃO) 18. CARAPICUÍBA É BOA PRA VIVER? (SIM) OU (NÃO)
19. CONHECE OU JÁ OUVIR FALAR DO IPHAN OU CONDEPHAAT? (SIM) OU (NÃO) 20. EXISTE TURISMO EM CARAPICUÍBA? (SIM) OU (NÃO) EM QUE LUGAR?
21. CONHECE OS BENS CULTURAIS PROTEGIDOS DA CIDADE? 22. SE SIM, PODERIA CITAR 1 OU 2?
23. JÁ FOI A PRAÇA DA ALDEIA? (SIM) OU (NÃO) 24. COM QUE FREQUÊNCIA VAI À ALDEIA NO MÊS? ( ) 1 OU MENOS ( ) 2 ( ) 3 ( ) 4 VEZES
25. NA SUA OPINIÃO QUAL É A FESTA MAIS FAMOSA/IMPORTANTE DA ALDEIA? 26. NA SUA OPINIÃO QUE GRUPOS E PESSOAS MAIS VISITAM A ALDEIA?
27. DE ZERO (0) A CINCO (5) CLASSIFIQUE OS LOCAIS QUE MAIS GOSTA EM CARAPICUÍBA:
( ) SEU BAIRRO ( ) AVENIDA INOCÊNCIO SERÁFICO ( ) PARQUE DOS PATURIS ( ) CENTRO ( ) PARQUE VILA PLANALTO ( ) PARQUE DA LAGOA ( ) ALDEIA DE CARAPICUÍBA ( ) ESTAÇÃO FERROVIÁRIA ( ) OUTROS? QUAL?
28. JÁ FOI EM MUSEU, CASA DA CULTURA OU ANTIQUÁRIO NA CIDADE DE CARAPICUÍBA? 29. HOJE CONTINUA INDO EM MUSEU, CASA DA CULTURA OU ESPAÇOS CULTURAIS DA CIDADE?
30. VAI EM IGREJAS? QUAL? FREQUENCIA. 31. JÁ PARTICIPOU DE MISSA NA IGREJA DA ALDEIA?
32. DE ZERO (0) A CINCO (5) CLASSIFIQUE NA CIDADE ONDE COSTUMA ENCONTRAR AMIGOS E PESSOAS CONHECIDAS:
( ) SEU BAIRRO ( ) AVENIDA INOCÊNCIO SERÁFICO ( ) PARQUE DOS PATURIS ( ) CENTRO ( ) PARQUE VILA PLANALTO ( ) PARQUE DA LAGOA ( ) ALDEIA DE CARAPICUÍBA ( ) ESTAÇÃO FERROVIÁRIA ( ) OUTROS? QUAL?
33. CONHECE A HISTÓRIA DE CARAPICUÍBA? (SIM) (NÃO) 34. O QUE ACHA MAIS IMPORTANTE NA HISTÓRIA DE CARAPICUÍBA?
35. A ALDEIA AJUDA DE ALGUMA MANEIRA A VIDA DAS PESSOAS DE CARAPICUÍBA? 36. TEM ALGUMA RELAÇÃO SENTIMENTAL COM O ESPAÇO DA ALDEIA? (SIM) (NÃO) – QUAL?
37. TEM ALGUMA RELAÇÃO SENTIMENTAL COM ESPAÇOS DE CARAPICUÍBA? (SIM) (NÃ0) – QUAL POR QUAIS ESPAÇOS? 38. O QUE MAIS FALTA EM CARAPICUÍBA PARA SE TRANSFORMAR NUMA CIDADE MELHOR?
39. CONSEQUE APONTAR MUDANÇAS QUE OCORRERAM NA CIDADE NOS ÚLTIMOS ANOS/DÉCADAS? 40. COMO ESSAS MUDANÇAS LHE AFETARAM? POSITIVA, NEGATIVA OU INDEFERENTEMENTE.
41. NA SUA OPINIÃO, O QUE CARAPICUÍBA TEM DE ESPECIAL EM RELAÇÃO A QUALQUER OUTRA CIDADE? 42. MUDARIA DE CARAPICUÍBA? (SIM) OU (NÃO) JUSTIFIQUE.
INTERESSA FAZER UMA ENTREVISTA MAIS COMPLETA FUTURAMENTE? CONTATO:____________________
374
APÊNDICE 02
ENTREVISTA QUALIFICADA SEMI-ESTRUTURADA
APLICADO A POPULAÇÃO DE CARAPICUÍBA/SP
1. DADOS BÁSICOS DO ENTREVISTADO (BLOCO INTRODUTÓRIO)
(A) QUAL É O SEU NOME COMPLETO? (B) QUAL É A SUA IDADE? (C) QUAL É A SUA PROFISSÃO? (D)
QUAL É A SUA ECOLARIDADE? (E) QUAL É A SUA NATURALIDADE? (F) SE NÃO É NATURAL DE
CARAPICUÍBA, QUANDO CHEGOU NO MUNICÍPIO OU NA REGIÃO METROPOLITANA DE SÃO PAULO?
(G) QUAIS RAZÕES LHE TORUXERAM ATÉ CARAPICUÍBA E REGIÃO? (H) SEMPRE MOROU NO MESMO
LOCAL EM CARAPICUÍBA? (i) DESCREVA OS LOCAIS, CASO TENHA MORADO EM MAIS DE UM. (J)
SEMPRE TRABALHOU NA MESMA PROFISSÃO?
2. PASSADO - BLOCO HISTÓRICO- DINÂMICA E RELAÇÃO CARAPICUÍBA E METRÓPOLE
(A) DESCREVA COMO ERA A CIDADE DE CARAPICUÍBA NO PASSADO. (B) O QUE ERA BOM NESSE
PASSADO DE CARAPICUÍBA? (C) O QUE ERA RUIM NESSE PASSADO DE CARAPICUÍBA? (D) O QUE
ERA MAIS ESPECIAL NESSE PASSADO DE CARAPICUÍBA? (E) FREQUENTAVA FESTAS, CLUBES,
IGREJAS, OU OUTRAS REUNIÕES SOCIAIS? (F) O QUE FAZIA NO PASSADO ENQUANTO LAZER? (G)
COMO SE LOCOMOVIA DENTRO DO MUNICÍPIO? (H) COM QUE FREQUENCIA IA A SÃO PAULO E COM
QUE TRANSPORTE? (I) COSTUMA IR A ALDEIA DE CARAPICUÍBA? (J) QUAIS RAZÕES O LEVAVAM
ATÉ LÁ? (K) NO PASSADO, A FAMÍLIA OU VIZINHOS TINHAM COSTUME DE PLANTAR VERDURAS OU
CRIAR ANIMAIS PARA O CONSUMO OU VENDA? (L) NA SUA OPINIÃO, QUAL A GRANDE MUDANÇA
OU TRANSFORMAÇÃO DE CARAPICUÍBA AO LONGO DO TEMPO? (M) PODE APONTAR MAIS
MUDANÇAS NO MUNICÍPIO DE CARAPICUÍBA DO PASSADO ATÉ HOJE?
3. PRESENTE - BLOCO DINÂMICA CONTEMPORÂNEA RELAÇÕES CARAPICUÍBA E METRÓPOLE
(A) CONHECE A HISTÓRIA DE CARAPICUÍBA? (B) NA SUA OPINIÃO O QUE É MAIS IMPORTANTE DELA
OU NELA? (C) FREQUENTA ATUALMENTE A ALDEIA DE CARAPICUÍBA? (D) QUAIS RAZÕES LEVAM A
IR OU NÃO ATÉ LÁ? (E) O QUE SABE DA HISTÓRIA DA ALDEIA DE CARAPICUÍBA? (F) NA SUA
OPINIÃO QUE GRUPOS E PESSOAS MAIS FREQUENTAM A ALDEIA DE CARAPICUÍBA? (G)
ATUALMENTE O QUE MAIS GOSTA DA CIDADE? (H) AO FALAR DE PATRIMÔNIO CULTURAL DE
CARAPICUÍBA QUAL A PRIMEIRA COISA QUE VEM A MENTE? (I) MUDARIA DE CARAPICUÍBA? (J)
COM QUE FREQUÊNCIA VAI A SÃO PAULO? (K) QUAIS RAZÕES LEVAM ATÉ LÁ E QUE FORMA DE
TRANSPORTE USA?
4. FUTURO – PROJETOS E SONHOS DE UMA CARAPICUÍBA MELHOR
(A) RELATE OS PROBLEMAS ATUAIS DE CARAPICUÍBA NA SUA OPINIÃO E COMO PODERIAM
SER RESOLVIDOS.
375
APÊNDICE 03
TERMO DE CONSENTIMENTO LIVRE E ESCLARECIDO - TCLE
Convidamos o(a) Senhor(a) a participar do projeto de pesquisa “Do Aldeamento Indígena ao Aldeamento
Metropolitano em São Paulo”, sob a responsabilidade do pesquisador RAFAEL FABRICIO DE OLIVEIRA. O projeto se
desenvolve no âmbito do Doutorado em Geografia, no qual analisamos como se desenvolveu o processo de metropolização
em Carapicuíba.
O objetivo desta pesquisa é compreender o processo de metropolização de Carapicuíba, enfocando o patrimônio
cultural e as memórias de sua população.
O(a) senhor(a) receberá todos os esclarecimentos necessários antes e no decorrer da pesquisa e lhe asseguramos que
seu nome não aparecerá sendo mantido o mais rigoroso sigilo pela omissão total de quaisquer informações que permitam
identificá-lo(a), a não ser que opte por seu nome aparecer no trabalho.
A sua participação se dará por meio de entrevista semiestruturada, entre 30/06/2016 e 14/08/2016 com um tempo
estimado de 1 hora para sua realização.
Os riscos decorrentes de sua participação na pesquisa são praticamente nulos, já que expressará sua experiência de
vida. Se você aceitar participar, estará contribuindo para o conhecimento dos lugares sobre a óptica de seus moradores, com projetos assentados em suas demandas.
O(a) Senhor(a) pode se recusar a responder (ou participar de qualquer procedimento) qualquer questão que lhe
traga constrangimento, podendo desistir de participar da pesquisa em qualquer momento sem nenhum prejuízo para o(a) senhor(a). Sua participação é voluntária, isto é, não há pagamento por sua colaboração.
Todas as despesas que você tiver relacionadas diretamente ao projeto de pesquisa (tais como, passagem para o local
da pesquisa, alimentação no local da pesquisa ou exames para realização da pesquisa) serão cobertas pelo pesquisador responsável.
Caso haja algum dano direto ou indireto decorrente de sua participação na pesquisa, você poderá ser indenizado, obedecendo-se as disposições legais vigentes no Brasil.
Os resultados da pesquisa serão divulgados na Universidade de Brasília podendo ser publicados posteriormente. Os
dados e materiais serão utilizados somente para esta pesquisa e ficarão sob a guarda do pesquisador por um período de cinco anos, após isso serão destruídos.
Se o(a) Senhor(a) tiver qualquer dúvida em relação à pesquisa, por favor telefone para: Rafael Fabricio de Oliveira
ou Everaldo Batista da Costa, na Universidade de Brasília no telefone (61) 32732612, disponível inclusive para ligação a
cobrar. Ou pelo e-mail: rafabricio@gmail.com.
Este projeto foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Faculdade de Ciências da Saúde (CEP/FS) da
Universidade de Brasília. O CEP é composto por profissionais de diferentes áreas cuja função é defender os interesses dos
participantes da pesquisa em sua integridade e dignidade e contribuir no desenvolvimento da pesquisa dentro de padrões
éticos. As dúvidas com relação à assinatura do TCLE ou os direitos do participante da pesquisa podem ser esclarecidos pelo
telefone (61) 3107-1947 ou do e-mail cepfs@unb.br ou cepfsunb@gmail.com, horário de atendimento de 10:00hs às 12:00hs
e de 13:30hs às 15:30hs, de segunda a sexta-feira. O CEP/FS se localiza na Faculdade de Ciências da Saúde, Campus
Universitário Darcy Ribeiro, Universidade de Brasília, Asa Norte.
Caso concorde em participar, pedimos que assine este documento que foi elaborado em duas vias, uma ficará com o
pesquisador responsável e a outra com o Senhor(a).
DESEJA TER SEU NOME PUBLICADO NO TRABALHO? ( ) SIM -- ( ) NÃO
______________________________________________
Nome / assinatura
RAFAEL FABRÍCIO DE OLIVEIRA
Pesquisador Responsável
Nome e assinatura
Carapicuíba, ___ de __________de _________.
376
APÊNDICE 04
PARECER CONSUBSTANCIADO (PARTE) – CONSELHO DE ÉTICA UNB
377
APÊNDICE 05
SÍNTESE DA URBANIZAÇÃO NOS PAÍSES
DESENVOLVIDOS E SUBDESENVOLVIDOS
Fonte: Lacoste (1966) e Santos (1980). Organizado pelo autor, 2016.
ASPECTOS GERAIS PAÍSES DESENVOLVIDOS PAÍSES SUBDESENVOLVIDOS
Organização do Transporte
Ferrovias e sistemas prévios ou simultâneos
a industrialização, tecnologia endógena, a
sua modernização acompanha e integra a
complexa rede de povoados e territórios, mas
não apenas a produção de mercadorias e
serviços (diversificação dos sistemas
principais: fluvial, ferroviário, rodoviário).
Desvincula-se das estratégias de desenvolvimento
regional, instala-se tardiamente, de forma
dependente de tecnologia externa e com foco no
escamento da produção de matérias-primas
(ferroviário e, posteriormente rodoviário).
Cidades e Região
O desenvolvimento das cidades acompanha o
da própria região. As desigualdades são
tênues, campo e cidade se apresentam
simbioticamente como unidades
interdependentes de produção, distribuição e
consumo.
Cidade e campo são isolados, dicotomizados,
perpetuando desequilíbrios e marcando o êxodo
rural e expansão das periferias urbanas. Amplas
desigualdades sociais passam a marcar os espaços
dos excluídos e das hegemonias que controlam a
produção.
Espaços Urbanos
Modernização arquitetônica, tecnologias
trazidas pelo vidro e aço dão novas formas às
cidades e áreas de controle, da produção e
influência política à nível mundial. Funções
de mobilidade e informação são conceitoschave na nova organização administrativa
das cidades, de suas empresas e firmas.
Destaca-se o planejamento estratégico, como
forte capital cultural e social.
Novas cidades são criadas: do agronegócio, da
mineração e de grandes projetos privados dão à
tona de um espaço determinado pela produção de
commodities nos países subdesenvolvidos, na
efemeridade do movimento vertical e dos
interesses produtivos das externalidades globais.
Planejamento envereda aos interesses corporativos
e monopolistas de parte dos agentes internos e
externo
Processo de Urbanização
Longo, ritmo próprio, movimento dinâmico e
linear, desenvolvido ao longo dos séculos,
planejado e gerido pelo Estado. Cidades
integradas, apesar da centralidade dos
núcleos há certo equilíbrio de funções e de
aglomeração, com diversas cidades médias
que articulam e dão fluidez entre pequenas e
grandes aglomerações. Crescimento
equalizado na rede de cidades e no campo.
Crescimento cumulativo das cidades –
macrocefalia. Concentração acentuada e veloz nos
núcleos urbano-industriais principais. Vertiginoso
adensamento demográfico, com poucas cidades
médias e muitas cidades, controladas e
dependentes das metrópoles (capitais, ou áreas de
produção).
Especialização Urbana
Cidades especializadas, responsáveis por
parte da produção, serviços e atividades
econômicas. Espaços fluidos permitem
intensa comunicação e interelações
complexas entre os núcleos urbanos. A base
de infraestrutura e transporte, qualificam o
espaço com amplos investimentos e trazem
vantagens diversas para as cidades,
engendrando seu desenvolvimento integrado
a outras áreas especializadas com forte
embasamento em pesquisa e tecnologias.
Acúmulo de atividades em um único polo, ou em
poucos centros, hipertrofiando a infraestrutura,
heterogeneizando os territórios e causando
desequilíbrio regional. A concentração das
atividades produtivas é dada em polos industriais e
urbanos específicos (espaços polarizados). As
cidades são responsáveis, sobretudo, pela
regulação administrativa e comercial das
commodities, das relações internacionais e a
financeirização entre os fluxos econômicos.
378
APÊNDICE 06 REGIÕES METROPOLITANAS NO BRASIL - ATUALIZADO (2015)

RM UF
REGIÕES
METROPOLITANAS CRIAÇÃO

RM UF
REGIÕES
METROPOLITANAS CRIAÇÃO
1 AL RM Agreste 30.11.2009 36 PE RM Recife 08.06.1973 2 AL RM da Zona da Mata 15.12.2011 37 PR RM Apucarana 12.01.2015 3 AL RM de Caetés 26.07.2012 38 PR RM Campo Mourão 12.01.2015
4 AL RM de Palmeira dos Índios 05.01.2012 39 PR RM Cascavel 12.01.2015
5 AL RM do Médio Sertão 08.08.2013 40 PR RM Curitiba 08.06.1973 6 AL RM do Sertão 26.07.2012 41 PR RM de Umuarama 22.08.2012 7 AL RM do Vale do Paraíba 15.12.2011 42 PR RM Londrina 17.06.1998 8 AL RM Maceió 19.11.1998 43 PR RM Maringá 17.07.1998 9 AM RM Manaus 30.05.2007 44 PR RM Toledo 12.01.2015 10 AP RM Macapá 26.02.2003 45 RJ RM Rio de Janeiro 01.07.1974 11 BA RM Feira de Santana 06.07.2011 46 RN RM Natal 16.01.1997 12 BA RM Salvador 08.06.1973 47 RR RM Central 21.12.2007 13 CE RM Cariri 26.06.2009 48 RR RM da Capital 21.12.2007 14 CE RM Fortaleza 08.06.1973 49 RR RM do Sul do Estado 21.12.2007 15 ES RM Grande Vitória 18.01.2005 50 RS RM da Serra Gaúcha 30.08.2013 16 GO RM Goiânia 30.12.1999 51 RS RM Porto Alegre 08.06.1973 17 MA RM Grande São Luís 25.05.2015 52 SC RM Carbonífera 09.01.2002
18 MA RM Sudoeste Maranhense 17.11.2005 53 SC RM Chapecó 20.12.2010
19 MG RM Belo Horizonte 08.06.1973 54 SC
RM do Alto Vale do
Itajaí 20.12.2010
20 MG RM Vale do Aço 04.01.2012 55 SC RM do Contestado 24.05.2012 21 MT RM Vale do Rio Cuiabá 27.05.2009 56 SC RM do Extremo Oeste 24.05.2012 22 PA RM Belém 08.06.1973 57 SC RM Florianópolis 09.09.2014 23 PA RM Santarém 17.01.2012 58 SC RM Foz do Rio Itajaí 09.01.2002 24 PB RM Campina Grande 11.12.2009 59 SC RM Lages 26.01.2010
25 PB RM de Araruna 21.01.2013 60 SC
RM Norte/Nordeste
Catarinense 06.01.1998
26 PB RM de Barra de Santa Rosa 13.07.2012 61 SC RM Tubarão 09.01.2002
27 PB RM de Cajazeiras 08.06.2012 62 SC RM Vale do Itajaí 06.01.1998 28 PB RM de Esperança 08.06.2012 63 SE RM Aracaju 29.12.1995 29 PB RM de Itabaiana 21.01.2013 64 SP RM Baixada Santista 30.07.1996 30 PB RM de Sousa 21.01.2013 65 SP RM Campinas 19.06.2000
31 PB RM do V. do Mamanguape 21.01.2013 66 SP RM de Sorocaba 20.06.2014
32 PB RM do Vale do Piancó 06.07.2012 67 SP
RM do V. do Paraíba e
Litoral Norte 09.01.2012
33 PB RM Guarabira 12.07.2011 68 SP RM São Paulo 08.06.1973 34 PB RM João Pessoa 30.12.2003 69 TO RM Gurupi 05.04.2014 35 PB RM Patos 27.12.2011 70 TO RM Palmas 08.01.2014 Crescimento do número de Regiões Metropolitanas no Brasil. Destaque para os elevados números de regiões metropolitanas
criadas nos estados do PR (8), AL (8), PB (9) e SC (10).
Fonte: IBGE, 2015 (Composição de RMs, RIDEs e Aglomerações Urbanas). Organização do autor, 2016.

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